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sexta-feira, 16 de julho de 2021

ATÉ AONDE VAI A TOLERÂNCIA?

 

No Brasil, uma questão incômoda é a constatação de que Bolsonaro e seu séquito, além de todos os malefícios que vêm causando ao país, ao povo brasileiro e à nossa inteligência, de forma direta, parecem ter aberto as portas da insensatez e do descompromisso com a ética, a verdade e a dignidade. O bolsonarismo produziu não somente bolsomínions de raiz. Cresceu assustadoramente a desonestidade intelectual e o número de pessoas que passou a desconsiderar a materialidade dos fatos e que apostam repetida e estupidamente em narrativas distorcidas, arrebanhando seguidores tão maldosos ou incautos quanto eles próprios. 

Uma frase de Dostoiévski foi o leitmotiv para a reflexão, do novo episódio do podcast Política com Fé que já está circulando na internet. Diante de tantos fatos e acontecimentos que nos atropelam a todo instante, em várias situações, abordo a questão da tolerância: seus limites e possibilidades. Ouça o podcast clicando aqui.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

A URGENTE E NECESSÁRIA REVOLUÇÃO NO/DO SER HUMANO

A catraca vazia 

ou a origem de todos os males do Brasil


Décio Tadeu Orlandi*

Domingo. Saguão de uma conhecida escola particular de Goiânia. Havia levado minha filha de dez anos para participar de um torneio interescolar de xadrez. A instrução que havia recebido era clara: início das partidas às 10 horas. Nada complicado, ou esotérico ou impossível, apenas um breve comando: início das partidas às 10 horas. Cheguei às 9h45. Às 10h05, minha filha estava sentada diante de uma cadeira vazia… A sua oponente chegou, esbaforida, quase 20 minutos depois. Ao lado dela, o pai, munido das tradicionais desculpas: distância, trânsito.  Trânsito? No domingo de manhã? Não havia trânsito.
Depois de que a menina se sentou diante da minha filha, como se nada houvesse, muitas outras crianças ainda chegaram, acompanhadas por seus pais e suas mesmas desculpas. Todos entravam no auditório cujas portas fechadas traziam um enorme cartaz onde se lia Não entre. Para evitar me aborrecer mais ainda com a balbúrdia, fui me sentar longe das portas. Por todo o saguão, crianças pequenas começavam a correr de um lado para outro, gritando (e atrapalhando os enxadristas, mas e daí?) sob o olhar indiferente de seus pais, e contrariando um claro aviso na parede: Não corra, evite acidentes. Enfim, saímos, minha filha e eu, só para encontrar nosso carro fechado por uma pick-up que havia estacionado na esquina, sobre a calçada.
No almoço, num grande shopping, famílias corriam para segurar uma mesa (pouco importando o aviso que indicava ser preferencial), disfarçando com seus celulares enquanto pessoas com o prato na mão (algumas idosas) vagavam buscando um lugar para comer. Pedi um sanduíche sem cebola, mas elas estavam lá, pois o atendente não leu o pedido. No cinema, tive de pedir para a jovem na minha frente parar de teclar, pois a luz não me deixava ver o filme. Acabei a noite de volta a meu apartamento, subindo com um cachorro me cheirando no elevador social – expressamente proibido -, e pedindo silêncio ao meu vizinho de cima que se imagina cantor sertanejo e estava dando um show intimista à meia noite.
Enquanto rolava na cama, tentando ignorar o violão desafinado, tive uma visão. Sim, tudo estava claro agora, tão claro quanto o celular da moça no cinema. Estava aí, o tempo todo, na nossa frente, no nosso dia a dia, a origem de todos os males do Brasil. A nossa própria essência como nação, nossa alma verdadeira,  aquela que “olha dentro para fora”, como diria Machado de Assis. Como podia ser tão simples,  afinal, e passar tão despercebido? A verdade simples e crua é que o brasileiro não é capaz de cumprir regras! Só isso.
Incapacidade crônica de cumprir regras. Por isso somos o país com o maior número de leis no mundo – e, como não as cumprimos, nossos legisladores criam novas leis que por sua vez não serão cumpridas, o que vai gerar outras leis, num ciclo infinito… Posso falar por horas sobre este tema : sou professor e há 25 anos e já ouvi (é verdade que nunca tanto quanto agora) tantas desculpas esfarrapadas de alunos e também de pais para burlar as mais simples regras do cotidiano escolar. Assim como a menina de dez anos no torneio de xadrez, que aprendeu na prática com o seu pai que as regras não existem na verdade aqui, e que qualquer problema se resolve miraculosamente com uma mentira qualquer – foi o trânsito…
Fui mal na prova porque não estudei – jamais!  A culpa é do professor que me persegue, do bullying que sofro dos meus colegas,  da escola que não me entende, da educação que é repressora, da sociedade, do destino, de Deus! Ora, meus irmãos, ponhamos as nossas mãos cheias de culpa nas nossas consciências brasileiras tão enferrujadas e admitamos: somos nós que não sabemos seguir regras simples e que transformamos esse país tão lindo em um purgatório perpétuo.
O problema da violência no trânsito é que não cumprimos as regras do trânsito.  Simples assim. Corrupção no governo?  Normas que são burladas,  tanto por quem contrata quanto por quem é contratado, diga-se de passagem. Há milhares de leis, mas não para mim. Eu ignoro, eu dou desculpas, eu passo por cima. Pode nomear o problema, meu caro leitor, e eu lhe darei a mesma causa: incapacidade crônica de cumprir regras. Duvida? A crise hídrica que vai acabar nos matando de sede vem de onde? De leis que são ignoradas – até as do bom senso, como a dona de casa que gasta centenas de metros cúbicos de agua para deixar sua calçada brilhando (ah, sim, o lixo ela empurra discretamente para o vizinho). Mas a calçada estava tão suja! Mas foi só uma vez! Mas, afinal, todo mundo faz isso, não é mesmo?
Esse processo perigoso e contagioso só vem se agravando… E vai levar este país, inexoravelmente, para o caos, de onde não nos ergueremos jamais, como a alma de Poe presa à sombra do corvo, no seu poema famoso. A menos que algum milagre se opere nas mentes de nossos conterrâneos, e aquele pai, antes de sacar do bolso alguma desculpa pronta para “proteger” seu filho de alguma coisa que ele deveria ter feito e que não fez, antes disso, perceba que está oferecendo à sociedade brasileira mais um cidadão irresponsável, incapaz de assumir seus erros, que não vai nunca se adaptar a um emprego (sim, em que há regras! ), e que, se por nossa infelicidade, for aprovado num concurso público qualquer não vai se especializar em desviar as verbas públicas para seu próprio cofre.
Estamos morrendo nas ruas, nos carros, morrendo de fome, de raiva e de sede (sábio Caetano) simplesmente porque não ensinamos nossos filhos a cumprir as leis que regem a vida em sociedade. E lamento constatar que não estamos nem perto de começar a fazê-lo agora…
Há alguns anos, entrei numa estação de metrô em Estocolmo, a tão civilizada capital da tão primeiro-mundista Suécia, e notei que havia entre muitas catracas comuns uma de passagem livre. Questionei a vendedora de bilhetes o porquê daquela catraca permanentemente liberada, sem nenhum segurança por perto, e ela me explicou que era destinada às pessoas que por qualquer motivo não tivessem dinheiro para a passagem. Minha mente incrédula e cheia de jeitinhos brasileiros não conteve a pergunta óbvia (para nós!): e se a pessoa tiver dinheiro mas simplesmente quiser burlar a lei?
Aqueles olhos suecos e azuis se espremeram num sorriso de pureza constrangedora – Mas por que ela faria isso?, me perguntou. Não lhe respondi. Comprei o bilhete, passei pela catraca e atrás de mim uma multidão que também havia pago por seus bilhetes. A catraca livre continuava vazia, tão vazia quanto minha alma brasileira – e envergonhada.
*Bacharel em Letras pela USP e mestre em Literatura pela UFG. Venceu o Prêmio Casa de las Américas (Cuba) na categoria Melhor Romance, em 1994. Atualmente é coordenador pedagógico do Ensino Médio no Centro Educacional Sesc Cidadania.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

ECONOMIA GLOBALIZADA E O DESLOCAMENTO DA ÉTICA


A financeirização da vida

Os processos de subjetivação e a reconfiguração da relação 'economia e politica'


Uma economia globalizada e financeirizada, que se sobrepõe à política e está descolada de critérios éticos em suas transações. Sob esse pano de fundo, bancos são salvos da falência enquanto as pessoas perdem as casas onde vivem porque não têm condições de continuar honrando seus empréstimos. Nações são varridas por crises econômicas brutais, a democracia é tomada como refém das oscilações do mercado e o endividamento como status de inclusão social via consumo são as notas de um réquiem endereçado à política.
A financeirização da vida e os processos de subjetivação que são requeridos e a consequente reconfiguração da relação entre a economia e a política, são o tema da edição desta semana da revista IHU On-Line. Pesquisadores de várias áreas do conhecimento refletem sobre este fenômeno da vida contemporânea.


Para maiores detalhes sobre o debate on-line, clique aqui.

sábado, 5 de dezembro de 2009

VAI FALTAR ÉTICA NAS ELEIÇÕES DE 2010

E a ética não poderá subir nos palanques de 2010
"Acostumados a subir nos palanques para exaltar suas qualidades e bater nos pontos fracos dos adversários, os candidatos à Presidência da República e a governador terão que pensar em outra estratégia para as eleições de 2010, depois das denúncias de mensalão tanto no PT como no PSDB de Minas e no DEM do Distrito Federal. “O roto não pode falar do esfarrapado”, diz Roberto Romano, professor de Ética e Política da Unicamp:
— Como PT, DEM e PSDB têm seu mensalão, acredito que as campanhas serão baseadas nas grandes obras já realizadas. Dilma (a ministra Dilma Rousseff, do PT) não deve abrir mão do PAC, e o Serra (o governador tucano de São Paulo) vai aproveitar para relembrar o que fez quando era ministro da Saúde e as mudanças no governo de São Paulo. Para ler a matéria na íntegra clique aqui. (Fonte: Site do IHU - Instituto Humanitas Unisinos)

sexta-feira, 3 de abril de 2009

DEMOCRACIA E COMUNICAÇÃO

Eugênio Magno
Na qualidade de assessor do Centro Nacional de Fé e Política Dom Helder Câmara – CEFEP-DF, participei recentemente de um seminário em Brasília. Um dos temas mais quentes da discussão foi o da democracia como ideal normativo. O filósofo e professor da Universidade Federal do Ceará, Manfredo Araújo de Oliveira, citando o pensador alemão Jürgen Habermas, disse que a linguagem é o grande ponto de partida para se entender este ideal, uma vez que tudo se inicia com o discurso argumentativo a partir da ética e do direito. O professor afirmou que essas áreas – embora possuam dimensões distintas, cada uma com sua lógica própria – são complementares, e fez uma bela exposição sobre a sua tese que aqui tento reproduzir.
Segundo Manfredo, os direitos humanos, por exemplo, são outorgados para que as discussões sejam possíveis, tendo a dimensão material humana como base, levando-se em conta que o ser humano questiona, ou deveria questionar, tudo, sem limites, pois é livre para se descolar do fático e/ou até dele mesmo. Kant dizia que a grandeza do homem está em agir a partir de sua autodeterminação e não do poder de conquistar o mundo. Mas a liberdade humana está presa a questões institucionais e às esferas políticas, econômicas, sociais, culturais, etc., que naturalmente envolvem uma dimensão ética.
Diferentemente do que, na maioria das vezes, pensamos, a ética não é um código de deveres pesado. Trata-se de uma decisão pessoal, e caracteriza um ser que não apenas vive, mas que se pergunta pelo sentido de tudo e, portanto, pelo sentido de sua vida, pela razão de suas ações. A ética nasceu na polis grega como a pergunta pelos critérios que pudessem tornar possível o enfrentamento da vida com dignidade. Isto significa dizer que o ponto de partida da ética é a vida, a realidade humana, que, em nosso caso, é uma realidade de fome e miséria, de exploração e exclusão, de desespero e desencanto frente a um sentido para a vida. É neste ponto que somos remetidos diretamente à questão da democracia, um projeto que se realiza nas relações da sociabilidade humana. E a luta do ser humano é pela liberdade, em todos os sentidos, na perspectiva histórica, uma vez que ele não será plenamente humano enquanto for oprimido e não tiver garantido os seus plenos direitos sem nenhum tipo de coerção. O mundo político só tem razão de ser se estiver a serviço da efetivação do ser humano livre. Assim é que deve se configurar a democracia.
Tendo em vista este horizonte, uma sociedade só poderá ser ética na medida em que for democrática e, conseqüentemente, igualitária. Portanto, a construção de uma sociedade igualitária é o nosso grande projeto enquanto seres humanos que almejam a liberdade. Como dizia Betinho: uma sociedade é igualitária quando respeita as diferenças, e não fere a igualdade.
Não esqueçamos, porém que a democracia tem no conflito a sua essência e que toda solução encontrada é relativa, temporal, histórica. Trata-se de um projeto de construção que só será possível se efetivar através de uma sociabilidade solidária que acontece através da linguagem, das trocas simbólicas. E o ser humano enquanto ser simbólico manifesta de forma privilegiada a sociabilidade como dimensão essencial do seu existir. Podemos até falar de uma corrente pré-lingüística do mundo das vivências humanas, mas até as necessidades mais íntimas e os sentimentos mais profundos do ser humano se diferenciam de acordo com suas articulações lingüísticas, e é fenômeno conhecido pelos cientistas sociais que uma linguagem comum exerce uma influência determinante de unificação sobre o mundo dos sentimentos humanos.
Todavia a nossa sociedade é uma sociedade da excitação, do espetáculo que vive a lógica da mercadoria, onde o ser se tornou sinônimo de aparecer. Nessa conjuntura, a questão comunicacional hoje é antropológica. Com os sistemas sofisticados de comunicação, o mais profundo de nossas convicções, emoções e sentimentos estão sendo atingidos. As pessoas não pensam mais, estão sendo pensadas e assim, as comunicações vão configurando as pessoas. Comunicação esta que é ainda mais poderosa enquanto implícita do que quando explícita. Para darmos uma dimensão ética à comunicação, é preciso que se articule balizas fundamentais de humanização da sociedade. Os veículos de comunicação devem promover e difundir a cultura do direito. Inclusive do direito de se educar o ser humano para a mídia, considerando que por trás de todo projeto educacional deve existir o pressuposto ético da emancipação humana. É fundamental que haja uma reeducação dos sentidos. Só com a transformação de nossas matrizes simbólicas poderemos construir o tão sonhado mundo novo.