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terça-feira, 23 de setembro de 2025

O BURACO É MAIS EMBAIXO

(Foto: José Cruz da Agência Brasil / EBC)

 

O colapso dos Sistemas 

e os sequestros das Instituições


Eugênio Magno*

As Crises são plurais. Quando achamos que já estamos no fundo do poço, somos lançados para profundezas ainda mais abissais. Mas já disseram que não vivemos uma época de crise, mas uma crise de época.

O hipercapitalismo não dá trégua. O dinheiro tem sido a régua do mundo e o capitalismo não é exclusividade do mercado e de nações tradicionalmente capitalistas. Países socialistas e comunistas também se renderam a esse sistema econômico. Para minimizar a aberração, apelidaram o modelo de capitalismo de estado. Ainda que pese certos benefícios socioeconômicos destinados às populações locais, o resto do mundo sofre cada vez mais os impactos dessa sanha das grandes potências em aumentar a dependência dos países do sul global, o controle do mundo e de suas riquezas.

A extrema direita avança mundo afora e as sandices de Donald Trump que encarna o papel de imperador global extremista parecem não ter fim. O tarifaço imposto por ele a vários países que têm os Estados Unidos da América como principal país importador de seus produtos é uma grande ameaça para a economia de muitas nações. Mas é também uma jogada extremamente arriscada para as recalcitrantes pretensões estadunidenses. Empurra vários estados nacionais para os BRICS e para um maior alinhamento com a China o que compromete a ruidosa hegemonia norte-americana.

No Brasil, país estratégico no mapa da geopolítica econômica mundial, as repercussões dessas medidas são desestabilizadoras, não só economicamente, mas também e, principalmente, no campo político. Estamos às vésperas de um novo ano de eleições presidenciais e um dos principais atores nessa corrida é o ex-presidente, Jair Bolsonaro. Apesar de condenado pela justiça por tentativa de golpe de estado e de estar inelegível, é possuidor de grande capital político, conta com o apoio de Trump e é o principal representante da extrema direita em nosso país. 

Desde a prisão domiciliar de Bolsonaro sua família se mobilizou a ponto de um dos seus filhos, Eduardo Bolsonaro, abandonar a cadeira de deputado federal e se juntar a outros bolsonaristas nos Estados Unidos para articular com o governo estadunidense anistia para o seu pai e o impeachment do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes. As investidas da família do ex-presidente já garantiram a aplicação da lei Magnitsky para Alexandre de Moraes e sua esposa e o cancelamento do visto de passaportes norte-americanos de mais sete juízes da Suprema Corte Brasileira e de familiares de outros membros do governo. Como se não bastasse, Donald Trump resolveu taxar os produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos, em 50%, com a desculpa de retaliação à justiça brasileira por não conceder anistia a Jair Bolsonaro.

Surfando na onda das ameaças dos EUA e dos posicionamentos tresloucados da família do ex-presidente, a bancada bolsonarista no Congresso Nacional, tomou de assalto as mesas diretoras do Senado e da Câmara, impedindo o funcionamento das duas casas. A proposta dos celerados era colocar em pauta votações de impeachment do ministro Alexandre de Moraes e de anistia para os golpistas de 8 de janeiro de 2023, além de impedir a votação de pautas de interesse do governo, como a da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até cinco mil reais mensais. O que mais causa espanto é saber que a atitude desses parlamentares e a investida de Donald Trump contra a soberania nacional tem o apoio de governadores de importantes estados da federação e de um grande número dos – ditos, patriotas – eleitores de Bolsonaro.

Com tudo isso e mesmo com o voto descabido, do ministro do STF, Luiz Fux, o julgamento aconteceu e, à despeito das ameaças sofridas, a primeira turma do Supremo decidiu pela condenação de Bolsonaro e de vários integrantes do núcleo principal da tentativa de golpe, por quatro votos a um. Carmem Lúcia, Flávio Dino e Cristiano Zanin acompanharam o voto do relator, Alexandre de Moraes. Sobre o ministro, Moraes, é importante ficar claro que ele não é o algoz de Bolsonaro. Embora Alexandre de Moraes venha se mostrando o mais apto entre os ministros para a condução de processos como esse, agiu em nome da Corte Suprema. É um dos onze ministros do Supremo Tribunal Federal e, por sorteio, calhou de ser a sua turma a conduzir o julgamento e ele ser o relator do processo envolvendo o ex-presidente, Jair Messias Bolsonaro e mais sete dos participantes da tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, entre eles, vários generais. É preciso que o povo brasileiro pare com a mania de estar sempre em busca de um salvador da pátria para depositar em tal pessoa o poder de definir os rumos do país. Isso é ruim para a nação e para os poderes constituídos, além de dar a esses eleitos um protagonismo que os coloca – para a opinião pública – acima das instituições que representam.

O Brasil vive momentos difíceis. São muitos os problemas a serem enfrentados e o governo necessita de muito mais força e fôlego para dar conta de tantos desatinos. Embora seja um governo de frente ampla e mesmo tendo o Centrão em sua base de apoio, um arranjo articulado para conter o avanço do bolsonarismo, argumenta não conseguir maioria no Congresso para aprovar suas pautas. Contabiliza sucessivas chantagens da Câmara dos Deputados e, não se sabe porque, continua cedendo às suas constantes exigências. As várias e históricas práticas duvidosas dos congressistas, que já foram apelidadas de quinzinho (%), mensalinho, mensalão e orçamento secreto – agora escancaradas como emendas parlamentares –, alimenta a boca grande de parlamentares de todos os partidos e continua sendo a moeda de troca dos governos da vez.

É preciso ser muito ingênuo para acreditar que as emendas beneficiam apenas o Centrão e a extrema direita. Contudo, ainda assistimos eleitores fanáticos das duas principais correntes políticas trocando acusações sobre a destinação dessas verbas para apoiar determinados projetos de apadrinhados dos seus opositores, como se o mesmo não acontecesse com os seus políticos de estimação. A prática é comum não apenas na Câmara Federal, mas também nas casas legislativas estaduais e municipais. E em razão dessa prodigalidade viciosa atender a todos os parlamentares, nenhum deles arrisca barrar sua continuidade para não ficar de fora da partilha. Esse negócio é um vespeiro. Se resolverem investigar a fundo vai respingar pra todo lado e poderemos ter muitíssimas surpresas.

Ulisses Guimarães realmente estava correto, a cada pleito temos um Congresso pior do que o anterior. Tem quem atribua a responsabilidade ao povo que o elege, mas essa não é a verdade. O povo vem sendo constantemente enganado. Os parlamentares – eleitos para representar o povo –, em sua maioria, só fingem compromisso com o eleitor nos períodos de campanha. Durante seus mandatos defendem apenas interesses próprios e os dos grupos empresariais e políticos a que pertencem. O lamentável é que os governos de plantão discursam contra, mas não enfrentam pra valer a situação e ainda pagam pela canalhice. No verdadeiro leilão que acontece quando da votação de pautas econômicas e sociais, dá para imaginar o quão difícil dever ser para alguns congressistas decidirem a quem vai trair, se o governo ou os ricaços, afinal é muita grana, tanto de um lado quanto do outro. Na dúvida, traem o povo, como sempre, e ainda têm a cara de pau de exigirem respeito quando a população os chama de traidores da pátria.  

Os três poderes da república têm perdido a capacidade de atuar como freios e contrapesos do Estado democrático de Direito. As constantes invasões de fronteiras de um dos poderes naquilo que se configura como atribuições constitucionais de outro poder descredibilizaram as instituições republicanas que se veem mergulhadas numa crise de identidade sem precedentes. 

As engrenagens do Estado Brasileiro carecem de muito azeite para se ajustarem. Por mais que o Executivo seja o poder que mais desperta paixões, por ser o de maior visibilidade e em razão de vivermos sob a égide de um regime presidencialista, esse é o poder que menos tem tido poder real em nosso país. É notória a judicialização da política, assim como a politização da justiça. O sequestro de pautas, projetos, propostas de leis e orçamentos, propicia a alegação do status de refém por parte dos poderes, em rodízio, e institucionaliza o tráfico de influência tornando tais práticas oficiais, “legais”. São muitos os acordos, nepotismos diretos e cruzados, usos e apropriação de bens e de divisas públicas em benefícios privados. Isso para não falar dos salários altíssimos e dos penduricalhos remuneratórios como auxílio-paletó, apartamentos funcionais, carros, motoristas, combustível, auxílio-mudança, pagamento de escola para filhos, convênio médico, vale-alimentação, cartão corporativo e otras cositas más, como as rachadinhas, que não deveriam ser verbalizadas no diminutivo.

Em meio a tantos arranjos no andar de cima, envolvendo a cúpula do poder, só quem perde é o povo, especialmente os da média classe média para baixo, uma vez que os endinheirados se locupletam com políticos e gestores da alta administração pública. Essas conveniências entre o capital, a política e a administração pública nos remete a um tempo em que a grande imprensa, apesar dos seus comprometimentos, ainda tinha em seus quadros, profissionais que ousavam desafiar o sistema e denunciavam os abusos. Nos idos de 1970, em plena ditadura militar, o diretor de redação do jornal Estado de São Paulo, Fernando Pedreira, encarregou o jornalista, Ricardo Kotscho de coordenar uma série de reportagens, apoiado pelas sucursais do jornal em vários estados brasileiros, sobre as mamatas dos superfuncionários do estado. A matéria que durou várias semanas era chamada de “o escândalo das mordomias” e dava conta dos privilégios e das ilhas de bem-viver de ministros de estado e altos funcionários civis e militares de primeiro, segundo e até de terceiro escalão. Mais de meio século se passou e nada mudou de lá para cá.

Recentemente, o fundador do Instituto Conhecimento Liberta (ICL), Eduardo Moreira, lançou o manifesto “Somos 99%”. A campanha tinha como mote, “Por um Estado Ético, Justo e Transparente” e denunciava os privilégios do 1% mais rico da população, responsável por concentrar 63% da riqueza, além de criticar os abusos de políticos fisiológicos e servidores com altos salários. As principais reinvindicações do manifesto são as seguintes: Fim dos supersalários no setor público; extinção das emendas secretas; redução da carga tributária sobre os trabalhadores; tributação mais justa sobre os mais ricos; combate à impunidade entre políticos, juízes, empresários, banqueiros e militares; divulgação ampla do Portal da Transparência; Cobrança de dívidas bilionárias de grandes latifundiários e empresas; proibição de eventos públicos considerados “vergonhosos” e sem transparência. O manifesto, em forma de abaixo-assinado, embora tenha contado com mais de 400 mil assinaturas e a adesão de muitos parlamentares de vários partidos, ainda não provocou uma ação efetiva na direção para a qual aponta.

O povo não é bobo, mas os excessos retóricos confundem os incautos que, teleguiados pela irresponsabilidade de alguns influenciadores, não percebem o quanto governo e oposição se contradizem no discurso e na ação, e como o jogo político tem se transformado em guerra de torcidas com foco único e exclusivo em eleições. Sobram oportunismos, populismos e propaganda. E com a internet, as disputas políticas se apequenaram ainda mais. O discurso eleitoreiro tomou o lugar da grande política e do debate de projetos para o país. Quem tem senso crítico compara o comportamento dos militantes fanáticos com o das mais raivosas torcidas de futebol. É só gozeira, ataques odiosos, memes, mentiras e falatórios desconexos. Uma demonstração cabal de analfabetismo político e total desconhecimento dos verdadeiros interesses que estão em jogo. É como se estivéssemos permanentemente em campanha eleitoral, enquanto a malversação do dinheiro público impera, a população empobrece e as narrativas alienantes manipulam as massas. Os fatos estão aí, só não enxerga quem não quer.

As fraudes no INSS, por exemplo, há quem diga que começou no governo passado. Outros dizem que é herança do mandato de Michel Temer. Entretanto, elas continuaram nesse governo. Faz tempo que a Procuradoria Geral da República (PGR) denunciou, mas só agora veio à tona. E enquanto as falcatruas continuavam deu tempo de o governo e os seus ministros – do Executivo e do Judiciário –, jogarem mais uma vez contra o povo. Nesse caso, contra os aposentados, ao limitar reajustes, retirar benefícios já conquistados, como os do BPC e derrubar direitos, como o da revisão da vida toda, cujo impacto no caixa do INSS seria bem menor do que os valores até então contabilizados nas fraudes.

O governo tem falado em taxar os super-ricos, mas com dinheiro carimbado para políticas sociais. Pois, como ainda existe o teto de gastos (novo arcabouço fiscal), o imposto cobrado dos mais ricos pode voltar para eles no pagamento dos juros da dívida. Muitos brasileiros ainda não entenderam que a cobrança de IOF proposta não é para a taxação dos super-ricos. A taxação dos super-ricos morreu na praia. Foi anunciada de manhã e no final da tarde o próprio governo voltou atrás. IOF é Imposto sobre Operações Financeiras e atinge todo mundo, de forma direta ou indireta. Qualquer cidadão que faz algum outro investimento fora da poupança será ser taxado. É imposto sobre juros e consumo. Vai dificultar a vida do médio, pequeno e até do micro empreendedor que pagará mais impostos e, claro, vai repassar esses custos para o consumidor final. Em termos de “bondades”, a única coisa que o governo conseguiu acenar para o povo nesses três anos foi a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até 5 mil reais mensais. Mesmo assim, até a publicação deste artigo a proposta se quer tinha sido votada.

Mas isso não é tudo. Muitas outras coisas estranhas têm acontecido. É assombroso que muitas delas ocorram entre os próprios governistas. De cara limpa, duas grandes lideranças petistas no Senado, votaram pelo PLP do aumento do número de parlamentares. Na sequência, deputados proeminentes do campo progressista, alguns deles do próprio PT não estavam presentes na votação do PL da Devastação. Foram necessários os vetos de Lula para impedir esses dois projetos de lei. Pergunta-se: é uma jogada ensaiada onde parlamentares vão para o sacrifício de ficar mal com a opinião pública, apoiando ou se isentando de barrar maluquices, para abrir chances do presidente Lula exercer seu poder de veto e ganhar mais simpatia, ou é bate-cabeça mesmo? As duas alternativas são ruins para o PT e para a base governista. Melhor para Lula que, com essas e outras vai recuperando aprovação, ainda que a situação do país, em geral, seja uma das piores das últimas décadas.

A incontestável liderança longeva de Lula como representante do campo democrático progressista, somada ao seu prestígio internacional, carisma pessoal, mas também a um personalismo obstinado, impediram a formação e a projeção de novos líderes no campo da esquerda por décadas. E como todos sabem, uma liderança não se constrói da noite para o dia. O ano de 2026 se aproxima e só se ouve falar em Lula como alternativa para impedir a volta da extrema direita ao poder. Em razão da deliberada falta de opções, ocasionada pela recorrência de erros sequenciais por parte dos progressistas, muito provavelmente ele deverá ser o candidato, e se isso acontecer, certamente, será o vencedor. Sua vitória, a curto prazo, será muito boa para mais uma tomada de fôlego do Partido dos Trabalhadores e para o seu projeto de poder, mas pode ser péssima para o líder, Lula. Corre o risco de ganhar e não governar e, depois de tanto prestígio, se ver numa maré baixa. Logo ele, que figura entre os melhores presidentes do Brasil de todos os tempos, cuja aprovação popular já chegou a 87%.

A despeito das críticas que podem ser feitas a Lula, a esse governo de frente ampla e ao STF, não podemos nos esquecer da truculência com a qual a extrema direita tem agido, das ameaças à soberania nacional e do mal que o bolsonarismo tem causado à república e, consequentemente, à política, à democracia e ao tecido social brasileiro. E não nos enganemos, esse Congresso, com raríssimas exceções, é uma vergonha. Nos últimos dias, a deputada Bia Kicis (PL/DF), renunciou da condição de líder da minoria para que seja nomeado em seu lugar, o deputado que deveria estar sendo cassado por ter abandonado sua cadeira no Parlamento, Eduardo Bolsonaro (PL/SP) que, enquanto recebe salário pago pelo povo brasileiro, trama contra o país nos Estados Unidos da América do Norte. Ainda que não passe no Senado ou o STF venha a derrubar outros absurdos aprovados na calada da noite, os deputados federais emplacaram a anistia para os golpistas e os arruaceiros de oito de janeiro e a PEC da Bandidagem. Essa última contou, inclusive, com votos de 12 deputados do PT e de mais outras tantas dezenas de votos de integrantes da base do governo. Os únicos partidos que não votaram a favor dessa aberração foram o PSOL, o PCdoB, a Rede Sustentabilidade e o Novo.

Contudo, e ainda que sem muita esperança, a população está atenta. No último domingo, dia 21 de setembro, o povo que já não aguenta mais tanta traição, encheu as ruas do país para protestar contra o tresvario desse que tem sido considerado o pior Congresso da história do Brasil. 


*O autor é comunicólogo e jornalista. 
Doutor em Educação e mestre em Artes Visuais. 
Trabalha com Educação comunicacional e midiática.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

BRASIL NÃO É ESTADOS UNIDOS NEM CHINA

 

(Imagem do Google)


Governo e Oposição:
Comunicação ou Lacração?

Eugênio Magno*

O governo federal e o mandato “Lula Três” ou “PT Cinco” tem sido alvo de inúmeras críticas. À direita, por razões óbvias e à esquerda, por razões não tão óbvias assim mas, para o cidadão progressista politizado que escapou do messianismo delirante de torcida organizada, não ficam impunes a um mínimo escrutínio acerca de como o governo tem operado nesses seus dois anos de mandato. Desde o primeiro ano vozes aliadas apontavam inúmeras fragilidades, mas não foram levadas em consideração. Passaram-se dois anos e nada foi feito para corrigir rumos. Ao contrário, os erros se multiplicaram e só agora, com a aprovação do governo em queda vertiginosa resolveram anunciar mudanças.

Análises simplistas dos que circunscrevem a política apenas à governabilidade e a interesses eleitoreiros, ao negar a necessidade de políticas de estado e de um projeto que enfrente as principais questões estruturais do país, debitam quase tudo nas barreiras interpostas pelo congresso e na incapacidade comunicacional do governo. Existem inúmeros equívocos nessas análises, em sua maioria tendenciosas – pró e contra o governo. As relações do executivo com o legislativo, o judiciário e com o mercado, por exemplo, apesar de porosas, são vendidas como independentes e até como se fossem conflituosas. São necessários exames abrangentes, objetivos, profundos e desapaixonados para compreender esse imbróglio.

Como a tônica deste artigo é a comunicação governamental, de saída é preciso que fique claro o seguinte: embora importantíssima, a comunicação, no sentido em que muitos apontam, não resolve absolutamente nada. Para se comunicar, especialmente no campo político, de forma ativa e não apenas reativa – e com delay, como o governo se comunica – é imprescindível que hajam informações e notícias originadas de fatos reais e ações concretas que impactem fortemente, e de maneira positiva, a vida do povo. O que se comunica é, ou deveria ser, o resultado de uma ação, para que haja Comunicação. Esta é uma equação que se estrutura com dez por cento de comunicação e noventa por cento de ação. Quando a ação, a política desenvolvida é forte o suficiente, ela própria já é a mensagem e até mesmo o meio. Numa circunstância tal, o papel da publicização, da divulgação, é apenas fazer com que a ação ganhe ainda mais relevância, capilaridade e repercussão. Mas esse não é o caso. A direita radical dominou o ambiente virtual com fake news e lacração e um monte de ineptos da esquerda adotou essa prática e se acha no direito de incentivar o governo a agir da mesma forma. Governistas e oposicionistas estão confundindo marketing digital, cancelamentos e lacração com comunicação.

A falta de audácia por parte do governo para enfrentar os temas mais difíceis, compatíveis com suas origens e sua base – a classe trabalhadora –, tem impedido que ele consiga pautar a imprensa com temas de grande impacto junto à população. Com tudo isso e mais as críticas, ilegítimas e legítimas, as poucas ações concretas e positivas do governo, principalmente as de pouca magnitude, ficam totalmente sem espaço na mídia e, consequentemente, desconhecidas da população, enquanto todas as maldades que, diga-se de passagem não têm sido poucas, ganham difusão.

No final do ano de 2024, alguns fatos geraram notícias favoráveis e desfavoráveis ao governo. Todavia, mesmo aquelas supostamente favoráveis, não se sustentaram com esse status se analisados com um pouco mais de rigor os fatos que as geraram. Sem entrar nos méritos do ocorrido, tomemos a infeliz fala de Rosângela Lula da Silva (Janja), numa palestra sobre combate à desinformação no Cria G-20 que, quando interrompida por uma buzina de navio mandou um sonoro: “fuk you, Elon Musk”. Por pura sorte a fala da primeira-dama foi subsumida pelas notícias-bomba sobre a tentativa de golpe, numa lambança em que apareceram nomes de militares de alta patente das Forças Armadas brasileiras e do ex-presidente, Jair Messias Bolsonaro. Fatos que despertaram grande atenção da mídia nacional e internacional, abafando a repercussão da fala da esposa do presidente.

Na sequência, surfando na mesma onda da avalanche de notícias sobre a arquitetura da tentativa de golpe e da divulgação dos nomes e cargos das autoridades envolvidas, esse mesmo governo acusado de não se comunicar bem ensaia o que poderia ter sido uma jogada de mestre. Usando cadeia nacional de rádio e TV, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, anunciou para todo o país as novidades do seu arcabouço fiscal. Para o anúncio das novas medidas – nada populares –, usou de uma prerrogativa de comunicação governamental que, inclusive, tem sido pouquíssimo usada até mesmo pelo presidente da república. A estratégia, mais marqueteira do que comunicacional, não se sustentou. Festejado pelo governo e por alguns poucos setores da sociedade, o que foi votado do arcabouço fiscal no final de 2024 conseguiu desagradar tanto a Faria Lima quanto os intelectuais e os mais pobres. A primeira, em razão do anúncio de possíveis atitudes futuras que os “prejudica”, e os últimos pelo massacre à classe trabalhadora e aos pobres, fato corriqueiro no país e que se agrava a cada dia. O salário mínimo foi atingido em cheio e muitos dos demais cortes como os do Benefício de Prestação Continuada (BPC), por mais paradoxal que possa parecer, só não aconteceram porque o congresso, incluindo alguns deputados de parte da esquerda não permitiram. E isso basta. As práticas desse governo de frente ampla tem sido dizentes. Não é necessário nem mesmo desenhar para que a situação seja melhor compreendida. Até o presente momento não foi possível articular nenhuma medida concreta de grande alcance popular. Infelizmente, é preciso dizer que o populismo e a demagogia têm sido a prática corrente. Enquanto os messiânicos e o povo em geral se entretinham com as notícias da tentativa de golpe e o anúncio dos nomes e patentes dos golpistas, a boiada passou. Lembram de uma frase parecida com essa? Pois é, foi dita e praticada de forma sistemática à direita, por seis anos e agora se repete em ato à esquerda. 

É difícil entender porque certos setores da mídia que faz “assessoria de imprensa” para o governo insiste tanto em esbravejar que o congresso é contra o governo se o governo aprova tudo que manda para câmara e senado. Também, alimentando a boca grande do parlamento com as famigeradas emendas parlamentares, não poderia ser diferente. Dizem que a Faria Lima é contra o arcabouço fiscal e que o congresso é aliado da Faria Lima (?). Então, por que o congresso aprovou em regime de urgência a parte do pacote que mais prejudica a população de baixa renda e numa jogada de equilibrista ainda conseguiu desidratar o impacto do arrocho econômico? Resumindo, o governo criou uma estratégia de dar com a mão pequena e tirar com a mão grande. Tem gente que ainda não entendeu que os ataques às regras de reajuste do salário mínimo vão destruir o ganho de trabalhadores e aposentados. Isso representa um grande retrocesso em relação aos próprios avanços dos Governos Lula I e II e Dilma I que garantiam ganhos reais, acima da inflação aos assalariados, acompanhando o crescimento da economia que na lógica atual só faz engordar a porca dos mais ricos, condenando os pobres a se tornarem ainda mais pobres. E não cabe desculpas para tanto descalabro. Esse projeto tem digitais: é de autoria do governo e as maldades já foram feitas, aprovadas e estão em vigor. A tal isenção de Imposto Renda para os que ganham até cinco mil reais e a taxação dos mais ricos, quando votados e, se aprovados, o que é pouco provável, só terá validade a partir de 2026.

Em meio às festas de fim de ano, logo após o pacorte(s) do Haddad, Lula assina o termo de posse de Gabriel Galípolo, como presidente do Banco Central e anuncia Galípolo e Arcabouço Fiscal como “Presentes de Natal” para os brasileiros. Não é por nada não, mas com esses “presentes”, dá pra rir e pra chorar. Teríamos que ser masoquistas para comemorar mais esse revés. E, na contramão de um posicionamento que seja digno de uma esquerda que honre tal posição, a todo instante um bando de incautos interpelam os críticos indagando se o cavalo de Tróia de Bolsonaro, Campos Neto, seria a melhor opção. Aí é preciso dizer que não é questão de preferência, mas de coerência. Quando o governo nomeia um banqueiro, representante do mercado, defensor dos juros altos e simpático à Faria Lima, cabe muita reflexão e os debates não podem ser invalidados de forma irresponsavelmente sumária como tem acontecido. O resultado está aí: a primeira ação de Galípolo à frente do Banco Central foi aumentar a taxa Selic em 1%. Enquanto a galera que deveria torcer pelo Brasil fica na torcida de China versus Estados Unidos a equipe econômica do governo faz gol contra.

Lulistas, governistas acríticos e mídia comprometida com o governo insistem em fazer comparações por baixo e usam o mesmo expediente carcomido da extrema direita. Bolsonaro e seus asseclas passaram quatro anos destruindo a república e detratando Lula e o PT. Lá se vão dois anos do mandato de Lula e Bolsonaro e os bolsonaristas não foram deixados de lado, à cargo da jusutiça. A todo instante a torcida Lulista recorre às confrontações, Lula X Bolsonaro, para justificar suas recorrentes passadas de pano. Há que se elevar o nível do debate, qualifica-lo. Criticar Jair Bolsonaro, Paulo Guedes, Roberto Campos Neto e companhia limitada é a coisa mais fácil que existe. A esquerda não é mais oposição e sim situação. Nessa condição, estabelecer comparativos com o período de Bolsonaro é perda de tempo e energia. Sendo o PT e ao menos parte da base governista de esquerda, é incoerente negar o direito e o dever dos cidadãos e dos seus eleitores cobrarem do governo sua posição progressista e as promessas de campanha, ao invés de repetir o comportamento teleguiado dos bolsonaristas que aceitam tudo do seu “mito”, de boca fechada. Afinal, sugerir, fiscalizar e criticar a quem se elegeu e deu poder é um direito legítimo. Entretanto, a miopia é grande. Essa esquerda, mesmo no poder, vilaniza o passado e culpa o futuro por nunca chegar – com inação –, enquanto a direita ferra o povo e a nação no presente, estando ou não no poder.

Se o governo ao menos admitisse que a sua missão consistia apenas em impedir a permanência do desastre Bolsonaro no poder e com a frente ampla garantir a democracia e colocar ordem na casa, o Brasil humanista e democrático já estaria agradecido. Mas não, fez uma série de promessas de campanha que não cumpre e ilude o povo anunciando falsas bondades. Falha que poderia ser minimizada se resolvesse usar de honestidade com a população. Mas o salto alto não permite dar nenhum sinal de fraqueza e revelar os verdadeiros entraves para a realização do que prometeu. Coisa que não acontece nem mesmo para reconquistar o apoio popular. Para 2026 já se fala até em mais uma guinada do centro para a direita. A impressão que fica é que só o poder interessa. Com isso, a popularidade e a credibilidade só cai junto ao próprio eleitorado. 

Questionados, os fiéis escudeiros do governo se defendem dizendo que a economia voltou a crescer, o PIB aumentou, o ano de 2024 foi superavitário, o dólar baixou, os empregos voltaram e tal. São incapazes de reconhecer o grande déficit de empregos formais, a carestia dos alimentos e demais produtos no supermercado, na bomba de combustível, no armazém, no sacolão, na farmácia, na padaria, no comércio, nos transportes e nos serviços em geral. Uma total falta de sintonia com a realidade do Brasil profundo e da economia real. Falas de papagaios repetindo jargões neoliberais dos economistas do governo e do mercado. Alguns minimizam a gravidade da questão econômica que também é social, trazendo o tema das constantes ameaças à democracia. Argumentam que o fogo amigo pode dar munição ao nazi-fascismo extremado dos radicais da direita que está vivíssimo buscando a quem devorar e que novas tentativas de golpe podem ser armadas. Essa é uma ameaça real que nunca esteve ausente da política brasileira. Mas, que fique claro: nenhum dos que criticam o governo, por dentro, desconhecem-na ou a negam. O que não se pode esquecer é que existem muitos outros enfrentamentos a serem encarados no país, especialmente no campo econômico. A segurança pública merece atenção especial. O país reclama urgência na regulação do setor cibernético e de telefonia onde a criminalidade e os abusos proliferam denodadamente. E ainda tem as promessas de campanha, como a revogação de várias decisões do governo anterior, dentre muitas outras propostas, até então intocadas. Para tudo que não é realizado ou é encaminhado de forma errática, busca-se uma justificativa.

Já faz um tempo que a comunicação virou bode expiatório, a grande responsável por todos os equívocos do governo. Os que se metem a porta-vozes palacianos, lotados em diversas mídias, vivem dizendo que tem muita coisa boa acontecendo, mas que o governo não consegue comunicá-las. O irônico, é que nem mesmo esses ufanistas nos dão a conhecer tais bondades, enquanto as maldades vão todas passando: as da oposição, do centrão, do mercado e as do próprio governo. Mas quem as identifica, independentemente do campo político em que esteja, deve se calar ou correr o risco de falar e ser patrulhado. Só os mais aguerridos, a contrapelo dos haters, se mantêm firmes em suas posições de sujeitos históricos responsáveis.

No outro espectro, a turma da extrema direita que passou a adotar as redes sociais como fontes de (des)informação, agem como alucinados. Dão a impressão de pessoas que quando precisam de médicos vão à sapataria. É estarrecedor constatar o grau de confiança que eles atribuem a tantas informações desqualificadas e apócrifas. Mas, de certa forma, a chamada mídia alternativa ou independente tem sua parcela de culpa nisso também. Alardearam ser os bastiões da moral, da ética e do jornalismo sério e desancaram a mídia tradicional que todos conheciam e por onde grande parte da população se informava, apesar de seus vícios e comprometimentos e isso contribuiu para que o jornalismo como um todo e o profissional de comunicação fosse totalmente descredibilizado com o refrão diário na cabeça do internauta de que “a mídia é tendenciosa e a imprensa não é confiável”. Nessa onda, a extrema direita se aproveitou disso de maneira perversamente “inteligente”. Passou a usar o próprio argumento desses progressistas que se acham acima do bem e do mal e toda a mídia, seja ela corporativa, alternativa, independente ou progressista, vem sendo demonizada pela sociedade.

Os arautos do caos midiático se esquecem de que eles estão incluídos nisso, pois também são mídia e como tal vítimas dos próprios ataques. Além dessas declarações representarem um contrassenso pois que, a própria mídia independente, alternativa ou progressista (difícil nominar), ademais, não tem tido um comportamento justo ao processar as informações. Não dá espaço para o contraditório, condena veementemente o que não está alinhado com seu campo ideológico e certos comentaristas que operam nesses portais entraram de sola na wibe do cancelamento e da lacração. Só têm elogios para toda e qualquer atitude do governo e nas questões controversas adotam o silêncio como estratégia.

A hegemonia dos veículos de comunicação corporativos está em seus estertores. Já são muitos os blogs, sites, portais, canais e plataformas de jornalistas independentes e de novas empresas de comunicação digital que disputam audiência com a mídia tradicional em pé de igualdade. Mas, audiência, progressismo, engajamento e faturamento nem sempre é compatível com informação de qualidade e compromisso com a verdade dos fatos. As estruturas de processamento da informação: acompanhamento dos fatos, busca de fontes variadas, triagem, apuração, reportagem e checagem ainda não estão totalmente aprimoradas nesses novos veículos midiáticos. A maioria, apenas comenta notícias e emite opinião, em grande medida, se valendo das notícias apuradas pela imprensa corporativa tradicional que tanto criticam. O discurso depreciativo adotado pelos que se julgam ungidos não atingiu somente a mídia corporativa. Foi nefasto para todo o sistema de comunicação e sobre isso ninguém se manifesta.

Quem quer se manter bem informado precisa quintuplicar as buscas por fontes de informação confiável de forma ampla e variada, e ainda assim corre o risco de ficar desinformado. O momento exige uma cruzada no sentido de resgatar a credibilidade da mídia, da informação, do jornalismo e da comunicação de um modo geral. O setor, em sua nova configuração, ampliada pelo digital e pela hegemonia das big techs carece, urgentemente, de regulamentação. Ainda assim, os responsáveis por legislar sobre o tema estão deitados em berço esplêndido a esperar não se sabe o quê.

Por essas e outras é que o refrão: “o governo comunica mal” é discutível. Tem uma turma de jornalistas e analistas insistindo tanto nisso que tal vaticínio só não vai virar verdade porque a realidade concreta não permite. Já trocaram o secretário de comunicação, de um político, por um marqueteiro. Saímos da retórica política institucionalizada para uma estratégia de marketing digital com pitadas panfletárias de campanha eleitoral, adaptadas ao estilo TikTok. Assim, do ponto de vista do formato e da agilidade, já se percebe uma mudança significativa. Entretanto, cabe indagar: onde fica a comunicação social no que ela deve ter de mais consistente, ética e comprometida com a verdade dos fatos e com seu público, no caso não um mero consumidor de conteúdos com imagens e manchetes atrativas, mas o cidadão brasileiro. Quem é do ramo – e é estudioso – sabe muito bem que comunicação é muito mais do que a simples retórica sofista. No entanto, é o que a maioria dos críticos da comunicação governamental defende e não se cansa de empurrar o governo para a adoção sistemática e oficial dessa prática epidérmica como estratégia prioritária.

É evidente que a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (SECOM) vinha tendo dificuldades em operar estrategicamente forma e conteúdo da comunicação do governo federal. E é inaceitável para quem é profissional da área que uma das mais completas estruturas de comunicação que se pode ter, o sonho de consumo de qualquer comunicador, não consiga comunicar bem. Essa secretaria conta com o conglomerado de mídia da Empresa Brasil de Notícias (EBC), as melhores agências de Propaganda e Relações Públicas do país a seu serviço e um supercomunicador que é o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O governo já teve também o Flávio Dino que, descontadas as fanfarronices, além de ser um bom comunicador era um quadro com grandes chances para 2026, mas que a egolatria o tirou da linha sucessória presidencial com o irrecusável empregão no Supremo Tribunal Federal (STF). Janja foi outra que tem feito investidas na área de comunicação, mas depois das últimas imprudências calou-se ou foi silenciada. Fernando Haddad, de vez em quando arrisca um pronunciamento, mas apesar da fala educada e do seu bom-mocismo, não tem carisma. Sua comunicação se adequa mais ao petit comité de banqueiros, rentistas e comentaristas de economia neoliberais. Além de tudo, o ministro da fazenda só tem dado informações impopulares, o que não ajuda a ele e muito menos ao governo. As tiradas comunicacionais criativas do Lula também não se adequam mais ao time digital. Elas surtiam grande efeito no período analógico em que as possíveis respostas, quando surgiam, vinham com atraso. Os tempos mudaram e os improvisos do presidente carecem de upgrade para não serem transformados em memes da oposição, como tem ocorrido com frequência.

A despeito dessas e de outras considerações que possam ser feitas no âmbito da comunicação oficial do governo, desconfio que o tal problema comunicacional não se localizava totalmente na Secretaria de Comunicação. Provavelmente existe alguma eminência parda – inapta ou mal intencionada – atuando nos bastidores como orquestrador/a da militância digital de esquerda, incitando-a a agir tal e qual a extrema direita, no limite das narrativas espetaculares. Mídia alternativa e jornalistas influenciadores digitais foram capturados por essa orientação e têm atuado como multiplicadores da desventurada tendência juntamente com a torcida partidária nas redes sociais. A expectativa é de que o novo ministro da Comunicação, Sidônio Palmeira, acione seus radares para localizar e retirar a batuta do maestro impostor e fazer a regência da comunicação de maneira satisfatória para que o fator comunicacional não seja mais a desculpa governista. 

Porém, na política, apesar da profusão de milagreiros, milagres não existem. Algumas das últimas ações governamentais que poderiam gerar repercussão positiva na mídia e nas redes foram malfadadas. O evento do dia 8 de janeiro de 2025, convocado pelo governo para celebrar a democracia, com um abraço na Praça dos Três Poderes, não conseguiu reunir nem duas mil pessoas. A fala de Lula, que aproveitou bem o sucesso do filme, Ainda estou aqui, para condenar os atos golpistas e o pronunciamento do ministro, Alexandre de Moraes que mandou recado para Mark Zuckerberg, dono do Facebook, dizendo que o Brasil tem leis, salvaram a pátria. Logo depois surgiu o caso do Pix com a boataria da taxação. Nessa, o governo tomou uma decisão e, ao voltar atrás, passou recibo para a oposição. Ato contínuo, a extrema direita acusou o produtor e diretor do filme, Ainda estou aqui, Walter Salles, de usar dinheiro público para fazer cinema. Pessoas que se dizem de esquerda usaram os argumentos mais bizarros para defender o cineasta: “ele é muito rico, dono de banco (..)”. E é mesmo, mas o Waltinho tem uma filmografia substantiva e inúmeros méritos que poderiam ser usados em sua defesa, além do mais essa coisa de banqueiro não deveria ser festejada, muito menos pela esquerda. Não pegou bem. A direita ressentida fez uma provocação tosca e a esquerda respondeu de forma estúpida. Para completar o quadro, a base do governo votou com a maioria para eleger os presidentes da Câmara e do Senado e especula-se que Arthur Lira é cotado para assumir um ministério. As sandices não têm fim. Na posse de Donald Trump foram as piadinhas sobre o traje preto e o chapéu da primeira-dama, Melania Trump, e logo em seguida veio a onda do boné. Uma bobagem, onde a esquerda já saiu perdendo, por se ver obrigada a utilizar a cor azul, em razão da extrema direita Bolsonaro-trumpista ter capturado o vermelho, tradicionalmente caracterizado como a cor das esquerdas no mundo inteiro. É difícil entender o porquê da insistência em disputar narrativas de lacração ao invés de disputar projeto político, fazer showrnalismo de internet e deixar de formar e informar a população.

A quantidade de erros cometidos pelo governo em sequência e a insistência de alguns fanáticos em desqualificar a comunicação governamental, por ignorância ou estrategicamente, têm nos convencido de que o buraco é bem mais embaixo. É muito clara a tentativa de transferir responsabilidades para esconder o comportamento neoliberal do governo e a falta de projetos e de boas notícias. Por isso, questões outras e de várias ordens foram usadas como ingredientes para temperar o tema da comunicação e deixar claro que não há comunicação que dê conta de escamotear ou dar verniz a tantos disparates. Para além dos aqui citados, muitos outros acontecimentos comprovam nossos argumentos e os de vários analistas, cientistas políticos e jornalistas que, desde o primeiro ano desse governo, alertam para a falta de ações concretas que repercutam na vida, no trabalho, na mesa e no bolso do povo. Fatos que poderiam ser matéria-prima comunicacional para despertar o interesse da mídia e agradar a nação.


Os dias correm, a descrença é notória, o pessimismo aumenta e a falta de alternativas ou de uma bala de prata causam perplexidade. Contudo, é o que se tem para o momento e, apesar de todos os pesares, é muito melhor que assim seja. E para que nenhum atrevido queira fazer ilações, mau juízo ou uso indevido do que aqui foi posto e exposto, que fique claro o seguinte: a outra alternativa se quer deve ser lembrada, pois, sempre esteve fora de qualquer cogitação e assim deve permanecer.

*O autor é comunicólogo e jornalista. Doutor em Educação e mestre em Artes Visuais.
Trabalha com Educação comunicacional e midiática.

Faz tempo que os sinais de alerta vêm sendo dados. Para formar melhor juízo sobre a situação em que o governo se encontra leia também:


A TECNOLOGIA DIGITAL É VICIOSA E VICIANTE: Tecnologias e criminalidade de braços dados



O TREM NÃO É TÃO BÃO QUANTO QUEREM QUE PAREÇA SER: Balanço do primeiro ano do terceiro governo Lula

terça-feira, 20 de julho de 2021

CRISE CIVILIZATÓRIA



Mbembe, necropolítica e crise da democracia


É sempre interessante quando as escritas acadêmicas passam a atingir o grande público. Nem toda pesquisa, é claro precisa ter esse objetivo, mas é excelente quando grandes obras cumprem este papel. Com os desastres anunciados do governo Bolsonaro, por exemplo, a obra do camaronês Achille Mbembe tem sido cada vez mais citada nas redes sociais, principalmente seu conceito de “necropolítica”. Como todo conceito amplamente difundido (ou, talvez, como tudo aquilo que cai nas redes), porém, há sempre o risco de esvaziamento de conteúdo.

Afinal, o que seria, então, a necropolítica? Uma primeira citação do próprio Mbembe dá o pontapé inicial para seu entendimento:

“A ideia segundo a qual a vida em democracia é, no seu fundamento, pacífica, policiada e desprovida de violência (nomeadamente sob a forma da guerra e da devastação) não nos convence. (…) a brutalidade das democracias nunca foi senão abafada. Desde as suas origens, as democracias modernas mostraram tolerância perante uma certa violência política, inclusive ilegal. Integraram na sua cultura formas de brutalidade levadas a cabo por uma série de instituições privadas agindo como mais-valia do Estado, sejam elas corpos francos, milícias ou outras formações militares corporativistas”.

A citação acima é recheada de sentidos. Percebe-se, por exemplo, que, para Mbembe, as democracias modernas não devem ser enxergadas como sistemas teoricamente perfeitos que, vez ou outra, são atingidos por violências e falhas externas. Para o autor, seja ela estatal, seja ela privada (ainda que igualmente ligada aos mesmos interesses do Estado), a violência é parte integrante da própria democracia. E isto não é fruto de alguma degeneração ou crise dos Estados democráticos, mas característica original e fundante dos mesmos.

Para continuar lendo a matéria de Almir Felitte para Outras Palavras, clique aqui.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

SEGUE PROCESSO PARA IMPEACHMENT DE TRUMP


Democratas subirão ao palco para debate presidencial após Câmara aprovar impeachment

Pré-candidatos presidenciais democratas durante debate em Atlanta 20/11/2019 
(Foto: REUTERS/Brendan McDermid)

Um grupo relativamente pequeno de sete pré-candidatos presidenciais democratas subirá ao palco de um debate nesta quinta-feira, um dia depois de Donald Trump se tornar o terceiro presidente dos Estados Unidos a ter um impeachment aprovado pela Câmara dos Deputados.
O sexto debate na corrida para decidir o desafiante democrata de Trump na eleição de novembro de 2020 terá o menor número de participantes desde que os debates começaram, o que pode dar a cada um deles um espaço maior e mais tempo para interagir com os outros.
O debate também oferecerá a Pete Buttigieg, prefeito de South Bend, em Indiana, e à senadora Elizabeth Warren uma chance de renovar sua rivalidade de campanha crescente sobre a transparência na arrecadação de fundos e seu trabalho passado no setor privado.

Para ler na íntegra a matéria de Susan Cornwell e Richard Cowan e David Morgan para a Reuters, clique aqui.

domingo, 24 de fevereiro de 2019

A QUESTÃO VENEZUELANA ULTRAPASSA AS FRONTEIRAS DO CONTINENTE AMERICANO


Por que a crise na Venezuela interessa tanto países 
como Rússia, China e Turquia 

(Foto: Getty Images)

As notícias sobre a Venezuela ganham destaque em países muito além da América Latina. Seja no alfabeto latino, cirílico ou persa, o país sul-americano desperta interesse em todo o planeta - mesmo em Estados com os quais a Venezuela não tem laços históricos ou comerciais.
A Venezuela de Nicolás Maduro (e antes disso, a de Hugo Chávez) é um assunto polêmico inevitável em debates eleitorais de nações tão diferentes quanto Espanha e Irã.
Provoca divisão, inclusive, entre parceiros políticos. Foi o que ocorreu com o Movimento 5 Estrelas e La Liga, que governam juntos a Itália, mas têm posições opostas em relação à legitimidade de Maduro como líder do Executivo - por isso, os grupos decidiram não reconhecer nem Maduro nem Juan Guaidó como presidentes da Venezuela.
Acima de tudo, a Venezuela mantém em compasso de espera as nações que não têm boas relações com os Estados Unidos.
Mas o que há de tão especial na Venezuela que atrai a atenção de tantos países?
Para continuar a ler a matéria de Stefania Gozzer para a BBC News Mundo, clique aqui.

sábado, 28 de janeiro de 2017

EUA SE ISOLA DO MUNDO


Faltam 2 mil kilometros para o novo "muro da vergonha"


A muralha de Donald Trump já existe e atravessa cidades e montanhas. Nova construção provocará golpe ecológico e maior mortalidade entre os migrantes.
Quando escutou que Trump queria construir um muro, a primeira coisa que o professor Jonathan Lee pensou foi: “Será mais largo? Será eletrificado? Terá dois andares?” Isso porque Lee, da cidade de Tecate, todo dia vê uma placa metálica ocre e enferrujada quando acorda. Ela foi erguida por Bill Clinton em 1994 a 20 metros da sua cama.
A reportagem é de Jacobo García, publicada por El País, 26-01-2017.
Na quarta-feira, Donald Trump anunciou o começo da construção “em meses” de um muro ao longo da fronteira e cujo financiamento será por conta do México, tal como disse o magnata à rede ABC. O muro, segundo cálculos do The Washington Post, terá um custo superior a 25 bilhões de dólares (80 bilhões de reais) e exigiria a utilização de milhares de trabalhadores durante anos.
No entanto, essa é uma realidade tangível há décadas para milhares de mexicanos. “Eu passava aos EUA com a naturalidade de quem atravessa a rua. Eles e nós fazíamos as compras de ambos os lados da fronteira sem nenhum inconveniente, até que começaram a erguer o muro”, diz Lee, de 33 anos.
A construção não é uma invenção de Trump. Com a chegada de Clinton ao poder, em 1993, os democratas levantaram o polêmico muro sem nenhum escândalo, da mesma forma que Barack Obama foi o presidente que mais expulsou migrantes sem documentos durante seus oito anos de Governo: quase 2,6 milhões de pessoas deportadas.
Hoje, há muro físico em um terço (cerca de 1.100 km) dos quase 3.200 quilômetros de fronteira entre México e EUA. Barreiras de concreto, grades, placas metálicas que serviram para facilitar o pouso de aviões durante a Guerra do Golfo e depois foram usadas para separar os dois países.
O muro começa na praia de Tijuana e avança rumo ao leste atravessando cidades como Tecate e Mexicali. Em outros trechos, sobe e desce pelos montes de estados como Califórnia, Arizona e Novo México, onde apenas se ouve o vento e habitam veados, como uma variante tex-mex da Muralha da China.
Em outro terço da fronteira há um muro virtual, vigiado por câmeras, sensores térmicos, raios-X e pelo menos 20 mil agentes fronteiriços, 518% a mais do que há duas décadas, segundo um relatório elaborado pelo instituto mexicano Colégio da Fronteira Norte e o Centro Norte-Americano de Estudos Transfronteiriços.
Em seu último terço, o muro é natural. E também o mais barato do mundo para vigiar, pois os rios e desertos de Sonora e Chihuahua agem como sentinelas com suas temperaturas que chegam a 50 graus. Nas últimas duas décadas, cerca de 8.000 migrantes morreram no local tentando atravessá-lo.
“Não se trata apenas da construção de um muro, mas de toda uma estratégia de humilhação”, diz o professor José Manuel Valenzuela, secretário acadêmico do Colégio da Fronteira Norte. “Há uma estratégia para prejudicar a vida na fronteira, restringir os fluxos migratórios e acabar com as cidades santuário, onde os migrantes encontram certa proteção. Isso é também um grave ataque à vida ecológica e aos parques naturais que atravessam a fronteira”, afirma.
“Os grupos supremacistas que atacam e matam os migrantes se veem agora mais legitimados. Comprovou-se que, com a construção do primeiro muro em 1994, a emigração diminuiu, mas o número de mortos aumentou”, diz Valenzuela.
Jonathan Lee, que todo dia vê migrantes de Chiapas e Michoacán passando em frente à sua casa tentando atravessar para o outro lado, acredita que o muro de 1994 serviu como uma espécie de seleção natural. A barreira obrigou os migrantes a passarem por desertos e montanhas. “Quem consegue sobreviver a uma prova tão dura demonstra que é forte e fisicamente capaz de trabalhar em qualquer tipo de serviço que os EUA exigirem”, diz.
(Fonte: Site do Instituto Humanitas Unisinos - IHU)

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Estados Unidos e Rússia



Perversão sexual e ciberataques: 

o dossiês da Rússia sobre Trump



Um relatório divulgado por diversos veículos de imprensa americanos nesta terça-feira (10/01), que estaria em poder das agências de inteligência do país, sugere que a Rússia teria informações comprometedoras sobre a vida privada e financeira do presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump. Moscou, por sua vez, nega as informações e diz que o relatório é uma farsa.
Horas após relatos de que Trump teria sido informado por autoridades de inteligência sobre a existência do dossiê, o portal de notícias BuzzFeed News publicou um resumo do conteúdo. No entanto, o editor-chefe da página fez a ressalva de que haveria razões para questionar a veracidade do documento, uma vez que as informações não puderam ser totalmente verificadas.
Os diretores das principais agências de inteligência teriam apresentado o dossiê para Trump e para o atual presidente, Barack Obama, na semana passada, em meio às especulações de uma suposta interferência russa nas eleições presidenciais americanas.
Um ex-agente da inteligência britânica que teria elaborado o conteúdo do relatório teria assegurado que as informações seriam suficientes para “chantagear” o presidente eleito. Segundo a imprensa americana, o ex-agente teria credibilidade perante as agências de segurança.
Para continuar lendo a matéria, clique aqui.
(Fonte: Diário do Centro do Mundo)

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

TENTATIVA DE GOLPE NO EQUADOR

Unasul 'condena energicamente'
a tentativa de golpe contra Correa
(Foto: EPA)

"Os líderes dos países da Unasul - União de Nações Sul-americanas, reunidos em Buenos Aires, aprovaram uma declaração que condena energicamente a tentativa de golpe de Estado e posterior sequestro de Rafael Correa e ressalta a necessidade de que os responsáveis do levante golpista sejam julgados e condenados.
Além disso, o documento adverte que os governos da região não tolerarão sob nenhuma hipótese qualquer novo desafio à autoridade constitucional ou tentativa de golpe ao poder civil legitimamente eleito.
Em caso de novos levantes, serão adotadas medidas concretas e imediatas, tais como fechamentos de fronteiras, suspensão do comércio, tráfego aéreo, fornecimento de energia e serviços, acrescentou a declaração.
Além disso, os líderes decidiram que a agenda da próxima cúpula ordinária da Unasul, prevista para 26 de novembro em Guiana, vai prever a inclusão de uma cláusula democrática ao tratado constitutivo da União.
A reunião de Buenos Aires, convocada com urgência pela presidente argentina, Cristina Fernández, e seu marido, o ex-presidente e atualmente secretário-geral da Unasul, Néstor Kirchner, contou com a presidência dos presidentes da Bolívia, Evo Morales; Uruguai, José Mujica; Venezuela, Hugo Chávez; Peru, Alan García; Colômbia, Juan Manuel Santos, e Chile, Sebastián Piñera.
Os grandes ausentes foram os líderes do Paraguai, Fernando Lugo, internado por uma intoxicação, e Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, envolvido no encerramento da campanha eleitoral."

(Foto: AFP)
(Fonte: Site do IHU - Instituto Humanitas Unisinos)

quarta-feira, 28 de julho de 2010

TRISTES LEMBRANÇAS DO VIETNÃ 35 ANOS DEPOIS

Transcorreram 35 anos do fim da longa Guerra do Vietnã, um conflito que marcou a história, a vida política e a cultura dos EUA e do mundo inteiro. Iniciado em 1962 - quando o frágil equilíbrio da área, desenhado no pós-guerra pelas superpotências, não resistiu ao peso da guerra fria - o conflito devastou o Sudeste Asiático por 13 anos, até a "libertação" da ex-Saigon (hoje cidade Ho Chi Minh), no dia 30 de abril de 1975, e a retirada das tropas dos EUA.


























(Fotos: Horst Faas / AP Photo)

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

AS BASES MILITARES DOS EUA

A matéria abaixo, é do jornal mexicano La Jornada e traduzida pelo site Adital.
Mais sete da Colômbia?
As 865 bases militares dos EUA em 40 países
Alfredo Jalife-Rahme

No contexto do neopinochetismo hipocritamente tolerado por Washington em Honduras, agora resulta que a projetada instalação de sete bases militares dos Estados Unidos na Colômbia, que provocou massivo repúdio na América Latina, constitui a atualização de um novo acordo de segurança mediante o arrendamento das bases existentes com a finalidade filantrópica de combater a narcoguerrilha fronteiriça, segundo uma engenhosa interpretação de Obama exposta para um grupo de jornalistas hispanos (Reuters, 07/08/09), em vésperas da desarticulada cúpula do ASPAN em Guadalajara, onde o México não tem nada que fazer nem devia ter participado desde sua calamitosa gênese.
Ninguém aprende com a cabeça alheia e os EUA repetem os mesmos erros da URSS, com uma tríade de consequências devastadoras: sobreextensão imperial, guerra perpétua e insolvência, que levam a um provável colapso similar ao da anterior União Soviética, na opinião de Chalmers Johnson (Dez medidas para liquidar as bases militares dos EUA; Asia Times, 04/08/09).
Chalmers Johnson, professor emérito da Universidade da Califórnia (San Diego) e profícuo autor de livros notáveis evidencia o império global potencialmente ruinoso de bases militares, que cadencia a longa dependência no imperialismo e no militarismo dos EUA em suas relações com outros países, além de "seu inchado establishment militar".
Paralelamente, Floyd Norris, analista financeiro e econômico do The New York Times (01/08/09), revela que o embarque de bens duradouros civis dos EUA caiu mais de 20% durante a recessão, o qual teria sido pior se não fosse a crescente produção de armas, que disparou 123% acima da média do ano 2000 (início do militarismo bushiano, que Obama incrementou com sua máscara de cordeiro sequestrado pelos lobos do Pentágono).
Norris comenta que os EUA é primariamente uma economia civil, quando o "item militar representa ao redor de 8% de todos os bens duradouros (no ano 2000 foi 3%)"; porém, em nossa humilde opinião, é a uma economia preponderantemente militar, já que muitos segmentos de sua atividade civil se entrelaçam com seu substancial belicismo, como tem demonstrado SIPRI, o excelso instituto pacifista sueco.
Segundo o inventário do Pentágono, em 2008, citado por Johnson, o império dos EUA consiste em 865 instalações em mais de 40 países, com um deslocamento de mais de 190 mil soldados em mais de 46 países e territórios.
Johnson expõe o caso singular do Japão e a base de Okinawa (por certo, infestada por escândalos sexuais dos dissolutos militares estadunidenses que levam 64 anos ininterruptos de ocupação).
As sete bases militares adicionais dos EUA na Colômbia elevarão seu total planetário para 872, o qual não tem equivalente com nenhuma potência passada e presente. Literalmente, os Estados Unidos invadiram o mundo!
O mais relevante radica, na opinião de Johnson, em que tal ocupação é desnecessária para a genuína defesa dos EUA, além de provocar fricções com outros países e sua dispendiosa manutenção global (250 bilhões de dólares por ano, segundo Anita Dancs Foreign, Policy in Focus): seu único propósito é oferecer aos EUA hegemonia, isto é, controle ou domínio sobre o maior número possível de países no planeta.
Na opinião de Johnson, Obama não percebeu que os EUA não têm mais a capacidade de exercer sua hegemonia global, enquanto exibe seu lastimoso poder econômico mutilado, quando os EUA se encontram em uma decadência sem precedentes.
Expressa três razões básicas para liquidar o império estadunidense: 1. Carece dos meios para um expansionismo de pós-guerra; 2. "Vai perder a guerra no Afeganistão, o qual aumentará ainda mais sua quebra"; 3. Acabar o vergonhoso segredo do império de nossas bases militares.

Propõe dez medidas:
1. Por fim ao severo dano ambiental causado pelas bases e pelo cesse do Acordo sobre o Estatuto dos Exércitos (SOFA, por suas siglas em inglês) que de antemão impede aos países anfitriões exercer sua jurisdição sobre os crimes perpetrados pelos soldados estadunidenses, isentos de toda culpabilidade (particularmente, a epidemia de violações sexuais nos paraísos militares).
2. Liquidação do império e aproveitar o custo de oportunidade para investir em campos mais criativos.
3. O anterior, indiretamente, frearia o abuso aos direitos humanos, já que o imperialismo engendra o uso da tortura, tão abundante no Iraque, no Afeganistão e na base de Guantánamo.
4. Recortar a inacabável lista de empregados civis e dependentes do Departamento de Defesa, dotado de seu luxuoso prédio (piscina, cursos de golfe, clubes, etc.).
5. Desmontar o mito, promovido pelo complexo militar-industrial, de sua valia na criação de empregos e na investigação científica, o qual tem sido desacreditado por uma investigação econômica séria.
6. "Como país democrático que respeita a si mesmo, os EUA devem deixar de ser o maior exportador de armas e munições do mundo e deixar de educar os militares do Terceiro Mundo (v.gr. militares da América Latina na Escola das Américas, em Fort Benning, Geórgia) nas técnicas de tortura, golpes militares e serviço como instrumentos de nosso imperialismo".
7. Devido às limitações crescentes do orçamento federal, devem ser abolidos os programas que promovem o militarismo nas escolas, como o treinamento do Corpo de Oficiais da Reserva.
8. Restabelecer a disciplina e a prestação de contas nas forças armadas dos Estados Unidos, diminuindo radicalmente a dependência dos contratistas civis, das empresas militares privadas e dos agentes que trabalham para o exército fora da cadeia de comando e do Código de Uniforme da Justiça Militar. O livro de Jeremy Scahill Blackwater cita: A ascensão do exército mercenário mais poderoso (sic!) do mundo (Nation Books, 2007). A propósito, o holandês-estadunidense Eric Prince, fundador retirado de Blackwater e neocruzado da extrema direita cristã do Partido Republicano (muito próximo ao bushismo), acaba de ser implicado em um assassinato (The Nation; 04/08/09.
9. Reduzir o tamanho do exército dos EUA.
10. Cessar a dependência não apropriada na força militar como principal meio para tentar alcançar metas de política exterior.
Sua conclusão é realista: infelizmente, poucos impérios no passado abandonaram voluntariamente seus domínios para permanecer como entidades políticas independentes e autogovernadas. Os dois importantes e recentes exemplos são os impérios britânico e o soviético. Se não aprendemos com eles, nossa decadência e queda estarão predeterminadas.
Terá cura a fixação dos Estados Unidos ao militarismo por mais um século?
(Fonte: www.jornada.unam.mx/- Domingo 9 de agosto de 2009)