domingo, 19 de março de 2017

A VIDA INTELIGENTE DO PLANETA ENXERGA MUITO BEM


Deu no New York Times, não na Globo

 


Dalvit Greiner*


Para William Waack, do Jornal da Globo, quem esteve nas ruas nesta quarta-feira, dia 15 de março, foram os movimentos [auto] “intitulados” sociais. Ora, não sei qual escola de Sociologia que o jornalista frequenta ou frequentou em sua atividade universitária e intelectual, mas ficou-me a pergunta: quem esteve nas ruas esta semana?  Pelo tom do jornalista global um punhado de gente que se diz movimento social, mas que não é nem movimento nem social. As coberturas jornalísticas, salvo raríssimas exceções, ignoraram o movimento e focaram nas dificuldades que a população passou sem os serviços prestados por aqueles que estavam em manifestação pública. 
Claro que é assim mesmo. Qualquer movimentação que não provoque incômodo não cumpriu, minimamente, o seu objetivo. O incômodo desejado quando a base se mexe é derrubar o topo. Lição mínima da política. Mas, quando a base se mexe, mesmo quem não quiser sofrerá seus efeitos. É aqui que está o segredo da Educação: o esclarecimento. Dizer às pessoas, com palavras e atos, que os motivos que nos levam às ruas é um ato pedagógico, na medida em que visam conduzir uma opinião que seja favorável às nossas ideias. É um jogo desleal porque o fazemos com nosso único recurso: a garganta, ferramenta de trabalho de sujeitos que tem como meta, objetivo e sonho a mudança da sociedade. 
Na outra ponta os meios de comunicação social - lembremos que são concessões públicas e, portanto deviam servir ao público com todas as informações necessárias ao bom discernimento da sociedade - fazem um jogo do contrário: negam a informação, conduzem a opinião pública para os seus interesses que são contraditórios à sua função pública. Donos de grandes carteiras de propaganda e publicidade, a maior delas do Governo, fazem o jogo de uma elite que não consegue se autofinanciar. Querem um Estado mínimo para a sociedade trabalhadora para que ela continue produzindo a riqueza que a elite apropria. Querem um Estado máximo que os financie em sua incompetência capitalista. Mantem-se com o dinheiro público e, quando falem, recorrem ao dinheiro público com a honrosa desculpa da preservação do emprego de centenas, milhares de trabalhadores.  
Nos dias 13 e 14, anteriores ao iníco da Greve no dia 15, considerei um direito de minhas alunas e alunos conhecer os motivos de minha decisão. Tenho usado como metodologia em minhas aulas a leitura de notícias de jornais e documentos oficiais, além de vídeos que envolvam a História e a Geografia. Lemos trechos das reformas previdenciária e trabalhista. Discuti com eles na tentativa de demonstrar-lhes duas coisas, principalmente: quem produz a riqueza, quem se apropria da riqueza. A surpresa e o agrado quando concluem que nem o Estado nem as Instituições Religiosas produzem riqueza, que ninguém além do trabalhador produz riqueza é devastadora. Uma aluna, aproximadamente sessenta anos, confessou-se entristecida com a maldade de quem a explorou por tanto tempo. De tudo o que ela produziu e não se apropriou.  
Mas, o New York Times noticiou a nossa paralisação. Impossível não ver aqueles mares de gentes espalhados pelas principais cidades do país. Qualquer satélite espião veria aquela multidão. Qualquer pessoa distraída perceberia a movimentação na cidade. Qualquer manual de Sociologia do ensino médio ensina que aquilo é um Movimento Social. Enviarei o de José de Souza Martins para William Waack. 
Portanto, ignorar o Movimento Social é ignorar um povo que quer uma vida diferente totalmente compatível com a riqueza que produz. O Brasil é um país rico e o seu povo precisa saber disso. O clima político no Brasil, desde as eleições de 2014, é de Guerra Civil com uma elite atacando a população deste país que havia escolhido o rumo que queria manter. Uma elite que não sabe respeitar as regras do jogo e que apela, diariamente, para a violência. Lembremo-nos, portanto, do revide não odioso: um direito da população, uma verdade evidente. E o papel da Educação é, cada vez mais, qualificar essa guerra.

*Mestre em História da Educação pela Universidade do Estado de Minas Gerais - UEMG e professor de História na Rede Municipal de Educação em Belo Horizonte no Ensino Fundamental - Regular e Educação de Jovens e Adultos. Especialista em Gestão Cultural pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais - PUCMINAS  e Docência do Ensino Superior pela Escola Superior Aberta do Brasil - ESAB. 


(Fonte: Pensar a Educação em Pauta, Nº 151)


quarta-feira, 15 de março de 2017

INSTANTÂNEO DE MINHA TERRA


Montes Claros

Eugênio Magno


ESTRELA
estrela - CÉU
estrela, céu – POEIRA
estrela, céu, poeira – CHÃO
estrela, céu, poeira, chão – SOL
estrela, céu, poeira, chão, sol – CHUVA, NÃO
estrela, céu, poeira, chão, sol, chuva, não – SERTÃO

ESTRELA, CÉU, POEIRA, CHÃO, SOL, CHUVA, NÃO: SERTÃO

(Do livro Poetas En/Cena-2, Belo Horizonte: Belô Poético, 2008. Pág. 64)

A POESIA QUEBRA AS CERCAS DA UNIVERSIDADE


Unimontes concederá o título de Doutor

Honoris Causa ao poeta Aroldo Pereira


O Conselho Universitário (Consu) da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes) aprovou a concessão do titulo de Doutor Honoris Causa ao poeta norte-mineiro Aroldo Pereira, autor de vários livros, idealizador e coordenador do Salão Nacional de Poesia Psiu Poético, realizado anualmente em Montes Claros e que completou 30 anos interruptos em 2016. A proposição do titulo foi feita pelos professores e conselheiros Antônio Wagner Rocha e Mônica Maria Teixeira Amorim.
 A entrega ocorrerá em sessão solene do Conselho Universitário, prevista para abril próximo. O título de Doutor Honoris Causa é a mais importante distinção concedida pelas universidades em todo o mundo.
Na proposição, os professores Antônio Wagner Rocha e Mônica Maria Teixeira Amorim ressaltam que o titulo de Doutor Honoris Causa também é concedido a "personalidades que tenham se distinguido pelo saber ou pela atuação em prol das artes, das ciências, da filosofia, das letras, da administração pública, do bem-estar humano ou do melhor entendimento entre os povos".
Desta forma, "ressaltamos, pois, que esse título pode ser dado a quem tenha exercido um importante trabalho não apenas no campo das ciências, mas em outros campos de atuação que também são importantes para a humanidade como a literatura, a arte, a cultura, a política, a promoção da paz, entre outros", enfatizam.
Os proponentes acrescentam: "convém destacar que Aroldo Pereira é uma personalidade merecedora desta importante honraria, pois  trata-se de um poeta de reconhecido destaque com projeção regional e nacional no tocante à sua produção artística e literária".  Citam ainda o "exitoso trabalho" do homenageado na coordenação do Salão Nacional de Poesia Psiu Poético,  "evento caracterizado por um amplo alcance social e que em 2016, completou 30  anos de existência em defesa da educação, da arte, dos direitos humanos e da poesia brasileira".
A obra de Aroldo Pereira é enaltecida pela professora Ivana Ferrante Rebello, doutora em Literaturas de Língua Portuguesa e integrante do Departamento de Comunicação e Letras da Unimontes. "Negro, pobre, poeta”, como se lê em seus versos, ele consegue representar a dor da exceção em inquietude e luminosidade, que são atributos de sua arte. Aroldo Pereira é poeta de muitos livros publicados, músico, performer, ator: onde quer que se veja um espaço de arte, lá está ele, participando, chamando à luz a poesia envergonhada, invadindo de verso, irreverência e cor a cidade que, paulatinamente, se rende ao concreto e ao silêncio", descreve Ivana.
Ao destacar o trabalho do homenageado e o alcance do Psiu Poético, ela salientou: "por essas razões, a Unimontes, cujo papel é promover a cultura, a educação e o saber por meio do ensino, da pesquisa e da extensão, concede-lhe, com justiça, o título de Doutor Honoris Causa". Segundo a professora  Ivana Rebello, "a Unimontes,, com a concessão desse título, evidencia que enxerga além de suas salas e laboratórios".
        "Estou muito agradecido pela iniciativa e pelo o reconhecimento da nossa Universidade Estadual de Montes Claros”, declarou o poeta Aroldo Pereira, ao ser comunicado da concessão da honraria.: “Os reconhecimentos são sempre bem vindos. Acredito que nesse momento em que vivemos com descrédito nas pessoas e nas pequenas coisas, que um reconhecimento imaterial, mas imenso como esse, nos humaniza e engrandece cada vez mais" afirmou ele.

BIOGRAFIA E REFERENCIA DE ESTUDOS
Natural de Coração de Jesus, foi em Montes Claros que João Aroldo Pereira encontrou  inspiração para escrever suas obras, como "Canto de encantar serpente",  "Azul geral", "Hai-kai quem quer" e "Doces pérolas púrpuras", publicadas na década de 1980.
Ele publicou os livros "Cinema bumerangue" (1997), "Parangolivro" (2007), indicado para o Mestrado em Letras/Estudos Literários(em 2008) e para o Processo Seletivo/2011 da Unimontes.
Pereira é também co-autor de “Antologia da moderna poesia brasileira" ( 1992), Signopse – a poesia na virada do século (1995), Cantária (2000), Trinta anos-luz: poetas celebram 30 anos de Psiu poético ( 2016), entre outros. Seu nome consta como verbete da Enciclopédia de Literatura Brasileira, organizada por Afrânio Coutinho e J. Galante de Souza (Fundação Biblioteca Nacional/Academia Brasileira de Letras, 2001).
O legado literário do escritor também se tornou objeto de estudos e pesquisas acadêmicas. Artigo de autoria da professora Ivana Ferrante Rebello, com o título “Versos e parangolés: a poesia marginal de Aroldo Pereira”, foi publicado na revista "Estação Literária" (volume 12) da Universidade Estadual de Londrina (UEL). A tese aborda aspectos fundamentais para a compreensão do exercício criador e inventivo do poeta norte-mineiro.
“Marginal e herói: pintura e música na poesia de Aroldo Pereira” é outro artigo de destaque que foi produzido pelo professor e escritor Gilson Neves, mestre em Estudos Literários pela Unimontes. O texto ressalta  "caráter revolucionário desta escrita que encontra nos acontecimentos da vida comum dos homens a sua possibilidade de reflexão". A Revista Eletrônica do Programa de Pós-Graduação em Letras/Estudos Literários da Unimontes também deu destaque para a obra do poeta Aroldo Pereira, dedicando espaço para resenha escrita pelo professor e compositor Élcio Lucas de Oliveira sobre o conteúdo de Parangolivro.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

CARNAVAL E DESEMPREGO: É POSSÍVEL DORMIR COM UM BARULHO DESSES?


Taxa de desocupação sobe e 
país soma quase 13 milhões de desempregados


A taxa de desocupados continua em alta e fechou o trimestre encerrado em janeiro em 12,6%, um crescimento de 0,8 ponto percentual em relação ao período de agosto a outubro do ano passado, quando estava em 11,8%. Com a alta do último trimestre, o país passou a contabilizar 12,9 milhões de desempregados.
Os dados, divulgados nesta sexta-feira (24), pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), fazem parte da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua.
Esta é a maior taxa de desemprego da série histórica iniciada em 2012 e também o maior número de desempregados da história.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

INTERNET MAIS CARA PARA QUEM É MAIS POBRE


Empresas de telecomunicações 
atualizam as desigualdades no Brasil

Sérgio Amadeu | Foto: CODE Ipea

No fluxo do lugar comum, somos levados a afirmar que hoje todo mundo tem acesso à internet no Brasil. Entretanto, ao embarcarmos na reflexão do sociólogo Sérgio Amadeu da Silveira, percebemos algumas nuances que revelam o ambiente virtual como mais um espaço que reitera e atualiza as desigualdades. Ele destaca que as pessoas mais pobres acessam a internet pela rede móvel e, ainda assim, com planos pré-pagos e franquias restritivas. “Os maiores entraves para a efetiva democratização da internet estão na concentração de renda, nos elevados custos da conexão no país e na falta de cobertura da banda larga nas regiões mais carentes”, aponta.
Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, o professor alerta que as propostas de cobranças por tráfego de dados de internet fixa fortalecem as empresas e jogam os custos entre os usuários de menor poder aquisitivo. “Isso vai elevar o custo-Brasil de conexão. Essa limitação de navegação prejudicará os segmentos mais pobres da sociedade”, alerta. Ele ainda destaca que, nesse debate, “o mais lamentável é que as operadoras de telecom afirmam que vão cobrar mais para nos beneficiar”.
Para o professor, é urgente ampliar o debate sobre as empresas de telecomunicações no Brasil e repensar suas relações com o Estado. “Precisamos de um grande plano de banda larga acessível a todos. Isso deve ser uma prioridade e exigirá investimentos públicos”, pontua. Sérgio Amadeu ainda destaca que é evidente o interesse das teles nos clientes da periferia. O problema é que as empresas “querem que a sociedade arque com os custos para que elas possam melhorar seus lucros”. Por isso, destaca a importância de se pensar em alternativas, que passam, por exemplo, por investimentos em pesquisa e projetos de cooperativas de conexão. “A conexão barata e de qualidade é condição fundamental para desenvolvermos serviços de alto valor agregado na economia informacional”.
Para ler a entrevista, clique aqui.
(Fonte Instituto Humanitas Unisinos - IHU)

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

PSIU ! . . .


Elogio do silêncio
Eugênio Magno

Escrever o quê Não posso escrever Não tenho palavras Minha voz murchou É só ausência A tela cinza do micro e a página em silêncio O silêncio interior é a palavra mais forte Futuro e passado são nada e o presente é esta síntese Procuramos tudo em todos os lugares sem saber que o que buscamos é o nada Só o nada nos leva à plenitude do ser Antes da nossa existência éramos nada e depois de existirmos novamente nos transformaremos em nada O que temos então agora é um pequeno parêntese entre o nada Portanto para ser pleno o agora também deve ser nada Façamos um vazio no presente e seremos preenchidos pelo nada Não teremos mais passado nem futuro e o presente será eternidade As harmônicas do silêncio devem ser a nossa música interna o nosso compasso a guiar o nosso passo pisando o finito em direção ao infinito O que existe já não me interessa O que vejo e o que ouço e sinto não me apetecem Busco o que não existe O que não vejo não ouço e não sinto Não me interessa o verso nem o inverso A ausência sim me acresce O concreto e até o abstrato já foram descritos O nada continua incógnito à espera de outros nada que cada vez mais o desclassifique Não posso falar do que já existe O que existe é e ponto O que não existe não é e reticências Gosto das reticências Tem gente que confunde reticências com interrogação Interrogação é linguagem dos cientistas reticências é linguagem de poeta Vírgula travessão também o são Até o ponto e vírgula é linguagem de poeta Exclamação serve às linguagens precisas da informação da certeza e da tola admiração Não tenho certezas não busco verdades Elas não existem por aqui Ir talvez seja voltar mas os iludidos vão na certeza de encontrar o fim Estou aprendendo a cultivar os nada A buscar o antes do início A matéria-prima do que existe é verdadeira criação o que fizeram dela é manipulação transformação A linguagem precisa precisa ser reinventada Ela já não diz mais porque diz muitas coisas que são e nós precisamos dos nada Somente o vazio e o silêncio da descida ao abismo do nada nos levará ao todo de tudo À presença do que sempre tem sido ausência Não posso continuar a escrever Não posso falar Não posso continuar a quebrar o silêncio As palavras já existem ou como dizia o poeta Drumond os poemas já estão prontos à espera de quem os encontre 
.

(Do livro Minas em Min, 2005, pág. 38)

O PAPA E A ECONOMIA


Não a uma economia que mata. 
Sim a uma economia de comunhão!



Economia e comunhão. Duas palavras que a cultura atual conserva bem separadas e, frequentemente, considera opostas. Duas palavras que vós, ao contrário, unis, aceitando o convite feito há 25 anos por Chiara Lubich, no Brasil, quando, diante do escândalo da desigualdade na cidade de São Paulo, pediu aos empresários que se tornassem agentes de comunhão. ”
Com essas palavras o Papa Francisco saúda os 1200 empresários, jovens e estudiosos reunidos para festejar os 25 anos de vida da Economia de Comunhão: “Há tempo eu estou sinceramente interessado ao vosso projeto. ” “Vós fazeis ver, com a vossa vida, que economia e comunhão tornam-se mais belas quando se coloca uma ao lado da outra. Mais bela a economia, certamente; mas, mais bela torna-se também a comunhão, porque a comunhão espiritual dos corações é ainda mais plena quando se torna comunhão de bens, de talentos, de lucros.”
Diante de um público extremamente atento, o Papa Francisco expressou três votos e fez recomendações. 
Primeiro, o dinheiro. “É muito importante que no cerne da Economia de Comunhão exista a comunhão dos vossos lucros. A Economia de Comunhão é também comunhão dos lucros, do dinheiro, expressão da comunhão de vida.” O Papa disse que o dinheiro: “torna-se ídolo quando se torna o objetivo (...). Foi Jesus que atribuiu ao dinheiro a categoria de Senhor. ” E ainda: “Entende-se, portanto, o valor ético e espiritual da vossa escolha de colocar em comum os lucros. O melhor e o mais concreto modo para não fazer do dinheiro um ídolo é partilhar o mesmo com outros, especialmente com os pobres (...). Quando partilhais e doais os vossos lucros, estais fazendo um gesto de alta espiritualidade, dizendo com os fatos, ao dinheiro: tu não és Deus, tu não és senhor, tu não és patrão! ”
Segundo, a pobreza. “O principal problema ético do capitalismo é a criação de descartáveis para, depois, procurar escondê-los ou cuidar para que não sejam mais vistos (...). Os aviões poluem a atmosfera, mas, com uma pequena parte do dinheiro das passagens plantarão árvores, para compensar parte do dano à criação. As empresas dos jogos de azar financiam campanhas para cuidar dos jogadores patológicos que elas criam. E, no dia em que as empresas de armas financiarão hospitais para cuidar das crianças mutiladas pelas suas bombas, o sistema terá atingido o seu ápice. A hipocrisia é isto! ”
Diante desta abominação: “a Economia de Comunhão, se quiser ser fiel ao seu carisma, não deve somente curar as vítimas do sistema, mas, construir um sistema no qual as vítimas sejam sempre menos, sistema no qual, possivelmente, não existam mais vítimas. Enquanto a economia produzir uma vítima e existir uma só pessoa descartável, a comunhão não é ainda realizada, a festa da fraternidade universal não é plena. ”
Terceiro, o futuro. “Esses 25 anos da vossa história demonstram que a comunhão e a empresa podem crescer e estar juntas”, uma experiência limitada ainda a um pequeno número de empresas, se comparado ao grande capital do mundo, “Mas, as transformações na ordem do espirito, portanto, da vida, não são ligadas aos grandes números. O pequeno rebanho, a lâmpada, uma moeda, um cordeiro, uma pérola, o sal, o fermento: são essas as imagens do Reino que encontramos no Evangelho.
Não é necessário ser muitos para mudar a nossa história, a nossa vida: basta que o sal e o fermento não se tornem desnaturados (...), o sal não exerce a sua função crescendo em quantidade; ao contrário, muito sal torna a comida salgada; mas, salvando a sua ‘alma’, a sua qualidade. ” E, lembrando o tempo no qual não existia geladeira e se partilhava porções de fermento para fazer um novo pão, o Papa estimulou os empresários da EdC a “não perder o princípio ativo, a ‘enzima’ da comunhão”, praticando “a reciprocidade.” “A comunhão não é somente divisão, mas, também, multiplicação dos bens, criação de novo pão, de novos bens, de novo Bem, com letra maiúscula.” E recomendou: “Doem-na a todos, e, em primeiro lugar, aos pobres e aos jovens (...). O capitalismo conhece a filantropia, não a comunhão. ”
E ainda: “Vós já fazeis essas coisas. Mas, podeis partilhar mais os lucros para combater a idolatria, transformar as estruturas para prevenir a criação das vítimas e dos descartáveis; doar ainda mais o vosso fermento para fermentar o pão de muitas pessoas. Que o “não” a uma economia que mata torne-se um “sim” a uma economia que faz viver, porque partilha, inclui os pobres, usa os lucros para criar comunhão.” “Faço votos de que continueis no vosso caminho, com coragem, humildade e alegria... Continuar a ser semente, sal e fermento de outra economia: a economia do Reino, no qual os ricos sabem partilhar as suas riquezas e os pobres são chamados bem-aventurados. ”
Esta é a nova consciência com a qual se retoma a caminhada, com alegria e renovado compromisso.

(Fonte: Boletim do Centro Nacional de Fé e Política Dom Helder Câmara - CEFEP)

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

REFORMA DA PREVIDÊNCIA É UM DESCALABRO


DIEESE: PEC da Previdência é maior desafio desde a Constinuinte



Vitor Nuzzi 
Rede Brasil Atual


Para o diretor técnico do Dieese, Clemente Ganz Lúcio, o movimento sindical enfrenta, com a reforma da Previdência, desafio semelhante ao do período pré-Constituinte, em meados dos anos 1980, com uma discussão de fundo estrutural. A representantes de nove centrais sindicais, em encerramento de dois dias de debate sobre a Proposta de Emenda à Constituição (PEC 287), ele afirmou que a questão, agora, é evitar "um dos maiores desmontes institucionais e sociais da história".
Segundo Clemente, diante de um cenário adverso, com maioria parlamentar pró-governo, as centrais precisam preservar sua unidade – "A única chance de fazer o enfrentamento" – e envolver diversos segmentos sociais, especialmente a juventude. "O projeto que está aí não nos representa. Queremos uma reforma que dê proteção universal aos trabalhadores. Estamos longe disso", disse o diretor do Dieese, defendendo ainda um modelo "eficaz na cobrança e com sonegação zero, universal e sustentável".
Entre as centrais, há quem defenda a retirada pura e simples da PEC 287 – e também do Projeto de Lei 6.787, de reforma trabalhista. Parte dos dirigentes defende a apresentação de emendas. As entidades devem se reunir na semana que vem para discutir, entre outras questões, uma data de paralisação nacional. A CUT, por exemplo, propõe aderir à já aprovada greve dos trabalhadores na educação, em 15 de março.

(Fonte: Site Carta Maior)

sábado, 4 de fevereiro de 2017

O BRASIL HUMANISTA ESTÁ DE LUTO: O ÓDIO E A PRESSÃO IRRESPONSÁVEL DOS RANCOROSOS MATARAM DONA MARISA


A carta do ex-ministro Aragão para Lula

Lula e Marisa

Acordei atormentado hoje, Lula. Como se não bastasse a tensão destes tempos, com o passamento de Teori Zavascki e as tenebrosas transações que lhe seguiram, no esforço de blindar uma ninhada de ratos esbulhadores do poder, desperto sob a angústia do momento dramático que assombra sua família. Para me manter firme, ligo o som de meu carro ao levar os meninos para a escola, ouvindo “Mais uma vez” do saudoso Renato Russo:

“Mas é claro que o sol vai voltar amanhã Mais uma vez, eu sei
Escuridão já vi pior, de endoidecer gente sã
Espera que o sol já vem…
Tem gente que está do mesmo lado que você
Mas deveria estar do lado de lá
Tem gente que machuca os outros Tem gente que não sabe amar
Tem gente enganando a gente
Veja a nossa vida como está
Mas eu sei que um dia a gente aprende
Se você quiser alguém em quem confiar Confie em si mesmo
Quem acredita sempre alcança!
Mas é claro que o sol vai voltar amanhã Mais uma vez, eu sei
Escuridão já vi pior, de endoidecer gente sã
Espera que o sol já vem
Nunca deixe que lhe digam que não vale a pena
Acreditar no sonho que se tem
Ou que seus planos nunca vão dar certo
Ou que você nunca vai ser alguém
Tem gente que machuca os outros
Tem gente que não sabe amar
Mas eu sei que um dia a gente aprende
Se você quiser alguém em quem confiar
Confie em si mesmo
Quem acredita sempre alcança!”
Pois é, Lula. Com seu enorme coração, no meio de implacável perseguição que promovem a si e a seus entes queridos, pessoas sem um milésimo de sua dignidade, você é submetido a esse agudo padecimento pela situação extrema de sua companheira e esposa, Marisa Letícia, com quem tem vivido por mais de trinta anos. Só gente grande, como você, para suportar tamanha provação com a conformação que lhe é própria.
Conformar-se, diferentemente do que muitos pensam, não é pendurar as chuteiras, não é entregar-se, não é jogar a toalha. É ter capacidade de assumir, na alma, a forma das circunstâncias, para a elas se adaptar. Para melhor lidar com desafios inevitáveis. Por isso, “com-formar”. É atitude de sabedoria, de fazer-se senhor do destino e não se abater por ele.
Lula, você tem estoicamente aguentado desaforos, insultos, injustiças, manobras vis, falta de humanidade de um coletivo que se embruteceu ao adotar o discurso ditado por uma mídia perversa, que está a serviço do que é de pior na nossa sociedade de fortes traços escravocratas: o corporativismo de carreiras de elite, o poder econômico de rentistas especuladores, de entreguistas da Pátria, de traidores e alto-traidores, de gente tomada do ódio de classe, de fascistas embrutecidos e saudosistas da ditadura, enfim, de uma malta de canalhas que só pensa no próprio umbigo.
Mas você é maior. Paga o preço dos grandes transformadores. Não espere gratidão dessa turba, mas você sempre terá o carinho de dezenas de milhões de brasileiras e brasileiros que lhe devem a inclusão social, de inúmeros povos a quem demonstrou a solidariedade do Brasil.
Que não ousem, os amestrados miquinhos do fascismo, promover algazarra com seu sofrimento, pois saberemos, quem o respeitamos como Brasileiro, reagir à altura. Tenham, esses energúmenos, cuidado e se recolham. É o melhor que podem fazer, para que não tenhamos que ofender os animais, igualando-os com estes.
Lula, receba neste momento de profunda dor, a nossa compaixão. Choramos com você o sofrimento desse martírio. Dona Marisa chegou a esse estado porque, como muitos de nós, que amamos o Brasil, sentiu-se profundamente ferida, supurada, em carne viva, com o momento trágico deste País, entregue a uma corja de aves de rapina. E ainda foi alvo de persistente, covarde e mortífero ataque de quem o queria atingir através dela! Não lhes dê essa mórbida satisfação: ignore-os.
Mas claro que o sol vai voltar amanhã! Desejamo-lhe muita força neste momento e fiquemos juntos, unidos por um futuro melhor.
Eugênio Aragão*
Ex-Ministro da Justiça
(Fonte: Site do DCM)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

13º CONCURSO ROGÉRIO SALGADO DE POESIA


Vencedores do Concurso de Poesia Rogério Salgado

O resultado do 13º Concurso Rogério Salgado de Poesia já tem resultado. O júri composto pelos poetas Ana Paula Generoso, Wagner Torres e pelo próprio Rogério Salgado, sob a coordenação de Virgilene Araújo, atribuíram notas de 1 a 10 aos poemas participantes. 
Após a soma geral a classificação ficou assim: Em Primeiro Lugar, Fernando Antônio Fonseca (pseudônimo: Ulysses), poema sem título; o segundo lugar ficou com Daniela Bento Alexandre (pseudônimo: dona Ulina), com o poema Vitral e o terceiro lugar foi para o poema Melancolia, de autoria de Luiz Gondim de Araújo Lins (pseudônimo: Menestrel).
Destaco abaixo um dos poemas vencedores:

VITRAL

(Daniela Bento Alexandre)
 

Tenho em mim todas as luas
Ruas
Aventuras.
 
Banham-me todos os rios
Risos
Sorrisos.
 
Nadam em meu peito todos os mares
Olhares
Cantares.
 
Calam em meio seio tantos desejos
Devaneios
Teus seios.
 
Ardem em meu íntimo todos os sóis
Lençóis
E nós.

sábado, 28 de janeiro de 2017

EUA SE ISOLA DO MUNDO


Faltam 2 mil kilometros para o novo "muro da vergonha"


A muralha de Donald Trump já existe e atravessa cidades e montanhas. Nova construção provocará golpe ecológico e maior mortalidade entre os migrantes.
Quando escutou que Trump queria construir um muro, a primeira coisa que o professor Jonathan Lee pensou foi: “Será mais largo? Será eletrificado? Terá dois andares?” Isso porque Lee, da cidade de Tecate, todo dia vê uma placa metálica ocre e enferrujada quando acorda. Ela foi erguida por Bill Clinton em 1994 a 20 metros da sua cama.
A reportagem é de Jacobo García, publicada por El País, 26-01-2017.
Na quarta-feira, Donald Trump anunciou o começo da construção “em meses” de um muro ao longo da fronteira e cujo financiamento será por conta do México, tal como disse o magnata à rede ABC. O muro, segundo cálculos do The Washington Post, terá um custo superior a 25 bilhões de dólares (80 bilhões de reais) e exigiria a utilização de milhares de trabalhadores durante anos.
No entanto, essa é uma realidade tangível há décadas para milhares de mexicanos. “Eu passava aos EUA com a naturalidade de quem atravessa a rua. Eles e nós fazíamos as compras de ambos os lados da fronteira sem nenhum inconveniente, até que começaram a erguer o muro”, diz Lee, de 33 anos.
A construção não é uma invenção de Trump. Com a chegada de Clinton ao poder, em 1993, os democratas levantaram o polêmico muro sem nenhum escândalo, da mesma forma que Barack Obama foi o presidente que mais expulsou migrantes sem documentos durante seus oito anos de Governo: quase 2,6 milhões de pessoas deportadas.
Hoje, há muro físico em um terço (cerca de 1.100 km) dos quase 3.200 quilômetros de fronteira entre México e EUA. Barreiras de concreto, grades, placas metálicas que serviram para facilitar o pouso de aviões durante a Guerra do Golfo e depois foram usadas para separar os dois países.
O muro começa na praia de Tijuana e avança rumo ao leste atravessando cidades como Tecate e Mexicali. Em outros trechos, sobe e desce pelos montes de estados como Califórnia, Arizona e Novo México, onde apenas se ouve o vento e habitam veados, como uma variante tex-mex da Muralha da China.
Em outro terço da fronteira há um muro virtual, vigiado por câmeras, sensores térmicos, raios-X e pelo menos 20 mil agentes fronteiriços, 518% a mais do que há duas décadas, segundo um relatório elaborado pelo instituto mexicano Colégio da Fronteira Norte e o Centro Norte-Americano de Estudos Transfronteiriços.
Em seu último terço, o muro é natural. E também o mais barato do mundo para vigiar, pois os rios e desertos de Sonora e Chihuahua agem como sentinelas com suas temperaturas que chegam a 50 graus. Nas últimas duas décadas, cerca de 8.000 migrantes morreram no local tentando atravessá-lo.
“Não se trata apenas da construção de um muro, mas de toda uma estratégia de humilhação”, diz o professor José Manuel Valenzuela, secretário acadêmico do Colégio da Fronteira Norte. “Há uma estratégia para prejudicar a vida na fronteira, restringir os fluxos migratórios e acabar com as cidades santuário, onde os migrantes encontram certa proteção. Isso é também um grave ataque à vida ecológica e aos parques naturais que atravessam a fronteira”, afirma.
“Os grupos supremacistas que atacam e matam os migrantes se veem agora mais legitimados. Comprovou-se que, com a construção do primeiro muro em 1994, a emigração diminuiu, mas o número de mortos aumentou”, diz Valenzuela.
Jonathan Lee, que todo dia vê migrantes de Chiapas e Michoacán passando em frente à sua casa tentando atravessar para o outro lado, acredita que o muro de 1994 serviu como uma espécie de seleção natural. A barreira obrigou os migrantes a passarem por desertos e montanhas. “Quem consegue sobreviver a uma prova tão dura demonstra que é forte e fisicamente capaz de trabalhar em qualquer tipo de serviço que os EUA exigirem”, diz.
(Fonte: Site do Instituto Humanitas Unisinos - IHU)