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sábado, 23 de dezembro de 2023

O ANUNCIANTE DO NASCIMENTO DO REI DO NATAL

(Imagem do site da Diocese de São José do Rio Preto)
 
Evangelho, Natal, São João Batista e 
Jesus, O Cristo


Neste Natal de 2023, a mensagem que quero deixar para os leitores do Minas e Gerais é sobre a observância do que se fala, como se fala, qual é a voz que anuncia e qual é a voz que fala, o verbo de Deus.

Consciente de que vozes mais sapientes já falaram sobre esse tema com indiscutível propriedade, recorri ao filósofo, religioso e santo da Igreja Católica, Agostinho, para expressar o valor da fala, da palavra.

Na homilia "Quem virá a ser este menino?", sobre o nascimento de João Batista, o bispo de Hipona (Norte da África), Santo Agostinho anunciou:


"Que maravilha! O mensageiro nasce antes daquele que o fez vir ao mundo. João é realmente a voz e Jesus o Verbo, a Palavra de Deus (cf Mt 3,3; Jo 1,1). […] A palavra nasce primeiro no espírito, e depois suscita a voz que a enuncia; a voz exprime-se pelos lábios e dá a conhecer a palavra aos que a escutam. Assim, Cristo permaneceu em seu Pai, por quem João foi criado, como todas as coisas, mas João nasceu de uma mãe e deu Cristo a conhecer a todos os homens. Ele era o Verbo que existia desde o princípio, antes que o mundo existisse; João foi a voz que precedeu a vinda do Verbo. A palavra nasce do pensamento; a voz sai do silêncio.

Ao gerar Cristo, Maria crê; ao passo que Zacarias, antes de gerar João, é castigado com a mudez. Um sai duma juventude em flor, o outro nasce duma mulher velha, enfraquecida. A Palavra habita o coração daquele que pensa; a voz expira no ouvido daquele que escuta. E talvez seja esse o sentido destas palavras de João: «Ele é que deve crescer e eu diminuir» (Jo 3,30). Pois as predições da Lei e dos profetas, surgidas antes de Cristo, qual voz antes do Verbo, continuaram até João, no qual cessam as últimas prefigurações. Seguidamente, a graça do Evangelho e o anúncio de um Reino dos Céus que não terá fim dão fruto e crescem em toda a terra."


Desejo a todas e todos que frequentam este blog, um Natal de muita paz, amor, saúde e harmonia e um Ano Novo cheio de bons acontecimentos.

Que em 2024 - à exemplo de Jesus Cristo -, nossas ações superem nossas palavras.


Aceite meu abraço fraterno,

Eugênio Magno



quarta-feira, 26 de outubro de 2022

O BRASIL É DE TODOS OS BRASILEIROS E BRASILEIRAS

 

(Imagem: "Bandeira Rachada" - Site Sindsep-PE)


O confisco de Deus e o sequestro da República

Eugênio Magno

Até as verdades bíblicas estão sendo truncadas e destroçadas por cristãos que preferem mitos à verdade de fatos protagonizados e narrados, diariamente, com soberba e sarcasmo pelo disseminador do ódio e sua seita de fanáticos.

O otimismo e a força que move o povo brasileiro sofrido deu origem à máxima “Deus é brasileiro”. Em tempos bolsonaristas, até isso foi retirado a quem só restava a fé e a esperança em dias melhores. Deus se tornou propriedade privada de uma turba de políticos aloprados que se dizem defensores da família e dos bons costumes, mas que carregam a bíblia em uma mão, uma arma de fogo na outra, a perversão nas entranhas, a maledicência na língua e a maldade no coração. O verdadeiro cristão, em seus louvores, reza com o salmista: O Senhor é bom para todos; a sua compaixão alcança todas as suas criaturas.

Acontece que tomaram de assalto, além de altares e púlpitos, também a república e os símbolos nacionais. A propósito do sequestro da Bandeira Nacional e da camisa da Seleção Brasileira, pelo atual governo, me veio a lembrança de quando criança, em Montes Claros, Sertão de Minas Gerais, costumávamos brincar de Rouba Bandeira, na rua onde morava.

A brincadeira era um jogo entre dois times. Cada um tinha a sua bandeira. O objetivo era entrar no território do outro time, roubar a bandeira e trazer para o seu território, sem ser pego pelos jogadores adversários. O jogo tinha muitas regras e nós as respeitávamos. As “bandeiras” eram pedaços de pano ou nossas próprias camisetas. No final, independentemente de quem tivesse vencido a competição, as camisetas eram devolvidas e até os pedaços de pano voltavam para as casas de onde saíram. Ora ganhávamos, ora perdíamos. De vez em quando surgia uma discussão, uma briga, mas não passava disso. Nos entendíamos. Não havia juiz e Deus não era propriedade de time algum, não jogava, nem torcia para nenhum lado.

Esses poucos dias que antecedem o segundo turno das eleições é tão decisivo para o futuro que não consigo deixar de trazer à memória o passado de uma geração que cresceu à sombra dos coturnos militares, viveu as agruras de um país subdesenvolvido que acreditou no progresso como milagre e construiu o futuro às custas do endividamento e do arbítrio. Compreender como nossa história vinha sendo escrita foi um grande desafio para a juventude desse período obscuro. Depois dos anos de chumbo, respiramos o ar da Nova República e ganhamos uma Constituição Cidadã em 1988. E o que era sonho logo se tornou pesadelo: superinflação no governo Sarney, confisco da poupança e escândalos no desgoverno Collor. Nos tornamos adultos imaturos e quase não percebemos que a inocente competição infanto-juvenil, limitada às brincadeiras e ao esporte, havia se transformado em descabida ambição, em meio a uma grave perpetuação dos privilégios de classe. Foi difícil para cada um de nós tomar seu rumo e achar sua nova turma.

Para os que optaram pela subserviência sobraram algumas migalhas em troca da mais indigna condição serviçal: a de capitães do mato.

Em meio a farra e os desmantelos do alagoano, que se autoproclamou “Caçador de Marajás”, os meninos e meninas, de origem proletária, nascidos no final dos anos 1950 e início da década de 1960 já não brincavam mais, trabalhavam. A abertura política e a nova carta constitucional iluminou o horizonte de alguns para a consciência de classe. Outros, muitos outros, se perderam no caminho, apesar de tantas canções, peças, livros e filmes.

Nos idos de 1990 muitas famílias novas se formaram e a luta para sobreviver mantendo coerência e dignidade se mostrou renhida. Afinal, desde os tempos coloniais, o Brasil só foi Pasárgada para uma minoria de endinheirados – grileiros do Estado.

Vivemos e testemunhamos Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, a duras penas e, apesar das inúmeras concessões ao capital, sedimentarem as bases republicanas de um Estado Democrático de Direito. E contribuímos para que o país, a contrapelo dos vícios nas engrenagens dos poderes político e econômico vivesse, pelo menos, uma dúzia de anos de progresso econômico e social. No período de 2003 a meados de 2016 foi possível, entre outras realizações, acabar com a fome e gozar de grande prestígio internacional, com Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff.

Mas toda moeda tem seu lado reverso e as elites não se fizeram de rogadas. Mesmo com uma grande acumulação de riquezas, durante os governos petistas, os poderosos se incomodaram com as cotas nas universidades, as políticas de direitos humanos, as ações afirmativas e a mobilidade social promovidas por Lula e Dilma e cruzaram a linha da moral, da ética e da legalidade. Trataram de dar um golpe em Dilma Rousseff, maquiado pelo parlamento como impeachment. Arregimentaram um juiz arrivista, setores do judiciário e do Ministério Público se locupletaram e os barões da mídia orquestraram a encenação. Púlpitos neopentecostais – católicos e evangélicos – “abençoaram” a narrativa posta, e a deep web cuidou de infestar o país e dobrar a opinião pública com toda a espécie de sordidez. Lula, o maior líder popular brasileiro foi tirado da disputa eleitoral em 2018 e preso. Deu no que deu... Jair, (o falso Messias) Bolsonaro, foi eleito. Hoje, acuado, diante dos vários processos que cairão sobre ele se perder as eleições e a imunidade, joga o jogo mais vil, jamais visto em nossa história republicana, para permanecer no poder e garantir privilégios e o Sigilo de 100 Anos.

Não consigo dizer se é triste, decepcionante ou vergonhoso saber da existência de tanta gente – pobres, inclusive – e muitos outros, de várias classes sociais que apoiam a barbárie e àquele que se arvorou a sequestrar os bens mais preciosos do nosso país. As Forças Armadas, porque brasileiras e patrimônio da Nação, por exemplo, jamais poderão estar a serviço de governos, contra mais da metade do povo brasileiro, como quer o presidente-candidato. A nossa padroeira, Nossa Senhora Aparecida, seu templo e seus devotos ressentem, profundamente, a profanação sofrida pelos arruaceiros bolsonaristas e Jesus não pode continuar com uma arma apontada para a sua cabeça como refém de fariseus que ameaçam crentes esclarecidos e já decididos pelos valores do Evangelho.

Diante de tudo o que vivemos nos últimos quatro anos é inacreditável que o eleitor lúcido esteja com dúvida em quem votar. Repare que nem falamos de assassinatos de opositores, tentativas de homicídios, ameaças várias, bandidos aliados, recepção de policiais à bala, imobiliária e fábrica de chocolate operando com dinheiro vivo, rachadinhas, centrão, orçamento secreto, obsessão sexual de pastoras e pastores aliados, compra de votos, insinuações pedófilas, intolerância, misoginia, homofobia, racismo, 686 mil mortos na pandemia, indústria de fake news, o desastre econômico, ataque ao salário mínimo e aos aposentados... A lista é infindável.

Chega. A hora é de partir pra cima. Sem essa de cair no conto de líderes espirituais, pastores e vigários picaretas com suas chantagens diabólicas. Se somos um povo verdadeiramente religioso, dia 30 de outubro, vamos todos votar e votar pelo bem, pela paz. Só assim Deus mostrará a sua verdadeira face para todos os brasileiros e brasileiras.

Pela qualidade da nossa geração, vamos demitir o ódio, recuperar a paz, o respeito, a cidadania e a civilidade. Vamos pegar de volta a Amazônia, a Farmácia Popular e muito mais: a dignidade, o respeito, a democracia, nossas cores e a nossa bandeira.


sábado, 10 de abril de 2021

VIVER E ESPERANÇAR É PRECISO

(Belles Memoires/Pixabay)
 

Do Divino e do Profano: 
em tempo de Páscoa

Eugênio Magno

         No capítulo 43 do livro do profeta Isaías tem um trecho que diz: “... Não relembreis coisas passadas, não olheis para fatos antigos. Eis que eu farei coisas novas, e que já estão surgindo: acaso não as reconheceis? Pois abrirei uma estrada no deserto e farei correr rios na terra seca”.

Isso é tudo que todos esperam: o crente, o ateu, o agnóstico.

         Depois de falar sobre a Campanha da Fraternidade Ecumênica que teve início na quaresma, no artigo do mês passado, não quis que a Páscoa passasse em branco. Para a comunidade cristã, Páscoa é símbolo de renascimento. Tempo de louvores e glórias ao Rei. É festa, celebração da boa nova. O Livro do Eclesiastes diz haver um tempo de campo e um tempo de canto. Páscoa é tempo de canto. Hora de esquecer o passado e de se dar conta de que coisas novas estão sendo feitas. E muitas coisas novas, realmente, estão sendo feitas: de divino e de profano.

         A cada dia, mais e mais pessoas embarcam ou reembarcam nas práticas religiosas em busca do milagroso, da verdade, do divino. Até os ricos (quem diria!), mesmo os aparentemente menos entediados, com cacife para bancar os honorários de qualquer psicanalista do planeta, estão se rendendo ao “divã” da religiosidade. O fenômeno da religação com Deus, há muito esquecido, está de volta ou trata-se apenas das manifestações tardias das teologias da prosperidade e do domínio, alimentando o neopentecostalismo?

Substituído pela vacuidade egóica que se nutre apenas de ostentação, cobiça, poder e dos prazeres sensoriais, poderíamos pensar que Deus está voltando a ocupar o espaço existencial no coração dos (des)iludidos de todas as camadas sociais? A humanidade estaria se sentindo culpada pelos danos causados à vida, à natureza e aos seus semelhantes e, amedrontada, se penitencia e volta a flertar com o transcendente?

         Místicos e piedosos de todos os tempos afirmam que as graças do Divino sempre se mantiveram acessíveis. Mas, somente aos que têm uma fé verdadeira e inabalável, como Jó, independentemente das circunstâncias. Asseguram que milagres só ocorrem no plano do espírito, de uma iluminação que coloca o ser em harmonia com a vida e com o planeta. Algo que está muito além da relação comercial estabelecida com Deus, por obra e graça dessa proliferação de seitas que vendem promessas de prosperidade e curas com hora marcada; educa para o negacionismo da ciência, faz proselitismo político à extrema direita e mantêm milhões de incautos reféns de suas próprias misérias. Enquanto isso, a faca continua – como sempre –, amolada. O mundo dito civilizado, depois de organizar as pessoas em tribos, reinados, impérios, repúblicas, estados e regimes, desordenou mais uma vez a vida humana de forma globalizada. Os donos do poder brincaram de deuses, aliciando a humanidade para a construção de um novo mundo, de um novo homem e foram muito bem sucedidos. Construíram novos mercados, novíssimos consumidores, o homem-data, digitalizado, online, prosumidor, patrãogado, empreendedores (empresários de araque), exploradores de si mesmos.

         As vozes destoantes de um pequeno extrato de cientistas das áreas humanas e sociais há muito tempo incendeiam o palco das incertezas sobre o novo poder, o biopoder do hipercapitalismo financeiro, neoliberal e tecnológico do capital improdutivo.

A diminuição dos Estados-nação e o desprezo às instituições com a pretensão de se criar uma nova ordem mundial já se cumpriu e o tiro saiu pela culatra. O excesso de poder do mercado afetou a democracia. O Estado fraco faz o que as empresas querem. E as pessoas têm se perguntado então para que serve a democracia se as decisões estão sendo tomadas onde não temos influência. O desalento e a falta de politização fez com que muita gente boa perdesse a linha e desencarrilhasse o trem. Se os problemas de um país já não são resolvidos pela ação do Estado é sandice acreditar que poderão ser resolvidos pelo mercado que tem como lógica estatizar prejuízos e privatizar lucros.

É urgente um novo pacto, se não uma revolução, que ressalve o dever do Estado de dar condições básicas de cidadania, garanta liberdade ao povo, regule o mercado, incentive a economia produtiva sustentável e solidária, garanta trabalho e renda para a população, socialize os meios de produção, zele pelo ambiente e permita a influência de entidades comunitárias, numa dinâmica em que os poderes sejam controlados pela sociedade.

         Saídas existem. O que não se pode aceitar é a insistência no que nunca deu certo e que a cada dia se agravou até chegar ao ponto em que estamos.

Diante do quadro tenebroso que se apresenta mundialmente e, particularizando a conjuntura brasileira, com os agravantes da pandemia, diria que, desalentados e, como no purgatório, amargando essa longa espera pelo Juízo Final, passando pela via crucis: paixão e mortes – mais de 300 mil –, tudo que ainda podemos esperançar (de Deus sabe para quando) é uma Feliz Páscoa!

Este artigo pode ser ouvido em sua versão de áudio no podcast Política com Fé. O texto também foi publicado no jornal Pensar a Educação em Pauta da FaE/UFMG.

quinta-feira, 1 de abril de 2021

PAIXÃO, MORTES (MAIS DE 300 MIL) E PÁSCOA


Novo episódio do podcast Política com Fé

Para a comunidade cristã, a Páscoa é símbolo de renascimento. É tempo de louvor e glórias ao Rei. É festejo, celebração da boa nova. Até porque, segundo o Livro do Eclesiastes há um tempo de campo e um tempo de canto. Páscoa é tempo de canto. Hora de esquecer o passado e de se dar conta de que coisas novas estão sendo feitas. E muitas coisas novas, realmente, estão sendo feitas: de divino e de profano. Muito mais de profano...

Para acessar todo o conteúdo do episódio # 10 DO DIVINO E DO PROFANO, do podcast Política com Fé, clique aqui.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

"COM DEUS TUDO É POSSÍVEL"



A Teologia no cotidiano

Eugênio Magno

O saudoso teólogo e padre jesuíta João Batista Libânio, em uma ocasião em uma aula fez a seguinte provocação, invertendo a lógica habitual: “o que a política pode oferecer a um cristão que tem fé?” E com as interações do grupo respondeu que, “a política oferece mediações para o exercício da fé e permite à fé se concretizar materialmente”. Disse ainda que “a política pode ser uma instância que denuncia os aspectos idólatras da fé e da religião em suas práticas não-éticas. Que a política faz uma crítica ideológica da fé”. A  proposta aqui é fazer um breve exercício dialético onde a política interroga a fé e a fé interroga a política.

É sabido que exegetas, teólogos e biblistas se dedicam ao estudo bíblico, à pesquisa dos textos sagrados e a história da salvação. Seus estudos trazem reflexões e ensinamentos sobre o Cristo histórico e os costumes da época, entre outras tantas revelações importantes que alicerçam a fé.

Mas o vivente comum tem pressa, quer fazer a teologia do (e no) cotidiano. Quer compreender o que Deus está  a dizer. Afinal, são tantos fatos, tantos acontecimentos, tantos “sinais”, ou será que o que vemos não está sendo mostrado por Deus, não são revelações...

Nunca é demais lembrar o que a Bíblia ensina: o cristão é Rei, Sacerdote e Profeta. Daí então, pergunto: onde está esse grande contingente de cristãos, a maior corrente religiosa do mundo, com suas várias denominações, para exercerem com dignidade e altivez seus mandatos, ministérios e a vida cidadã? E aqui não me restrinjo aos religiosos, pertencentes às hierarquias das várias Igrejas e seitas que se autointitulam cristãs. A cada esquina encontramos uma Igreja, com e sem aspas. A todo instante ouvimos alguém pronunciar o nome de Deus: chefes de nações, empresários, trabalhadores, apresentadores de rádio e TV, cantores... E a quantidade de carros com adesivos: “Foi Deus que me deu”, “Mais um presente de Deus”, “Deus é fiel”, "Com Deus tudo é possível", “Dirigido por mim, guiado por Deus” e por aí vai... Mas, a despeito dessas declarações, tome tiranos chefiando nações, empresários exploradores, fake news, desinformação, trânsito caótico e direção criminosa. Será que tudo isso que estamos vivendo no mundo é apenas uma “pegadinha” de mau gosto dos deuses, ou um baile à fantasia, onde os donos da festa são meninos malvados brincando, com máscaras de seus heróis do tipo Hitler, Stalin, Mussolini, Franco e mais um enorme elenco de prestidigitadores e outros bichos e bestas do Apocalipse, ou seriam reencarnações dos algozes de Deus?

Os reis enlouqueceram todos e, como Nero, atearam fogo nas cidades e as coroas destinadas aos rebeldes da hora não são mais de espinhos. São caríssimas ogivas midiáticas de milhões de dólares, jogadas na rede sobre as cabeças de plebeus famintos de inutilidades que pagam com seu tempo e atenção por essas bagatelas manipuladas por mãos e polegares de tecnocratas, desprovidos de qualquer centelha de humanismo? Os verdadeiros reis a exemplo do Cristo Jesus, de Nazaré, não têm trono e seus castelos são feitos de papelão e da sobra – pobre, podre e rota – dos avarentos.

O anúncio da morte de Deus, feito por Nietzsche há dois séculos e, que escandaliza tantos que não compreenderam Nietzsche é infinitas vezes menos grave do que o uso do nome de Deus em vão e o assassinato cotidiano do filho de Deus por aqueles que se dizem seus seguidores. Ainda que não seja maioria, graças a Deus, não se pode ignorar o crescimento espantoso do número de religiosos radicais, que estão de costas para o Cristo dos Evangelhos. São militantes da teologia da prosperidade. Não sabem fazer a multiplicação dos pães, exceto, quando em benefício próprio. Criticam a pajelança e vários outros cultos, enquanto seus fieis, de tanta fidelidade e resignação morrem com a mão estendida, na sarjeta, nos corredores dos hospitais, quando lá chegam, atingidos por balas perdidas e achadas (em inocentes), de inanição, ou dormindo como anjos bêbados, enquanto seus barracos desabam com as águas que caem do céu.

O cristão também deve ser profeta. E profeta é aquele que anuncia e denuncia: na família, nas Igrejas, nos bairros, nas empresas, nos sindicatos, nas escolas, nas ruas, nas ciências, na imprensa, nas artes, na política e na vida cotidiana. Mas os falsos profetas se multiplicaram oferecendo consolações falsas e corrompidas pelo “farisaísmo” e pelos artifícios da retórica e do legalismo de uma justiça injusta que insiste em não tirar a venda dos seus olhos.

Diante da escassez de vocações para profetas, sabedor de que a messe é grande e poucos são os operários e arautos da “boa nova” e menor ainda é a plêiade dos que denunciam, faço aqui uma breve encenação deste papel na tentativa de amplificar a voz dos que não têm voz, mesmo que apenas por uns poucos instantes, neste breve tempo e espaço. Tenho consciência de que é um grito surdo e rouco, mas é legítimo. Vem das ruas, das vilas, das favelas, dos ribeirinhos, dos povos indígenas, dos camponeses, dos quilombolas, dos discriminados. É o grito das crianças famintas e daqueles que um dia construíram o futuro e foram esquecidos no passado com seus cabelos esbranquiçados e o corpo alquebrado pela desesperança. E até mesmo dos antigos abastados, da mesma faixa etária dos miseráveis, que não mais são chamados de velhos ou idosos. Virou moda dizer que estão na “melhor idade”, para alimentar sonhos de vida eterna e na contra partida surrupiarem suas economias...

É isso mesmo que acontece. Até a classe média, da terceira idade que, até pouco tempo atrás era um mercado em plena ascensão, está em queda vertiginosa e, agora, se vendo na bica de um rebaixamento econômico e social, começa a dar sinais de insatisfação e ensaia as primeiras articulações para a luta contra esse curto, mas medonho, tempo de obscurantismo que vem destruindo décadas de avanços civilizatórios. 

Antes tarde do que nunca.

Mas se faz necessário indagar: quantas quarentenas... sofrimentos e mortes teremos que viver? Quantas pandemias sobreviver ou padecer? Quanto nos resta aprender...

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

POR ONDE ANDA O CRISTO NESTES NATAIS HODIERNOS (???)


Sermão da Montanha
(uma das mais importantes chaves para compreender o cristianismo e viver o Cristo)


A leitura do Sermão da Montanha - SM (Mt, 5) provoca alguns questionamentos, como, por exemplo, para quem o sermão é dirigido? Aos discípulos ou às multidões? As suas exigências são verdadeiramente viáveis para crentes e não crentes? Essas perguntas levam a outra: Como devemos nos colocar diante de tal discurso proferido por Jesus? Para o exegeta francês Elian Cuvillier, essas questões estão “inter-relacionadas” e podem ser respondidas no conjunto doSermão da Montanha, que “se dirige justamente a todos. Visa fazer surgir um sujeito: um ‘vós’ constituído por uma multiplicidade de ‘eu’ que o Pai conhece ‘em segredo’, cada uma e cada um singularmente. Esses sujeitos não têm ilusões sobre eles mesmos e suas capacidades (sabem que são potencialmente maus como o resto dos homens), mas sabem também que essa palavra ouvida e recebida os coloca em tensão com o mundo. Que essa palavra excede tudo o que creem saber de sua relação com os outros, que ela anula todos os particularismos, as divisões habituais, as distinções discriminantes”.
Autor de Le Sermon sur la Montagne. Vivre la confiance et la gratuité [O Sermão da Montanha. Viver a confiança e a gratuidade], Cuvillier afirma que para ele, o Sermão da Montanha “ressoa como um convite a viver neste mundo sob a luz da Boa Nova de Jesus Cristo que é confiança e gratuidade: confiança em um Deus que vem ao meu encontro e que, em troca desta confiança, não me pede mais nada. Pois, o que o SM nos ensina é que o Evangelho não é uma moral (tu deves fazer isto ou aquilo para obter isto ou aquilo — lógica da troca e da retribuição), mas a proclamação de uma Palavra que vem abrir para uma nova compreensão de Deus, de nós mesmos e dos outros”.
Em entrevista, concedida à IHU On-Line, o exegeta ressalta que a Palavra que Jesus pronuncia no Sermão “é verdadeiramente Palavra de alteridade no que ela anuncia de inédito, um inédito que não se confunde totalmente com o que o Jesus terrestre dá a conhecer dele no decorrer de seu ministério na Galileia. O SM antecipa o que se realizará plenamente na Paixão de Jesus. A recusa de erguer a espada, na hora de sua prisão, destaca que prefere o agir da Palavra ao das armas. A morte na cruz é o lugar em que Jesus realiza, ao extremo de sua lógica, a palavra inédita do SM. No Calvário, Jesus é revelado verdadeiramente como o ‘Filho de Deus’ que rompe a lógica da violência e oferece um lugar onde descobrir o novo rosto de seu Pai, como o SM anunciava”, explica.
Elian Cuvillier pontua ainda que “as noções de ‘confiança’ e de ‘gratuidade’” presentes no Sermão da Montanha são “utilizadas com um sentido teológico e bíblico específico: o termo confiança equivale, para mim, à palavra grega pistis, que é traduzida, na maioria das vezes, em nossas Bíblias, pelo termo ‘’. Gosto de definir a fé em Cristo como a ‘confiança na confiança de um outro’. Quanto à gratuidade, ela equivale à noção de ‘misericórdia’ que se encontra no Novo Testamento, em que ela expressa a bondade originária de Deus para conosco”, conclui.
Elian Cuvillier defendeu sua tese de doutorado sobre Novo Testamento na Faculdade Teológica Protestante de Montpellier, em 1991, onde foi nomeado professor. Em 1999, obteve a Livre Docência na Faculdade Teológica Protestante de Estrasburgo. Desde então, é professor de Novo Testamento em Montpellier.
Para ler a entrevista com o exegeta, na íntegra, clique aqui.
(Fonte: Site do Instituto Humanitas Unisinos - IHU)

domingo, 28 de agosto de 2011

DEUS E A POESIA


Drummond e a ''re-significação'' de Deus na poesia.



"Para o ex-aluno dos jesuítas Carlos Drummond de Andrade, a transcendência só poderia existir na imanência, como salto qualitativo do existir diante da ‘pedra’ da impossibilidade. Aqui talvez seja o ponto mais próximo da poesia com a mística, de encontrar um Mistério em todas as coisas e que oferece sentido a todas elas."
A declaração é do teólogo Alex Villas Boas, na entrevista que concedeu por e-mail à IHU On-Line, ao refletir acerca de sua obra Teologia e Poesia – A busca de sentido em meio às paixões em Carlos Drummond de Andrade como possibilidade de um pensamento poético teológico (Sorocaba: Crearte Editora, 2011). Para ler a matéria na íntegra, clique aqui.