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terça-feira, 9 de junho de 2026

LULISTAS DE ÚLTIMA HORA EMPURRAM O PT PARA A DIREITA

 

(Biblioteca)

As pedras de tropeço de Lula


Eugênio Magno*

A boa notícia para a máquina eleitoral petista é que Luiz Inácio Lula da Silva, muito provavelmente, será reeleito para o seu quarto mandato como Presidente da República Federativa do Brasil. E a má notícia é que se o atual governo não tem sido bom, por não atender as promessas de campanha e não ter dado as respostas pelas quais a população clama há décadas, um próximo mandato será ainda pior. Contudo, desastre maior seria a volta da extrema direita ao poder, principalmente se capitaneada pela família Bolsonaro.

Embora ganhe as eleições, o novo mandato de Lula não será para ele um prêmio e sim um sacrifício. Já o seu séquito e a trupe das alianças espúrias festejarão a farra das emendas, cargos e privilégios.

Companheiros das primeiras horas, conselheiros de confiança e analistas políticos sérios já disseram que Lula deveria ter saído das disputas eleitorais em momentos que lhe eram mais favoráveis, sem sucesso. Ele adorou o mel, não quis largar a cumbuca e pode vir a pagar um alto preço pela teimosia.

Para a democracia, a manutenção das instituições republicanas, o humanismo e a civilidade, qualquer comparação que se faça entre Lula e todos os demais candidatos é vantajosa para o atual presidente. Dadas as circunstâncias, nessas eleições de 2026 é Lula ou Lula. Do contrário é o caos, a barbárie. E como ninguém decente e de espírito democrático quer a barbárie com a volta da extrema direita, muito menos representada pelos Bolsonaro, petistas e milhares de eleitores, mesmo sem convicção, votarão em Lula, por falta de opções. Se bem que as abstenções e o voto nulo também tendem a aumentar neste pleito.

Tem muita gente de esquerda perguntando: até quando o PT vai surfar na onda do voto útil? A estratégia vem dando certo e dará certo mais uma vez com o aumento da massa de coristas hipnotizados rendendo loas ao pragmatismo eleitoreiro. Os desafios, entretanto, ultrapassam a simples lógica eleitoral com a qual os partidos, a mídia e o próprio Estado brasileiro têm operado.

Lula e o PT, há mais de uma década, não convertem militantes pelo enfrentamento dos problemas de base e pela transformação estrutural do país. Ao contrário, desde a Carta ao Povo Brasileiro, a conversão tem se dado muito mais pela negação de toda e qualquer ruptura com o sistema, propagada no passado. O resultado tem sido a adesão de direitões e neoliberais – lulistas de última hora –, oportunistas empedernidos que vêm engrossando as fileiras de uma nova militância sem formação política de esquerda e desprovida de qualquer apreço por reformas e transformações radicais.

Esse lulismo tardio é a mais autêntica imagem do neoliberalismo de “esquerda” e escancara o salto tríplice dado pelo PT para ocupar o vácuo deixado pela direita que come de garfo e faca. Passou da hora do partido apresentar um programa de governo coerente com seus discursos e cumpri-lo.

Ao longo dos anos o Partido dos Trabalhadores vem trocando ideal programático por pragmatismo eleitoral e qualidade dos seus quadros pela ampliação do número de militantes – a proporção deve chegar a um por mil ou mais. Uma aritmética, aparentemente muito vantajosa, mas de custo futuro altíssimo. São muitas as pedras de tropeço deixadas pelo caminho. Elas representam a soma das estratégias equivocadas adotadas pelo grupo majoritário da agremiação.

Mas, engana-se quem acredita num possível definhamento do partido nos próximos anos. O PT ainda terá vida longa. Continuará sendo um grande partido e uma potente máquina eleitoral. Todavia, destituído de todos aqueles ideais que um dia alimentaram o imaginário de milhares de brasileiros e de importantes e combativos segmentos da sociedade organizada que se juntaram para criar o Partido dos Trabalhadores.

*O autor é comunicólogo e jornalista. 
Doutor em Educação e mestre em Artes Visuais. 
Trabalha com Educação comunicacional e midiática.

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

PARADOXOS E CONTRADIÇÕES


(Imagem gerada por Inteligência Artificial - Gemini, em 13.11.25)


Pobre de Direita X Esquerda Caviar 

Eugênio Magno* 

Nada mais insensato do que rotular as pessoas de “pobre de direita” e de “esquerda caviar” com o propósito de desqualificar suas bandeiras. Até porque, esquerda e direita, na atualidade, significam muito pouco ou quase nada quando tomamos como referencial as suas representações hegemônicas um tanto descaracterizadas. Quando as expressões direita e esquerda, respectivamente, se juntam a pobre e a caviar a coisa fica pior ainda. Especialmente neste contexto polarizado das disputas de narrativas nas redes digitais que têm se reduzido a xingamentos e agressões.

Ainda que direita e esquerda não tivessem perdido tanto seus significados, ter nascido pobre ou rico não descredenciaria nenhum cidadão para militar em um ou outro desses espectros políticos. O imperativo definidor de tal ou qual filiação deveria ser o desejo, o sentimento de pertença a determinado regime, cultura ou grupo, de seus ideais e parâmetros éticos, estribados em convicções pessoais e na livre vontade. Nesse ponto, não podemos nos esquecer de que tudo isso tem a ver com liberdade, e liberdade tem implicações e princípios. Além daqueles destacados nos ideais da Revolução Francesa, igualdade, liberdade e fraternidade, pelo menos mais dois poderiam ser incluídos: consciência e responsabilidade.

Esse é um fio enorme que se puxado traz uma série de conceitos e categorias de vários saberes e conhecimentos transdisciplinares. Mas esse novelo não será desenrolado academicamente. A intenção aqui é apenas uma singela tentativa de alertar para não incorrermos em erro tão grosseiro e despropositado, seja por ignorância ou por mau-caratismo. Na maioria das vezes a incoerência caminha a par e passo com o nosso comportamento. Se os escritos marxianos e os mais renomados marxistas advertem para a dificuldade de se ter consciência de (nossa própria) classe, o quão arriscado, para não dizer leviano, é fazer julgamentos farisaicos sobre a conduta de outrem, classificando-as de contraditórias ou bizarras.

Os partidos e as principais lideranças de nosso país têm se descuidado da formação política da população. Enredados em seus projetos de poder, a preocupação dos principais atores políticos brasileiros se resume a interesses eleitoreiros, o que também significa do ponto de vista dos dirigentes partidários, a mera multiplicação de filiados e a arregimentação de uma militância subserviente e de milícias digitais, dispostas a qualquer coisa para defender pautas pouco compreendidas, impostas pelos cartolas das siglas.

Vivemos no Brasil um falso embate entre direita e esquerda, quando na verdade o que há é somente uma guerra de narrativas, com pouquíssimas ações concretas coerentes com as promessas demagógicas de combate à desigualdade, divisão da riqueza e de bem-estar social. O que temos de fato é que a direita hegemônica radicalizou e se transformou em extrema direita e o partido que melhor representava os ideais da esquerda em nosso país foi quase obrigado a se deslocar para centro-esquerda para chegar ao poder. E para continuar no poder foi ao centro e, depois, para voltar ao poder, deu uma guinada para uma quadra que muitos consideram de centro-direita. Coisas que se eternizam nas Terras Brasilis.

Em meados do século XIX as disputas entre liberais e conservadores não eram tão distintas. Boris Fausto em, História do Brasil, observa que a política desse período – mas não só dele –, não se fazia em termos de objetivos e princípios ideológicos rígidos. A maior preocupação dos políticos era chegar ao poder para obter prestígio e benefícios para si próprios e para os seus apaniguados. Conservadores e liberais utilizavam-se dos mesmos recursos para lograr vitórias eleitorais e quando estavam no governo não apresentavam atitudes muito diferentes. Desde a redemocratização, direita, centro-direita, centro, centro-esquerda, direita, extrema direita e agora, uma frente amplíssima, de centro para centro-direita, que insiste em ser tratada como esquerda, se revezam no poder e fazem perpetuar o neoliberalismo, com uma ou outra política compensatória aqui e acolá, enquanto o hipercapitalismo nada de braçada.

Então raciocinemos: se nem mesmo em períodos históricos mundiais em que esquerda e direita poderiam ser compreendidas como categorias em que, para além de convicções, comportamentos e ações coerentes, a condição econômica não era definidora da simpatia por um ou outro campo político, imagine na atual conjuntura. Vivemos um momento histórico em que a mobilidade social aumentou e segue acelerada – para baixo, para cima e para os lados – onde a globalização e a transnacionalização da cultura, da política e do capital transformaram a pirâmide social em uma verdadeira torre de babel.

Para cada um Engels, existem dezenas de riquinhos/as que vêm a esquerda como um promissor mercado consumidor e a explora com militância de fachada para a comercialização de inúmeros produtos. Do outro lado, centenas de pobres de origem ascenderam econômica e financeiramente, cerraram fileiras à direita e são macaqueados por milhares de outros pobres que neles se miram na expectativa fantasiosa de subir alguns degraus. Sem contar os encarapitados nas burocracias partidárias e nas hierarquias do Estado que ao chegar ao poder se locupletam, mas não abandonam suas retóricas ideológicas para não perder palanque.

As simplificações do que deveria ser programático, o empoderamento como favor e as constantes substituições das competências pelo lugar de fala, empobreceram o debate e vêm nivelando por baixo a dinâmica da vida social e política. O negacionismo científico pela direita e a desvalorização da expertise pela esquerda, abriu flancos para a total desqualificação da política. De um modo geral, o mundo político está infestado de oportunistas, gente acrítica e uma legião de analfabetos políticos. Se falta instrução, consciência e formação política, sobra basismo, ativismo inconsequente, romantização da pobreza por parte de alguns deslumbrados da classe média e a prática reiterada de estelionatos eleitorais.

A razão tem se tornado meramente instrumental, pragmática. No passado, a frase, “os fins justificam os meios”, atribuída a Maquiavel, era refutada com a assertiva que defendia a importância dos meios, uma vez que os meios também são importantes e definem a natureza dos fins. Aldous Huxley, na obra, Ends and Means, trabalha essa questão de forma bastante equilibrada. Sem conhecer e considerar os fins, como horizonte, os meios serão usados erradamente. Mas, na atualidade, os fins últimos deixaram de ser considerados. O foco está concentrado única e exclusivamente no pragmatismo dos meios. Tudo o que importa são ações táticas emergenciais, reações e bordões, desprovidos de quaisquer estratégias de aproximações sucessivas na direção de um fim último. É o reinado dos arrivistas, demagogos e influencers com suas copys cheias de gatilhos mentais e trends a gosto dos algoritmos.

Entre tantas dissonâncias não é difícil concluir que as expressões “pobre de direita” e “esquerda caviar”, não devem ser interpretadas como incoerentes, tampouco como xingamentos. Como já foi dito, ser de origem pobre ou rica não delimita a opção política de ninguém. Entretanto, na contemporaneidade, tal autorreconhecimento ou acusação, por via de regra, tem sido falta de educação política e/ou de consciência de classe, ou hipocrisia mesmo.


*O autor é comunicólogo e jornalista. 
Doutor em Educação e mestre em Artes Visuais. 
Trabalha com Educação comunicacional e midiática.

terça-feira, 23 de setembro de 2025

O BURACO É MAIS EMBAIXO

(Foto: José Cruz da Agência Brasil / EBC)

 

O colapso dos Sistemas 

e os sequestros das Instituições


Eugênio Magno*

As Crises são plurais. Quando achamos que já estamos no fundo do poço, somos lançados para profundezas ainda mais abissais. Mas já disseram que não vivemos uma época de crise, mas uma crise de época.

O hipercapitalismo não dá trégua. O dinheiro tem sido a régua do mundo e o capitalismo não é exclusividade do mercado e de nações tradicionalmente capitalistas. Países socialistas e comunistas também se renderam a esse sistema econômico. Para minimizar a aberração, apelidaram o modelo de capitalismo de estado. Ainda que pese certos benefícios socioeconômicos destinados às populações locais, o resto do mundo sofre cada vez mais os impactos dessa sanha das grandes potências em aumentar a dependência dos países do sul global, o controle do mundo e de suas riquezas.

A extrema direita avança mundo afora e as sandices de Donald Trump que encarna o papel de imperador global extremista parecem não ter fim. O tarifaço imposto por ele a vários países que têm os Estados Unidos da América como principal país importador de seus produtos é uma grande ameaça para a economia de muitas nações. Mas é também uma jogada extremamente arriscada para as recalcitrantes pretensões estadunidenses. Empurra vários estados nacionais para os BRICS e para um maior alinhamento com a China o que compromete a ruidosa hegemonia norte-americana.

No Brasil, país estratégico no mapa da geopolítica econômica mundial, as repercussões dessas medidas são desestabilizadoras, não só economicamente, mas também e, principalmente, no campo político. Estamos às vésperas de um novo ano de eleições presidenciais e um dos principais atores nessa corrida é o ex-presidente, Jair Bolsonaro. Apesar de condenado pela justiça por tentativa de golpe de estado e de estar inelegível, é possuidor de grande capital político, conta com o apoio de Trump e é o principal representante da extrema direita em nosso país. 

Desde a prisão domiciliar de Bolsonaro sua família se mobilizou a ponto de um dos seus filhos, Eduardo Bolsonaro, abandonar a cadeira de deputado federal e se juntar a outros bolsonaristas nos Estados Unidos para articular com o governo estadunidense anistia para o seu pai e o impeachment do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes. As investidas da família do ex-presidente já garantiram a aplicação da lei Magnitsky para Alexandre de Moraes e sua esposa e o cancelamento do visto de passaportes norte-americanos de mais sete juízes da Suprema Corte Brasileira e de familiares de outros membros do governo. Como se não bastasse, Donald Trump resolveu taxar os produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos, em 50%, com a desculpa de retaliação à justiça brasileira por não conceder anistia a Jair Bolsonaro.

Surfando na onda das ameaças dos EUA e dos posicionamentos tresloucados da família do ex-presidente, a bancada bolsonarista no Congresso Nacional, tomou de assalto as mesas diretoras do Senado e da Câmara, impedindo o funcionamento das duas casas. A proposta dos celerados era colocar em pauta votações de impeachment do ministro Alexandre de Moraes e de anistia para os golpistas de 8 de janeiro de 2023, além de impedir a votação de pautas de interesse do governo, como a da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até cinco mil reais mensais. O que mais causa espanto é saber que a atitude desses parlamentares e a investida de Donald Trump contra a soberania nacional tem o apoio de governadores de importantes estados da federação e de um grande número dos – ditos, patriotas – eleitores de Bolsonaro.

Com tudo isso e mesmo com o voto descabido, do ministro do STF, Luiz Fux, o julgamento aconteceu e, à despeito das ameaças sofridas, a primeira turma do Supremo decidiu pela condenação de Bolsonaro e de vários integrantes do núcleo principal da tentativa de golpe, por quatro votos a um. Carmem Lúcia, Flávio Dino e Cristiano Zanin acompanharam o voto do relator, Alexandre de Moraes. Sobre o ministro, Moraes, é importante ficar claro que ele não é o algoz de Bolsonaro. Embora Alexandre de Moraes venha se mostrando o mais apto entre os ministros para a condução de processos como esse, agiu em nome da Corte Suprema. É um dos onze ministros do Supremo Tribunal Federal e, por sorteio, calhou de ser a sua turma a conduzir o julgamento e ele ser o relator do processo envolvendo o ex-presidente, Jair Messias Bolsonaro e mais sete dos participantes da tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, entre eles, vários generais. É preciso que o povo brasileiro pare com a mania de estar sempre em busca de um salvador da pátria para depositar em tal pessoa o poder de definir os rumos do país. Isso é ruim para a nação e para os poderes constituídos, além de dar a esses eleitos um protagonismo que os coloca – para a opinião pública – acima das instituições que representam.

O Brasil vive momentos difíceis. São muitos os problemas a serem enfrentados e o governo necessita de muito mais força e fôlego para dar conta de tantos desatinos. Embora seja um governo de frente ampla e mesmo tendo o Centrão em sua base de apoio, um arranjo articulado para conter o avanço do bolsonarismo, argumenta não conseguir maioria no Congresso para aprovar suas pautas. Contabiliza sucessivas chantagens da Câmara dos Deputados e, não se sabe porque, continua cedendo às suas constantes exigências. As várias e históricas práticas duvidosas dos congressistas, que já foram apelidadas de quinzinho (%), mensalinho, mensalão e orçamento secreto – agora escancaradas como emendas parlamentares –, alimenta a boca grande de parlamentares de todos os partidos e continua sendo a moeda de troca dos governos da vez.

É preciso ser muito ingênuo para acreditar que as emendas beneficiam apenas o Centrão e a extrema direita. Contudo, ainda assistimos eleitores fanáticos das duas principais correntes políticas trocando acusações sobre a destinação dessas verbas para apoiar determinados projetos de apadrinhados dos seus opositores, como se o mesmo não acontecesse com os seus políticos de estimação. A prática é comum não apenas na Câmara Federal, mas também nas casas legislativas estaduais e municipais. E em razão dessa prodigalidade viciosa atender a todos os parlamentares, nenhum deles arrisca barrar sua continuidade para não ficar de fora da partilha. Esse negócio é um vespeiro. Se resolverem investigar a fundo vai respingar pra todo lado e poderemos ter muitíssimas surpresas.

Ulisses Guimarães realmente estava correto, a cada pleito temos um Congresso pior do que o anterior. Tem quem atribua a responsabilidade ao povo que o elege, mas essa não é a verdade. O povo vem sendo constantemente enganado. Os parlamentares – eleitos para representar o povo –, em sua maioria, só fingem compromisso com o eleitor nos períodos de campanha. Durante seus mandatos defendem apenas interesses próprios e os dos grupos empresariais e políticos a que pertencem. O lamentável é que os governos de plantão discursam contra, mas não enfrentam pra valer a situação e ainda pagam pela canalhice. No verdadeiro leilão que acontece quando da votação de pautas econômicas e sociais, dá para imaginar o quão difícil dever ser para alguns congressistas decidirem a quem vai trair, se o governo ou os ricaços, afinal é muita grana, tanto de um lado quanto do outro. Na dúvida, traem o povo, como sempre, e ainda têm a cara de pau de exigirem respeito quando a população os chama de traidores da pátria.  

Os três poderes da república têm perdido a capacidade de atuar como freios e contrapesos do Estado democrático de Direito. As constantes invasões de fronteiras de um dos poderes naquilo que se configura como atribuições constitucionais de outro poder descredibilizaram as instituições republicanas que se veem mergulhadas numa crise de identidade sem precedentes. 

As engrenagens do Estado Brasileiro carecem de muito azeite para se ajustarem. Por mais que o Executivo seja o poder que mais desperta paixões, por ser o de maior visibilidade e em razão de vivermos sob a égide de um regime presidencialista, esse é o poder que menos tem tido poder real em nosso país. É notória a judicialização da política, assim como a politização da justiça. O sequestro de pautas, projetos, propostas de leis e orçamentos, propicia a alegação do status de refém por parte dos poderes, em rodízio, e institucionaliza o tráfico de influência tornando tais práticas oficiais, “legais”. São muitos os acordos, nepotismos diretos e cruzados, usos e apropriação de bens e de divisas públicas em benefícios privados. Isso para não falar dos salários altíssimos e dos penduricalhos remuneratórios como auxílio-paletó, apartamentos funcionais, carros, motoristas, combustível, auxílio-mudança, pagamento de escola para filhos, convênio médico, vale-alimentação, cartão corporativo e otras cositas más, como as rachadinhas, que não deveriam ser verbalizadas no diminutivo.

Em meio a tantos arranjos no andar de cima, envolvendo a cúpula do poder, só quem perde é o povo, especialmente os da média classe média para baixo, uma vez que os endinheirados se locupletam com políticos e gestores da alta administração pública. Essas conveniências entre o capital, a política e a administração pública nos remete a um tempo em que a grande imprensa, apesar dos seus comprometimentos, ainda tinha em seus quadros, profissionais que ousavam desafiar o sistema e denunciavam os abusos. Nos idos de 1970, em plena ditadura militar, o diretor de redação do jornal Estado de São Paulo, Fernando Pedreira, encarregou o jornalista, Ricardo Kotscho de coordenar uma série de reportagens, apoiado pelas sucursais do jornal em vários estados brasileiros, sobre as mamatas dos superfuncionários do estado. A matéria que durou várias semanas era chamada de “o escândalo das mordomias” e dava conta dos privilégios e das ilhas de bem-viver de ministros de estado e altos funcionários civis e militares de primeiro, segundo e até de terceiro escalão. Mais de meio século se passou e nada mudou de lá para cá.

Recentemente, o fundador do Instituto Conhecimento Liberta (ICL), Eduardo Moreira, lançou o manifesto “Somos 99%”. A campanha tinha como mote, “Por um Estado Ético, Justo e Transparente” e denunciava os privilégios do 1% mais rico da população, responsável por concentrar 63% da riqueza, além de criticar os abusos de políticos fisiológicos e servidores com altos salários. As principais reinvindicações do manifesto são as seguintes: Fim dos supersalários no setor público; extinção das emendas secretas; redução da carga tributária sobre os trabalhadores; tributação mais justa sobre os mais ricos; combate à impunidade entre políticos, juízes, empresários, banqueiros e militares; divulgação ampla do Portal da Transparência; Cobrança de dívidas bilionárias de grandes latifundiários e empresas; proibição de eventos públicos considerados “vergonhosos” e sem transparência. O manifesto, em forma de abaixo-assinado, embora tenha contado com mais de 400 mil assinaturas e a adesão de muitos parlamentares de vários partidos, ainda não provocou uma ação efetiva na direção para a qual aponta.

O povo não é bobo, mas os excessos retóricos confundem os incautos que, teleguiados pela irresponsabilidade de alguns influenciadores, não percebem o quanto governo e oposição se contradizem no discurso e na ação, e como o jogo político tem se transformado em guerra de torcidas com foco único e exclusivo em eleições. Sobram oportunismos, populismos e propaganda. E com a internet, as disputas políticas se apequenaram ainda mais. O discurso eleitoreiro tomou o lugar da grande política e do debate de projetos para o país. Quem tem senso crítico compara o comportamento dos militantes fanáticos com o das mais raivosas torcidas de futebol. É só gozeira, ataques odiosos, memes, mentiras e falatórios desconexos. Uma demonstração cabal de analfabetismo político e total desconhecimento dos verdadeiros interesses que estão em jogo. É como se estivéssemos permanentemente em campanha eleitoral, enquanto a malversação do dinheiro público impera, a população empobrece e as narrativas alienantes manipulam as massas. Os fatos estão aí, só não enxerga quem não quer.

As fraudes no INSS, por exemplo, há quem diga que começou no governo passado. Outros dizem que é herança do mandato de Michel Temer. Entretanto, elas continuaram nesse governo. Faz tempo que a Procuradoria Geral da República (PGR) denunciou, mas só agora veio à tona. E enquanto as falcatruas continuavam deu tempo de o governo e os seus ministros – do Executivo e do Judiciário –, jogarem mais uma vez contra o povo. Nesse caso, contra os aposentados, ao limitar reajustes, retirar benefícios já conquistados, como os do BPC e derrubar direitos, como o da revisão da vida toda, cujo impacto no caixa do INSS seria bem menor do que os valores até então contabilizados nas fraudes.

O governo tem falado em taxar os super-ricos, mas com dinheiro carimbado para políticas sociais. Pois, como ainda existe o teto de gastos (novo arcabouço fiscal), o imposto cobrado dos mais ricos pode voltar para eles no pagamento dos juros da dívida. Muitos brasileiros ainda não entenderam que a cobrança de IOF proposta não é para a taxação dos super-ricos. A taxação dos super-ricos morreu na praia. Foi anunciada de manhã e no final da tarde o próprio governo voltou atrás. IOF é Imposto sobre Operações Financeiras e atinge todo mundo, de forma direta ou indireta. Qualquer cidadão que faz algum outro investimento fora da poupança será ser taxado. É imposto sobre juros e consumo. Vai dificultar a vida do médio, pequeno e até do micro empreendedor que pagará mais impostos e, claro, vai repassar esses custos para o consumidor final. Em termos de “bondades”, a única coisa que o governo conseguiu acenar para o povo nesses três anos foi a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até 5 mil reais mensais. Mesmo assim, até a publicação deste artigo a proposta se quer tinha sido votada.

Mas isso não é tudo. Muitas outras coisas estranhas têm acontecido. É assombroso que muitas delas ocorram entre os próprios governistas. De cara limpa, duas grandes lideranças petistas no Senado, votaram pelo PLP do aumento do número de parlamentares. Na sequência, deputados proeminentes do campo progressista, alguns deles do próprio PT não estavam presentes na votação do PL da Devastação. Foram necessários os vetos de Lula para impedir esses dois projetos de lei. Pergunta-se: é uma jogada ensaiada onde parlamentares vão para o sacrifício de ficar mal com a opinião pública, apoiando ou se isentando de barrar maluquices, para abrir chances do presidente Lula exercer seu poder de veto e ganhar mais simpatia, ou é bate-cabeça mesmo? As duas alternativas são ruins para o PT e para a base governista. Melhor para Lula que, com essas e outras vai recuperando aprovação, ainda que a situação do país, em geral, seja uma das piores das últimas décadas.

A incontestável liderança longeva de Lula como representante do campo democrático progressista, somada ao seu prestígio internacional, carisma pessoal, mas também a um personalismo obstinado, impediram a formação e a projeção de novos líderes no campo da esquerda por décadas. E como todos sabem, uma liderança não se constrói da noite para o dia. O ano de 2026 se aproxima e só se ouve falar em Lula como alternativa para impedir a volta da extrema direita ao poder. Em razão da deliberada falta de opções, ocasionada pela recorrência de erros sequenciais por parte dos progressistas, muito provavelmente ele deverá ser o candidato, e se isso acontecer, certamente, será o vencedor. Sua vitória, a curto prazo, será muito boa para mais uma tomada de fôlego do Partido dos Trabalhadores e para o seu projeto de poder, mas pode ser péssima para o líder, Lula. Corre o risco de ganhar e não governar e, depois de tanto prestígio, se ver numa maré baixa. Logo ele, que figura entre os melhores presidentes do Brasil de todos os tempos, cuja aprovação popular já chegou a 87%.

A despeito das críticas que podem ser feitas a Lula, a esse governo de frente ampla e ao STF, não podemos nos esquecer da truculência com a qual a extrema direita tem agido, das ameaças à soberania nacional e do mal que o bolsonarismo tem causado à república e, consequentemente, à política, à democracia e ao tecido social brasileiro. E não nos enganemos, esse Congresso, com raríssimas exceções, é uma vergonha. Nos últimos dias, a deputada Bia Kicis (PL/DF), renunciou da condição de líder da minoria para que seja nomeado em seu lugar, o deputado que deveria estar sendo cassado por ter abandonado sua cadeira no Parlamento, Eduardo Bolsonaro (PL/SP) que, enquanto recebe salário pago pelo povo brasileiro, trama contra o país nos Estados Unidos da América do Norte. Ainda que não passe no Senado ou o STF venha a derrubar outros absurdos aprovados na calada da noite, os deputados federais emplacaram a anistia para os golpistas e os arruaceiros de oito de janeiro e a PEC da Bandidagem. Essa última contou, inclusive, com votos de 12 deputados do PT e de mais outras tantas dezenas de votos de integrantes da base do governo. Os únicos partidos que não votaram a favor dessa aberração foram o PSOL, o PCdoB, a Rede Sustentabilidade e o Novo.

Contudo, e ainda que sem muita esperança, a população está atenta. No último domingo, dia 21 de setembro, o povo que já não aguenta mais tanta traição, encheu as ruas do país para protestar contra o tresvario desse que tem sido considerado o pior Congresso da história do Brasil. 


*O autor é comunicólogo e jornalista. 
Doutor em Educação e mestre em Artes Visuais. 
Trabalha com Educação comunicacional e midiática.

quarta-feira, 14 de maio de 2025

O PIBÃO E OS POBREZINHOS



O Brasil não é nenhuma Shangri-La


Eugênio Magno
(Texto e fotos)

A insistência em basear a saúde econômica do país na manutenção do superávit primário, cumprimento do teto de gastos, defesa intransigente do famigerado arcabouço fiscal e a fantasia da alta do PIB e do crescimento da economia não se sustentam.

Em poucos minutos de caminhada pela principal avenida do centro comercial de Belo Horizonte, uma das mais importantes capitais brasileiras, é possível deparar com uma realidade estarrecedora. O número de pessoas em situação de rua cresceu assustadoramente e o comércio de rua se mostra em franco declínio, para dizer o mínimo. Este quadro não é exclusividade da capital mineira, tampouco do estado de Minas Gerais. O país inteiro sofre as consequências do aprofundamento das políticas econômicas neoliberais que não se mostram diferenciadas, tanto em governos de direita, quanto de esquerda.

Com exceção dos muito ricos, do alto escalão do governo, da classe média alta e de alguns setores da burocracia estatal, os brasileiros da média classe média para baixo estão em queda-livre, abandonados à própria sorte.

Há mais de duas décadas quem tem juízo e consciência crítica alerta para o perigo do pragmatismo excessivo e dos projetos de poder a qualquer preço.

Palavras, mesmo as mais carregadas de significado e imagens não têm sido ouvidas, muito menos lidas. Ainda que, também, desgastadas pelo seu uso indiscriminado, esta matéria se completa com instantâneos de uma crua e ignorada realidade, reiteradamente falseada pelos donos do poder.


 














terça-feira, 2 de janeiro de 2024

O TREM NÃO É TÃO BÃO QUANTO QUEREM QUE PAREÇA SER

 

(Imagem: Site Uol Notícias)


Balanço do primeiro ano 

do terceiro Governo Lula

O primeiro ano de um governo – qualquer governo –, é um período de créditos e crendices. Dá-se crédito para que o novo governante tome pé da situação, estruture a governança, trace a rota, abasteça a máquina e coloque o trem para andar na direção traçada e esperada. A população põe fé, acredita. Cruza os dedos, cada um reza para o seu santo e aguarda a partida. No nosso caso, a arrancada foi tumultuada, lenta e obstaculizada.
Embora muitos tenham ficado na plataforma e outros nem tenham chegado à estação, o trem partiu, apinhado de gente e com uma parte da tripulação nada confiável. A paisagem não era e continua não sendo das mais agradáveis de se ver. São muitos túneis e precipícios. E o trem parece se mover em slow motion.
O economista que exerceu a função de porta-voz da presidência da república no primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, André Singer, professor titular do Departamento de Ciência Política da USP e autor do livro, O lulismo em crise e Fernando Rugistsky, professor de economia da University of the West of England, em Bristol, onde também é codiretor de pesquisa em economia, fizeram um balanço do primeiro ano do Governo Lula, no site A Terra é Redonda.

Eles analisam a situação por dentro e assim também procedo na leitura do artigo e dessa nossa realidade sofrível. Abaixo, um breve trecho do artigo, escrito por dois progressistas (reitero), setor com o qual também estou alinhado, que nos ajuda a compreender a situação:


Após ter vencido à frente de um heterogêneo ajuntamento de salvação democrática, o presidente decidiu entoar a melodia lulista clássica: fazer, no atacado, concessões à burguesia e, no varejo, buscar as brechas por meio das quais consiga beneficiar, em alguma medida, os segmentos populares. Só que o tema vem se desenvolvendo em andamento lentíssimo, tornando duvidosos os movimentos previstos para os períodos eleitorais de 2024 e 2026.*

Nunca é demais lembrar que, apesar de uma breve descontinuidade medonha, este é o terceiro mandato de Lula e lá se vão 15 anos de PT no comando do país. Portanto, falta de experiência política não é. Será que nada foi apreendido ou teremos que “esperar momento mais propício”, mais uma eleição geral para elegermos um parlamento comprometido com as urgentes reformas pelas quais o país grita? Como dizia o doutor Ulysses Guimarães, “se acham esse parlamento ruim, espere para ver o próximo”.
No primeiro mandato de Lula não era tão diferente. Lembram do mensalão? Pois é, ele vem de anos, com nomes diferentes.
Se Lula em 1993 denunciou o toma lá dá cá do congresso que virou até música dos Paralamas do Sucesso – “Luíz Inácio (300 picaretas)”, do LP Vamo batê lata / 1995  –, a maracutaia já era braba imagine agora com 513 e entre eles representantes de milicos e milícias, tráfico, setor financeiro, fisiologismos, populismos e bancadas do boi, da bala e da bíblia?
Em 2024 o governo necessita de apoio irrestrito da população, mas também de muitas críticas, cobranças e povo na rua.

* Clique aqui e leia também a íntegra do artigo de André Singer e Fernando Rugistsky para entender as estratégias que estão sendo adotadas pelo governo.


sexta-feira, 5 de novembro de 2021

ANIVERSÁRIO DO PODCAST POLÍTICA COM FÉ


O podcast "Política com Fé", produzido e apresentado por Eugênio Magno está comemorando seu primeiro aniversário. Em 5 de novembro de 2020, com o episódio # ZERO - Fé, Espiritualidade e Política, trouxemos para a plataforma Anchor/Spotify, a primeira edição do podcast, enfrentando todas as dificuldades que um estreante em uma mídia com a qual não tem intimidade enfrenta.

Fé e Política é o tema explorado neste podcast. Com base na Doutrina Social da Igreja Católica (DSI), refletimos, analisamos e discutimos temas relevantes da política nacional e da geopolítica mundial à luz do Evangelho. Inspirados pelo papa Paulo VI que disse: "a Política é a forma mais sublime de fazer caridade", pretendemos contribuir para desfazer o equívoco de muitos que julgam ser uma política incompatível com a fé e a espiritualidade.

POLÍTICA COM FÉ é um podcast que tem como propósito educar e informar a população e contribuir para a diminuição de analfabetos políticos no Brasil.

Ao longo desse primeiro ano de existência o podcast vem conquistando, paulatinamente, novos ouvintes, um público qualificado e participante que ainda é pequeno, em números absolutos, mas que está presente em todos os Estados brasileiros e também em outros países, tais como: Áustria,  Estados Unidos, Chile, Portugal e Angola. 

Até a presente data já se somam 25 episódios do podcast, abordando vários assuntos em sua área temática. Para acessar, ouvir, baixar e partilhar com os amigos todos os episódios é só clicar em um desses links: Anchor FM-Eugênio Magno ou POLÍTICA COM FÉ, no Spotify.


terça-feira, 20 de julho de 2021

CRISE CIVILIZATÓRIA



Mbembe, necropolítica e crise da democracia


É sempre interessante quando as escritas acadêmicas passam a atingir o grande público. Nem toda pesquisa, é claro precisa ter esse objetivo, mas é excelente quando grandes obras cumprem este papel. Com os desastres anunciados do governo Bolsonaro, por exemplo, a obra do camaronês Achille Mbembe tem sido cada vez mais citada nas redes sociais, principalmente seu conceito de “necropolítica”. Como todo conceito amplamente difundido (ou, talvez, como tudo aquilo que cai nas redes), porém, há sempre o risco de esvaziamento de conteúdo.

Afinal, o que seria, então, a necropolítica? Uma primeira citação do próprio Mbembe dá o pontapé inicial para seu entendimento:

“A ideia segundo a qual a vida em democracia é, no seu fundamento, pacífica, policiada e desprovida de violência (nomeadamente sob a forma da guerra e da devastação) não nos convence. (…) a brutalidade das democracias nunca foi senão abafada. Desde as suas origens, as democracias modernas mostraram tolerância perante uma certa violência política, inclusive ilegal. Integraram na sua cultura formas de brutalidade levadas a cabo por uma série de instituições privadas agindo como mais-valia do Estado, sejam elas corpos francos, milícias ou outras formações militares corporativistas”.

A citação acima é recheada de sentidos. Percebe-se, por exemplo, que, para Mbembe, as democracias modernas não devem ser enxergadas como sistemas teoricamente perfeitos que, vez ou outra, são atingidos por violências e falhas externas. Para o autor, seja ela estatal, seja ela privada (ainda que igualmente ligada aos mesmos interesses do Estado), a violência é parte integrante da própria democracia. E isto não é fruto de alguma degeneração ou crise dos Estados democráticos, mas característica original e fundante dos mesmos.

Para continuar lendo a matéria de Almir Felitte para Outras Palavras, clique aqui.

sexta-feira, 16 de julho de 2021

ATÉ AONDE VAI A TOLERÂNCIA?

 

No Brasil, uma questão incômoda é a constatação de que Bolsonaro e seu séquito, além de todos os malefícios que vêm causando ao país, ao povo brasileiro e à nossa inteligência, de forma direta, parecem ter aberto as portas da insensatez e do descompromisso com a ética, a verdade e a dignidade. O bolsonarismo produziu não somente bolsomínions de raiz. Cresceu assustadoramente a desonestidade intelectual e o número de pessoas que passou a desconsiderar a materialidade dos fatos e que apostam repetida e estupidamente em narrativas distorcidas, arrebanhando seguidores tão maldosos ou incautos quanto eles próprios. 

Uma frase de Dostoiévski foi o leitmotiv para a reflexão, do novo episódio do podcast Política com Fé que já está circulando na internet. Diante de tantos fatos e acontecimentos que nos atropelam a todo instante, em várias situações, abordo a questão da tolerância: seus limites e possibilidades. Ouça o podcast clicando aqui.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

GOVERNO CAI NA SUA PRÓPRIA CILADA

O teto de gastos dificulta o cumprimento da regra de ouro?


Entre anúncios e recuos, uma coisa é certa: as contas do governo não fecham. Na tentativa de contemplar um orçamento que cresce, uma arrecadação que patina e uma regra que congela os investimentos pelos próximos 20 anos, o governo ventila mudar um dos pilares da Lei de Responsabilidade Fiscal, a regra de ouro, que impede o governo de contrair dívidas para custear a máquina pública.
Na prática, o governo criou uma cilada para si mesmo: ao congelar o investimento, dificultou o cumprimento da regra de ouro. E o não cumprimento pode ser considerado crime de responsabilidade. 
Na quinta-feira 4, veio a notícia de que o governo estudava flexibilizar a regra de ouro. Estaria em gestação uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) para suspender temporariamente punições, que incluem o impeachment, pelo não cumprimento da regra.
Pela PEC, seriam acionados automaticamente mecanismos de correção de rota, como proibição de criar novas despesas, contratar pessoal ou aumentar salários de servidores. Uma das propostas seria suspender a sanção até 2026, o mesmo intervalo de vigência do teto de gastos do governo.
Já na segunda 8 o governo recuou. No momento, a posição é essa: nada de mudanças. Segundo o Palácio do Planalto, o presidente Michel Temer "não aceita que a regra de ouro seja suprimida" e o assunto não será tratado neste momento, em que o governo tenta aprovar a reforma da Previdência.
Para continuar lendo a matéria de Dimalice Nunes para o site Carta Capital, clique aqui.