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sábado, 27 de junho de 2026

A PRAGA DA DESINFORMAÇÃO


Este conteúdo foi criado por mim, originariamente, 
para o canal do YouTube, Laboratório de Comunicação e Culturahttps://www.youtube.com/@eugeniomagnolabcomecult 
e está disponível no vídeo: https://youtu.be/OMUToqlcvF4 

Nem tudo o que você vê, ouve e lê é verdade 

Eugênio Magno

O voyeur será artista? Olha pelo buraco da fechadura o que deveria estar fora de quadro. Fotografa velhos evacuando. Exibe párias em vitrines de cristal líquido. Liquida. Liquidifica todos. Assenta em confessionários e ouve os pecados do mundo. Pensa a vida como frame (ou pixel) e brinca de deus na ilha de edição. Sua loucura é (apenas) disfarce.

Isso que você leu parece verdade? - talvez até seja, mas é só um poema (MAGNO, Eugênio. Minas em mim. Belo Horizonte: BDMG Cultural, 2005). Já sobre o cinema, advertiu certa vez, o cineasta francês, Jean-Luc Godard: “Isto é apenas um filme”, se referindo a uma de suas obras. É de Godard também, uma outra frase, ainda mais contundente: “Cinema é a fraude mais bonita do mundo”.

Portanto, cuidado! Nem tudo é verdade. Na maioria das vezes, a verdade nem parece mais verdade. Assim como o real, não é necessariamente a verdade ou a realidade. Mas no mundo das imagens, do cinema, da TV, do vídeo e, atualmente, na era do digital e da inteligência artificial, tudo virou verdade, realidade (só que... virtual).

E, no virtual-digital, além de desinformação, disseminação do ódio e notícias falsas, propagandas enganosas, danosas e muitos golpes. Há alguns anos atrás uma pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro, revelou a estratégia de criminosos que pagam por anúncios falsos nas redes sociais, com a intenção de aplicar golpes. E isso aumentou exponencialmente. Os anúncios direcionam os internautas para sites onde acontecem os golpes por meio de pagamentos com PIX, Cartões de Crédito e ainda o roubo dos dados das vítimas para mais extorsões.

Sempre que procuradas e pressionadas para resolver situações dessa natureza, a maioria das plataformas digitais fazem pronunciamentos evasivos ou dão respostas prontas, do tipo: trabalhamos diariamente para enfrentar essas questões; não permitimos atividades fraudulentas em nossas redes e, por aí afora...

Preocupadas com as encenações imagéticas e os verdadeiros circos midiáticos, autoridades do mundo inteiro se mobilizam para regulamentar as plataformas de internet, as chamadas Big Techs. Redes de relacionamento e sites de pesquisa, indexação e indicação de fontes, se tornaram grandes agências de propaganda e também de informação e, de oráculo, vão se transformando em “deuses”, neste universo paralelo.

Muito antes do VAR – Árbitro Assistente de Vídeo –, no futebol, no início deste milênio, em minha pesquisa de mestrado, eu problematizei essa questão. Analisei os prós e os contras dessa utilização ilimitada e desregulamentada das imagens, como documento, como verdade. Discuti no trabalho a utilização do audiovisual como tradução do real e seu uso constante por vários setores da sociedade. As reportagens, especialmente as investigativas, cada vez mais fazendo uso da câmera (escondida). As polícias, os sistemas de segurança e de vigilância e a justiça de um modo geral sempre recorrendo a esse instrumento. No esporte, especialmente no futebol, o audiovisual já vinha sendo utilizado, principalmente, para as confirmações e tira-teimas da arbitragem esportiva, pelas emissoras de televisão. Os cientistas há muito tempo que não se fazem de rogados e utilizam os recursos audiovisuais em satélites de monitoramento a serviço da física, da cosmologia, da botânica e de outros ramos da ciência, como testemunhas de eventos da natureza. A medicina também utiliza, cada vez com maior frequência, o audiovisual em seus diagnósticos e como mecanismo auxiliar de visualização nas intervenções cirúrgicas, em exames e em outros procedimentos clínicos. Os organismos estatais de inteligência, na espionagem e os exércitos, nas guerras que são cada vez mais tecnológicas.

     Já eram grandes, à época dessa minha pesquisa, e hoje são muito maiores, a utilização sistemática do audiovisual como instrumento de abordagem do real. Mas não cabe aqui a enumeração de todas elas.

        O tema da dissertação foi “Uma possível abordagem do real através da realização do documentário”.  Atente, portanto para o cuidado que tive na construção do enunciado: “uma”, “possível”, “abordagem” do real, através do documentário.

        Pois é... Uma pesquisa acadêmica é algo denso e eu não vou trazer outros elementos de análise sobre a questão, para não complicar o entendimento, nem ter que aprofundar a reflexão para justificar essa sequência de afirmações. Para simplificar, e tomando por base o filme cinematográfico, diria que embora o cinema produza aspectos do real, esta representação não é a realidade tal qual foi encontrada no momento em que as imagens foram captadas. Entretanto, o que o espectador vê é algo captado do real, no momento em que ele se dava a acontecer. Portanto, trata-se de uma abordagem do real, ao mesmo tempo em que é uma representação do real, mediada pela linguagem cinematográfica, e também uma construção do real, já que essa mediação alterou e, de certa forma, passou a fazer parte daquela realidade, incorporando-a e sendo a ela incorporada.

O reino das imagens é infinito de possibilidades. Na internet e em tempos de Inteligência Artificial, eleve isso a enésima potência e, se atente para o seguinte:

Nos primórdios do cinema, no final do século dezenove, enquanto os irmãos Lumiére “documentavam” (entre aspas) cenas do real (e o documentavam é entre aspas porque a maioria das cenas eram encenadas), o mágico Géorge Meliés já fazia acrobacias com a imagem em movimento. Suas trucagens se sofisticaram e muita gente tem confundido as pretensões do cinema direto, cinema-verité ou do cinema verdade, com a verdade do cinema, das imagens, não importa se, na telona do cinema, na TV, no computador, no tablet ou na telinha do celular.

E, se um dos maiores cineastas de todos os tempos, Godard, já disse que “o cinema é a fraude mais bonita do mundo”, como mencionei no início, porque você e eu temos que acreditar em tudo que passa na TV, no próprio cinema ou que lemos, vemos e ouvimos no jornal, no rádio e na internet? Se liga! NEM TUDO É VERDADE.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

BRASIL NÃO É ESTADOS UNIDOS NEM CHINA

 

(Imagem do Google)


Governo e Oposição:
Comunicação ou Lacração?

Eugênio Magno*

O governo federal e o mandato “Lula Três” ou “PT Cinco” tem sido alvo de inúmeras críticas. À direita, por razões óbvias e à esquerda, por razões não tão óbvias assim mas, para o cidadão progressista politizado que escapou do messianismo delirante de torcida organizada, não ficam impunes a um mínimo escrutínio acerca de como o governo tem operado nesses seus dois anos de mandato. Desde o primeiro ano vozes aliadas apontavam inúmeras fragilidades, mas não foram levadas em consideração. Passaram-se dois anos e nada foi feito para corrigir rumos. Ao contrário, os erros se multiplicaram e só agora, com a aprovação do governo em queda vertiginosa resolveram anunciar mudanças.

Análises simplistas dos que circunscrevem a política apenas à governabilidade e a interesses eleitoreiros, ao negar a necessidade de políticas de estado e de um projeto que enfrente as principais questões estruturais do país, debitam quase tudo nas barreiras interpostas pelo congresso e na incapacidade comunicacional do governo. Existem inúmeros equívocos nessas análises, em sua maioria tendenciosas – pró e contra o governo. As relações do executivo com o legislativo, o judiciário e com o mercado, por exemplo, apesar de porosas, são vendidas como independentes e até como se fossem conflituosas. São necessários exames abrangentes, objetivos, profundos e desapaixonados para compreender esse imbróglio.

Como a tônica deste artigo é a comunicação governamental, de saída é preciso que fique claro o seguinte: embora importantíssima, a comunicação, no sentido em que muitos apontam, não resolve absolutamente nada. Para se comunicar, especialmente no campo político, de forma ativa e não apenas reativa – e com delay, como o governo se comunica – é imprescindível que hajam informações e notícias originadas de fatos reais e ações concretas que impactem fortemente, e de maneira positiva, a vida do povo. O que se comunica é, ou deveria ser, o resultado de uma ação, para que haja Comunicação. Esta é uma equação que se estrutura com dez por cento de comunicação e noventa por cento de ação. Quando a ação, a política desenvolvida é forte o suficiente, ela própria já é a mensagem e até mesmo o meio. Numa circunstância tal, o papel da publicização, da divulgação, é apenas fazer com que a ação ganhe ainda mais relevância, capilaridade e repercussão. Mas esse não é o caso. A direita radical dominou o ambiente virtual com fake news e lacração e um monte de ineptos da esquerda adotou essa prática e se acha no direito de incentivar o governo a agir da mesma forma. Governistas e oposicionistas estão confundindo marketing digital, cancelamentos e lacração com comunicação.

A falta de audácia por parte do governo para enfrentar os temas mais difíceis, compatíveis com suas origens e sua base – a classe trabalhadora –, tem impedido que ele consiga pautar a imprensa com temas de grande impacto junto à população. Com tudo isso e mais as críticas, ilegítimas e legítimas, as poucas ações concretas e positivas do governo, principalmente as de pouca magnitude, ficam totalmente sem espaço na mídia e, consequentemente, desconhecidas da população, enquanto todas as maldades que, diga-se de passagem não têm sido poucas, ganham difusão.

No final do ano de 2024, alguns fatos geraram notícias favoráveis e desfavoráveis ao governo. Todavia, mesmo aquelas supostamente favoráveis, não se sustentaram com esse status se analisados com um pouco mais de rigor os fatos que as geraram. Sem entrar nos méritos do ocorrido, tomemos a infeliz fala de Rosângela Lula da Silva (Janja), numa palestra sobre combate à desinformação no Cria G-20 que, quando interrompida por uma buzina de navio mandou um sonoro: “fuk you, Elon Musk”. Por pura sorte a fala da primeira-dama foi subsumida pelas notícias-bomba sobre a tentativa de golpe, numa lambança em que apareceram nomes de militares de alta patente das Forças Armadas brasileiras e do ex-presidente, Jair Messias Bolsonaro. Fatos que despertaram grande atenção da mídia nacional e internacional, abafando a repercussão da fala da esposa do presidente.

Na sequência, surfando na mesma onda da avalanche de notícias sobre a arquitetura da tentativa de golpe e da divulgação dos nomes e cargos das autoridades envolvidas, esse mesmo governo acusado de não se comunicar bem ensaia o que poderia ter sido uma jogada de mestre. Usando cadeia nacional de rádio e TV, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, anunciou para todo o país as novidades do seu arcabouço fiscal. Para o anúncio das novas medidas – nada populares –, usou de uma prerrogativa de comunicação governamental que, inclusive, tem sido pouquíssimo usada até mesmo pelo presidente da república. A estratégia, mais marqueteira do que comunicacional, não se sustentou. Festejado pelo governo e por alguns poucos setores da sociedade, o que foi votado do arcabouço fiscal no final de 2024 conseguiu desagradar tanto a Faria Lima quanto os intelectuais e os mais pobres. A primeira, em razão do anúncio de possíveis atitudes futuras que os “prejudica”, e os últimos pelo massacre à classe trabalhadora e aos pobres, fato corriqueiro no país e que se agrava a cada dia. O salário mínimo foi atingido em cheio e muitos dos demais cortes como os do Benefício de Prestação Continuada (BPC), por mais paradoxal que possa parecer, só não aconteceram porque o congresso, incluindo alguns deputados de parte da esquerda não permitiram. E isso basta. As práticas desse governo de frente ampla tem sido dizentes. Não é necessário nem mesmo desenhar para que a situação seja melhor compreendida. Até o presente momento não foi possível articular nenhuma medida concreta de grande alcance popular. Infelizmente, é preciso dizer que o populismo e a demagogia têm sido a prática corrente. Enquanto os messiânicos e o povo em geral se entretinham com as notícias da tentativa de golpe e o anúncio dos nomes e patentes dos golpistas, a boiada passou. Lembram de uma frase parecida com essa? Pois é, foi dita e praticada de forma sistemática à direita, por seis anos e agora se repete em ato à esquerda. 

É difícil entender porque certos setores da mídia que faz “assessoria de imprensa” para o governo insiste tanto em esbravejar que o congresso é contra o governo se o governo aprova tudo que manda para câmara e senado. Também, alimentando a boca grande do parlamento com as famigeradas emendas parlamentares, não poderia ser diferente. Dizem que a Faria Lima é contra o arcabouço fiscal e que o congresso é aliado da Faria Lima (?). Então, por que o congresso aprovou em regime de urgência a parte do pacote que mais prejudica a população de baixa renda e numa jogada de equilibrista ainda conseguiu desidratar o impacto do arrocho econômico? Resumindo, o governo criou uma estratégia de dar com a mão pequena e tirar com a mão grande. Tem gente que ainda não entendeu que os ataques às regras de reajuste do salário mínimo vão destruir o ganho de trabalhadores e aposentados. Isso representa um grande retrocesso em relação aos próprios avanços dos Governos Lula I e II e Dilma I que garantiam ganhos reais, acima da inflação aos assalariados, acompanhando o crescimento da economia que na lógica atual só faz engordar a porca dos mais ricos, condenando os pobres a se tornarem ainda mais pobres. E não cabe desculpas para tanto descalabro. Esse projeto tem digitais: é de autoria do governo e as maldades já foram feitas, aprovadas e estão em vigor. A tal isenção de Imposto Renda para os que ganham até cinco mil reais e a taxação dos mais ricos, quando votados e, se aprovados, o que é pouco provável, só terá validade a partir de 2026.

Em meio às festas de fim de ano, logo após o pacorte(s) do Haddad, Lula assina o termo de posse de Gabriel Galípolo, como presidente do Banco Central e anuncia Galípolo e Arcabouço Fiscal como “Presentes de Natal” para os brasileiros. Não é por nada não, mas com esses “presentes”, dá pra rir e pra chorar. Teríamos que ser masoquistas para comemorar mais esse revés. E, na contramão de um posicionamento que seja digno de uma esquerda que honre tal posição, a todo instante um bando de incautos interpelam os críticos indagando se o cavalo de Tróia de Bolsonaro, Campos Neto, seria a melhor opção. Aí é preciso dizer que não é questão de preferência, mas de coerência. Quando o governo nomeia um banqueiro, representante do mercado, defensor dos juros altos e simpático à Faria Lima, cabe muita reflexão e os debates não podem ser invalidados de forma irresponsavelmente sumária como tem acontecido. O resultado está aí: a primeira ação de Galípolo à frente do Banco Central foi aumentar a taxa Selic em 1%. Enquanto a galera que deveria torcer pelo Brasil fica na torcida de China versus Estados Unidos a equipe econômica do governo faz gol contra.

Lulistas, governistas acríticos e mídia comprometida com o governo insistem em fazer comparações por baixo e usam o mesmo expediente carcomido da extrema direita. Bolsonaro e seus asseclas passaram quatro anos destruindo a república e detratando Lula e o PT. Lá se vão dois anos do mandato de Lula e Bolsonaro e os bolsonaristas não foram deixados de lado, à cargo da jusutiça. A todo instante a torcida Lulista recorre às confrontações, Lula X Bolsonaro, para justificar suas recorrentes passadas de pano. Há que se elevar o nível do debate, qualifica-lo. Criticar Jair Bolsonaro, Paulo Guedes, Roberto Campos Neto e companhia limitada é a coisa mais fácil que existe. A esquerda não é mais oposição e sim situação. Nessa condição, estabelecer comparativos com o período de Bolsonaro é perda de tempo e energia. Sendo o PT e ao menos parte da base governista de esquerda, é incoerente negar o direito e o dever dos cidadãos e dos seus eleitores cobrarem do governo sua posição progressista e as promessas de campanha, ao invés de repetir o comportamento teleguiado dos bolsonaristas que aceitam tudo do seu “mito”, de boca fechada. Afinal, sugerir, fiscalizar e criticar a quem se elegeu e deu poder é um direito legítimo. Entretanto, a miopia é grande. Essa esquerda, mesmo no poder, vilaniza o passado e culpa o futuro por nunca chegar – com inação –, enquanto a direita ferra o povo e a nação no presente, estando ou não no poder.

Se o governo ao menos admitisse que a sua missão consistia apenas em impedir a permanência do desastre Bolsonaro no poder e com a frente ampla garantir a democracia e colocar ordem na casa, o Brasil humanista e democrático já estaria agradecido. Mas não, fez uma série de promessas de campanha que não cumpre e ilude o povo anunciando falsas bondades. Falha que poderia ser minimizada se resolvesse usar de honestidade com a população. Mas o salto alto não permite dar nenhum sinal de fraqueza e revelar os verdadeiros entraves para a realização do que prometeu. Coisa que não acontece nem mesmo para reconquistar o apoio popular. Para 2026 já se fala até em mais uma guinada do centro para a direita. A impressão que fica é que só o poder interessa. Com isso, a popularidade e a credibilidade só cai junto ao próprio eleitorado. 

Questionados, os fiéis escudeiros do governo se defendem dizendo que a economia voltou a crescer, o PIB aumentou, o ano de 2024 foi superavitário, o dólar baixou, os empregos voltaram e tal. São incapazes de reconhecer o grande déficit de empregos formais, a carestia dos alimentos e demais produtos no supermercado, na bomba de combustível, no armazém, no sacolão, na farmácia, na padaria, no comércio, nos transportes e nos serviços em geral. Uma total falta de sintonia com a realidade do Brasil profundo e da economia real. Falas de papagaios repetindo jargões neoliberais dos economistas do governo e do mercado. Alguns minimizam a gravidade da questão econômica que também é social, trazendo o tema das constantes ameaças à democracia. Argumentam que o fogo amigo pode dar munição ao nazi-fascismo extremado dos radicais da direita que está vivíssimo buscando a quem devorar e que novas tentativas de golpe podem ser armadas. Essa é uma ameaça real que nunca esteve ausente da política brasileira. Mas, que fique claro: nenhum dos que criticam o governo, por dentro, desconhecem-na ou a negam. O que não se pode esquecer é que existem muitos outros enfrentamentos a serem encarados no país, especialmente no campo econômico. A segurança pública merece atenção especial. O país reclama urgência na regulação do setor cibernético e de telefonia onde a criminalidade e os abusos proliferam denodadamente. E ainda tem as promessas de campanha, como a revogação de várias decisões do governo anterior, dentre muitas outras propostas, até então intocadas. Para tudo que não é realizado ou é encaminhado de forma errática, busca-se uma justificativa.

Já faz um tempo que a comunicação virou bode expiatório, a grande responsável por todos os equívocos do governo. Os que se metem a porta-vozes palacianos, lotados em diversas mídias, vivem dizendo que tem muita coisa boa acontecendo, mas que o governo não consegue comunicá-las. O irônico, é que nem mesmo esses ufanistas nos dão a conhecer tais bondades, enquanto as maldades vão todas passando: as da oposição, do centrão, do mercado e as do próprio governo. Mas quem as identifica, independentemente do campo político em que esteja, deve se calar ou correr o risco de falar e ser patrulhado. Só os mais aguerridos, a contrapelo dos haters, se mantêm firmes em suas posições de sujeitos históricos responsáveis.

No outro espectro, a turma da extrema direita que passou a adotar as redes sociais como fontes de (des)informação, agem como alucinados. Dão a impressão de pessoas que quando precisam de médicos vão à sapataria. É estarrecedor constatar o grau de confiança que eles atribuem a tantas informações desqualificadas e apócrifas. Mas, de certa forma, a chamada mídia alternativa ou independente tem sua parcela de culpa nisso também. Alardearam ser os bastiões da moral, da ética e do jornalismo sério e desancaram a mídia tradicional que todos conheciam e por onde grande parte da população se informava, apesar de seus vícios e comprometimentos e isso contribuiu para que o jornalismo como um todo e o profissional de comunicação fosse totalmente descredibilizado com o refrão diário na cabeça do internauta de que “a mídia é tendenciosa e a imprensa não é confiável”. Nessa onda, a extrema direita se aproveitou disso de maneira perversamente “inteligente”. Passou a usar o próprio argumento desses progressistas que se acham acima do bem e do mal e toda a mídia, seja ela corporativa, alternativa, independente ou progressista, vem sendo demonizada pela sociedade.

Os arautos do caos midiático se esquecem de que eles estão incluídos nisso, pois também são mídia e como tal vítimas dos próprios ataques. Além dessas declarações representarem um contrassenso pois que, a própria mídia independente, alternativa ou progressista (difícil nominar), ademais, não tem tido um comportamento justo ao processar as informações. Não dá espaço para o contraditório, condena veementemente o que não está alinhado com seu campo ideológico e certos comentaristas que operam nesses portais entraram de sola na wibe do cancelamento e da lacração. Só têm elogios para toda e qualquer atitude do governo e nas questões controversas adotam o silêncio como estratégia.

A hegemonia dos veículos de comunicação corporativos está em seus estertores. Já são muitos os blogs, sites, portais, canais e plataformas de jornalistas independentes e de novas empresas de comunicação digital que disputam audiência com a mídia tradicional em pé de igualdade. Mas, audiência, progressismo, engajamento e faturamento nem sempre é compatível com informação de qualidade e compromisso com a verdade dos fatos. As estruturas de processamento da informação: acompanhamento dos fatos, busca de fontes variadas, triagem, apuração, reportagem e checagem ainda não estão totalmente aprimoradas nesses novos veículos midiáticos. A maioria, apenas comenta notícias e emite opinião, em grande medida, se valendo das notícias apuradas pela imprensa corporativa tradicional que tanto criticam. O discurso depreciativo adotado pelos que se julgam ungidos não atingiu somente a mídia corporativa. Foi nefasto para todo o sistema de comunicação e sobre isso ninguém se manifesta.

Quem quer se manter bem informado precisa quintuplicar as buscas por fontes de informação confiável de forma ampla e variada, e ainda assim corre o risco de ficar desinformado. O momento exige uma cruzada no sentido de resgatar a credibilidade da mídia, da informação, do jornalismo e da comunicação de um modo geral. O setor, em sua nova configuração, ampliada pelo digital e pela hegemonia das big techs carece, urgentemente, de regulamentação. Ainda assim, os responsáveis por legislar sobre o tema estão deitados em berço esplêndido a esperar não se sabe o quê.

Por essas e outras é que o refrão: “o governo comunica mal” é discutível. Tem uma turma de jornalistas e analistas insistindo tanto nisso que tal vaticínio só não vai virar verdade porque a realidade concreta não permite. Já trocaram o secretário de comunicação, de um político, por um marqueteiro. Saímos da retórica política institucionalizada para uma estratégia de marketing digital com pitadas panfletárias de campanha eleitoral, adaptadas ao estilo TikTok. Assim, do ponto de vista do formato e da agilidade, já se percebe uma mudança significativa. Entretanto, cabe indagar: onde fica a comunicação social no que ela deve ter de mais consistente, ética e comprometida com a verdade dos fatos e com seu público, no caso não um mero consumidor de conteúdos com imagens e manchetes atrativas, mas o cidadão brasileiro. Quem é do ramo – e é estudioso – sabe muito bem que comunicação é muito mais do que a simples retórica sofista. No entanto, é o que a maioria dos críticos da comunicação governamental defende e não se cansa de empurrar o governo para a adoção sistemática e oficial dessa prática epidérmica como estratégia prioritária.

É evidente que a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (SECOM) vinha tendo dificuldades em operar estrategicamente forma e conteúdo da comunicação do governo federal. E é inaceitável para quem é profissional da área que uma das mais completas estruturas de comunicação que se pode ter, o sonho de consumo de qualquer comunicador, não consiga comunicar bem. Essa secretaria conta com o conglomerado de mídia da Empresa Brasil de Notícias (EBC), as melhores agências de Propaganda e Relações Públicas do país a seu serviço e um supercomunicador que é o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O governo já teve também o Flávio Dino que, descontadas as fanfarronices, além de ser um bom comunicador era um quadro com grandes chances para 2026, mas que a egolatria o tirou da linha sucessória presidencial com o irrecusável empregão no Supremo Tribunal Federal (STF). Janja foi outra que tem feito investidas na área de comunicação, mas depois das últimas imprudências calou-se ou foi silenciada. Fernando Haddad, de vez em quando arrisca um pronunciamento, mas apesar da fala educada e do seu bom-mocismo, não tem carisma. Sua comunicação se adequa mais ao petit comité de banqueiros, rentistas e comentaristas de economia neoliberais. Além de tudo, o ministro da fazenda só tem dado informações impopulares, o que não ajuda a ele e muito menos ao governo. As tiradas comunicacionais criativas do Lula também não se adequam mais ao time digital. Elas surtiam grande efeito no período analógico em que as possíveis respostas, quando surgiam, vinham com atraso. Os tempos mudaram e os improvisos do presidente carecem de upgrade para não serem transformados em memes da oposição, como tem ocorrido com frequência.

A despeito dessas e de outras considerações que possam ser feitas no âmbito da comunicação oficial do governo, desconfio que o tal problema comunicacional não se localizava totalmente na Secretaria de Comunicação. Provavelmente existe alguma eminência parda – inapta ou mal intencionada – atuando nos bastidores como orquestrador/a da militância digital de esquerda, incitando-a a agir tal e qual a extrema direita, no limite das narrativas espetaculares. Mídia alternativa e jornalistas influenciadores digitais foram capturados por essa orientação e têm atuado como multiplicadores da desventurada tendência juntamente com a torcida partidária nas redes sociais. A expectativa é de que o novo ministro da Comunicação, Sidônio Palmeira, acione seus radares para localizar e retirar a batuta do maestro impostor e fazer a regência da comunicação de maneira satisfatória para que o fator comunicacional não seja mais a desculpa governista. 

Porém, na política, apesar da profusão de milagreiros, milagres não existem. Algumas das últimas ações governamentais que poderiam gerar repercussão positiva na mídia e nas redes foram malfadadas. O evento do dia 8 de janeiro de 2025, convocado pelo governo para celebrar a democracia, com um abraço na Praça dos Três Poderes, não conseguiu reunir nem duas mil pessoas. A fala de Lula, que aproveitou bem o sucesso do filme, Ainda estou aqui, para condenar os atos golpistas e o pronunciamento do ministro, Alexandre de Moraes que mandou recado para Mark Zuckerberg, dono do Facebook, dizendo que o Brasil tem leis, salvaram a pátria. Logo depois surgiu o caso do Pix com a boataria da taxação. Nessa, o governo tomou uma decisão e, ao voltar atrás, passou recibo para a oposição. Ato contínuo, a extrema direita acusou o produtor e diretor do filme, Ainda estou aqui, Walter Salles, de usar dinheiro público para fazer cinema. Pessoas que se dizem de esquerda usaram os argumentos mais bizarros para defender o cineasta: “ele é muito rico, dono de banco (..)”. E é mesmo, mas o Waltinho tem uma filmografia substantiva e inúmeros méritos que poderiam ser usados em sua defesa, além do mais essa coisa de banqueiro não deveria ser festejada, muito menos pela esquerda. Não pegou bem. A direita ressentida fez uma provocação tosca e a esquerda respondeu de forma estúpida. Para completar o quadro, a base do governo votou com a maioria para eleger os presidentes da Câmara e do Senado e especula-se que Arthur Lira é cotado para assumir um ministério. As sandices não têm fim. Na posse de Donald Trump foram as piadinhas sobre o traje preto e o chapéu da primeira-dama, Melania Trump, e logo em seguida veio a onda do boné. Uma bobagem, onde a esquerda já saiu perdendo, por se ver obrigada a utilizar a cor azul, em razão da extrema direita Bolsonaro-trumpista ter capturado o vermelho, tradicionalmente caracterizado como a cor das esquerdas no mundo inteiro. É difícil entender o porquê da insistência em disputar narrativas de lacração ao invés de disputar projeto político, fazer showrnalismo de internet e deixar de formar e informar a população.

A quantidade de erros cometidos pelo governo em sequência e a insistência de alguns fanáticos em desqualificar a comunicação governamental, por ignorância ou estrategicamente, têm nos convencido de que o buraco é bem mais embaixo. É muito clara a tentativa de transferir responsabilidades para esconder o comportamento neoliberal do governo e a falta de projetos e de boas notícias. Por isso, questões outras e de várias ordens foram usadas como ingredientes para temperar o tema da comunicação e deixar claro que não há comunicação que dê conta de escamotear ou dar verniz a tantos disparates. Para além dos aqui citados, muitos outros acontecimentos comprovam nossos argumentos e os de vários analistas, cientistas políticos e jornalistas que, desde o primeiro ano desse governo, alertam para a falta de ações concretas que repercutam na vida, no trabalho, na mesa e no bolso do povo. Fatos que poderiam ser matéria-prima comunicacional para despertar o interesse da mídia e agradar a nação.


Os dias correm, a descrença é notória, o pessimismo aumenta e a falta de alternativas ou de uma bala de prata causam perplexidade. Contudo, é o que se tem para o momento e, apesar de todos os pesares, é muito melhor que assim seja. E para que nenhum atrevido queira fazer ilações, mau juízo ou uso indevido do que aqui foi posto e exposto, que fique claro o seguinte: a outra alternativa se quer deve ser lembrada, pois, sempre esteve fora de qualquer cogitação e assim deve permanecer.

*O autor é comunicólogo e jornalista. Doutor em Educação e mestre em Artes Visuais.
Trabalha com Educação comunicacional e midiática.

Faz tempo que os sinais de alerta vêm sendo dados. Para formar melhor juízo sobre a situação em que o governo se encontra leia também:


A TECNOLOGIA DIGITAL É VICIOSA E VICIANTE: Tecnologias e criminalidade de braços dados



O TREM NÃO É TÃO BÃO QUANTO QUEREM QUE PAREÇA SER: Balanço do primeiro ano do terceiro governo Lula

terça-feira, 20 de abril de 2021

PRESIDENTE BOLSONARO É CITADO EM RELATÓRIO GLOBAL



Brasil cai quatro posições no 
Ranking de Liberdade de Imprensa da RSF


O Brasil caiu quatro posições e passou à 111ª colocação entre 180 países no ranking de liberdade de imprensa global da organização Repórteres sem Fronteiras, anunciado nesta terça-feira (20/4) em Paris. Saiu da zona laranja, onde estão as nações cuja situação é considerada sensível, e entrou para a vermelha, um clube formado por aqueles onde a situação da liberdade de imprensa é classificada como difícil. 
Mas o País não está sozinho nisso. O estudo revela que “a principal vacina contra o vírus da desinformação, o jornalismo”, está total ou parcialmente comprometido em 73% das 180 nações que fazem parte do ranking de 2021. Apenas 7% dos países ficaram na zona branca, que sinaliza uma boa situação.
Entre as razões apontadas pela RSF destacam-se a pandemia do coronavírus, usada como pretexto para violações que vão de perseguições a leis restritivas e censura. E as redes sociais, nas quais o crescimento de ataques a profissionais e veículos contribuiu para minar a confiança do público no jornalismo e fomentar violência por parte de cidadãos, que se tornaram rotina em vários países. 
Este é o quarto ano consecutivo de queda do Brasil, que em 2018 estava na 102ª posição. Coube ao País a oitava pior colocação das Américas e a terceira pior da América do Sul.
O ranking de liberdade de imprensa da RSF é mais um momento de exposição negativa, contribuindo para desgastar novamente a reputação do País em nível global. O presidente Bolsonaro é citado no texto de apresentação do estudo, ao lado de Nicolás Maduro, como exemplos de líderes que promovem desinformação. Somente três governantes são destacados na abertura (o outro é o presidente do Egito, Abdel Fattah).
Para continuar lendo a matéria de Aldo De Luca para Repórteres Sem Fronteiras, clique aqui.
(Fonte: MediaTalks)

quinta-feira, 28 de julho de 2016

A IMPORTÂNCIA DA COMUNICAÇÃO


Lula: "Nem a Coca-Cola subestima a comunicação"


O prefeito Fernando Haddad cortou em 50% os gastos com a divulgação do seu governo nos quatro anos em que dirigiu a prefeitura da maior cidade do país.
Foi repreendido por Lula na convenção que homologou seu nome à reeleição de São Paulo, no último domingo.
O povo brasileiro não tem obrigação de saber’, disse Lula e sapecou: ‘O prefeito cometeu um pecado ao não  investir em   divulgar a gestão; achando que é obrigação do povo saber; achando que já é conhecido; ledo engano; fosse assim’, concluiu, ' a Coca-Cola, que todo mundo já conhece, não faria propaganda. E ela faz’. Para ler na íntegra o texto de Saul Leblon para Carta Maior, clique aqui.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

INFORMAÇÃO DE QUALIDADE PARA FORMAR OPINIÃO


"Boa parte da mídia abdicou 
de fazer jornalismo para fazer oposição política"




Pesquisador há décadas sobre o papel social da mídia, o professor aposentado da Universidade de Brasília Venício Lima é autor de vários livros sobre o assunto e segue refletindo sobre o comportamento dos veículos de comunicação, a necessidade de regulação do setor e o papel da comunicação alternativa e pública.

Brasil de Fato -  Temos visto uma cobertura cada vez mais parecida, especialmente da política, nos veículos da mídia hegemônica. Apesar de pequenas diferenças de linha editorial, parece haver uma homogeneização no tratamento de alguns temas, como na questão da crise e da operação Lava Jato. Como você avalia esse comportamento? 
Venício Lima - Na verdade, não acho que constitui uma novidade. Há muitos anos, em livro que publiquei com o Kucinski [“Diálogos da perplexidade: reflexões críticas sobre a mídia”], comentamos essa questão da posição homogênea da grande mídia. É a ideia de que a grande mídia funciona como se tivesse um supraeditor, como se as principais notícias, a pauta, a narrativa, fossem cotidianamente editados por um super editor, que dá a elas o mesmo enquadramento. Isso é tão verdadeiro que às vezes as mesmas palavras aparecem reiteradamente, para os mesmos assuntos, para a mesma pauta, em diferentes veículos. Isso não é uma novidade, e expressa apenas o fato sabido e conhecido de que os oligopólios privados de mídia no Brasil têm interesses comuns e defendem basicamente as mesmas propostas e são contra as mesmas propostas, projetos e políticas. 
A que você atribui essa recente inflexão em alguns veículos, como a Folha e o Globo, na questão do golpe ou impecheament contra a presidenta?
É uma questão delicada. Os grandes oligopólios no Brasil têm, sobretudo o grupo Globo, historicamente conseguido se adaptar às conjunturas e preservar seu interesse. E, correspondente a isso, o Estado brasileiro também historicamente não tem sido capaz de fazer prevalecer a natureza de serviço público, sobretudo na radiodifusão. Um observador como eu, sem acesso a fontes privilegiadas, sem vínculos com partidos ou nada do tipo, me valho da minha experiência e dos dados públicos. O que se sabe agora é que houve uma reunião do secretário de comunicação da presidência com os controladores do grupo Globo e, por ocasião de uma homenagem à Globo no Senado, uma reunião com executivos do grupo e nove senadores do PT. Depois desses encontros, de fato observa-se uma inflexão na cobertura política e um posicionamento diferente com relação ao impeachment da presidente. O que não se sabe é se houve – e muito provavelmente houve – algum tipo de entendimento, de acordo. Como foi feito no passado, com outros governos, em outras situações. O Estado brasileiro e qualquer grupo que temporariamente controlam sua máquina têm sido incapazes de fazer prevalecer políticas de interesse público e negociam com esses meios, que se tornam cada vez mais poderosos e mais capazes de fazer valer seus interesses. Depois saberemos melhor do que se trata. Vi especulações em relação à atribuição das frequências, utilização do chamado 4G, questões tecnológicas que o Estado tem poder, disputa entre os velhos grupos e operadoras... teremos que ver se se confirma a inflexão e saberemos o que foi negociado. Mas certamente alguma coisa foi negociada.
Na sua avaliação, por que os governos do PT não avançaram na questão da regulação do mercado de comunicação?
Essa pergunta tem que ser feita aos governos do PT. Eu não consigo compreender. Houve momentos em que se acreditava que os governos petistas iam pelo menos propor uma atualização da legislação, a regulação dos artigos que estão na Constituição, que fossem encaminhar projetos ao Congresso. Isso ocorreu em diversos países da América Latina em que projetos democráticos chegaram ao poder, mas nada disso aconteceu no Brasil. Tenho dito que esses governos caíram numa armadilha de acreditar que seria possível que os oligopólios de mídia apoiassem um projeto político, com repercussão na economia, que beneficiasse as classes populares, que promovesse a inclusão. Há informações seguras que durante muito tempo figuras importantes nos governos petistas acreditavam que era possível trazer o apoio desses oligopólios para a execução dessas políticas. Assim, a negociação com eles, as verbas publicitárias, empréstimos etc, deveriam ser a prioridade da política de comunicação do governo. Em detrimento da construção de um sistema público de comunicação, como, aliás, manda a Constituição. Ao cair nessa armadilha, perderam-se as oportunidades históricas de se fazer o que era necessário fazer e que não foi feito.
A partir da pressão da sociedade e também dada a virulência desses meios hegemônicos contra o governo do PT, você acredita que há possibilidade de avanço na regulação neste segundo mandato da Dilma?
De novo, quem tem que responder são os agentes públicos do governo, ou a própria presidente. Posso dar uma reposta de observador que tem décadas que acompanha essas questões. Sou pessimista. Não vejo no momento atual de crise política e de diluição completa da sustentação parlamentar do governo possibilidades de avanço. As condições são adversas para que se implemente algo nessa área. É interessante observar que o discurso de regulação econômica da mídia, que fez parte da campanha eleitoral, que foi vocalizado diversas vezes pelo ministro das comunicações, desapareceu. Não se fala mais nisso. Além disso, até mesmo medidas que poderiam e podem ser tomadas por diferentes setores do governo, que independem de aprovação parlamentar, não têm sido tomadas. Como, por exemplo, a revisão de critérios das verbas oficias de publicidade e a fiscalização de arrendamento de emissoras. Coisas que fazem parte do papel do Ministério das Comunicações, em alguns casos, ou podem ser de decisão política da presidência, medidas que poderiam ser tomadas independentes de aprovação do parlamento, que é sabida e declaradamente de oposição ao governo.
Você escreveu que não temos no país uma "narrativa pública alternativa". Na sua avaliação, como os veículos comunitários, sindicais e populares poderiam avançar para pautar a pluralidade de vozes e visões de mundo? 
Tem uma questão histórica, na mídia alternativa brasileira, incluindo as TVs e rádios comunitárias, a mídia sindical, o sistema público de um modo geral, que é a dificuldade de unificar sua narrativa. Há avanços, mas são ainda muito tímidos em relação ao que seria necessário. Eu considero absolutamente crítica a necessidade de apoio do governo ao sistema público de comunicação. A Empresa Brasil de Comunicação, EBC, tem, a duras penas, tentado produzir uma alternativa de qualidade à mídia comercial. Mas é muito difícil, porque a forma como a EBC está regulamentada depende de recursos não só do governo, mas de contribuição à radiodifusão pública, que inclusive vem sendo questionado na Justiça. É uma situação financeira difícil. E mesmo a empresa conseguindo, em seus diferentes veículos, produzir programas de boa qualidade, é difícil quebrar a inércia da audiência, que há décadas é dominada pela mídia comercial. A mídia pública não consegue ser divulgada fora dela própria e fica reduzida à sua pequena audiência. Acho que esta é das possibilidades que devem ser apoiadas. Inclusive uma coisa que esquecemos é que as pessoas que acreditam na necessidade de uma mídia alternativa à comercial devem apoiar a TV pública assistindo sua televisão e ouvindo suas emissoras de rádio.
Ao mesmo tempo em que assistimos ao fortalecimento da mídia comercial, aumenta o número de demissões e se discute o futuro do jornalismo. O que se desenha para o cenário da comunicação hoje?
Essa não é uma peculiaridade brasileira. É algo que está acontecendo na sociedade contemporânea e decorre de uma transição tecnológica, cujos resultados não sabemos ainda. Há uma nova geração surgindo que não terá os mesmos hábitos de consumo de mídia e isso já está claro, sobretudo no Brasil. E isso tem implicação para modelos de negócio. Mas sou daqueles que não compartilho o entusiasmo, muitas vezes acrítico, com relação ao acesso à informação que as novas tecnologias possibilitam. Os dados que temos no Brasil e no mundo confirmam que, apesar da transição e das mudanças de plataforma tecnológica, os grandes produtores de conteúdo continuam os velhos grupos da mídia tradicional. Pesquisas confirmam e isso é visto junto a segmentos que acessam a internet, blogs e sites: os mais citados são da velha mídia. Esse quadro se repete nas redes sociais, às quais 90% das pessoas que acessam a internet estão vinculadas. Importante destacar que essas redes não são produtoras de conteúdo, elas distribuem conteúdo e facilitam a interação. E o conteúdo distribuído vem em grande medida dessa velha mídia.
Do ponto de vista da força de trabalho, tenho defendido há anos que as novas tecnologias não implicam na desqualificação da mão de obra. Ao contrário, ela tem ter que ser mais qualificada para sobreviver no mercado de distribuição de conteúdo. Essa geração, embora embevecida com as redes, vai precisar de informação de qualidade. Eu não posso ser exemplo, já tenho meus 70 anos, mas sou seletivo no dinheiro que gasto para receber informação. Boa parte da mídia brasileira não me interessa porque abdicou de fazer jornalismo para fazer oposição política. Quero informação para compreender o mundo e me ajudar a tomar posições. Não quero generalizar minha posição, mas me parece que será preciso uma qualificação da força de trabalho para produzir informação de qualidade. Isso já está ficando claro em alguns países do mundo. Mas ninguém tem bola de cristal. Estamos claramente vivendo um momento de transição, que não é só no Brasil.
Como você vê iniciativas como o jornal Brasil de Fato, que chega aos dois anos em Minas Gerais?
Absolutamente fundamentais. Eu como indivíduo estou numa tentativa de lançamento de um jornal popular aqui em Brasília, como forma de furar o bloqueio da mídia comercial. É muito importante não esperar que a grande mídia venha a ser aliada para projetos que beneficiem classes subalternas, nem aqui, nem em lugar nenhum. O Brasil é exceção na América Latina porque não conseguiu ter, nem na mídia impressa, nem eletrônica, uma alternativa à mídia comercial. Outros países têm essa construção, como Argentina, México, Bolívia. Acho fundamental, apoio como posso e cumprimento grupos que conseguem, com todas as dificuldades, produzir de alguma forma uma imprensa alternativa. 


(Fonte: Site Carta Maior)

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

LIBERDADE DE IMPRENSA OU DIREITO A OLIGOPÓLIOS?


Comunicação 2012, um balanço:
não foi fácil, e nunca será


Como fazer que uma população majoritariamente feliz se dê conta de que seu direito fundamental à liberdade de expressão está sendo exercido apenas por uns poucos oligopólios que defendem os seus (deles) interesses como se fossem o interesse publico? Mais ainda: como esperar que um governo em lua-de-mel com a “opinião pública” corra o risco de enfrentar o enorme poder simbólico de oligopólios de mídia, capaz de destruir reputações públicas construídas ao longo de uma vida inteira em apenas alguns segundos? O artigo é de Venício Lima (jornalista e sociólogo, pesquisador visitante no Departamento de Ciência Política da UFMG (2012-2013), professor de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado) e autor de Política de Comunicações: um Balanço dos Governos Lula (2003-2010), Editora Publisher Brasil, 2012, entre outros livros). Para ler o artigo clique aqui.
(Fonte: Site Carta Maior)

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

COMUNICAÇÃO INTEGRADA

Relações Públicas em alta
Eugênio Magno
O futuro chegou para o profissional e para as atividades de relações públicas.
Cansados de ouvir que RP era a profissão do futuro os profissionais da área estão satisfeitos com a receptividade encontrada atualmente no mercado de trabalho. Embora ainda exista muito a conquistar, a profissão está deixando de ser o “patinho feio” da comunicação e demonstra pujança e vitalidade. A adoção de uma cultura de comunicação multimídia por parte das empresas trouxe um novo alento para os RP’s que tem se posicionado como estrategistas de comunicação e estão ascendendo a cargos no topo da pirâmide empresarial. Diversas matérias e artigos que circulam na grande imprensa falam da importância da atividade e de sua valorização pelas empresas. As matérias destacam os salários dos profissionais do setor, como sendo os que conquistaram os maiores reajustes nos últimos tempos. Várias são as fontes que indicam os avanços conquistados. O conhecido escritor e consultor de marketing estadunidense, Al Ries, por exemplo, é um dos grandes entusiastas das RP’s. Ele afirma que “hoje, para a maior parte das empresas, RP é importante demais para ficar atrás da propaganda. Sob muitos aspectos, os papéis se inverteram. A propaganda é a continuidade das relações públicas, por outros métodos e, só deve começar depois que o programa de RP estiver implementado e em andamento.” E completa, “além do mais, as RP’s são bem mais baratas”. Os órgãos representativos da categoria também estão mobilizados, promovendo a reabilitação da profissão.
Em Minas Gerais, um mercado até então tímido para as relações públicas, está havendo um grande aquecimento e uma reação pró-ativa por parte dos profissionais mais experientes. Eles estão partindo para a constituição de empresas do setor: agências, assessorias e consultorias. A iniciativa está ampliando o mercado de trabalho e fazendo uma verdadeira sensibilização do empresariado quanto ao valor das RP’s para as suas empresas. Especialmente porque Minas é um dos maiores mercados brasileiros de empresas cuja demanda comunicacional é mais de ordem institucional – área em que as relações públicas apresentam as técnicas mais adequadas para se atingir os objetivos organizacionais. Ainda que a nomenclatura usada não seja a que designa a atividade e a profissão, são as práticas há muito identificadas e garantidas por lei, em conselho de classe, como típicas da profissão de relações públicas que poderão fazer a diferença para empresas e instituições com essas características.
Entre os serviços mais procurados, destacam-se: Diagnóstico Organizacional; Planejamento da Comunicação Integrada; Endomarketing; Pesquisa de Opinião; Publicações e Produções Audiovisuais Institucionais; Atendimento ao Consumidor; Assessoria de Imprensa; Propaganda Institucional; Marketing Corporativo, Cultural, Governamental e Político; Organização de Eventos e Ações Promocionais.
São os novos tempos da comunicação.
P.S.: Este artigo também foi publicado nas versões impressa e online do jornal O Norte de Minas: http://www.onorte.net/noticias.php?id=26266 , de 23.02.10; e também nas versões impressa e online do jornal O Tempo: http://www.otempo.com.br/otempo/noticias/?IdEdicao=1583&IdCanal=2&IdSubCanal=&IdNoticia=134759&IdTipoNoticia=1, de 26.02.10.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

A NOVA ERA DA COMUNICAÇÃO

A era pós-mídia de massa: a desconfiguração
e descentralização da Comunicação.
(entrevista especial com Ivana Bentes)
"Desconfigurar, descentralizar, até mesmo explodir. Para a doutora em Comunicação e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Ivana Bentes, o que caracteriza a era pós-mídia de massa são justamente as práticas descentralizadas de comunicação. A Internet é esse lugar de desconfiguração, afirma a professora em entrevista concedida, por email, à IHU On-Line.
Ivana acredita ainda que o fim da obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo abre uma série de novas questões e debates sobre o campo da comunicação pós-mídias digitais bem mais interessantes do que o velho muro das lamentações corporativas. Segundo ela, os cursos de Comunicação precisam dar uma virada e explodir o ambiente da sala de aula tradicional e pensar uma formação por projetos, uma wiki-universidade.
Analisando os resultados do Fórum de Mídia Livre e da Confecom, afirma que foram um momento histórico, vivo, vibrante das possibilidades e limites da atual democracia brasileira. É a sociedade inteira que se apropria das tecnologias e da linguagem jornalística contra o jornalismo, explodindo o jornalismo corporativo, defende.
Ivana Bentes é doutora em Comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Professora associada do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFRJ e Diretora da Escola de Comunicação da UFRJ (ECO/UFRJ), também atua na área de Comunicação, com ênfase em estética, audiovisual, cinema, imaginário social, pensamento contemporâneo e cultura digital. Atualmente se dedica a dois campos de pesquisa: Estéticas da Comunicação, Novos Modelos Teóricos no Capitalismo Cognitivo e Periferias Globais: produção de imagens no capitalismo periférico. É coordenadora do Pontão de Cultura Digital da ECO/UFRJ. É curadora na área de arte e mídia, cinema, audiovisual." Para ler a entrevista na íntegra clique aqui.
(Fonte: Site do IHU - Instituto Umanitas Unisinos)

sábado, 12 de dezembro de 2009

CIBERCULTURA E DIREITOS HUMANOS

Comunicação e economia glogal
Carlos Valle
Comunicador e ex-secretário-geral da
Associação Mundial para as comunicações Cristãs
"A aprovação da esperada lei de Serviços de Comunicação Audiovisual e a busca de sua breve implementação exigem uma séria consideração sobre o amplo contexto econômico e social no qual o nosso mundo moderno está imerso. Para começar, um aspecto a considerar neste novo mundo das ciberculturas é o lugar que os direitos humanos ocupam.
De diversas partes, chamou-se a atenção sobre o fato de que em nenhuma das áreas da comunicação mundial pode-se identificar um forte conteúdo sobre os direitos humanos. Alguma coisa aparece principalmente no que se vincula aos direitos de autor (copyright), à legislação sobre patentes, à liberdade de informação, à cultura, mas não se encontra nada com relação ao comércio dos serviços de telecomunicações, aos direitos de propriedade intelectual, à concentração da propriedade dos meios e à padronização do consumo de eletrônicos.
Para Cees Hamelink: 'Se tomamos o conteúdo dos direitos humanos como um indicador da representação dos interesses das pessoas, temos que concluir que as pessoas não importam nas políticas de comunicação mundial'.
Para Alain Touraine, a reflexão sobre a sociedade contemporânea está governada por duas constatações principais: 'a dissociação crescente do universo instrumental e o universo simbólico, das economias e das culturas, e, em segundo lugar, o poder cada vez mais difuso, em um vazio social e político em aumento, de ações estratégicas cuja meta não é criar uma ordem social, mas sim acelerar a mudança, o movimento, a circulação de capitais, bens, serviços, informações' (Touraine 1997:20).
Alguns efeitos da expansão desse sistema econômico sobre o desenvolvimento da democracia e da comunicação mais evidentes são:
1. O número cada vez maior de decisões que uns poucos tomam em nome de todos, com só uma aparente participação das pessoas. A tomada de decisões passa progressivamente para o âmbito reservado daqueles que ostentam o poder. Eles consideram que sempre estão na frente de situações que requerem 'decisões executivas' que só será preciso justificar mais tarde, se for necessário.
2. A tendência dos meios comerciais de reforçar a despolitização das pessoas. Como alguma vez indicou G. Gerbner, os grandes meios de comunicação 'não têm nada para dizer, mas muito para vender'. A despolitização aumenta por causa da exaltação do individualismo. Isso leva a rejeitar e a combater tudo o que afete os interesses básicos: o país, se afeta o meu grupo; o meu grupo, se afeta os meus bens; e assim sucessivamente. A despolitização consegue que as pessoas meçam as ações dos governos segundo e como elas as afetam individualmente.
3. A tendência desse sistema tende a desmoralizar as pessoas, promovendo o abandono de toda esperança de mudança e da aceitação da realidade. Na selva moderna, a lei principal é: 'Salve-se quem puder!'. Eduardo Galeano comentava: 'O sistema nega aquilo que oferece, objetos mágicos que tornam os sonhos realidade, luxos que a TV promete, as luzes de neon anunciando o paraíso nas noites da cidade, esplendores da riqueza virtual: como bem sabem os donos da riqueza real, não há Valium que possa acalmar tanta ansiedade, nem Prozac capaz de apagar tanto tormento'. (Galeano 1998:21).
4. O aumento do papel que as corporações globais desempenham em todas as esferas da vida, enquanto que o papel dos estados nacionais se reduz cada vez mais.
5. A exaltação da liberdade de informação na vida da sociedade, ao mesmo tempo em que se acentua o controle e a censura.
6. A diminuição e desaparecimento dos centros físicos de poder. Hoje, é difícil determinar onde esses centros residem. Adquiriram uma mobilidade muito particular, ao mesmo tempo em que desenvolvem sua concentração.
7. A acentuação da distância entre ricos e pobres em todos os níveis.
Nesse complexo panorama, será importante indagar como essa concentração de poder dos meios de comunicação foi influenciando nossas sociedades e quais serão os passos que devem ser dados para que se realize uma real democratização da comunicação."
(Fonte: Site do IHU - Instituto Humanitas Unisinos)

sexta-feira, 3 de abril de 2009

DEMOCRACIA E COMUNICAÇÃO

Eugênio Magno
Na qualidade de assessor do Centro Nacional de Fé e Política Dom Helder Câmara – CEFEP-DF, participei recentemente de um seminário em Brasília. Um dos temas mais quentes da discussão foi o da democracia como ideal normativo. O filósofo e professor da Universidade Federal do Ceará, Manfredo Araújo de Oliveira, citando o pensador alemão Jürgen Habermas, disse que a linguagem é o grande ponto de partida para se entender este ideal, uma vez que tudo se inicia com o discurso argumentativo a partir da ética e do direito. O professor afirmou que essas áreas – embora possuam dimensões distintas, cada uma com sua lógica própria – são complementares, e fez uma bela exposição sobre a sua tese que aqui tento reproduzir.
Segundo Manfredo, os direitos humanos, por exemplo, são outorgados para que as discussões sejam possíveis, tendo a dimensão material humana como base, levando-se em conta que o ser humano questiona, ou deveria questionar, tudo, sem limites, pois é livre para se descolar do fático e/ou até dele mesmo. Kant dizia que a grandeza do homem está em agir a partir de sua autodeterminação e não do poder de conquistar o mundo. Mas a liberdade humana está presa a questões institucionais e às esferas políticas, econômicas, sociais, culturais, etc., que naturalmente envolvem uma dimensão ética.
Diferentemente do que, na maioria das vezes, pensamos, a ética não é um código de deveres pesado. Trata-se de uma decisão pessoal, e caracteriza um ser que não apenas vive, mas que se pergunta pelo sentido de tudo e, portanto, pelo sentido de sua vida, pela razão de suas ações. A ética nasceu na polis grega como a pergunta pelos critérios que pudessem tornar possível o enfrentamento da vida com dignidade. Isto significa dizer que o ponto de partida da ética é a vida, a realidade humana, que, em nosso caso, é uma realidade de fome e miséria, de exploração e exclusão, de desespero e desencanto frente a um sentido para a vida. É neste ponto que somos remetidos diretamente à questão da democracia, um projeto que se realiza nas relações da sociabilidade humana. E a luta do ser humano é pela liberdade, em todos os sentidos, na perspectiva histórica, uma vez que ele não será plenamente humano enquanto for oprimido e não tiver garantido os seus plenos direitos sem nenhum tipo de coerção. O mundo político só tem razão de ser se estiver a serviço da efetivação do ser humano livre. Assim é que deve se configurar a democracia.
Tendo em vista este horizonte, uma sociedade só poderá ser ética na medida em que for democrática e, conseqüentemente, igualitária. Portanto, a construção de uma sociedade igualitária é o nosso grande projeto enquanto seres humanos que almejam a liberdade. Como dizia Betinho: uma sociedade é igualitária quando respeita as diferenças, e não fere a igualdade.
Não esqueçamos, porém que a democracia tem no conflito a sua essência e que toda solução encontrada é relativa, temporal, histórica. Trata-se de um projeto de construção que só será possível se efetivar através de uma sociabilidade solidária que acontece através da linguagem, das trocas simbólicas. E o ser humano enquanto ser simbólico manifesta de forma privilegiada a sociabilidade como dimensão essencial do seu existir. Podemos até falar de uma corrente pré-lingüística do mundo das vivências humanas, mas até as necessidades mais íntimas e os sentimentos mais profundos do ser humano se diferenciam de acordo com suas articulações lingüísticas, e é fenômeno conhecido pelos cientistas sociais que uma linguagem comum exerce uma influência determinante de unificação sobre o mundo dos sentimentos humanos.
Todavia a nossa sociedade é uma sociedade da excitação, do espetáculo que vive a lógica da mercadoria, onde o ser se tornou sinônimo de aparecer. Nessa conjuntura, a questão comunicacional hoje é antropológica. Com os sistemas sofisticados de comunicação, o mais profundo de nossas convicções, emoções e sentimentos estão sendo atingidos. As pessoas não pensam mais, estão sendo pensadas e assim, as comunicações vão configurando as pessoas. Comunicação esta que é ainda mais poderosa enquanto implícita do que quando explícita. Para darmos uma dimensão ética à comunicação, é preciso que se articule balizas fundamentais de humanização da sociedade. Os veículos de comunicação devem promover e difundir a cultura do direito. Inclusive do direito de se educar o ser humano para a mídia, considerando que por trás de todo projeto educacional deve existir o pressuposto ético da emancipação humana. É fundamental que haja uma reeducação dos sentidos. Só com a transformação de nossas matrizes simbólicas poderemos construir o tão sonhado mundo novo.