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quarta-feira, 1 de junho de 2011

POPULAÇÃO DA CIDADE DE SANTA LUZIA PEDE SOCORRO



Santa Luzia, rogai por nós



Eugênio Magno
Comunicólogo



Freqüento Santa Luzia há mais de 20 anos. Em 1989 comprei, em um distrito da cidade, um pequeno terreno que, pretensamente, chamo de sítio, em razão desse viver confinado em apartamento.
Nascido no sertão das Gerais, mas vivendo em BH desde 1981, vendi o apartamento na capital e aluguei um imóvel em Santa Luzia pra ficar mais perto do terreno onde pretendo construir e para lá me mudar. No primeiro sábado na nova moradia, a igreja ao lado, fez um barulho dos infernos. Os fiéis gritavam tanto que eu, afeito à oração meditativa e silenciosa, me perguntei se Deus teria algum problema de audição. Na segunda-feira, me dei conta de que a construtora que edificou o prédio que eu moro, iria construir outro, igualzinho, ao lado. E, tome serra elétrica, marretadas, vergalhões jogados nos madeirames, caminhões de concreto e muita falação, em altos decibéis, a partir de seis e meia da manhã, quando os trabalhadores chegam.
A única operadora de telefonia fixa e internet na cidade é a Oi que, por falta de concorrência, pinta e borda com os clientes. Embora as atendentes do call center da empresa prometessem que em 48 horas o telefone seria ativado, fiquei sem o serviço 28 dias e a internet só foi ativada 55 dias depois do pedido.
Como se não bastasse, dez dias depois de fixar residência na cidade, a ponte da BR-381, sobre o Rio das Velhas caiu, e, Santa Luzia é quem paga o pato. Ônibus, carretas, vans e automóveis de todos os tipos invadiram a cidade e fazem buracos nas ruas, derrubam meios-fios, empoeiram tudo e provocam engarrafamentos quilométricos. A rodovia MG-020 que era horrível, mas foi recuperada nos últimos anos, está sendo literalmente destruída. A agressividade da “3-8-1”, conhecida como rodovia da morte, foi transferida para cá. Caminhões de 30, 40, 50 toneladas, trafegam irresponsavelmente, em alta velocidade, colocando em risco a vida de pedestres, ciclistas e de motoristas de automóveis particulares, impondo aos seus usuários a mesma lógica do tráfego assassino da BR-381.
Já é grande o número de acidentes contabilizados na região, desde que foi feito o tal desvio. E por aqui não se vê nenhum guarda de trânsito militar, nem a Polícia Rodoviária Estadual ou Federal. A precária guarda municipal de uma prefeitura que, a despeito de sua alta arrecadação, mal dá conta da coleta de lixo e de capinar as ruas cobertas de ervas daninhas, é que sofregamente tenta disciplinar o caos em que se transformou o trânsito da pacata cidade histórica mineira.
Esses desmandos todos seriam porque os olhos da santa que dá nome à cidade, foram perversamente arrancados? Se não há governo, municipal, estadual ou federal que enxergue a situação e dê um jeito nela, certamente, Santa Luzia que ouve as preces dos seus devotos, intercederá. Nem que seja inspirando a população a fazer uma manifestação ainda mais impactante do que a queima de pneus que bloqueou a estrada recentemente.
Este artigo também foi publicado no jornal O Tempo, impresso e on-line, clique aqui para acessá-lo.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

SOTERRADOS NO CHILE












Na cova das serpentes

Eugênio Magno

Gustave Flaubert escreveu um romance sobre o perigo de ler romances. Advertia que, de tanto crermos neles acabamos perdendo o pé no nosso tempo. Assim também é com o cinema e com a mídia.
Um dos maiores expoentes do cinema de entretenimento, Billy Wilder, que o diga. E “disse” muito bem quando filmou A Montanha dos Sete Abutres. Com um enredo, direto e corajoso, é um exemplo do poder de manipulação dos meios de comunicação em nossas vidas. Rejeitado pela imprensa, na época, o filme acabou se transformando em um grande clássico.
Kirk Douglas, como o jornalista Charles Tatum, é o personagem principal. A viagem que ele faz para cobrir uma caça às cascavéis leva-o a um outro fato: um homem, Leo Minosa, personagem do ator Richard Benedict, ficou preso numa mina; e a reportagem passa a ser sobre ele. O foco narrativo do filme gira em torno da manipulação jornalística própria da imprensa sensacionalista. Através da montagem paralela testemunhamos à situação claustrofóbica de Leo e a paisagem aberta e ampla, porém desolada e árida – quase desértica –, do Novo México.
Amante dos trocadilhos – marca registrada em sua cinematografia – e, usuário contumaz das simbologias, Wilder trabalha com a metáfora da cascavel para atingir o efeito crítico que pretende. João B. de Brito, em Imagens Amadas (Ateliê Editorial, 1995), ao analisar esse expediente diz: O que Tatum vai encontrar na ‘montanha dos sete abutres’ é um ser humano sendo, circunstancialmente, obrigado a levar uma vida subterrânea, como a de uma cascavel, mas evidentemente, ‘cascavéis’ (sentido figurado) são aqueles que fora da caverna, se empenham em mantê-lo no subsolo para disso tirar o lucro possível.
Todos, no filme, são biltres e, rastejam como as cascavéis em busca dos seus objetivos.
As semelhanças entre o filme e as matérias sobre os 33 mineradores soterrados na jazida San Jose, no norte do Chile, desde o dia 30 de agosto último, são evidentes. Não é demais dizer que o povo tem um interesse voraz pelas catástrofes e uma credulidade absurda na imprensa. Por isso usei a advertência de Flaubert. É preciso estar sempre alerta para as relações mediadas pela imprensa, pelo cinema e/ou pela literatura.
O filme, embora seja de 1951, já nos mostra os ingredientes do que veio a se configurar como “showrnalismo”. Tatum, com o pedantismo peculiar dos colonizadores, sempre com um ar de superioridade professoral, arrogantemente tenta convencer a todos da sua astúcia, em demonstrações recorrentes de auto-afirmação. Mas diferentemente dos espetáculos midiáticos contemporâneos, o filme não deixa o espectador na condição passiva de voyeur. Ele mostra, em contra-plano, a situação de soterramento de Leo e, nos coloca, também, na incômoda situação de soterrados. De cúmplices do desespero, à espera de alguém que nos ame, diga a verdade, e seja capaz de nos dar a mão e nos retirar do buraco, no qual nos metemos.
Este artigo também foi publicado, em 23.09.2010, nas versões impressa e on-line, da Editoria de Opinião, do jornal O Tempo.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

FALTA EDUCAÇÃO NO TRÂNSITO E PARA O TRÂNSITO



Educação para o trânsito


Eugênio Magno

As autoridades precisam tomar providências urgentes para humanizar o trânsito de nossa cidade. A quantidade e a gravidade dos acidentes ocorridos em Belo Horizonte nos últimos tempos estão deixando a população apreensiva.
Não é compreensível que uma cidade como BH aceite passivamente a morte e os traumatismos sofridos por seus moradores em um trânsito completamente desordenado e violento. A resolução definitiva do problema, entretanto, só virá com uma política de grandes investimentos em transporte público e, concomitante, uma medida que limite o número de emplacamentos de veículos. Mas enquanto isso não acontece, se é que algum dia vai acontecer, é urgente que a BHTRANS se una ao Batalhão de Trânsito da Polícia Militar do Estado e quantos mais órgãos municipais, estaduais e federais forem necessários, para a realização de uma ampla campanha para disciplinar o trânsito. E sugiro que tal campanha seja educativa e preventiva, porque dentro dessa lógica desumana do mercado e do lucro, quase todas as ações disciplinares que se implementam têm como objetivo final tão somente a arrecadação.
Testemunhamos, cotidianamente, inspetores de trânsito multando carros parados em estacionamentos faixa azul, quando sem talão, mas não se tem notícia desses inspetores multando caminhões, pick-ups e furgões de refrigerantes, cigarros e bebidas, parados em fila dupla, nem tampouco os ônibus que rodam com superlotação de passageiros, andam fora de suas faixas e não param nos seus respectivos pontos. Assim também como não se vê inspetores autuando esse bando de motoqueiros abusados, taxistas folgados, veículos que cruzam com outros de farol alto e os bacanas com seus carrões de luxo achando que podem tudo só porque pagam IPVA mais caro. Não tem ninguém educando os pedestres que atravessam as vias fora das faixas apropriadas e não andam nas calçadas. E esses animais (cachorros cavalos e bois), que volta e meia nós vemos transitando tranquilamente pelas vias públicas urbanas? Falta educação no trânsito e para o trânsito.
É imperativo que os poderes públicos utilizem o aparato da comunicação não só para propagar suas realizações. No atual estado das coisas, a comunicação deve ser usada fundamentalmente, para advertir, educar, disciplinar a população e, especialmente, a comunidade de motoristas que tantos abusos têm cometido nesse caótico trânsito de nossa cidade. As agências de propaganda que atendem as contas dos setores envolvidos com o trânsito bem que podiam colaborar também, sugerindo campanhas educativas. Precisamos de uma grande corrente a favor da vida e contra a violência no trânsito. Para tanto, é fundamental contar com a participação de toda a sociedade: movimentos sociais, entidades de classe, veículos de comunicação, fabricantes de automóveis, concessionárias, fábricas e lojas de autopeças, distribuidores de combustíveis e postos de gasolina.
Foi dada a largada! Quem se habilita?


(Fotos: Diogo R. Martins)

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

A REPERCUSSÃO DO ARTIGO SOBRE PRESÉPIO

Nem sempre acertamos exatamente onde miramos quando escrevemos um texto. Todavia, de vez em quando, mesmo em meio a essa overdose de informação, conseguimos atingir nossos objetivos comunicacionais.
Fiquei muito satisfeito com a repercussão do artigo que postei aqui no blog com o título de Um presépio exemplar, cuja chamada era A Festa do Natal e o aniversariante esquecido. Além de postado no minasegerais.blogspot.com ele também foi publicado na seção Artigos da página eletrônica do Jornal de Opinião: http://www.jornaldeopiniao.com.br/; no jornal impresso e on-line O Norte de Minas, de 22.12.2009: http://www.onorte.net/; na página de opinião do jornal O Tempo (impresso e on-line), de 23.12.2009: http://www.otempo.com.br/.
Vários comentários foram feitos sobre o artigo. Um deles, entretanto, me chamou mais a atenção. Ei-lo:
"Senhor Jornalista Eugenio Magno,
Paz e Bem!
Foi com grande alegria que li seu artigo sobre o presépio de nossa paróquia de Santo Antonio dos Funcionários. Ainda ontem. na missa das 18:00 horas, nosso pároco, Frei Juvenil, leu trechos de seu artigo e pude presenciar a emoção e alegria com que as pessoas ouviam cada palavra. Obrigada senhor Eugênio. Obrigada por entender, por acolher a mensagem do nosso presépio, idealizado por nosso pároco. Como ele mesmo disse, inspirado em seu texto, todos nós nos sentimos um rei mago. Que bom que numa tarde de um dia de semana o senhor parou em nossa igreja para rezar. Com certeza o senhor foi guiado por Deus.
Acho que passou da hora de me apresentar: meu nome é Isabel, sou catequista e ministra extraordinária da comunhão eucarística, participo do Encontro de Casais com Cristo e com muita alegria e muita disposição atuo na Paróquia de Santo Antônio dos Funcionários.
Mais uma vez, obrigada, Deus lhe pague. E venha nos visitar sempre que puder. Será um prazer conhecer o senhor. O senhor também foi um rei mago do nosso presépio!"
MARIA ISABEL SOLLERO LEMOS
Belo Horizonte, MG
É por demais gratificante receber esse tipo de feedback.
Eu é que agradeço a você, Isabel e ao frei Juvenil pela generosidade do agradecimento. Como aprendiz de cristão e perseguidor do humanismo, não fiz mais que a minha obrigação.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

DEMOCRACIA E COMUNICAÇÃO

Eugênio Magno
Na qualidade de assessor do Centro Nacional de Fé e Política Dom Helder Câmara – CEFEP-DF, participei recentemente de um seminário em Brasília. Um dos temas mais quentes da discussão foi o da democracia como ideal normativo. O filósofo e professor da Universidade Federal do Ceará, Manfredo Araújo de Oliveira, citando o pensador alemão Jürgen Habermas, disse que a linguagem é o grande ponto de partida para se entender este ideal, uma vez que tudo se inicia com o discurso argumentativo a partir da ética e do direito. O professor afirmou que essas áreas – embora possuam dimensões distintas, cada uma com sua lógica própria – são complementares, e fez uma bela exposição sobre a sua tese que aqui tento reproduzir.
Segundo Manfredo, os direitos humanos, por exemplo, são outorgados para que as discussões sejam possíveis, tendo a dimensão material humana como base, levando-se em conta que o ser humano questiona, ou deveria questionar, tudo, sem limites, pois é livre para se descolar do fático e/ou até dele mesmo. Kant dizia que a grandeza do homem está em agir a partir de sua autodeterminação e não do poder de conquistar o mundo. Mas a liberdade humana está presa a questões institucionais e às esferas políticas, econômicas, sociais, culturais, etc., que naturalmente envolvem uma dimensão ética.
Diferentemente do que, na maioria das vezes, pensamos, a ética não é um código de deveres pesado. Trata-se de uma decisão pessoal, e caracteriza um ser que não apenas vive, mas que se pergunta pelo sentido de tudo e, portanto, pelo sentido de sua vida, pela razão de suas ações. A ética nasceu na polis grega como a pergunta pelos critérios que pudessem tornar possível o enfrentamento da vida com dignidade. Isto significa dizer que o ponto de partida da ética é a vida, a realidade humana, que, em nosso caso, é uma realidade de fome e miséria, de exploração e exclusão, de desespero e desencanto frente a um sentido para a vida. É neste ponto que somos remetidos diretamente à questão da democracia, um projeto que se realiza nas relações da sociabilidade humana. E a luta do ser humano é pela liberdade, em todos os sentidos, na perspectiva histórica, uma vez que ele não será plenamente humano enquanto for oprimido e não tiver garantido os seus plenos direitos sem nenhum tipo de coerção. O mundo político só tem razão de ser se estiver a serviço da efetivação do ser humano livre. Assim é que deve se configurar a democracia.
Tendo em vista este horizonte, uma sociedade só poderá ser ética na medida em que for democrática e, conseqüentemente, igualitária. Portanto, a construção de uma sociedade igualitária é o nosso grande projeto enquanto seres humanos que almejam a liberdade. Como dizia Betinho: uma sociedade é igualitária quando respeita as diferenças, e não fere a igualdade.
Não esqueçamos, porém que a democracia tem no conflito a sua essência e que toda solução encontrada é relativa, temporal, histórica. Trata-se de um projeto de construção que só será possível se efetivar através de uma sociabilidade solidária que acontece através da linguagem, das trocas simbólicas. E o ser humano enquanto ser simbólico manifesta de forma privilegiada a sociabilidade como dimensão essencial do seu existir. Podemos até falar de uma corrente pré-lingüística do mundo das vivências humanas, mas até as necessidades mais íntimas e os sentimentos mais profundos do ser humano se diferenciam de acordo com suas articulações lingüísticas, e é fenômeno conhecido pelos cientistas sociais que uma linguagem comum exerce uma influência determinante de unificação sobre o mundo dos sentimentos humanos.
Todavia a nossa sociedade é uma sociedade da excitação, do espetáculo que vive a lógica da mercadoria, onde o ser se tornou sinônimo de aparecer. Nessa conjuntura, a questão comunicacional hoje é antropológica. Com os sistemas sofisticados de comunicação, o mais profundo de nossas convicções, emoções e sentimentos estão sendo atingidos. As pessoas não pensam mais, estão sendo pensadas e assim, as comunicações vão configurando as pessoas. Comunicação esta que é ainda mais poderosa enquanto implícita do que quando explícita. Para darmos uma dimensão ética à comunicação, é preciso que se articule balizas fundamentais de humanização da sociedade. Os veículos de comunicação devem promover e difundir a cultura do direito. Inclusive do direito de se educar o ser humano para a mídia, considerando que por trás de todo projeto educacional deve existir o pressuposto ético da emancipação humana. É fundamental que haja uma reeducação dos sentidos. Só com a transformação de nossas matrizes simbólicas poderemos construir o tão sonhado mundo novo.