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quarta-feira, 26 de outubro de 2022

O BRASIL É DE TODOS OS BRASILEIROS E BRASILEIRAS

 

(Imagem: "Bandeira Rachada" - Site Sindsep-PE)


O confisco de Deus e o sequestro da República

Eugênio Magno

Até as verdades bíblicas estão sendo truncadas e destroçadas por cristãos que preferem mitos à verdade de fatos protagonizados e narrados, diariamente, com soberba e sarcasmo pelo disseminador do ódio e sua seita de fanáticos.

O otimismo e a força que move o povo brasileiro sofrido deu origem à máxima “Deus é brasileiro”. Em tempos bolsonaristas, até isso foi retirado a quem só restava a fé e a esperança em dias melhores. Deus se tornou propriedade privada de uma turba de políticos aloprados que se dizem defensores da família e dos bons costumes, mas que carregam a bíblia em uma mão, uma arma de fogo na outra, a perversão nas entranhas, a maledicência na língua e a maldade no coração. O verdadeiro cristão, em seus louvores, reza com o salmista: O Senhor é bom para todos; a sua compaixão alcança todas as suas criaturas.

Acontece que tomaram de assalto, além de altares e púlpitos, também a república e os símbolos nacionais. A propósito do sequestro da Bandeira Nacional e da camisa da Seleção Brasileira, pelo atual governo, me veio a lembrança de quando criança, em Montes Claros, Sertão de Minas Gerais, costumávamos brincar de Rouba Bandeira, na rua onde morava.

A brincadeira era um jogo entre dois times. Cada um tinha a sua bandeira. O objetivo era entrar no território do outro time, roubar a bandeira e trazer para o seu território, sem ser pego pelos jogadores adversários. O jogo tinha muitas regras e nós as respeitávamos. As “bandeiras” eram pedaços de pano ou nossas próprias camisetas. No final, independentemente de quem tivesse vencido a competição, as camisetas eram devolvidas e até os pedaços de pano voltavam para as casas de onde saíram. Ora ganhávamos, ora perdíamos. De vez em quando surgia uma discussão, uma briga, mas não passava disso. Nos entendíamos. Não havia juiz e Deus não era propriedade de time algum, não jogava, nem torcia para nenhum lado.

Esses poucos dias que antecedem o segundo turno das eleições é tão decisivo para o futuro que não consigo deixar de trazer à memória o passado de uma geração que cresceu à sombra dos coturnos militares, viveu as agruras de um país subdesenvolvido que acreditou no progresso como milagre e construiu o futuro às custas do endividamento e do arbítrio. Compreender como nossa história vinha sendo escrita foi um grande desafio para a juventude desse período obscuro. Depois dos anos de chumbo, respiramos o ar da Nova República e ganhamos uma Constituição Cidadã em 1988. E o que era sonho logo se tornou pesadelo: superinflação no governo Sarney, confisco da poupança e escândalos no desgoverno Collor. Nos tornamos adultos imaturos e quase não percebemos que a inocente competição infanto-juvenil, limitada às brincadeiras e ao esporte, havia se transformado em descabida ambição, em meio a uma grave perpetuação dos privilégios de classe. Foi difícil para cada um de nós tomar seu rumo e achar sua nova turma.

Para os que optaram pela subserviência sobraram algumas migalhas em troca da mais indigna condição serviçal: a de capitães do mato.

Em meio a farra e os desmantelos do alagoano, que se autoproclamou “Caçador de Marajás”, os meninos e meninas, de origem proletária, nascidos no final dos anos 1950 e início da década de 1960 já não brincavam mais, trabalhavam. A abertura política e a nova carta constitucional iluminou o horizonte de alguns para a consciência de classe. Outros, muitos outros, se perderam no caminho, apesar de tantas canções, peças, livros e filmes.

Nos idos de 1990 muitas famílias novas se formaram e a luta para sobreviver mantendo coerência e dignidade se mostrou renhida. Afinal, desde os tempos coloniais, o Brasil só foi Pasárgada para uma minoria de endinheirados – grileiros do Estado.

Vivemos e testemunhamos Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, a duras penas e, apesar das inúmeras concessões ao capital, sedimentarem as bases republicanas de um Estado Democrático de Direito. E contribuímos para que o país, a contrapelo dos vícios nas engrenagens dos poderes político e econômico vivesse, pelo menos, uma dúzia de anos de progresso econômico e social. No período de 2003 a meados de 2016 foi possível, entre outras realizações, acabar com a fome e gozar de grande prestígio internacional, com Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff.

Mas toda moeda tem seu lado reverso e as elites não se fizeram de rogadas. Mesmo com uma grande acumulação de riquezas, durante os governos petistas, os poderosos se incomodaram com as cotas nas universidades, as políticas de direitos humanos, as ações afirmativas e a mobilidade social promovidas por Lula e Dilma e cruzaram a linha da moral, da ética e da legalidade. Trataram de dar um golpe em Dilma Rousseff, maquiado pelo parlamento como impeachment. Arregimentaram um juiz arrivista, setores do judiciário e do Ministério Público se locupletaram e os barões da mídia orquestraram a encenação. Púlpitos neopentecostais – católicos e evangélicos – “abençoaram” a narrativa posta, e a deep web cuidou de infestar o país e dobrar a opinião pública com toda a espécie de sordidez. Lula, o maior líder popular brasileiro foi tirado da disputa eleitoral em 2018 e preso. Deu no que deu... Jair, (o falso Messias) Bolsonaro, foi eleito. Hoje, acuado, diante dos vários processos que cairão sobre ele se perder as eleições e a imunidade, joga o jogo mais vil, jamais visto em nossa história republicana, para permanecer no poder e garantir privilégios e o Sigilo de 100 Anos.

Não consigo dizer se é triste, decepcionante ou vergonhoso saber da existência de tanta gente – pobres, inclusive – e muitos outros, de várias classes sociais que apoiam a barbárie e àquele que se arvorou a sequestrar os bens mais preciosos do nosso país. As Forças Armadas, porque brasileiras e patrimônio da Nação, por exemplo, jamais poderão estar a serviço de governos, contra mais da metade do povo brasileiro, como quer o presidente-candidato. A nossa padroeira, Nossa Senhora Aparecida, seu templo e seus devotos ressentem, profundamente, a profanação sofrida pelos arruaceiros bolsonaristas e Jesus não pode continuar com uma arma apontada para a sua cabeça como refém de fariseus que ameaçam crentes esclarecidos e já decididos pelos valores do Evangelho.

Diante de tudo o que vivemos nos últimos quatro anos é inacreditável que o eleitor lúcido esteja com dúvida em quem votar. Repare que nem falamos de assassinatos de opositores, tentativas de homicídios, ameaças várias, bandidos aliados, recepção de policiais à bala, imobiliária e fábrica de chocolate operando com dinheiro vivo, rachadinhas, centrão, orçamento secreto, obsessão sexual de pastoras e pastores aliados, compra de votos, insinuações pedófilas, intolerância, misoginia, homofobia, racismo, 686 mil mortos na pandemia, indústria de fake news, o desastre econômico, ataque ao salário mínimo e aos aposentados... A lista é infindável.

Chega. A hora é de partir pra cima. Sem essa de cair no conto de líderes espirituais, pastores e vigários picaretas com suas chantagens diabólicas. Se somos um povo verdadeiramente religioso, dia 30 de outubro, vamos todos votar e votar pelo bem, pela paz. Só assim Deus mostrará a sua verdadeira face para todos os brasileiros e brasileiras.

Pela qualidade da nossa geração, vamos demitir o ódio, recuperar a paz, o respeito, a cidadania e a civilidade. Vamos pegar de volta a Amazônia, a Farmácia Popular e muito mais: a dignidade, o respeito, a democracia, nossas cores e a nossa bandeira.


terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

A POLÍTICA, SEGUNDO FRANCISCO

 

(Capa da edição espanhola da encíclica "Fratelli Tutti")

Todos somos irmãos

Sinceramente, não sei se devemos ter pena ou desprezo por pessoas que aderem a princípios autoritários e fazem proselitismos até mesmo do nazismo e do fascismo, refutando tudo que diz respeito à democracia e aos direitos humanos, como se a única alternativa ao nazi-fascismo fosse um regime comunista totalitário, como o da União Soviética, de Stálin. 

Quanto delírio, hein!?

Tendo em vista colocar luzes sobre esse ensandecido ataque de salteadores sobre a república brasileira e a democracia no mundo, usando o cristianismo, evoco mais uma vez a sapiência do sumo pontífice, Francisco, destacando trechos de sua encíclica Fratelli Tutti, no episódio # 31 - TODOS SOMOS IRMÃOS, do podcast Política com Fé.

Acesse o podcast clicando aqui.


terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

PEQUENOS AVANÇOS E GRANDES RECUOS

 

(Imagem da Wikipédia)


Cidadania a porrete, é o título de um artigo do historiador José Murilo de Carvalho sobre o qual faço uma releitura no podcast Política com Fé.

O título do texto carrega o significado da agudez crítica do autor sobre essa nossa herança maldita que faz perpetuar práticas condenáveis. Se cidadania é a qualidade ou estado de cidadão, e cidadão, segundo o Aurélio, é o indivíduo no pleno gozo de seus diretos civis e políticos de um Estado, ou no desempenho de seus deveres para com este, e porrete é um cacete com uma das extremidades arredondadas, com a qual se bate, ou se apanha, juntar as duas palavras, é denunciar uma atitude de extrema perversidade. Cidadania a porrete nos convida a refletir sobre nossa trajetória histórica, marcada pelo arbítrio que martirizou tantos líderes populares nesses 522 anos de uma evolução sangrenta, que insiste em continuar vitimando tantos “brasileirinhos”.

Ouça o episódio clicando aqui.

sexta-feira, 20 de agosto de 2021

TOLERÂNCIA TEM LIMITES (?)

Caminhando rumo à tolerância

Companheiras constantes nesse caminho em direção à tolerância são as nossas inteligências intelectual, emocional e físico-motora, além do conhecimento e da prática da democracia, de quem a tolerância é irmã siamesa.

É imprescindível compreendermos a necessidade de uma integração desse nosso ser tão fragmentado, para que não fiquemos apenas na intenção. Empreender essa viagem, na compreensão de Bernhard Häring e Valentino Salvoldi, é muito mais do que um trabalhoso processo histórico, mas, fundamentalmente, um desafio cotidiano em que os seres humanos estão totalmente envolvidos nas diferentes esferas do ser e do viver.

O podcast Política com Fé está dedicando uma série de episódios à leitura comentada do  livro “TOLERÂNCIA: Por uma ética de solidariedade e de paz”, de Häring e Salvoldi. O episódio # 19 - Caminhando rumo à tolerância, traz apontamentos sobre o segundo capítulo, intitulado As raízes da intolerância, cujos tópicos são: Premissas a uma ‘antropologia da intolerância’, Elementos biológicos úteis à compreensão da gênese do comportamento intolerante e Medo, simplificação, sentido de pertença.

Ouça o podcast clicando aqui.

 

terça-feira, 20 de julho de 2021

CRISE CIVILIZATÓRIA



Mbembe, necropolítica e crise da democracia


É sempre interessante quando as escritas acadêmicas passam a atingir o grande público. Nem toda pesquisa, é claro precisa ter esse objetivo, mas é excelente quando grandes obras cumprem este papel. Com os desastres anunciados do governo Bolsonaro, por exemplo, a obra do camaronês Achille Mbembe tem sido cada vez mais citada nas redes sociais, principalmente seu conceito de “necropolítica”. Como todo conceito amplamente difundido (ou, talvez, como tudo aquilo que cai nas redes), porém, há sempre o risco de esvaziamento de conteúdo.

Afinal, o que seria, então, a necropolítica? Uma primeira citação do próprio Mbembe dá o pontapé inicial para seu entendimento:

“A ideia segundo a qual a vida em democracia é, no seu fundamento, pacífica, policiada e desprovida de violência (nomeadamente sob a forma da guerra e da devastação) não nos convence. (…) a brutalidade das democracias nunca foi senão abafada. Desde as suas origens, as democracias modernas mostraram tolerância perante uma certa violência política, inclusive ilegal. Integraram na sua cultura formas de brutalidade levadas a cabo por uma série de instituições privadas agindo como mais-valia do Estado, sejam elas corpos francos, milícias ou outras formações militares corporativistas”.

A citação acima é recheada de sentidos. Percebe-se, por exemplo, que, para Mbembe, as democracias modernas não devem ser enxergadas como sistemas teoricamente perfeitos que, vez ou outra, são atingidos por violências e falhas externas. Para o autor, seja ela estatal, seja ela privada (ainda que igualmente ligada aos mesmos interesses do Estado), a violência é parte integrante da própria democracia. E isto não é fruto de alguma degeneração ou crise dos Estados democráticos, mas característica original e fundante dos mesmos.

Para continuar lendo a matéria de Almir Felitte para Outras Palavras, clique aqui.

terça-feira, 6 de outubro de 2020

ECONOMISTAS COMPLICAM A ECONOMIA PARA QUE NÓS NÃO A ENTENDAMOS

(Imagem do Google)

Economia a serviço da vida

por Eugênio Magno


Na "Economia de Francisco" - o santo (São Francisco) - proposta por Francisco (Jorge Mario Bergoglio), o papa, é urgente que haja uma reordenação de valores. É imprescindível que a economia esteja a serviço da vida e não a vida a serviço da economia, como vem acontecendo no mundo.

Desenvolvimento sem democracia econômica é um contrassenso do capitalismo ultraliberal rentista e excessivamente financeirizado, para o qual os maiores gênios da economia mundial vêm se empenhando no sentido de encontrar uma alternativa que o substitua. E nesse momento caótico em que vivemos é o papa Francisco, reconhecido por várias autoridades como o maior líder mundial dos tempos atuais, quem articula os principais movimentos globais sugerindo iniciativas de estudos, debates e ações com uma Igreja em saída - se encontrando com os leigos, intelectuais e com a sociedade -, na busca de soluções para garantir a vida no planeta.

Os números dão muito o que pensar. Para ficar com um único exemplo, basta saber que 3 milhões de crianças morreram de fome no ano passado. Isso, enquanto produzimos o equivalente a 1,5 kg de alimento por habitante da terra e que a riqueza total produzida no mundo, se dividida de forma igualitária para toda a população mundial, daria uma renda, em moeda brasileira, de algo em torno de R$18.000,00, mensais, para cada família de quatro pessoas. Isso para não falar da devastação do planeta, da falta de preservação de nossos biomas, e do total descuido com a água, a terra , o ar e para com a vida silvestre e os povos das florestas, nativos, quilombolas e ribeirinhos. 

(Logo da 6ª Semana Social Brasileira)

Foi dada a largada, em nosso país, para a 6ª Semana Social Brasileira - Mutirão pela vida: Por Terra, Teto e Trabalho, inspirada pelos diálogos do papa Francisco com os movimentos populares. Tendo como eixos, democracia, soberania e economia, as ações da Semana Social Brasileira (SSB), visam debater, compreender e formular soluções para as questões sociais mais urgentes que impactam especialmente os setores excluídos e marginalizados da sociedade. 

Sábado passado (dia 4.10.2020), aconteceram vários eventos de lançamento da Semana Social Brasileira, articulando forças populares e intelectuais para o debate de questões sociopolíticas de interesse público com o propósito de entender a conjuntura atual e traçar perspectivas para o presente e o futuro. Como era difícil acompanhar tudo, elegi a live "Lançamento da 6ª Semana Social Brasileira", promovida pelo Movimento Igreja em Saída, do Regional Nordeste 1 (Ceará) e da Escola Regional de Fé e Política Dom Helder Câmara. O evento contou com a participação do bispo da diocese de Itapipoca, Dom Antônio Roberto Cavuto, do padre e teólogo Francisco Aquino Júnior, do economista e escritor Ladislau Dowbor e de Reginha, da Cáritas e da Articlação das Pastorais Sociais do Ceará, mediadora da live que teve ainda a participação de membros da Escola Regional de Fé e Política, com cantos e declamações e contaria também com a presença do filósofo Manfredo Oliveira que, em razão de problemas técnicos, não pode participar.

(Foto: Janaína Abreu)

O mestre, Ladislau Dowbor, apesar do tempo restrito, fez uma brilhante apresentação. Ancorado em pesquisas e análises de vários estudiosos e usando uma linguagem de fácil compreensão ele mostrou como funciona a economia e incentivou a todos, para que, independentemente de conhecimentos prévios de economia, buscassem entendê-la para multiplicar sua compreensão. Segundo Dowbor, "a economia não tem nada de complicado, os economistas é que a complicam para que o povo não possa compreendê-la". E para auxiliar a todos nessa compreensão ele disponibiliza todos os seus livros, artigos e estudos, gratuitamente, em seu site na internet (www.dowbor.org).

O padre, Francisco de Aquino Júnior, chamou a atenção para o fato de que a Igreja apesar de não possuir meios técnicos e instrumentos de análise econômica é rica em parâmetros éticos e espirituais para iluminar e mostrar caminhos em que a economia pode ser colocada a serviço da humanidade. Seus argumentos, se ancoram na Doutrina Social da Igreja e nos vários documentos papais que, desde fins do século XIX, com Leão XIII e a Rerum Novarum, até Francisco, na atualidade, com as encíclicas Laudatto Si e a novíssima Fratelli Tutti, mostra sua preocupação com a vida social.

Embora chamada de "semana", a 6ª Semana Social Brasileira Mutirão pela vida: Por Terra, Teto e Trabalho, tem como vigência o período 2020-2022. Ela é convocada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), e promovida conjuntamente com as pastorais sociais e movimentos populares. É realizada em mutirão, na pluralidade cultural e étnica do Brasil, assim como no ecumenismo e diálogo inter-religioso. Até o seu encerramento, muitos eventos, presenciais e online acontecerão. Para acompanhar tudo sobre a Semana Social Brasileira, acesse o site ssb.org.br.

(Print de tela da live)

A live "Lançamento da 6ª Semana Social Brasileira", promovido pelo Movimento Igreja em Saída, do Regional Nordeste 1 (Ceará) e da Escola Regional de Fé e Política Dom Helder Câmara ainda está disponível no YouTube e pode ser acessada em: https://www.youtube.com/watch?v=btQyQvIf9Ek.



domingo, 21 de outubro de 2018

OLIMPO TUPINIQUIM

Por que o Brasil sempre precisa ser governado por algum deus?

O novo deus militar, diante do qual a maioria dos brasileiros parece disposta a se ajoelhar, se parece mais com o Deus do Antigo Testamento, o do “olho por olho e dente por dente”


Abaixo, mais alguns trechos do artigo de Juan Arias para o El País:

Ao que parece, os brasileiros religiosos hoje preferem o Deus que castiga e mata. Preferem o que encarna o fariseu que, em pé, na primeira fila, no templo, se gabava: “Te dou graças, Senhor, porque eu não sou como os outros homens, ladrões, injustos, adúlteros, nem como esse publicano”. Este, inclinando-se ao solo, “batia no peito dizendo: Deus, tenha piedade de mim, que sou um pecador”. O evangelho diz que o publicano saiu purificado e o fariseu, o justo, reprovado por Deus.
No verdadeiro cristianismo, o que mudou a vingança pelo perdão, deveriam caber justos e pecadores, crentes e ateus, ricos e pobres, sábios e ignorantes, reis e vassalos. Nele há espaço para todos, ainda que com preferência aos mais despossuídos e esquecidos pelo poder. Se o Brasil apostar dessa vez pelo deus da raiva, o da justiça sem misericórdia, temo muito que possamos voltar aos tempos sombrios em que a violência era bendita pela Igreja.
Para ler o texto na íntegra, clique aqui.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

O DESTINO DO BRASIL NA MÃO DOS ELEITORES

A democracia tutelada pela farda
Luciano Mendes de Faria Filho
Professor da UFMG e Coordenador do Projeto
Pensar a Educação, Pensar o Brasil


Nestes últimos dias General da Reserva, Paulo Chagas, além de colocar em dúvida uma vitória de Hadad sem que haja fraudes, sem que o TSE, mais uma vez, se pronuncie. E bem ao estilo da "família bolsonoro" o General incita a "cólera das multidões" em caso de uma vitória do candidato petista. Disse ele lá em seu Twitter:
"Seria muito triste ver a verdade ser superada pela mentira e a Nação ser comandada de dentro da cadeia por Lula da Silva.
O desastre se completaria quando a Cólera das Multidões tomasse as ruas diante da ousadia de fazê-lo subir a rampa do Palácio do Planalto!"
A propósito disse, fiquei pensando lá nos idos de 1983/84 quando do movimento das Diretas Já! Ali, dupla derrota: tivemos eleições indiretas e a eleição do ex-presidente da Arena, partido da ditadura, José Sarney, como vice de Tancredo Neves pelo Colégio Eleitoral. Resultado: o nosso primeiro presidente civil depois da ditadura nada mais era do que a principal liderança justamente da ditadura!
O movimento das Diretas Já desaguou no movimento pela Constituinte, que, a despeito de uma grande movimentação pelo país todo, resultou numa Constituição que manteve a tutela militar à democracia.
Os nossos acordos pelo alto, a ação sempre muito esperta e com uma boa dose de covardia de nossas elites políticas, vem desde pelo menos a Independência. Não nos esqueçamos de que o "artífice de nossa Independência" foi ninguém menos do que o herdeiro do trono português! E a República resultou de um golpe de Estado dado pelos militares!
Com uma tradição dessas, em que os "espertos de sempre" se unem aos militares para evitar qualquer tipo de avanço democrático ou de combate às desigualdades, não é de se estranhar o que temos visto: a subserviências das instituições republicanas às espertezas dos golpistas e a tutela militar à frágil democracia brasileira. É chegada a hora, de romper com este "destino das coisas”. Uma verdadeira democracia não pode ser tutelada por agentes fardados! Que o nosso voto no Hadad possa ser a explicitação de um movimento nessa direção e para evitar que a história se repita como tragédia.

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

BOLSONARO X HADDAD


Não existem dois extremos

Eugênio Magno


É forçar muito a barra vender para a população brasileira a ideia de que nestas eleições existe uma polarização entre a extrema direita e a extrema esquerda. Nada mais falacioso.
Na verdade, o que temos é a disputa entre um projeto que pretende recuperar conquistas sociais e recolocar a classe trabalhadora entre as prioridades de governo contra uma proposta de ampliação dos cortes das políticas sociais, em nome de uma ordem subjetiva e do capital. De um lado, a extrema direita, representada militarmente, inclusive, por um capitão que tem como vice um general. Do outro lado, um grupo político que já esteve no poder e que, ao longo de 14 anos de governo, jamais adotou qualquer agenda extremista.
 O PT, embora tachado pelas elites como partido radical, se comporta de forma bastante moderada, muito mais próximo da chamada centro esquerda. A escolha, portanto, não é entre dois extremos, mas entre um grupo cuja orientação é claramente radical e um campo democrático – com acento no social – que defende a soberania popular, o funcionamento republicano das instituições e o estado democrático de direito.
É importante que o eleitorado se dê conta do medo que está sendo imposto à população por uma fatia mínima da sociedade que controla a mídia e o capital e é formada pelos setores mais conservadores e atrasados do país.
A sensatez, o equilíbrio e o reposicionamento do Brasil entre os países mais importantes do mundo, assegurando dignidade aos mais pobres e garantias democráticas, não depende de nenhuma terceira via. Até porque essa maluquice de que “o Brasil poderá se tornar uma Venezuela ou Cuba” é uma estupidez. A grande imprensa tem que parar com essa orquestração desafinada e não esconder a real: o maior risco que corremos é de nos tornar uma Argentina, de Macri, se o país cair em mãos erradas e as reformas neoliberais se aprofundarem por aqui.
Recolocar o país nos trilhos do desenvolvimento e avançar nas reformas que garantam à população o direito a ter direitos, regule as relações comerciais, incentive a geração de trabalho e renda e salvaguarde a dignidade da vida humana é dever de Estado e obrigação dos governantes.
Haddad não representa nenhum risco à institucionalidade do país e, dentre os presidenciáveis, é o único com chances reais de fazer parar a força reacionária que semeia o ódio, tem promovido grande estrago nas relações humanas e sociais e pode levar o Brasil do caos às trevas.
Não acredito que pessoas de bem, com um mínimo de informação, cometerão o voto envergonhado, de cidadão acuado, refém do medo. Elas sabem que a pátria pode sangrar e que suas consciências irão gritar.
Diante do quadro eleitoral que se formou, quero crer que as lideranças mais sensatas do país terão lucidez suficiente para contribuir com Fernando Haddad para que ele possa ser bem-sucedido na repactuação da democracia e em seu projeto de retomada do desenvolvimento e crescimento econômico com justiça social.
Apesar do terrorismo de mercado e da ação nefasta das aves agourentas da mídia hegemônica e do reacionarismo da classe política conservadora, o bom senso prevalecerá.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

DEMOCRACIA NO BRASIL ROLANDO LADEIRA À BAIXO


'Se o Judiciário seguir como ator político, 

vejo um futuro tenebroso'





A confirmação da condenação de Lula pelo TRF da 4ª Região representa a censura a um projeto democrático, por um Judiciário cada vez mais empenhado em fazer política.
A análise é do ex-ministro da Justiça Eugênio Aragão, integrante do Ministério Público Federal por três décadas. Ao rifar um candidato com mais de 40% das intenções de voto, indispensável para a articulação de uma saída negociada para o País, o risco de uma convulsão social torna-se cada vez maior.
Lula não é um candidato ideológico, é pragmático e programático. Seu objetivo é reduzir a pobreza no País, dar chances para a maioria dos brasileiros progredir. Para fazer isso, o ex-presidente sabe que precisa de alianças”, explica Aragão, defensor de um pacto nacional, não restrito ao Parlamento.
Mas ainda há espaço para uma política conciliatória? “Esse é o maior desafio. Se Lula não souber fazer isso, quem será capaz?”
Para ler na íntegra a entrevista concedida pelo ex-ministro, Eugênio Aragão, a Rodrigo Martins para Carta Capital, clique aqui.

terça-feira, 11 de abril de 2017

A VERDADE OU UMA VERDADE (???)


Quando Lula será preso? Por Nelson Jobim, ex-ministro do STF

(Foto: Eles/Caption)

Publicado na Zero Hora.

Nelson Jobim
jurista, ex-ministro do Supremo Tribunal Federal.


É pergunta recorrente.
Ouvi em palestras, festas, bares, encontros casuais, etc.
Alguns complementam: “Foste Ministro de Lula e da Dilma, tens que saber…”
Não perguntam qual conduta de Lula seria delituosa.
Nem mesmo perguntam sobre ser, ou não, culpado.
Eles têm como certa a ocorrência do delito, sem descreve-lo.
Pergunto do que se está falando.
A resposta é genérica: é a Lava-Jato.
Pergunto sobre quais são os fatos e os processos judiciais.
Quais as acusações?
Nada sobre fatos, acusações e processos.
Alguns referem-se, por alto, ao Sítio de … (não sabem onde se localiza), ao apartamento do Guarujá, às afirmações do ex-Senador Delcidio Amaral, à Petrobrás, ao PT…
Sobre o ex-Senador dizem que ele teria dito algo que não lembram.
E completam: “Está na cara que tem que ser preso”.
Dos fatos não descritos e, mesmo, desconhecidos, e da culpa afirmada em abstrato se segue a indignação por Lula não ter sido, ainda, preso!
[Lembro da ironia de J.L. Borges: “Mas não vamos falar sobre fatos. Ninguém se importa com os fatos. Eles são meros pontos de partida para a invenção e o raciocínio”.]
Tal indignação, para alguns, verte-se em espanto e raiva, ao mencionarem pesquisas eleitorais, para 2018, em que Lula aparece em primeiro lugar.
Dizem: “Essa gente é maluca; esse país não dá…”
Qual a origem dessa dispensa de descrição e apuração de fatos?
Por que a desnecessidade de uma sentença?
Por que a presunção absoluta e certa da culpa?
Por que tal certeza?
Especulo.
Uns, de um facciosismo raivoso, intransigente, esterilizador da razão, dizem que a Justiça deve ser feita com antecipação.
Sem saber, relacionam e, mesmo, identificam Justiça com Vingança.
Querem penas radicais e se deliciam com as midiáticas conduções coercitivas.
Orgulham-se com o histerismo de suas paixões ou ódios.
Lutam por “uma verdade” e não “pela verdade”.
Alguns, porque olham 2018, esperam por uma condenação rápida, que torne Lula inelegível.
Outros, simplesmente são meros espectadores.
Nada é com eles.
Entre estes, tem os que não concordam com o atropelo, mas não se manifestam.
Parecem sensíveis à uma “patrulha”, que decorre da exaltação das emoções, sabotadora da razão e das garantias constitucionais.
Ora, o delito é um atentado à vida coletiva.
Exige repressão.
Mas, tanto é usurpação impedir a repressão do delito, como o é o desprezo às garantias individuais.
A tolerância e o diálogo são uma exigência da democracia – asseguram o convívio.
Nietzsche está certo: as convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras.
(Fonte: Site DCM)

quinta-feira, 14 de abril de 2016

MANIFESTO DA CNBB


Entidades assinam manifesto "Na busca da Justiça e da Paz" 


A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a Associação dos Magistrados Brasileiros, a Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho e a Associação dos Juízes Federais do Brasil assinaram, na manhã de segunda-feira, 4 de abril, o manifesto "Na busca da Justiça e da Paz". A assinatura do documento foi realizada na sede da CNBB, em Brasília. No texto, as entidades afirmam ser "necessário que as entidades da sociedade civil se unam pela superação da intolerância e pela busca de soluções que priorizem o compromisso com o interesse comum do país" e “formulam veemente apelo fraterno à inteira sociedade brasileira e suas instituições, para que se engajem na incansável busca pela Justiça e pela Paz". Confira a íntegra do texto: NA BUSCA DA JUSTIÇA E DA PAZ A sociedade brasileira passa por um momento de grave crise institucional, provocada por uma polarização política em crescente radicalização. Esse sentimento que atinge hoje grandes segmentos da população apresenta, infelizmente, reações carregadas de intolerância e agressividade, dividindo brasileiros e brasileiras e gerando o risco de uma preocupante escalada da violência, em prejuízo de toda a nação. Neste momento, urge que os atores da cena política procurem o entendimento para consolidar a luta contra a corrupção, sempre de acordo com a institucionalidade democrática. A unidade nacional não pode sofrer divisões insuperáveis. Por isso, é necessário que as entidades da sociedade civil se unam pela superação da intolerância e pela busca de soluções que priorizem o compromisso com o interesse comum do país. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a Associação dos Magistrados Brasileiros, a Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho e a Associação dos Juízes Federais do Brasil formulam veemente apelo fraterno à inteira sociedade brasileira e suas instituições para se engajarem, de forma decidida, na incansável luta pela Justiça e pela Paz, para a construção de um país, casa comum de brasileiros e brasileiras e daqueles que adotaram esta terra como seu lar. Assinaram a carta Dom Leonardo Ulrich Steiner, Secretário Geral da CNBB, Dr. João Ricardo dos Santos, Presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros, Dr. Ricardo Lourenço Filho, Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho e a Dra. Candice Galvão Jobim, Vice-presidente da Associação dos Juízes Federais do Brasil.

(Fonte: Boletim do CEFEP: Centro Nacional de Fé e Política Dom Helder Câmara)

sexta-feira, 1 de abril de 2016

O QUE É DEMOCRACIA (???)


O que está em disputa é o conceito de democracia



“O fantasma que protagoniza as ideias de fundo é a agenda da embaixada dos EUA, mais especificamente o acionar oficioso das trocas de regime, e, no caso latino-americano, na esteira da reação aos governos de centro-esquerda”, afirma o cientista político."
 
Em meio à crise que vem se arrastando, “se há alguma novidade” no cenário político brasileiro, “é a chegada de uma espécie de um Tea Party nacional, como expressão dos ultraliberais, através do Partido Novo e também do Partido Social Liberal (PSL, este bem pequeno)”, diz Bruno Lima Rocha à IHU On-Line, fazendo referência ao movimento norte-americano.
Segundo ele, a nova direita segue “ideias de tipo neoliberal, ultraliberal, neoconservadoras, passando como uma linha direta dos think tanks, dos centros de difusão, das fundações de apoio ao Tea Party”, e é “sucessora direta dos grupos neoliberais do Brasil, como o Estudantes pela Liberdade, o Instituto Mises Brasil, a juventude neoliberal vinculada ao Fórum da Liberdade e outras iniciativas difusoras do pensamento econômico neoclássico e da política neoliberal”.
Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, Rocha adverte que o que “está em disputa” na crise “é o conceito de democracia”, não no mesmo sentido em que esteve nos anos 30, com “elogio ao autoritarismo”, porque “a esquerda de tradição mais autoritária não se afirma como defensora de ditadura de espécie alguma, embora sempre elogie governos mais duros desde que este projete a melhoria nas condições materiais de vida”. A ameaça à democracia, explica, é “de tipo liberal” e “está justamente na desconfiança na quebra das regras do jogo, com o apelo de impeachment através de um tema discutível e que entendo como não caracterizado como crime de responsabilidade, sendo mais um argumento de tipo ideológico e de defesa de um arranjo na política econômica”. Para ler a entrevista na íntegra, clique aqui.

segunda-feira, 28 de março de 2016

A DEMOCRACIA NÃO PODE SER RIFADA


Igrejas se posicionam em defesa da democracia


Rafael Tatemoto

Diversas igrejas cristãs têm se posicionado sobre o atual momento político vivido no país. Apesar de ressaltarem aspectos diferentes em relação à conjuntura, o elemento comum entre as manifestações é a defesa da democracia, das instituições e das regras do Estado de Direito.
 A Presidência do Conselho Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) emitiu nota, no dia 10 de março, em que afirma que “as manifestações populares são um direito democrático que deve ser assegurado a todos pelo Estado. Devem ser pacíficas, com o respeito às pessoas e às instituições. É fundamental garantir o Estado democrático de direito”.
O Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic), entidade de caráter ecumênico, lançou manifesto– um dia após a manifestação da CNBB – em que incentiva o povo brasileiro a expressar, “diante da polarização estimulada por uma mídia partidarizada e tendenciosa, pacificamente, sua opinião e posição sobre o momento político que vivemos e evite o incentivo e a prática de qualquer tipo de violência e ilegalidade”.
“Precisamos, antes de tudo, preservar a nossa jovem democracia, o Estado de direito e as conquistas sociais que a sociedade brasileira alcançou nos últimos anos”, diz a nota do Conic.
Os luteranos, por meio do pastor presidente da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, reforçaram o pedido por uma resolução democrática para a crise. “O Brasil conquistou a democracia a duras penas. Um dos componentes imprescindíveis para que a democracia cresça e floresça chama-se diálogo. Em lugar da palavra são colocados gritos, empurrões. Cresce o confronto a qualquer custo. Será que estamos esquecendo o que conquistamos a duras penas?”.
A Igreja Presbiteriana Unida, em manifestação, condenou a cobertura que a imprensa vem realizando sobre a Lava Jato. “Essa espetacularização de atividades meramente investigativas tem criado um caldo de cultura pernicioso, permeado pelo ódio ao que pensa diferente e que, caso não haja cautela da parte daqueles que conduzem tais investigações e da elite política deste país, poderá se degenerar e transformar nossas ruas em palcos de banhos de sangue”, afirmou em nota.
posicionamento mais contundente veio da Igreja Episcopal e Anglicana do Brasil (IEAB). O texto conclama o povo brasileiro a respeitar democracia, “construída a duras penas e banhada pelo sangue de homens e mulheres que deram a sua vida a serviço das causas libertárias de uma sociedade justa”. A IEAB afirma que investigações para o combate à corrupção “são legítimas somente quando existam provas concretas e quando garantem o direito à ampla defesa. Interesses corporativos de órgãos da grande mídia não podem e não devem ser ideologicamente seletivos e nem condenar a priori ninguém por causa de seu perfil ideológico”.
O documento insere ainda a dinâmica política brasileira no contexto internacional. “Este é um processo global e latino-americano que tem realizado mudanças políticas conservadoras, em prejuízo da ampla maioria do povo”.
Por fim, a nota pede que se “evite qualquer manobra de desconstrução do resultado das urnas” e o rechaço a “qualquer tentativa de retorno ao autoritarismo e a qualquer modelo que represente cerceamento dos direitos individuais e coletivos conquistados".
(Site Brasil de Fato)

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

SALVEMOS A DEMOCRACIA


Rede da dignidade contra o golpe e a vigarice

Saul Leblon

A história apertou o passo e quando sacode a poeira ela derrama transparência por onde passa.
A retaliação de Eduardo Cunha contra o governo e contra o PT guarda semelhanças com uma cena recorrente da crônica policial.
Enredado em evidências grotescas de ilícitos e falcatruas, o presidente da Câmara sacou um processo de impeachment contra a Presidenta Dilma, depois que o PT –graças à corajosa decisão de seu presidente, Rui Falcão, determinou que o partido não acobertasse o delinquente no Conselho de Ética.
Cunha age como o sequestrador que saca o revólver e o coloca na cabeça do refém, exigindo salvo conduto para si e para o malote de dinheiro.
Eduardo Cunha aposta que os comparsas do lado de fora lhe darão cobertura na fuga cinematográfica para frente.
Talvez tenha razão a julgar pela adesão de pronto de tucanos, como os rapinosos Aécio e Serra, por exemplo.
Outros, aqueles que entendem a política como oportunismo, endossarão igualmente o meliante em nome da honradez.
Ou não é essa –há meses—a especialidade do colunismo isento na sua seletiva campanha anti-corrupção?
A cumplicidade desses comparsas está precificada no metabolismo político brasileiro desde 2005/2006.
Não se espere grandeza de onde impera a mediocridade básica das elites latino-americanas.
Aquela que sonega ao próprio país e ao povo o direito e a competência para se erguer como nação justa e soberana.
O vento implacável da história desnuda em 2015 os novos atores do velho enredo em cartaz em 1932, 1954, 1962, 1964, 1989, 2002, 2005, 2006, 2010 e 2014.
Com um agravante: há um pedaço da sociedade que se descolou definitivamente do país e tem como pátria o capital flutuante que não quer pertencer ao destino de nenhum povo.
Seu interesse e visão de mundo, portanto, são imiscíveis com a ideia de um regime do povo, para o povo e pelo povo.
E isso não é retórica, mas uma ameaça: eles consideram que a Constituição de 1988 prometeu mais do que é justo o dinheiro grosso ceder e que o PT teima em lembrar.
São aliados naturais do assaltante que ameaça agora um  mandato subscrito por 54 milhões de brasileiros.
Daí não sai nada a não ser golpe e dilapidação.
A mudança terá que vir do outro lado.
O lado do país que se avoca o direito de enxergar na justiça social a finalidade e o motor da luta pelo desenvolvimento brasileiro. E que tem na democracia a principal garantia de que esse processo é crível e consistente porque negociado, repactuado e legitimado nas diferentes manifestações de liberdade de um povo --nas lutas, nos escrutínios e nas mobilizações históricas de uma nação.
Estamos diante de um desses momentos que Celso Furtado denominava de ‘provas cruciais de uma nação’.
É, sobretudo, no caso brasileiro, a hora da verdade para as forças progressistas.
Cabe-lhes superar o empate corrosivo que paralisa a sociedade e desacredita a democracia.
Trata-se de vencer a prostração e o sectarismo, fazendo da mobilização contra o golpe o impulso que faltava para uma repactuação do país em torno dos interesses majoritários de seu povo.
Lideranças políticas e sociais não podem piscar.
O enclausuramento ideológico, o acanhamento organizativo e a indiferenciação, diante  da qual a juventude não se reconhece e a militância se recolhe-- devem ser dispensados de uma vez por todas.
Que ninguém se iluda: o apoio ao impeachment tem por trás um projeto econômico devastador
Nele não cabem as urgências e direitos da maioria da população brasileira.
Um notável volume de investimentos é requerido nesse momento para adequar a logística social e a infraestrutura às dimensões de uma nação que incorporou milhões de pobres ao mercado de consumo nos últimos anos.
Agora lhes deve a cidadania plena.
O novo giro da engrenagem terá que ocorrer num momento paradoxal.
Uma tempestade perfeita cobra respostas em várias frentes: prover a infraestrutura, combater a inflação, resgatar a industrialização, dar progressividade ao sistema tributário, ajustar o câmbio, modular o consumo.
Tudo junto e com a mesma prioridade.
Ao mesmo tempo, porém, o labirinto encerra a oportunidade histórica de inovar metas e métodos.
A plataforma do arrocho, com a qual o conservadorismo capturou o governo  --e agora pretende concluir o assalto tomando-lhe o mandato,  envelheceu miseravelmente ao escancarar  sua incapacidade  para ir além de uma recessão destrutiva.
PIB, emprego, investimento e consumo despencam sob o timão de um ajuste que desajusta o bolso do povo pobre e agrava as contas fiscais da nação.
O interesse conservador que antes pretendia usar o governo para escalpelar as ruas, subtraindo-lhe conquistas e recursos, agora quer usar as ruas e o impeachment para derrubar o governo.
A bipolaridade reflete a ansiedade típica de quem sabe que tem pouco tempo porque aquilo que a rua exige e espera colide com o que o mercado pretende.
Quem dará coerência ao desenvolvimento brasileiro nessa encruzilhada?
Antes turva, a resposta emerge límpida após o assaltante colocar a arma na cabeça do refém nesta tarde da terça-feira, 2 de dezembro de 2015.
A nova coerência macroeconômica terá que ser buscada na correlação de forças redesenhada pela divisão entre os que se alinharão na cumplicidade ao chantagista e os que vão se juntar ao governo para ampliar o espaço  de um novo contrato de crescimento para a nação brasileira.
Emparedado pela lógica conservadora o governo Dilma, paradoxalmente, passou a ter escolhas.
Como disse a própria Presidenta, em desabafo, ’não era mais possível viver chantageada’.
Dilma deve, sim, negociar. Com o Brasil que trabalha e quer trabalhar. Com o capital que produz e quer produzir.
Isso define uma límpida conduta para as próximas horas, os próximos dias, meses e, sobretudo uma próxima reforma ministerial definidora de uma verdadeira governabilidade, com o direito de recorrer ao povo para construir o passo seguinte do crescimento.
O bônus não autoriza o conjunto das forças progressistas a adotar a agenda da fragmentação suicida.
O discurso cego às interações estruturais é confortável . Mas leva ao impasse autodestrutivo e à inconsequência histórica.
A responsabilidade de interferir num processo histórico pressupõe a adoção de balizas que impeçam o retrocesso e assegurem coerência às mudanças.
O jogo é pesado.
Avançar à bordo da composição de forças que delimitou a ação progressista até aqui tornou-se cada dia mais penoso.
Esgotou-se um capítulo.
Não apenas por conta da saturação de um ciclo econômico.
Mas também porque se descuidou de prover a sociedade de canais democráticos para viabilizar o passo seguinte do processo.
Faltava a locomotiva da história apitar outra vez para esticar os limites do possível na repactuação do novo capítulo do crescimento brasileiro.
Foi o que o assalto à mão armada de Cunha desencadeou nas últimas horas.
A presidenta Dilma viu o bonde passar e não hesitou.


Antes dela, Rui Falcão, Pimenta e outros tiveram a coragem de rechaçar o chantagista e alinhar o PT  ao clamor dos milhões de brasileiros que não aceitam mais compactuar com um sistema político que se tornou um biombo desmoralizado do poder econômico, a serviço de banqueiros e bandidos.
Ao assumir o risco de uma represália que se confirmou, o PT indiretamente reaproximou-se dos que entendem que a soberania popular é  o único impulso capaz de harmonizar os conflitos e sacolejos de uma transição de ciclo de desenvolvimento.
O tempo urge.
O assalto conservador ao mandato de Dilma  joga uma cartada de vida ou morte contra o relógio político.
À medida que apodrece a reputação de seus centuriões, e os savorolas da ética entram em combustão explosiva, restou-lhes apostar tudo no estreito espaço de tempo entre a desmoralização absoluta e a capacidade residual de articular o golpe.
A coragem de Dilma e do PT, a solidariedade do PSOL logo na primeira hora da escalada, o levante maciço nas redes sociais ensejam esperança e legitimidade.
Em 1962 Brizola opôs ao golpe contra Jango uma bem-sucedida mobilização nacional liderada pela Rede da Legalidade.
Que Lula, Luciana, Boulos, Stédile, Vagner Freitas, intelectuais, estudantes, empresários produtivos, personalidades e democratas em geral se unam e se organizem.
Essa é a hora e ninguém fará isso por nós.
Que Dilma recorra diariamente, se preciso, à cadeia nacional para afrontar o monólogo golpista e liderar a resistência nacional.
É o seu mandato que está em jogo.
E que disso nasça uma gigantesca rede da dignidade contra o golpe e a vigarice.
Com ela, e somente com ela, emergirá o impulso que falta para abrir passagem ao país que o Brasil poderia ser, mas que ainda não é –e que interesses poderosos não querem que venha a ser.
(Site Carta Maior)