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quinta-feira, 13 de novembro de 2025

PARADOXOS E CONTRADIÇÕES


(Imagem gerada por Inteligência Artificial - Gemini, em 13.11.25)


Pobre de Direita X Esquerda Caviar 

Eugênio Magno* 

Nada mais insensato do que rotular as pessoas de “pobre de direita” e de “esquerda caviar” com o propósito de desqualificar suas bandeiras. Até porque, esquerda e direita, na atualidade, significam muito pouco ou quase nada quando tomamos como referencial as suas representações hegemônicas um tanto descaracterizadas. Quando as expressões direita e esquerda, respectivamente, se juntam a pobre e a caviar a coisa fica pior ainda. Especialmente neste contexto polarizado das disputas de narrativas nas redes digitais que têm se reduzido a xingamentos e agressões.

Ainda que direita e esquerda não tivessem perdido tanto seus significados, ter nascido pobre ou rico não descredenciaria nenhum cidadão para militar em um ou outro desses espectros políticos. O imperativo definidor de tal ou qual filiação deveria ser o desejo, o sentimento de pertença a determinado regime, cultura ou grupo, de seus ideais e parâmetros éticos, estribados em convicções pessoais e na livre vontade. Nesse ponto, não podemos nos esquecer de que tudo isso tem a ver com liberdade, e liberdade tem implicações e princípios. Além daqueles destacados nos ideais da Revolução Francesa, igualdade, liberdade e fraternidade, pelo menos mais dois poderiam ser incluídos: consciência e responsabilidade.

Esse é um fio enorme que se puxado traz uma série de conceitos e categorias de vários saberes e conhecimentos transdisciplinares. Mas esse novelo não será desenrolado academicamente. A intenção aqui é apenas uma singela tentativa de alertar para não incorrermos em erro tão grosseiro e despropositado, seja por ignorância ou por mau-caratismo. Na maioria das vezes a incoerência caminha a par e passo com o nosso comportamento. Se os escritos marxianos e os mais renomados marxistas advertem para a dificuldade de se ter consciência de (nossa própria) classe, o quão arriscado, para não dizer leviano, é fazer julgamentos farisaicos sobre a conduta de outrem, classificando-as de contraditórias ou bizarras.

Os partidos e as principais lideranças de nosso país têm se descuidado da formação política da população. Enredados em seus projetos de poder, a preocupação dos principais atores políticos brasileiros se resume a interesses eleitoreiros, o que também significa do ponto de vista dos dirigentes partidários, a mera multiplicação de filiados e a arregimentação de uma militância subserviente e de milícias digitais, dispostas a qualquer coisa para defender pautas pouco compreendidas, impostas pelos cartolas das siglas.

Vivemos no Brasil um falso embate entre direita e esquerda, quando na verdade o que há é somente uma guerra de narrativas, com pouquíssimas ações concretas coerentes com as promessas demagógicas de combate à desigualdade, divisão da riqueza e de bem-estar social. O que temos de fato é que a direita hegemônica radicalizou e se transformou em extrema direita e o partido que melhor representava os ideais da esquerda em nosso país foi quase obrigado a se deslocar para centro-esquerda para chegar ao poder. E para continuar no poder foi ao centro e, depois, para voltar ao poder, deu uma guinada para uma quadra que muitos consideram de centro-direita. Coisas que se eternizam nas Terras Brasilis.

Em meados do século XIX as disputas entre liberais e conservadores não eram tão distintas. Boris Fausto em, História do Brasil, observa que a política desse período – mas não só dele –, não se fazia em termos de objetivos e princípios ideológicos rígidos. A maior preocupação dos políticos era chegar ao poder para obter prestígio e benefícios para si próprios e para os seus apaniguados. Conservadores e liberais utilizavam-se dos mesmos recursos para lograr vitórias eleitorais e quando estavam no governo não apresentavam atitudes muito diferentes. Desde a redemocratização, direita, centro-direita, centro, centro-esquerda, direita, extrema direita e agora, uma frente amplíssima, de centro para centro-direita, que insiste em ser tratada como esquerda, se revezam no poder e fazem perpetuar o neoliberalismo, com uma ou outra política compensatória aqui e acolá, enquanto o hipercapitalismo nada de braçada.

Então raciocinemos: se nem mesmo em períodos históricos mundiais em que esquerda e direita poderiam ser compreendidas como categorias em que, para além de convicções, comportamentos e ações coerentes, a condição econômica não era definidora da simpatia por um ou outro campo político, imagine na atual conjuntura. Vivemos um momento histórico em que a mobilidade social aumentou e segue acelerada – para baixo, para cima e para os lados – onde a globalização e a transnacionalização da cultura, da política e do capital transformaram a pirâmide social em uma verdadeira torre de babel.

Para cada um Engels, existem dezenas de riquinhos/as que vêm a esquerda como um promissor mercado consumidor e a explora com militância de fachada para a comercialização de inúmeros produtos. Do outro lado, centenas de pobres de origem ascenderam econômica e financeiramente, cerraram fileiras à direita e são macaqueados por milhares de outros pobres que neles se miram na expectativa fantasiosa de subir alguns degraus. Sem contar os encarapitados nas burocracias partidárias e nas hierarquias do Estado que ao chegar ao poder se locupletam, mas não abandonam suas retóricas ideológicas para não perder palanque.

As simplificações do que deveria ser programático, o empoderamento como favor e as constantes substituições das competências pelo lugar de fala, empobreceram o debate e vêm nivelando por baixo a dinâmica da vida social e política. O negacionismo científico pela direita e a desvalorização da expertise pela esquerda, abriu flancos para a total desqualificação da política. De um modo geral, o mundo político está infestado de oportunistas, gente acrítica e uma legião de analfabetos políticos. Se falta instrução, consciência e formação política, sobra basismo, ativismo inconsequente, romantização da pobreza por parte de alguns deslumbrados da classe média e a prática reiterada de estelionatos eleitorais.

A razão tem se tornado meramente instrumental, pragmática. No passado, a frase, “os fins justificam os meios”, atribuída a Maquiavel, era refutada com a assertiva que defendia a importância dos meios, uma vez que os meios também são importantes e definem a natureza dos fins. Aldous Huxley, na obra, Ends and Means, trabalha essa questão de forma bastante equilibrada. Sem conhecer e considerar os fins, como horizonte, os meios serão usados erradamente. Mas, na atualidade, os fins últimos deixaram de ser considerados. O foco está concentrado única e exclusivamente no pragmatismo dos meios. Tudo o que importa são ações táticas emergenciais, reações e bordões, desprovidos de quaisquer estratégias de aproximações sucessivas na direção de um fim último. É o reinado dos arrivistas, demagogos e influencers com suas copys cheias de gatilhos mentais e trends a gosto dos algoritmos.

Entre tantas dissonâncias não é difícil concluir que as expressões “pobre de direita” e “esquerda caviar”, não devem ser interpretadas como incoerentes, tampouco como xingamentos. Como já foi dito, ser de origem pobre ou rica não delimita a opção política de ninguém. Entretanto, na contemporaneidade, tal autorreconhecimento ou acusação, por via de regra, tem sido falta de educação política e/ou de consciência de classe, ou hipocrisia mesmo.


*O autor é comunicólogo e jornalista. 
Doutor em Educação e mestre em Artes Visuais. 
Trabalha com Educação comunicacional e midiática.

terça-feira, 23 de setembro de 2025

O BURACO É MAIS EMBAIXO

(Foto: José Cruz da Agência Brasil / EBC)

 

O colapso dos Sistemas 

e os sequestros das Instituições


Eugênio Magno*

As Crises são plurais. Quando achamos que já estamos no fundo do poço, somos lançados para profundezas ainda mais abissais. Mas já disseram que não vivemos uma época de crise, mas uma crise de época.

O hipercapitalismo não dá trégua. O dinheiro tem sido a régua do mundo e o capitalismo não é exclusividade do mercado e de nações tradicionalmente capitalistas. Países socialistas e comunistas também se renderam a esse sistema econômico. Para minimizar a aberração, apelidaram o modelo de capitalismo de estado. Ainda que pese certos benefícios socioeconômicos destinados às populações locais, o resto do mundo sofre cada vez mais os impactos dessa sanha das grandes potências em aumentar a dependência dos países do sul global, o controle do mundo e de suas riquezas.

A extrema direita avança mundo afora e as sandices de Donald Trump que encarna o papel de imperador global extremista parecem não ter fim. O tarifaço imposto por ele a vários países que têm os Estados Unidos da América como principal país importador de seus produtos é uma grande ameaça para a economia de muitas nações. Mas é também uma jogada extremamente arriscada para as recalcitrantes pretensões estadunidenses. Empurra vários estados nacionais para os BRICS e para um maior alinhamento com a China o que compromete a ruidosa hegemonia norte-americana.

No Brasil, país estratégico no mapa da geopolítica econômica mundial, as repercussões dessas medidas são desestabilizadoras, não só economicamente, mas também e, principalmente, no campo político. Estamos às vésperas de um novo ano de eleições presidenciais e um dos principais atores nessa corrida é o ex-presidente, Jair Bolsonaro. Apesar de condenado pela justiça por tentativa de golpe de estado e de estar inelegível, é possuidor de grande capital político, conta com o apoio de Trump e é o principal representante da extrema direita em nosso país. 

Desde a prisão domiciliar de Bolsonaro sua família se mobilizou a ponto de um dos seus filhos, Eduardo Bolsonaro, abandonar a cadeira de deputado federal e se juntar a outros bolsonaristas nos Estados Unidos para articular com o governo estadunidense anistia para o seu pai e o impeachment do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes. As investidas da família do ex-presidente já garantiram a aplicação da lei Magnitsky para Alexandre de Moraes e sua esposa e o cancelamento do visto de passaportes norte-americanos de mais sete juízes da Suprema Corte Brasileira e de familiares de outros membros do governo. Como se não bastasse, Donald Trump resolveu taxar os produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos, em 50%, com a desculpa de retaliação à justiça brasileira por não conceder anistia a Jair Bolsonaro.

Surfando na onda das ameaças dos EUA e dos posicionamentos tresloucados da família do ex-presidente, a bancada bolsonarista no Congresso Nacional, tomou de assalto as mesas diretoras do Senado e da Câmara, impedindo o funcionamento das duas casas. A proposta dos celerados era colocar em pauta votações de impeachment do ministro Alexandre de Moraes e de anistia para os golpistas de 8 de janeiro de 2023, além de impedir a votação de pautas de interesse do governo, como a da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até cinco mil reais mensais. O que mais causa espanto é saber que a atitude desses parlamentares e a investida de Donald Trump contra a soberania nacional tem o apoio de governadores de importantes estados da federação e de um grande número dos – ditos, patriotas – eleitores de Bolsonaro.

Com tudo isso e mesmo com o voto descabido, do ministro do STF, Luiz Fux, o julgamento aconteceu e, à despeito das ameaças sofridas, a primeira turma do Supremo decidiu pela condenação de Bolsonaro e de vários integrantes do núcleo principal da tentativa de golpe, por quatro votos a um. Carmem Lúcia, Flávio Dino e Cristiano Zanin acompanharam o voto do relator, Alexandre de Moraes. Sobre o ministro, Moraes, é importante ficar claro que ele não é o algoz de Bolsonaro. Embora Alexandre de Moraes venha se mostrando o mais apto entre os ministros para a condução de processos como esse, agiu em nome da Corte Suprema. É um dos onze ministros do Supremo Tribunal Federal e, por sorteio, calhou de ser a sua turma a conduzir o julgamento e ele ser o relator do processo envolvendo o ex-presidente, Jair Messias Bolsonaro e mais sete dos participantes da tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, entre eles, vários generais. É preciso que o povo brasileiro pare com a mania de estar sempre em busca de um salvador da pátria para depositar em tal pessoa o poder de definir os rumos do país. Isso é ruim para a nação e para os poderes constituídos, além de dar a esses eleitos um protagonismo que os coloca – para a opinião pública – acima das instituições que representam.

O Brasil vive momentos difíceis. São muitos os problemas a serem enfrentados e o governo necessita de muito mais força e fôlego para dar conta de tantos desatinos. Embora seja um governo de frente ampla e mesmo tendo o Centrão em sua base de apoio, um arranjo articulado para conter o avanço do bolsonarismo, argumenta não conseguir maioria no Congresso para aprovar suas pautas. Contabiliza sucessivas chantagens da Câmara dos Deputados e, não se sabe porque, continua cedendo às suas constantes exigências. As várias e históricas práticas duvidosas dos congressistas, que já foram apelidadas de quinzinho (%), mensalinho, mensalão e orçamento secreto – agora escancaradas como emendas parlamentares –, alimenta a boca grande de parlamentares de todos os partidos e continua sendo a moeda de troca dos governos da vez.

É preciso ser muito ingênuo para acreditar que as emendas beneficiam apenas o Centrão e a extrema direita. Contudo, ainda assistimos eleitores fanáticos das duas principais correntes políticas trocando acusações sobre a destinação dessas verbas para apoiar determinados projetos de apadrinhados dos seus opositores, como se o mesmo não acontecesse com os seus políticos de estimação. A prática é comum não apenas na Câmara Federal, mas também nas casas legislativas estaduais e municipais. E em razão dessa prodigalidade viciosa atender a todos os parlamentares, nenhum deles arrisca barrar sua continuidade para não ficar de fora da partilha. Esse negócio é um vespeiro. Se resolverem investigar a fundo vai respingar pra todo lado e poderemos ter muitíssimas surpresas.

Ulisses Guimarães realmente estava correto, a cada pleito temos um Congresso pior do que o anterior. Tem quem atribua a responsabilidade ao povo que o elege, mas essa não é a verdade. O povo vem sendo constantemente enganado. Os parlamentares – eleitos para representar o povo –, em sua maioria, só fingem compromisso com o eleitor nos períodos de campanha. Durante seus mandatos defendem apenas interesses próprios e os dos grupos empresariais e políticos a que pertencem. O lamentável é que os governos de plantão discursam contra, mas não enfrentam pra valer a situação e ainda pagam pela canalhice. No verdadeiro leilão que acontece quando da votação de pautas econômicas e sociais, dá para imaginar o quão difícil dever ser para alguns congressistas decidirem a quem vai trair, se o governo ou os ricaços, afinal é muita grana, tanto de um lado quanto do outro. Na dúvida, traem o povo, como sempre, e ainda têm a cara de pau de exigirem respeito quando a população os chama de traidores da pátria.  

Os três poderes da república têm perdido a capacidade de atuar como freios e contrapesos do Estado democrático de Direito. As constantes invasões de fronteiras de um dos poderes naquilo que se configura como atribuições constitucionais de outro poder descredibilizaram as instituições republicanas que se veem mergulhadas numa crise de identidade sem precedentes. 

As engrenagens do Estado Brasileiro carecem de muito azeite para se ajustarem. Por mais que o Executivo seja o poder que mais desperta paixões, por ser o de maior visibilidade e em razão de vivermos sob a égide de um regime presidencialista, esse é o poder que menos tem tido poder real em nosso país. É notória a judicialização da política, assim como a politização da justiça. O sequestro de pautas, projetos, propostas de leis e orçamentos, propicia a alegação do status de refém por parte dos poderes, em rodízio, e institucionaliza o tráfico de influência tornando tais práticas oficiais, “legais”. São muitos os acordos, nepotismos diretos e cruzados, usos e apropriação de bens e de divisas públicas em benefícios privados. Isso para não falar dos salários altíssimos e dos penduricalhos remuneratórios como auxílio-paletó, apartamentos funcionais, carros, motoristas, combustível, auxílio-mudança, pagamento de escola para filhos, convênio médico, vale-alimentação, cartão corporativo e otras cositas más, como as rachadinhas, que não deveriam ser verbalizadas no diminutivo.

Em meio a tantos arranjos no andar de cima, envolvendo a cúpula do poder, só quem perde é o povo, especialmente os da média classe média para baixo, uma vez que os endinheirados se locupletam com políticos e gestores da alta administração pública. Essas conveniências entre o capital, a política e a administração pública nos remete a um tempo em que a grande imprensa, apesar dos seus comprometimentos, ainda tinha em seus quadros, profissionais que ousavam desafiar o sistema e denunciavam os abusos. Nos idos de 1970, em plena ditadura militar, o diretor de redação do jornal Estado de São Paulo, Fernando Pedreira, encarregou o jornalista, Ricardo Kotscho de coordenar uma série de reportagens, apoiado pelas sucursais do jornal em vários estados brasileiros, sobre as mamatas dos superfuncionários do estado. A matéria que durou várias semanas era chamada de “o escândalo das mordomias” e dava conta dos privilégios e das ilhas de bem-viver de ministros de estado e altos funcionários civis e militares de primeiro, segundo e até de terceiro escalão. Mais de meio século se passou e nada mudou de lá para cá.

Recentemente, o fundador do Instituto Conhecimento Liberta (ICL), Eduardo Moreira, lançou o manifesto “Somos 99%”. A campanha tinha como mote, “Por um Estado Ético, Justo e Transparente” e denunciava os privilégios do 1% mais rico da população, responsável por concentrar 63% da riqueza, além de criticar os abusos de políticos fisiológicos e servidores com altos salários. As principais reinvindicações do manifesto são as seguintes: Fim dos supersalários no setor público; extinção das emendas secretas; redução da carga tributária sobre os trabalhadores; tributação mais justa sobre os mais ricos; combate à impunidade entre políticos, juízes, empresários, banqueiros e militares; divulgação ampla do Portal da Transparência; Cobrança de dívidas bilionárias de grandes latifundiários e empresas; proibição de eventos públicos considerados “vergonhosos” e sem transparência. O manifesto, em forma de abaixo-assinado, embora tenha contado com mais de 400 mil assinaturas e a adesão de muitos parlamentares de vários partidos, ainda não provocou uma ação efetiva na direção para a qual aponta.

O povo não é bobo, mas os excessos retóricos confundem os incautos que, teleguiados pela irresponsabilidade de alguns influenciadores, não percebem o quanto governo e oposição se contradizem no discurso e na ação, e como o jogo político tem se transformado em guerra de torcidas com foco único e exclusivo em eleições. Sobram oportunismos, populismos e propaganda. E com a internet, as disputas políticas se apequenaram ainda mais. O discurso eleitoreiro tomou o lugar da grande política e do debate de projetos para o país. Quem tem senso crítico compara o comportamento dos militantes fanáticos com o das mais raivosas torcidas de futebol. É só gozeira, ataques odiosos, memes, mentiras e falatórios desconexos. Uma demonstração cabal de analfabetismo político e total desconhecimento dos verdadeiros interesses que estão em jogo. É como se estivéssemos permanentemente em campanha eleitoral, enquanto a malversação do dinheiro público impera, a população empobrece e as narrativas alienantes manipulam as massas. Os fatos estão aí, só não enxerga quem não quer.

As fraudes no INSS, por exemplo, há quem diga que começou no governo passado. Outros dizem que é herança do mandato de Michel Temer. Entretanto, elas continuaram nesse governo. Faz tempo que a Procuradoria Geral da República (PGR) denunciou, mas só agora veio à tona. E enquanto as falcatruas continuavam deu tempo de o governo e os seus ministros – do Executivo e do Judiciário –, jogarem mais uma vez contra o povo. Nesse caso, contra os aposentados, ao limitar reajustes, retirar benefícios já conquistados, como os do BPC e derrubar direitos, como o da revisão da vida toda, cujo impacto no caixa do INSS seria bem menor do que os valores até então contabilizados nas fraudes.

O governo tem falado em taxar os super-ricos, mas com dinheiro carimbado para políticas sociais. Pois, como ainda existe o teto de gastos (novo arcabouço fiscal), o imposto cobrado dos mais ricos pode voltar para eles no pagamento dos juros da dívida. Muitos brasileiros ainda não entenderam que a cobrança de IOF proposta não é para a taxação dos super-ricos. A taxação dos super-ricos morreu na praia. Foi anunciada de manhã e no final da tarde o próprio governo voltou atrás. IOF é Imposto sobre Operações Financeiras e atinge todo mundo, de forma direta ou indireta. Qualquer cidadão que faz algum outro investimento fora da poupança será ser taxado. É imposto sobre juros e consumo. Vai dificultar a vida do médio, pequeno e até do micro empreendedor que pagará mais impostos e, claro, vai repassar esses custos para o consumidor final. Em termos de “bondades”, a única coisa que o governo conseguiu acenar para o povo nesses três anos foi a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até 5 mil reais mensais. Mesmo assim, até a publicação deste artigo a proposta se quer tinha sido votada.

Mas isso não é tudo. Muitas outras coisas estranhas têm acontecido. É assombroso que muitas delas ocorram entre os próprios governistas. De cara limpa, duas grandes lideranças petistas no Senado, votaram pelo PLP do aumento do número de parlamentares. Na sequência, deputados proeminentes do campo progressista, alguns deles do próprio PT não estavam presentes na votação do PL da Devastação. Foram necessários os vetos de Lula para impedir esses dois projetos de lei. Pergunta-se: é uma jogada ensaiada onde parlamentares vão para o sacrifício de ficar mal com a opinião pública, apoiando ou se isentando de barrar maluquices, para abrir chances do presidente Lula exercer seu poder de veto e ganhar mais simpatia, ou é bate-cabeça mesmo? As duas alternativas são ruins para o PT e para a base governista. Melhor para Lula que, com essas e outras vai recuperando aprovação, ainda que a situação do país, em geral, seja uma das piores das últimas décadas.

A incontestável liderança longeva de Lula como representante do campo democrático progressista, somada ao seu prestígio internacional, carisma pessoal, mas também a um personalismo obstinado, impediram a formação e a projeção de novos líderes no campo da esquerda por décadas. E como todos sabem, uma liderança não se constrói da noite para o dia. O ano de 2026 se aproxima e só se ouve falar em Lula como alternativa para impedir a volta da extrema direita ao poder. Em razão da deliberada falta de opções, ocasionada pela recorrência de erros sequenciais por parte dos progressistas, muito provavelmente ele deverá ser o candidato, e se isso acontecer, certamente, será o vencedor. Sua vitória, a curto prazo, será muito boa para mais uma tomada de fôlego do Partido dos Trabalhadores e para o seu projeto de poder, mas pode ser péssima para o líder, Lula. Corre o risco de ganhar e não governar e, depois de tanto prestígio, se ver numa maré baixa. Logo ele, que figura entre os melhores presidentes do Brasil de todos os tempos, cuja aprovação popular já chegou a 87%.

A despeito das críticas que podem ser feitas a Lula, a esse governo de frente ampla e ao STF, não podemos nos esquecer da truculência com a qual a extrema direita tem agido, das ameaças à soberania nacional e do mal que o bolsonarismo tem causado à república e, consequentemente, à política, à democracia e ao tecido social brasileiro. E não nos enganemos, esse Congresso, com raríssimas exceções, é uma vergonha. Nos últimos dias, a deputada Bia Kicis (PL/DF), renunciou da condição de líder da minoria para que seja nomeado em seu lugar, o deputado que deveria estar sendo cassado por ter abandonado sua cadeira no Parlamento, Eduardo Bolsonaro (PL/SP) que, enquanto recebe salário pago pelo povo brasileiro, trama contra o país nos Estados Unidos da América do Norte. Ainda que não passe no Senado ou o STF venha a derrubar outros absurdos aprovados na calada da noite, os deputados federais emplacaram a anistia para os golpistas e os arruaceiros de oito de janeiro e a PEC da Bandidagem. Essa última contou, inclusive, com votos de 12 deputados do PT e de mais outras tantas dezenas de votos de integrantes da base do governo. Os únicos partidos que não votaram a favor dessa aberração foram o PSOL, o PCdoB, a Rede Sustentabilidade e o Novo.

Contudo, e ainda que sem muita esperança, a população está atenta. No último domingo, dia 21 de setembro, o povo que já não aguenta mais tanta traição, encheu as ruas do país para protestar contra o tresvario desse que tem sido considerado o pior Congresso da história do Brasil. 


*O autor é comunicólogo e jornalista. 
Doutor em Educação e mestre em Artes Visuais. 
Trabalha com Educação comunicacional e midiática.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

BRASIL NÃO É ESTADOS UNIDOS NEM CHINA

 

(Imagem do Google)


Governo e Oposição:
Comunicação ou Lacração?

Eugênio Magno*

O governo federal e o mandato “Lula Três” ou “PT Cinco” tem sido alvo de inúmeras críticas. À direita, por razões óbvias e à esquerda, por razões não tão óbvias assim mas, para o cidadão progressista politizado que escapou do messianismo delirante de torcida organizada, não ficam impunes a um mínimo escrutínio acerca de como o governo tem operado nesses seus dois anos de mandato. Desde o primeiro ano vozes aliadas apontavam inúmeras fragilidades, mas não foram levadas em consideração. Passaram-se dois anos e nada foi feito para corrigir rumos. Ao contrário, os erros se multiplicaram e só agora, com a aprovação do governo em queda vertiginosa resolveram anunciar mudanças.

Análises simplistas dos que circunscrevem a política apenas à governabilidade e a interesses eleitoreiros, ao negar a necessidade de políticas de estado e de um projeto que enfrente as principais questões estruturais do país, debitam quase tudo nas barreiras interpostas pelo congresso e na incapacidade comunicacional do governo. Existem inúmeros equívocos nessas análises, em sua maioria tendenciosas – pró e contra o governo. As relações do executivo com o legislativo, o judiciário e com o mercado, por exemplo, apesar de porosas, são vendidas como independentes e até como se fossem conflituosas. São necessários exames abrangentes, objetivos, profundos e desapaixonados para compreender esse imbróglio.

Como a tônica deste artigo é a comunicação governamental, de saída é preciso que fique claro o seguinte: embora importantíssima, a comunicação, no sentido em que muitos apontam, não resolve absolutamente nada. Para se comunicar, especialmente no campo político, de forma ativa e não apenas reativa – e com delay, como o governo se comunica – é imprescindível que hajam informações e notícias originadas de fatos reais e ações concretas que impactem fortemente, e de maneira positiva, a vida do povo. O que se comunica é, ou deveria ser, o resultado de uma ação, para que haja Comunicação. Esta é uma equação que se estrutura com dez por cento de comunicação e noventa por cento de ação. Quando a ação, a política desenvolvida é forte o suficiente, ela própria já é a mensagem e até mesmo o meio. Numa circunstância tal, o papel da publicização, da divulgação, é apenas fazer com que a ação ganhe ainda mais relevância, capilaridade e repercussão. Mas esse não é o caso. A direita radical dominou o ambiente virtual com fake news e lacração e um monte de ineptos da esquerda adotou essa prática e se acha no direito de incentivar o governo a agir da mesma forma. Governistas e oposicionistas estão confundindo marketing digital, cancelamentos e lacração com comunicação.

A falta de audácia por parte do governo para enfrentar os temas mais difíceis, compatíveis com suas origens e sua base – a classe trabalhadora –, tem impedido que ele consiga pautar a imprensa com temas de grande impacto junto à população. Com tudo isso e mais as críticas, ilegítimas e legítimas, as poucas ações concretas e positivas do governo, principalmente as de pouca magnitude, ficam totalmente sem espaço na mídia e, consequentemente, desconhecidas da população, enquanto todas as maldades que, diga-se de passagem não têm sido poucas, ganham difusão.

No final do ano de 2024, alguns fatos geraram notícias favoráveis e desfavoráveis ao governo. Todavia, mesmo aquelas supostamente favoráveis, não se sustentaram com esse status se analisados com um pouco mais de rigor os fatos que as geraram. Sem entrar nos méritos do ocorrido, tomemos a infeliz fala de Rosângela Lula da Silva (Janja), numa palestra sobre combate à desinformação no Cria G-20 que, quando interrompida por uma buzina de navio mandou um sonoro: “fuk you, Elon Musk”. Por pura sorte a fala da primeira-dama foi subsumida pelas notícias-bomba sobre a tentativa de golpe, numa lambança em que apareceram nomes de militares de alta patente das Forças Armadas brasileiras e do ex-presidente, Jair Messias Bolsonaro. Fatos que despertaram grande atenção da mídia nacional e internacional, abafando a repercussão da fala da esposa do presidente.

Na sequência, surfando na mesma onda da avalanche de notícias sobre a arquitetura da tentativa de golpe e da divulgação dos nomes e cargos das autoridades envolvidas, esse mesmo governo acusado de não se comunicar bem ensaia o que poderia ter sido uma jogada de mestre. Usando cadeia nacional de rádio e TV, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, anunciou para todo o país as novidades do seu arcabouço fiscal. Para o anúncio das novas medidas – nada populares –, usou de uma prerrogativa de comunicação governamental que, inclusive, tem sido pouquíssimo usada até mesmo pelo presidente da república. A estratégia, mais marqueteira do que comunicacional, não se sustentou. Festejado pelo governo e por alguns poucos setores da sociedade, o que foi votado do arcabouço fiscal no final de 2024 conseguiu desagradar tanto a Faria Lima quanto os intelectuais e os mais pobres. A primeira, em razão do anúncio de possíveis atitudes futuras que os “prejudica”, e os últimos pelo massacre à classe trabalhadora e aos pobres, fato corriqueiro no país e que se agrava a cada dia. O salário mínimo foi atingido em cheio e muitos dos demais cortes como os do Benefício de Prestação Continuada (BPC), por mais paradoxal que possa parecer, só não aconteceram porque o congresso, incluindo alguns deputados de parte da esquerda não permitiram. E isso basta. As práticas desse governo de frente ampla tem sido dizentes. Não é necessário nem mesmo desenhar para que a situação seja melhor compreendida. Até o presente momento não foi possível articular nenhuma medida concreta de grande alcance popular. Infelizmente, é preciso dizer que o populismo e a demagogia têm sido a prática corrente. Enquanto os messiânicos e o povo em geral se entretinham com as notícias da tentativa de golpe e o anúncio dos nomes e patentes dos golpistas, a boiada passou. Lembram de uma frase parecida com essa? Pois é, foi dita e praticada de forma sistemática à direita, por seis anos e agora se repete em ato à esquerda. 

É difícil entender porque certos setores da mídia que faz “assessoria de imprensa” para o governo insiste tanto em esbravejar que o congresso é contra o governo se o governo aprova tudo que manda para câmara e senado. Também, alimentando a boca grande do parlamento com as famigeradas emendas parlamentares, não poderia ser diferente. Dizem que a Faria Lima é contra o arcabouço fiscal e que o congresso é aliado da Faria Lima (?). Então, por que o congresso aprovou em regime de urgência a parte do pacote que mais prejudica a população de baixa renda e numa jogada de equilibrista ainda conseguiu desidratar o impacto do arrocho econômico? Resumindo, o governo criou uma estratégia de dar com a mão pequena e tirar com a mão grande. Tem gente que ainda não entendeu que os ataques às regras de reajuste do salário mínimo vão destruir o ganho de trabalhadores e aposentados. Isso representa um grande retrocesso em relação aos próprios avanços dos Governos Lula I e II e Dilma I que garantiam ganhos reais, acima da inflação aos assalariados, acompanhando o crescimento da economia que na lógica atual só faz engordar a porca dos mais ricos, condenando os pobres a se tornarem ainda mais pobres. E não cabe desculpas para tanto descalabro. Esse projeto tem digitais: é de autoria do governo e as maldades já foram feitas, aprovadas e estão em vigor. A tal isenção de Imposto Renda para os que ganham até cinco mil reais e a taxação dos mais ricos, quando votados e, se aprovados, o que é pouco provável, só terá validade a partir de 2026.

Em meio às festas de fim de ano, logo após o pacorte(s) do Haddad, Lula assina o termo de posse de Gabriel Galípolo, como presidente do Banco Central e anuncia Galípolo e Arcabouço Fiscal como “Presentes de Natal” para os brasileiros. Não é por nada não, mas com esses “presentes”, dá pra rir e pra chorar. Teríamos que ser masoquistas para comemorar mais esse revés. E, na contramão de um posicionamento que seja digno de uma esquerda que honre tal posição, a todo instante um bando de incautos interpelam os críticos indagando se o cavalo de Tróia de Bolsonaro, Campos Neto, seria a melhor opção. Aí é preciso dizer que não é questão de preferência, mas de coerência. Quando o governo nomeia um banqueiro, representante do mercado, defensor dos juros altos e simpático à Faria Lima, cabe muita reflexão e os debates não podem ser invalidados de forma irresponsavelmente sumária como tem acontecido. O resultado está aí: a primeira ação de Galípolo à frente do Banco Central foi aumentar a taxa Selic em 1%. Enquanto a galera que deveria torcer pelo Brasil fica na torcida de China versus Estados Unidos a equipe econômica do governo faz gol contra.

Lulistas, governistas acríticos e mídia comprometida com o governo insistem em fazer comparações por baixo e usam o mesmo expediente carcomido da extrema direita. Bolsonaro e seus asseclas passaram quatro anos destruindo a república e detratando Lula e o PT. Lá se vão dois anos do mandato de Lula e Bolsonaro e os bolsonaristas não foram deixados de lado, à cargo da jusutiça. A todo instante a torcida Lulista recorre às confrontações, Lula X Bolsonaro, para justificar suas recorrentes passadas de pano. Há que se elevar o nível do debate, qualifica-lo. Criticar Jair Bolsonaro, Paulo Guedes, Roberto Campos Neto e companhia limitada é a coisa mais fácil que existe. A esquerda não é mais oposição e sim situação. Nessa condição, estabelecer comparativos com o período de Bolsonaro é perda de tempo e energia. Sendo o PT e ao menos parte da base governista de esquerda, é incoerente negar o direito e o dever dos cidadãos e dos seus eleitores cobrarem do governo sua posição progressista e as promessas de campanha, ao invés de repetir o comportamento teleguiado dos bolsonaristas que aceitam tudo do seu “mito”, de boca fechada. Afinal, sugerir, fiscalizar e criticar a quem se elegeu e deu poder é um direito legítimo. Entretanto, a miopia é grande. Essa esquerda, mesmo no poder, vilaniza o passado e culpa o futuro por nunca chegar – com inação –, enquanto a direita ferra o povo e a nação no presente, estando ou não no poder.

Se o governo ao menos admitisse que a sua missão consistia apenas em impedir a permanência do desastre Bolsonaro no poder e com a frente ampla garantir a democracia e colocar ordem na casa, o Brasil humanista e democrático já estaria agradecido. Mas não, fez uma série de promessas de campanha que não cumpre e ilude o povo anunciando falsas bondades. Falha que poderia ser minimizada se resolvesse usar de honestidade com a população. Mas o salto alto não permite dar nenhum sinal de fraqueza e revelar os verdadeiros entraves para a realização do que prometeu. Coisa que não acontece nem mesmo para reconquistar o apoio popular. Para 2026 já se fala até em mais uma guinada do centro para a direita. A impressão que fica é que só o poder interessa. Com isso, a popularidade e a credibilidade só cai junto ao próprio eleitorado. 

Questionados, os fiéis escudeiros do governo se defendem dizendo que a economia voltou a crescer, o PIB aumentou, o ano de 2024 foi superavitário, o dólar baixou, os empregos voltaram e tal. São incapazes de reconhecer o grande déficit de empregos formais, a carestia dos alimentos e demais produtos no supermercado, na bomba de combustível, no armazém, no sacolão, na farmácia, na padaria, no comércio, nos transportes e nos serviços em geral. Uma total falta de sintonia com a realidade do Brasil profundo e da economia real. Falas de papagaios repetindo jargões neoliberais dos economistas do governo e do mercado. Alguns minimizam a gravidade da questão econômica que também é social, trazendo o tema das constantes ameaças à democracia. Argumentam que o fogo amigo pode dar munição ao nazi-fascismo extremado dos radicais da direita que está vivíssimo buscando a quem devorar e que novas tentativas de golpe podem ser armadas. Essa é uma ameaça real que nunca esteve ausente da política brasileira. Mas, que fique claro: nenhum dos que criticam o governo, por dentro, desconhecem-na ou a negam. O que não se pode esquecer é que existem muitos outros enfrentamentos a serem encarados no país, especialmente no campo econômico. A segurança pública merece atenção especial. O país reclama urgência na regulação do setor cibernético e de telefonia onde a criminalidade e os abusos proliferam denodadamente. E ainda tem as promessas de campanha, como a revogação de várias decisões do governo anterior, dentre muitas outras propostas, até então intocadas. Para tudo que não é realizado ou é encaminhado de forma errática, busca-se uma justificativa.

Já faz um tempo que a comunicação virou bode expiatório, a grande responsável por todos os equívocos do governo. Os que se metem a porta-vozes palacianos, lotados em diversas mídias, vivem dizendo que tem muita coisa boa acontecendo, mas que o governo não consegue comunicá-las. O irônico, é que nem mesmo esses ufanistas nos dão a conhecer tais bondades, enquanto as maldades vão todas passando: as da oposição, do centrão, do mercado e as do próprio governo. Mas quem as identifica, independentemente do campo político em que esteja, deve se calar ou correr o risco de falar e ser patrulhado. Só os mais aguerridos, a contrapelo dos haters, se mantêm firmes em suas posições de sujeitos históricos responsáveis.

No outro espectro, a turma da extrema direita que passou a adotar as redes sociais como fontes de (des)informação, agem como alucinados. Dão a impressão de pessoas que quando precisam de médicos vão à sapataria. É estarrecedor constatar o grau de confiança que eles atribuem a tantas informações desqualificadas e apócrifas. Mas, de certa forma, a chamada mídia alternativa ou independente tem sua parcela de culpa nisso também. Alardearam ser os bastiões da moral, da ética e do jornalismo sério e desancaram a mídia tradicional que todos conheciam e por onde grande parte da população se informava, apesar de seus vícios e comprometimentos e isso contribuiu para que o jornalismo como um todo e o profissional de comunicação fosse totalmente descredibilizado com o refrão diário na cabeça do internauta de que “a mídia é tendenciosa e a imprensa não é confiável”. Nessa onda, a extrema direita se aproveitou disso de maneira perversamente “inteligente”. Passou a usar o próprio argumento desses progressistas que se acham acima do bem e do mal e toda a mídia, seja ela corporativa, alternativa, independente ou progressista, vem sendo demonizada pela sociedade.

Os arautos do caos midiático se esquecem de que eles estão incluídos nisso, pois também são mídia e como tal vítimas dos próprios ataques. Além dessas declarações representarem um contrassenso pois que, a própria mídia independente, alternativa ou progressista (difícil nominar), ademais, não tem tido um comportamento justo ao processar as informações. Não dá espaço para o contraditório, condena veementemente o que não está alinhado com seu campo ideológico e certos comentaristas que operam nesses portais entraram de sola na wibe do cancelamento e da lacração. Só têm elogios para toda e qualquer atitude do governo e nas questões controversas adotam o silêncio como estratégia.

A hegemonia dos veículos de comunicação corporativos está em seus estertores. Já são muitos os blogs, sites, portais, canais e plataformas de jornalistas independentes e de novas empresas de comunicação digital que disputam audiência com a mídia tradicional em pé de igualdade. Mas, audiência, progressismo, engajamento e faturamento nem sempre é compatível com informação de qualidade e compromisso com a verdade dos fatos. As estruturas de processamento da informação: acompanhamento dos fatos, busca de fontes variadas, triagem, apuração, reportagem e checagem ainda não estão totalmente aprimoradas nesses novos veículos midiáticos. A maioria, apenas comenta notícias e emite opinião, em grande medida, se valendo das notícias apuradas pela imprensa corporativa tradicional que tanto criticam. O discurso depreciativo adotado pelos que se julgam ungidos não atingiu somente a mídia corporativa. Foi nefasto para todo o sistema de comunicação e sobre isso ninguém se manifesta.

Quem quer se manter bem informado precisa quintuplicar as buscas por fontes de informação confiável de forma ampla e variada, e ainda assim corre o risco de ficar desinformado. O momento exige uma cruzada no sentido de resgatar a credibilidade da mídia, da informação, do jornalismo e da comunicação de um modo geral. O setor, em sua nova configuração, ampliada pelo digital e pela hegemonia das big techs carece, urgentemente, de regulamentação. Ainda assim, os responsáveis por legislar sobre o tema estão deitados em berço esplêndido a esperar não se sabe o quê.

Por essas e outras é que o refrão: “o governo comunica mal” é discutível. Tem uma turma de jornalistas e analistas insistindo tanto nisso que tal vaticínio só não vai virar verdade porque a realidade concreta não permite. Já trocaram o secretário de comunicação, de um político, por um marqueteiro. Saímos da retórica política institucionalizada para uma estratégia de marketing digital com pitadas panfletárias de campanha eleitoral, adaptadas ao estilo TikTok. Assim, do ponto de vista do formato e da agilidade, já se percebe uma mudança significativa. Entretanto, cabe indagar: onde fica a comunicação social no que ela deve ter de mais consistente, ética e comprometida com a verdade dos fatos e com seu público, no caso não um mero consumidor de conteúdos com imagens e manchetes atrativas, mas o cidadão brasileiro. Quem é do ramo – e é estudioso – sabe muito bem que comunicação é muito mais do que a simples retórica sofista. No entanto, é o que a maioria dos críticos da comunicação governamental defende e não se cansa de empurrar o governo para a adoção sistemática e oficial dessa prática epidérmica como estratégia prioritária.

É evidente que a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (SECOM) vinha tendo dificuldades em operar estrategicamente forma e conteúdo da comunicação do governo federal. E é inaceitável para quem é profissional da área que uma das mais completas estruturas de comunicação que se pode ter, o sonho de consumo de qualquer comunicador, não consiga comunicar bem. Essa secretaria conta com o conglomerado de mídia da Empresa Brasil de Notícias (EBC), as melhores agências de Propaganda e Relações Públicas do país a seu serviço e um supercomunicador que é o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O governo já teve também o Flávio Dino que, descontadas as fanfarronices, além de ser um bom comunicador era um quadro com grandes chances para 2026, mas que a egolatria o tirou da linha sucessória presidencial com o irrecusável empregão no Supremo Tribunal Federal (STF). Janja foi outra que tem feito investidas na área de comunicação, mas depois das últimas imprudências calou-se ou foi silenciada. Fernando Haddad, de vez em quando arrisca um pronunciamento, mas apesar da fala educada e do seu bom-mocismo, não tem carisma. Sua comunicação se adequa mais ao petit comité de banqueiros, rentistas e comentaristas de economia neoliberais. Além de tudo, o ministro da fazenda só tem dado informações impopulares, o que não ajuda a ele e muito menos ao governo. As tiradas comunicacionais criativas do Lula também não se adequam mais ao time digital. Elas surtiam grande efeito no período analógico em que as possíveis respostas, quando surgiam, vinham com atraso. Os tempos mudaram e os improvisos do presidente carecem de upgrade para não serem transformados em memes da oposição, como tem ocorrido com frequência.

A despeito dessas e de outras considerações que possam ser feitas no âmbito da comunicação oficial do governo, desconfio que o tal problema comunicacional não se localizava totalmente na Secretaria de Comunicação. Provavelmente existe alguma eminência parda – inapta ou mal intencionada – atuando nos bastidores como orquestrador/a da militância digital de esquerda, incitando-a a agir tal e qual a extrema direita, no limite das narrativas espetaculares. Mídia alternativa e jornalistas influenciadores digitais foram capturados por essa orientação e têm atuado como multiplicadores da desventurada tendência juntamente com a torcida partidária nas redes sociais. A expectativa é de que o novo ministro da Comunicação, Sidônio Palmeira, acione seus radares para localizar e retirar a batuta do maestro impostor e fazer a regência da comunicação de maneira satisfatória para que o fator comunicacional não seja mais a desculpa governista. 

Porém, na política, apesar da profusão de milagreiros, milagres não existem. Algumas das últimas ações governamentais que poderiam gerar repercussão positiva na mídia e nas redes foram malfadadas. O evento do dia 8 de janeiro de 2025, convocado pelo governo para celebrar a democracia, com um abraço na Praça dos Três Poderes, não conseguiu reunir nem duas mil pessoas. A fala de Lula, que aproveitou bem o sucesso do filme, Ainda estou aqui, para condenar os atos golpistas e o pronunciamento do ministro, Alexandre de Moraes que mandou recado para Mark Zuckerberg, dono do Facebook, dizendo que o Brasil tem leis, salvaram a pátria. Logo depois surgiu o caso do Pix com a boataria da taxação. Nessa, o governo tomou uma decisão e, ao voltar atrás, passou recibo para a oposição. Ato contínuo, a extrema direita acusou o produtor e diretor do filme, Ainda estou aqui, Walter Salles, de usar dinheiro público para fazer cinema. Pessoas que se dizem de esquerda usaram os argumentos mais bizarros para defender o cineasta: “ele é muito rico, dono de banco (..)”. E é mesmo, mas o Waltinho tem uma filmografia substantiva e inúmeros méritos que poderiam ser usados em sua defesa, além do mais essa coisa de banqueiro não deveria ser festejada, muito menos pela esquerda. Não pegou bem. A direita ressentida fez uma provocação tosca e a esquerda respondeu de forma estúpida. Para completar o quadro, a base do governo votou com a maioria para eleger os presidentes da Câmara e do Senado e especula-se que Arthur Lira é cotado para assumir um ministério. As sandices não têm fim. Na posse de Donald Trump foram as piadinhas sobre o traje preto e o chapéu da primeira-dama, Melania Trump, e logo em seguida veio a onda do boné. Uma bobagem, onde a esquerda já saiu perdendo, por se ver obrigada a utilizar a cor azul, em razão da extrema direita Bolsonaro-trumpista ter capturado o vermelho, tradicionalmente caracterizado como a cor das esquerdas no mundo inteiro. É difícil entender o porquê da insistência em disputar narrativas de lacração ao invés de disputar projeto político, fazer showrnalismo de internet e deixar de formar e informar a população.

A quantidade de erros cometidos pelo governo em sequência e a insistência de alguns fanáticos em desqualificar a comunicação governamental, por ignorância ou estrategicamente, têm nos convencido de que o buraco é bem mais embaixo. É muito clara a tentativa de transferir responsabilidades para esconder o comportamento neoliberal do governo e a falta de projetos e de boas notícias. Por isso, questões outras e de várias ordens foram usadas como ingredientes para temperar o tema da comunicação e deixar claro que não há comunicação que dê conta de escamotear ou dar verniz a tantos disparates. Para além dos aqui citados, muitos outros acontecimentos comprovam nossos argumentos e os de vários analistas, cientistas políticos e jornalistas que, desde o primeiro ano desse governo, alertam para a falta de ações concretas que repercutam na vida, no trabalho, na mesa e no bolso do povo. Fatos que poderiam ser matéria-prima comunicacional para despertar o interesse da mídia e agradar a nação.


Os dias correm, a descrença é notória, o pessimismo aumenta e a falta de alternativas ou de uma bala de prata causam perplexidade. Contudo, é o que se tem para o momento e, apesar de todos os pesares, é muito melhor que assim seja. E para que nenhum atrevido queira fazer ilações, mau juízo ou uso indevido do que aqui foi posto e exposto, que fique claro o seguinte: a outra alternativa se quer deve ser lembrada, pois, sempre esteve fora de qualquer cogitação e assim deve permanecer.

*O autor é comunicólogo e jornalista. Doutor em Educação e mestre em Artes Visuais.
Trabalha com Educação comunicacional e midiática.

Faz tempo que os sinais de alerta vêm sendo dados. Para formar melhor juízo sobre a situação em que o governo se encontra leia também:


A TECNOLOGIA DIGITAL É VICIOSA E VICIANTE: Tecnologias e criminalidade de braços dados



O TREM NÃO É TÃO BÃO QUANTO QUEREM QUE PAREÇA SER: Balanço do primeiro ano do terceiro governo Lula

segunda-feira, 28 de outubro de 2024

LÁ VAI O BRASIL ...

 


(Imagem de artigo do brasilescola.uol.com.br)


O BRASIL VAI BEM E OS BRASILEIROS VÃO

 DE MAL A PIOR

 

Eugênio Magno*

 

É notório que as teorias e os teóricos, por ignorância ou conveniência, não têm espaço entre as lideranças da esquerda institucional brasileira. Embora isso não queira dizer que todo o campo progressista seja acrítico, é preocupante como os partidos hegemônicos que na atual configuração política operam à esquerda, destratam os intelectuais do mesmo espectro. Entretanto, mesmo proscritos dos círculos do poder como ideólogos programáticos e alijados das rodas da militância, condenados que são por não serem portadores do tal “lugar de fala”, eles teimam em falar.

Para provar essa teimosia em falar convoquei algumas dessas vozes para, de forma dialética e dialógica, nos acompanhar nesta reflexão. Para inaugurar essa premente necessidade de um pensar que oriente a política, a figura de um educador é indispensável.  O eleito foi Paulo Freire, que entende a conscientização das massas como atitude crítica dos homens na história como um compromisso permanente que nos interpela a assumir uma posição utópica frente ao mundo e tomar a utopia como compromisso histórico. E que fique claro que para Freire o utópico não é o irrealizável; a utopia é o idealismo, é a dialetização dos atos de anunciar e denunciar. Pois, segundo ele, só os utópicos são proféticos, assim como só os proféticos são portadores de esperança. E para esperançar – como verbo – é preciso agir e agir com coragem. Muita coragem, como a de Paulo Freire. Não o Freire romântico que reinventaram para esconder a luta de classes, mas o Freire que na sua trincheira, arredio à excessiva institucionalidade corporativista, sempre lutou com radicalidade contra a opressão.

Muitos analistas têm dito que não temos mais esquerda no país. Será mesmo verdade? Tem sido vexatório assistir a extrema direita vituperar contra o sistema, ocupando o papel da esquerda que numa constante atitude eleitoreira faz acordos aqui e acolá e além de não avançar dá ainda mais combustível para os adversários e defende o sistema. Simultaneamente a consciência ingênua se multiplica velozmente, inclusive à “esquerda”, ao sabor dos algoritmos, no mesmo compasso em que as massas continuam a receber educação política somente pela via da extrema direita. 

Luiz Inácio Lula da Silva já ocupa pela terceira vez o cargo de presidente da república e o Partido dos Trabalhadores (PT), está em seu quinto mandato. Tom Jobim disse que o Brasil não é para principiantes e Lula não é principiante. No entanto, com toda essa experiência, as coisas continuam não indo bem por aqui. Pouco foi feito até agora, neste mandato, e nenhuma mudança estrutural foi promovida ao longo de todos os governos petistas. Tivemos apenas pequenos avanços no campo social: direitos humanos e políticas compensatórias de inclusão. As desigualdades se agravam de forma constante e o modelo econômico continua o mesmo do período de Fernando Henrique Cardoso, com tímidos ajustes. Motivos existem e as justificativas não são difíceis de serem evocadas. Mas, para um partido que nasceu com o ideal de transformação política, social e econômica, sobram temas, situações, agendas e realidades que carecem de enfrentamento que se quer foram tocadas, e as poucas abordadas o foram de forma equívoca. O grande paradoxo é que os mandatos petistas, em linhas gerais, são tidos como os melhores governos brasileiros em tempos de democracia. Ainda que pesem todas as suas contradições, essa é uma verdade inegável.

Os desafios são imensos e os inimigos poderosíssimos, mas os muitos problemas para os quais não faltaram promessas de resolução seguem penalizando a população. É evidente a desproporcionalidade entre as forças que fazem a disputa de poder. O setor econômico é o dono da bola e a mídia corporativa faz o jogo do capital. São empresas que visam lucro e defendem, além dos próprios interesses, os de quem as patrocina. O fato do governo não possuir maioria no congresso também faz parte das argumentações e é uma realidade, mas não dá para atribuir essa responsabilidade somente ao eleitor, como querem alguns, assim como isso não pode ser desculpa para a falta de determinação para encarar as várias questões que há décadas já se punham e se complicaram ainda mais nos últimos anos. As reformas política e tributária, com uma real taxação das fortunas, por exemplo, é algo que já poderia ter acontecido há mais de uma década, quando em outros mandatos Lula gozava de altíssimos índices de popularidade e aprovação. E quanto a ter maior representatividade no Congresso Nacional é preciso que fique claro que isso é um trabalho de conquista e convencimento do eleitorado, uma responsabilidade partidária, portanto.

Os mais ardorosos defensores do governo até agora não se deram conta de que as dificuldades enfrentadas por Lula não são apenas por conta da força de Bolsonaro, do bolsonarismo, do fundamentalismo neopentecostal, do congresso, de Lira e et cetera e tal, como insistem em afirmar os que não querem enxergar a realidade. É extremamente arriscado fazer críticas ao governo no atual momento. Além das estratégias da extrema direita de manipular análises e opiniões que apontem qualquer descompasso do governo, tem o patrulhamento ideológico dos mais aguerridos que defenestram quem ousa apontar os erros de percurso governamental, classificando a voz dissonante de opositora. E com esse comportamento, Lula e o PT vão perdendo tanto a oportunidade de corrigir rumos, como perde aliados, simpatizantes e eleitores não “bozoistas” ou fundamentalistas que se vêm asfixiados pela passionalidade militante.

Se num passado recente tivemos o fenômeno do antipetismo formado, sobretudo, por eleitores ocasionais de Lula, em razão dos escândalos dos chamados “mensalão” e “petrolão”, a onda que começa a se formar agora é muito mais grave e difícil de ser contida. Sobe a maré do antilulismo em setores importantes de democratas, da própria esquerda, e de vários extratos sociais: trabalhadores precarizados, aposentados traídos e a da falsa classe média – inventada por uma sociologia oportunista e partidarizada –, abandonada e de volta à sua origem. Resumindo, muitos lulistas, que não são necessariamente petistas, estão decepcionados com a incapacidade do governo de entregar o que prometeu.

A insatisfação grassa no país, em todas as classes sociais. Os muito ricos estão entediados com as ameaças de contenção dos seus lucros que nunca se concretizam. A classe alta e a alta classe média, andam incomodadas, em razão de ter que conviver em seus salões com ex-esquerdistas. A média classe média está odiosa porque não progride mais na proporção que já cresceu e sente a possibilidade de ser rebaixada para a baixa classe média e a baixa classe média não mais consegue se sustentar nessa posição e tem sido empurrada para a classe baixa. É enorme a quantidade de profissionais com formação superior, pós-graduados: especialistas, mestres e doutores, fora das funções para as quais estudaram ou que se encontram desempregados. Trabalhadores qualificados caíram para a base trabalhadora ou para a condição de precarizados e temem que daí poderão ir sabe-se lá pra onde. Uma parcela dos pobres e dos muito pobres – não dos miseráveis – são dos poucos segmentos sociais que têm merecido algum tipo de atenção do governo. Abaixo desses, sobram – como sempre sobraram –, os miseráveis, os excluídos e os invisibilizados que vivem da esmola e dos restos da pequena burguesia e do proletariado. Não podem nem mesmo cumprir a exigência do endereço, físico, ou da aberração do endereço digital, para ter acesso às migalhas, ditas compensatórias, do governo.

Da arquibancada, o que fica visível é unicamente disputa de poder. E nesse jogo, a direita e a extrema direita estão vencendo com grande vantagem. Fazem novas lideranças aos borbotões. Amealharam em duas décadas e meia as grandes fatias da sociedade: a alta cúpula de líderes religiosos e fiéis fundamentalistas que se sentem ameaçados moralmente com o avanço das pautas identitárias, militares, banqueiros, trabalhadores informais uberizados – apelidados de empreendedores –, proprietários de empresas de vários portes, especialmente as grandes, e o agronegócio. Conquistou ainda grande parte da direita e centro-direita neoliberal e não teve nenhum escrúpulo em ceder às extorsões do centrão e aos ditames dos países hegemônicos e ao capital monopolista internacional.

Acontece que direita e extrema direita têm projetos, tanto políticos como sociais, econômicos e para a segurança pública. Projetos perversos, é verdade. Mas os têm e conseguem comunica-los facilmente com a população, utilizando com excelência a mais nova e poderosa máquina de comunicação, a internet. Forma e conteúdo na medida certa para gerar engajamento de seguidores abnegados, acompanhados das mais nefastas políticas públicas anunciadas e cumpridas rigorosamente. Enquanto isso a esquerda, cujo sinônimo, desafortunadamente, tem sido esse PT irreconhecível, patina na comunicação. Patrocina, ao mesmo tempo que critica os veículos de comunicação corporativos. Não aprendeu a operar as novas mídias, assim como não apostou em inovações que pudessem ao menos justificar a sua nova autodenominação: progressista – um arranjo semântico para descaracterizar os ideais que deveria defender. E, o mais grave, não abre espaço para novas lideranças e não tem grandes projetos para áreas críticas, como segurança pública, educação e para a economia real. Se os tem, ninguém os conhece na concretude. O que falta em ação excede em tentativas de propaganda se utilizando da velha retórica que não convence mais ninguém.

Na seara da economia financista do rentismo improdutivo e da jogatina das bolsas o governo critica o Banco Central e a política cambial. Contraditoriamente continua a fazer o seu jogo, mas tem a desfaçatez de dizer que a economia vai bem, que o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu e blá, blá, blá. Mas, como recentemente ironizou a saudosa economista, Maria da Conceição Tavares, antes de nos deixar, “ninguém come PIB. Comemos comida, alimento”. Pois é, o povo necessita de comida na mesa, o jovem precisa de boa escola e emprego, o profissional qualificado, de trabalho digno, o trabalhador e o aposentado de renda suficiente para se manter e suster suas famílias.

Para prosseguir com essa penosa síntese diagnóstica dos quase dois anos de governo, recorro às análises e às observações argutas de outros intelectuais que trafegam no mesmo espectro. Não são poucos os aliados políticos dos atuais governantes que há tempos chamam a atenção do PT para o seu pragmatismo excessivo. A obsessão pelo poder tem levado o partido a abandonar seu antigo apreço por programas e a pegar atalhos e variantes totalmente desprovidos de sinais e balizas, numa correria eleitoreira desenfreada que não mais o diferencia dos demais partidos, tão criticados por seus dirigentes e militantes num passado não muito distante. 

Não à toa Frei Betto abre o artigo, “Michels e Partidos de Esquerda”, destacando a tese defendida por Robert Michels na sua obra de 1911, “Sociologia dos Partidos Políticos”. Betto, traz ninguém menos do que o sociólogo, Max Weber, para testemunhar que Michels teria se desiludido com a ala esquerda do Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD), pelo seu “eleitorarismo”, voltado quase que exclusivamente para ganhar eleições e pelo “oportunismo” dos seus líderes, cuja preocupação prioritária era estar na crista da onda política. A burocratização stalinista do Partido Comunista da União Soviética e os descaminhos de vários partidos oriundos das lutas populares que se transformaram em aparelhos eleitorais de uma oligarquia política, comprovam a tese de Michels. Preocupado com o ciclo de quase todo poder que emanado do povo, acaba por se colocar acima do povo, Frei Betto que no seu livro, “A Mosca Azul”, já denunciava tais desvios, encerra seu artigo advertindo: “A cabeça pensa onde os pés pisam. Um antídoto aos riscos apontados por Michels é a profunda ligação com os segmentos populares, o trabalho de base, a capacidade de ouvir críticas e se submeter à soberania da militância. E, sobretudo, não trocar o atacado pelo varejo – um programa de democracia verdadeiramente popular, tanto em nível político quanto econômico”.

O filósofo e psicanalista, Vladimir Safatle, é outro intelectual-ativista de esquerda, que tem se pronunciado constantemente, e com veemência, sobre os equívocos do atual governo Lula. Em várias oportunidades Safatle indica caminhos de maior radicalidade para os enfrentamentos que podem tirar o país dessa situação em que se encontra e fazer valer pelo menos alguns valores socialistas que justifiquem afirmar que temos um partido de esquerda no poder. O filósofo, em seus livros e entrevistas, aborda várias questões de interesse nacional, como o das instituições republicanas, seus vícios e descaminhos. Sobre o Supremo Tribunal Federal (STF), a avaliação de Vladimir Safatle é de que a instituição é capitalista e de direita e só investiu contra o bolsonarismo por se tratar de uma extrema direita que é contra as instituições, inclusive o próprio Supremo. Corte Suprema esta que na visão de uma esquerda menos messiânica nunca apoiou direitos trabalhistas ou dos aposentados e as pautas dos pobres, pela diminuição das desigualdades socioeconômicas. Aliás, o próprio STF é um exemplo de desigualdade e contradição. A despeito de decidir quase sempre contra os pobres, é uma das instituições mais dispendiosas do país e a corte que mais acumula privilégios em todo o mundo, se comparada com instituições da mesma estatura dos países mais ricos.

Mesmo sem gozar de simpatia por parte de setores democráticos e da esquerda brasileira, o presidente do senado, Rodrigo Pacheco, tem a aprovação de várias lideranças políticas, de conservadores a progressistas e de muitos intelectuais sobre a sua propositura de rever o plano de carreira dos ministros da Suprema Corte. Ciro Gomes é um que, mesmo sem dizer claramente qual seria exatamente o seu plano para os três poderes, já declarou sua vontade de ver cada um no seu quadrado. Seria necessário um livro inteiro ou, no mínimo, um artigo de maior extensão, exclusivamente, para analisar a porosidade entre os três poderes da república brasileira que, em vez de se configurarem como contrapesos, têm se prestado a socorrer uns aos outros conforme o soprar dos ventos, numa clara demonstração de um protecionismo corporativista altamente nocivo para o Estado Democrático e de Direito. No legislativo a situação não é menos complicada. A Câmara Federal goza de tanto poder que tem tornado o executivo refém de suas exigências e por aí vai... Ao arrepio do cumprimento da constituição, assistimos perplexos a uma série de situações deploráveis como a judicialização da política, a politização da justiça e um executivo enfraquecido, em razão do excesso de permeabilidade de sua frente que, de tão ampla, pouco tem servido além de manter Lula no poder. Uma realidade que em razão da outra opção que se anunciava não ter comparação, mas que ainda é muito pouco ou quase nada, diante do muito que se prometeu e do que o país necessita. Nem mesmo as questões do meio ambiente e dos direitos humanos que o governo tanto jactou em afirmar como prioridades conseguem avançar. As enchentes no sul do país e as queimadas em todo o território nacional, em 2024, são algumas demonstrações da falta de ações políticas de Estado efetivas para encarar o fenômeno das crises climáticas. A educação política da população, a consciência de classe e a desigualdade social, temas prioritários de qualquer política de esquerda, não têm nenhuma centralidade neste governo. As pautas da diversidade e das identidades, das mais importantes, cujo debate poderia ter se dado numa perspectiva que honrasse nossa condição de país mestiço, sem a falsificação da nossa história, vem acontecendo com a tomada de empréstimo das tradições antropológicas europeias e a forma binária de abordagem do racismo estadunidense.

A trajetória do então ministro dos direitos humanos e da cidadania, Sílvio de Almeida, de sua tese e de suas práticas, é um exemplo cabal da forma torta como as pautas identitárias foram orientadas e são tratadas no país. Um identitarismo personalista que empodera um escolhido, promove e permite ao promovido se autopromover e, na sequência, pune o escolhido pela mesma via do identitarismo. Para completar o quadro, assistimos quem coloca pessoas acima do bem e do mal, simplesmente por questões identitárias, se achar no direito de reivindicar até “luto” em razão do acontecimento que culminou com a demissão do ministro com medo dos possíveis desdobramentos. Apesar da gravidade do acontecido, a questão da diversidade e do direito a ter direitos, não pode ser tratada de forma espetacularizada e pelo viés desse identitarismo maroto e personalista. Contraditoriamente, esse tipo de abordagem esconde opressão, preconceito, ódio de classe e mais uma série de discriminações nos próprios contingentes desses grupos mais evidentes e condenam dezenas de outros grupos sociais, muitos até mais numerosos, mas sem projeção, a permanecerem no anonimato, sem fazer valer até mesmo seus direitos de sobrevivência. Sem contar que os desvios cometidos por algumas lideranças na condução desses cruciais direitos sociais têm dado grande munição para a extrema direita. Intelectuais sérios já alertaram para o perigo do que poderia se configurar no país com o que começou a ser arquitetado nos anos 1970, a partir da negação da mestiçagem e do macaquear os Estados Unidos, ao tratar a questão do racismo de forma binária. Tal falsificação histórica foi institucionalizada no governo de Fernando Henrique Cardoso – com a chancela do IBGE (enegrecendo o país de forma irresponsável) – e se aprofundou nas duas últimas décadas. Sem negar que o Brasil é um país racista, a tese do ex-ministro dos direitos humanos e cidadania, de “racismo ‘estrutural’”, tem sido questionada muito antes de Almeida se tornar ministro. Quem quiser aprofundar neste estudo precisa ir além de Jessé Souza e Sílvio de Almeida. É recomendável que dedique maior atenção a Darcy Ribeiro e não se esqueça de Alberto Guerreiro Ramos e Luís Gama, Antônio Risério e Eduardo Giannetti da Fonseca, para citar pelo menos seis intelectuais de grande envergadura que trataram desse tema com respeito à nação, aos povos e à história, sem ir na onda da falsificação de dados, das simplificações morais e dos modismos acadêmicos.

Em meio a tantos outros problemas, o governo propõe mais arrochos para o povo na segunda fase do novo arcabouço fiscal. Vai cortar ainda mais os gastos. A desculpa, ainda que não seja com as mesmas palavras, é a dos tempos da ditadura: “Vamos fazer crescer o bolo para repartir depois”. Ou seja, vai seguir a cartilha de Paulo Guedes, “quebrar o piso para não furar o teto”. Ora, a área econômica, além de ser a que o governo encontra mais dificuldades em propor transformações e que repercute em vários setores, do desenvolvimento e tecnologia à segurança pública e da educação ao turismo, passando por saúde, direitos humanos, meio ambiente e cultura, é a área mais carregada de maquiagem e botox. Haja powerpoints, cortes seletivos de pesquisas e photoshops para mascarar a fotografia da economia real. Todos sabem que a economia e as desigualdades, formam o ponto nevrálgico do que precisa ser enfrentando urgentemente em nosso país. Se temos uma economia em crescimento e o Brasil vai bem, como querem nos fazer acreditar, porque os brasileiros vão de mal a pior? O país tem um sério problema gravitacional. A Lei da Gravidade aqui só funciona para pessoas e que estejam localizadas da baixa classe média para mais baixo na pirâmide social. E não vale aquela máxima de que se cair, do chão não passa. Corre-se o risco de ir para o subsolo, ser condenado à exclusão ou enterrado vivo. Já os bens e a riqueza flutuam fartamente, sem gravidade, na parte superior, nem mesmo de uma pirâmide, mas de um triângulo escaleno que pende para o lado direito.

No início deste ano o economista que exerceu a função de porta-voz da presidência da república no primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, André Singer, professor titular do Departamento de Ciência Política da USP e autor do livro, O lulismo em crise, e Fernando Rugistsky, professor de economia da University of the West of England, em Bristol, onde também é codiretor de pesquisa em economia, fizeram um balanço do primeiro ano do Governo Lula, no site A Terra é Redonda. Singer e Rugistsky dois progressistas, afirmaram que, “Após ter vencido à frente de um heterogêneo ajuntamento de salvação democrática, o presidente decidiu entoar a melodia lulista clássica: fazer, no atacado, concessões à burguesia e, no varejo, buscar as brechas por meio das quais consiga beneficiar, em alguma medida, os segmentos populares. Só que o tema vem se desenvolvendo em andamento lentíssimo, tornando duvidosos os movimentos previstos para os períodos eleitorais de 2024 e 2026”.

Tais movimentos foram tão vacilantes que o resultado aí está. Faz tempo que a população vem dando o seu recado. Basta que se atente para os crescentes números de abstenções e de votos nulos e brancos a cada eleição. Esses números somados, ora se aproximam, ora são maiores do que os votos que candidatos vitoriosos ou perdedores recebem. Como já era previsto, os resultados eleitorais de 2024 não foram nada favoráveis para a esquerda representada pelo Partido dos Trabalhadores nessa sua atual configuração. Se não houver – agora – uma mudança radical na forma de fazer política por parte do governo, do PT e de seus aliados, a esperança da reeleição de Lula ou de que o governo faça um novo presidente está desfeita. Isso quer dizer que a lógica eleitoreira se esgotou. Não cola mais essa coisa de disputar eleições municipais com cálculos para eleições presidenciais. Precisa ficar claro também para os partidos que o povo, definitivamente, não é culpado e não vota mal como os simplificadores da realidade afirmam. A população não é burra. Ela tem as suas razões e estas estão sendo permanentemente ignoradas pelas lideranças políticas brasileiras. Se Bolsonaro foi horrível, um tufão, destruidor de várias das modestas conquistas sociais e uma ameaça à república, o que poderá surgir em 2026 será muito pior. O povo quer mudança e, insatisfeito como está, pode vir a apostar em qualquer candidato que acene com essa possibilidade. O irônico é que diante de uma esquerda conformista que não se atreve a encarar com radicalismo as transformações econômicas e sociais pelas quais o país grita, tenha sido necessário que o bolsonarismo pautasse o tema do socialismo.

Todavia, o tiro da extrema direita ao demonizar os regimes comunista e socialista pode ter saído pela culatra. A curiosidade da população foi aguçada e está sendo saciada. Ainda que seja minoria, com baixa vinculação e pouquíssima representação nos cargos eletivos, não é verdade que não exista mais esquerda no Brasil. O vácuo nesse campo logo será preenchido com a politização da sociedade pelas vanguardas intelectuais de esquerda. Os sinais são de que daí emergirá consciência crítica suficiente para a formulação de um amplo projeto político popular para a nação com oportunidades para o surgimento de novas lideranças bem formadas, compromissadas com a transformação da sociedade e com o fim do Estado burguês. Tudo indica ser essa a alternativa capaz de enfrentar a ofensiva deletéria da extrema direita. Trata-se de uma tendência mundial que já se ensaia até mesmo em países como Dinamarca, Finlândia, França e Estados Unidos, e por aqui não será diferente.


*O autor é comunicólogo e jornalista. Doutor em Educação e mestre em Artes Visuais.
Trabalha com Educação comunicacional e midiática.