Mostrando postagens com marcador Literatura brasileira. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Literatura brasileira. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

QUEM CONTA UM CONTO AUMENTA UM PONTO


O irmão de Erpídio

 Eugênio Magno


– Cadê o homem das pedras?
– Ele é meio abilolado. O povo anda caçoando dele, por conta das coisas que ele fala.
– Eu não acho que ele é doido não.
– O juízo dele é fraco mesmo. Eu sou mais novo que ele e desde quando eu me entendo por gente que escuto o pessoal dizer que ele não bate muito bem da cabeça.
– Tem muito tempo que eu não encontro com ele.
– Ah, ele levanta cedo, monta na égua e sai por aí. Vai p’a manga do Rodrigo. Tem dia que ele sai de bicicleta e vai fazer algum biscate. Outra hora some por essas grotas aí, que ninguém acha ele.
– Será que ele está por aí hoje? Vamos lá na casa dele ver se ele está por lá?
– Ele hoje saiu foi cedo. Quando eu estava indo p’a roça, de manhãzinha, eu cruzei com ele, montado na égua. O sol não tinha nem saído ainda e ele lá ia campear.
– Fala com ele que eu quero conversar com ele.
– O senhor não deve se iludir com as histórias dele não.
– Eu gosto muito dele.
– Ele não regula bem, não. E aquelas pedras não valem nada. É tudo cascalho.

– Mas a prosa é boa. Avisa a ele que domingo eu venho cá pra nós prosear.

(Inédito, 2011)

terça-feira, 15 de agosto de 2017

SALTO MORTAL


Precariedade


Eugênio Magno


A imagem perdida, era a palavra desdita que, mal sepultada, jazia semimorta sob o lamento das carpideiras. De esguelha, reunia forças para ocupar a linha e, mesmo a contragosto, completar a oração afirmativa que daria um novo sentido para aquela vida que já sucumbia diante de falsas vocações anunciadas. A nulidade de todos os empenhos anteriores, na tentativa de construir redes de proteção para o caminho foi percebida e a certeza da falácia de existirem condições ideais para a semeadura se tornara uma convicção.

(Inédito)

sábado, 15 de julho de 2017

NACOS DA COTIDIANIDADE



Mal estar

Eugênio Magno


Assim que acordei, vi que ela estava meio acabrunhada. Durante quase toda a manhã ficou pelos cantos. Em alguns momentos eu a vi dormindo. Ou estaria apenas deitada? Não ousei perguntar. Ela não iria, nem poderia responder. Saí e não mais me preocupei com sua apatia. Aquela manhã reclamava muitos afazeres, compromissos e reuniões. Quando cheguei em casa para o almoço, já passava das 13:00 horas. Não a vi ao entrar. Contaram-me que ela ainda não havia almoçado. Enquanto aguardava a mesa ser servida alguém disse que ela não estava passando bem. Teria feito vômito, uma substância amarelada, pastosa, contendo alguns caroços que, olhando de perto, via-se que eram de arroz. Perdi o apetite e ela também. Nossa comida permaneceu intacta.

(Inédito)

quinta-feira, 15 de junho de 2017

MIRAGEM NA FLORESTA


Cabelos de Ouro


Eugênio Magno


A minha maior lembrança era a do sol
se misturando àqueles cabelos de ouro

Nunca mais a vi
Não consigo me lembrar do seu rosto
Nem sei se o vi

Só sei que o seu caminhar era
de uma formosura sem par

Dos seus olhos não sei a cor
Na sua boca não vi sorriso

Só tive olhos para a sua pele alva
vestida de um branco translúcido

Para aqueles cabelos de ouro penetrados pelo sol

E eu, de longe, era só olhar e encantamento

(Poema inédito)

segunda-feira, 15 de maio de 2017

ERA UMA VEZ UMA NOITE... ASSIM MESMO, COM CRASE (E COM TODAS AS VÍRGULAS)


Noite à dentro

Eugênio Magno

Uma nuvem impedia o amanhecer, enquanto ele velava insone. A laranja em cima da mesa, o gato no canto da sala, lambendo seu pelo e a torneira, que insistia em vazar, renitente, pingava na pia. A sua morte não era surpresa, mas assim mesmo a vida lhe anunciava novas aventuras. A imagem de Nossa Senhora, no móvel da sala, de braços abertos e mãos espalmadas, num gesto de acolhimento, o entristecia. Sua mãe jazia há muito. Muito antes que ele pudesse retribuir ao menos uma mísera parcela do seu cuidar. E sempre aquela dor, como uma nota, em sustenido, latejando, enquanto a recorrente murmuração praguejante era intercalada apenas por um surdo evocar de preces. Então o relógio tocou, na tentativa de acordar aquele que não dormira, mas que, enredado em pesadelos, tampouco desperto estava.

(Do livro Poetas En/Cena-2, 2008, pág. 66)


sábado, 15 de abril de 2017

NEM TUDO É PERFEITO


Poema inacabado

 Eugênio Magno


Só restava a esperança em um dia distante que nunca chegava. Não havia fim e os começos também cessaram. Algo foi emudecendo em nós. Ficamos inertes. E gélidos, fomos nos definhando. A palavra, afiada, mal dita, precipitava ainda mais a desintegração, até mesmo aquela, da solidez insípida em que nos transformamos. Agora, como gotas de água da chuva, somos náufragos em mar aberto.
(Do livro Poetas En/Cena-2, 2008, pág. 65)

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

PSIU ! . . .


Elogio do silêncio
Eugênio Magno

Escrever o quê Não posso escrever Não tenho palavras Minha voz murchou É só ausência A tela cinza do micro e a página em silêncio O silêncio interior é a palavra mais forte Futuro e passado são nada e o presente é esta síntese Procuramos tudo em todos os lugares sem saber que o que buscamos é o nada Só o nada nos leva à plenitude do ser Antes da nossa existência éramos nada e depois de existirmos novamente nos transformaremos em nada O que temos então agora é um pequeno parêntese entre o nada Portanto para ser pleno o agora também deve ser nada Façamos um vazio no presente e seremos preenchidos pelo nada Não teremos mais passado nem futuro e o presente será eternidade As harmônicas do silêncio devem ser a nossa música interna o nosso compasso a guiar o nosso passo pisando o finito em direção ao infinito O que existe já não me interessa O que vejo e o que ouço e sinto não me apetecem Busco o que não existe O que não vejo não ouço e não sinto Não me interessa o verso nem o inverso A ausência sim me acresce O concreto e até o abstrato já foram descritos O nada continua incógnito à espera de outros nada que cada vez mais o desclassifique Não posso falar do que já existe O que existe é e ponto O que não existe não é e reticências Gosto das reticências Tem gente que confunde reticências com interrogação Interrogação é linguagem dos cientistas reticências é linguagem de poeta Vírgula travessão também o são Até o ponto e vírgula é linguagem de poeta Exclamação serve às linguagens precisas da informação da certeza e da tola admiração Não tenho certezas não busco verdades Elas não existem por aqui Ir talvez seja voltar mas os iludidos vão na certeza de encontrar o fim Estou aprendendo a cultivar os nada A buscar o antes do início A matéria-prima do que existe é verdadeira criação o que fizeram dela é manipulação transformação A linguagem precisa precisa ser reinventada Ela já não diz mais porque diz muitas coisas que são e nós precisamos dos nada Somente o vazio e o silêncio da descida ao abismo do nada nos levará ao todo de tudo À presença do que sempre tem sido ausência Não posso continuar a escrever Não posso falar Não posso continuar a quebrar o silêncio As palavras já existem ou como dizia o poeta Drumond os poemas já estão prontos à espera de quem os encontre 
.

(Do livro Minas em Min, 2005, pág. 38)

domingo, 15 de janeiro de 2017

INDULTO PARA UMA NOVA VIDA


Habeas Corpus

 Eugênio Magno

Então, certa vez, o poeta disse: Estou voltando para o lugar de onde vim. Tentei brincar de deus, criar lugares, pessoas, situações, mas descobri que a minha vocação não é a de manipulador de marionetes e carcereiro de cenários. Sou um homem de palavra que usa a voz, aprecia a melodia, gosta de silêncio, mas prefere o som. Não quero enclausurar imagens. As paisagens também devem ser livres e terem a cor que escolher a imaginação de quem escuta com os olhos ou os ouvidos, apenas palavras. O cristalino dos meus olhos não é mais o original e não posso confiar tanto assim na minha visão, nem na dos outros. As lentes são estreitas, focadas demais e só apontam para o outro. Não confio no que vejo, muito menos no que me mostram. Minha tarefa é descobrir a mim mesmo. Só assim posso chegar ao outro. Não para desnudá-lo ou vendê-lo na feira de arte (moderna?). Mas para abraçá-lo e cobrir a sua alma nua.
(Do Livro Minas em Mim, 2005, pág. 37)

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

PROPAGANDA ENGANOSA



                                                    Negação
                           
Eugênio Magno
                       Não faço poemas pra ti beijar
                            Seus lábios escondem outros versos
                            De uma métrica que desatina
                           
                            Palavra rouca que entoca promessas
                            Fala, não faz, mas combina
                            O que sempre vai me negar

(Do livro Minas em Mim, pág. 36)

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

NOSSOS AFOGAMENTOS



Lágrimas de alegria

 Eugênio Magno

Por quê choro?
Porque ris
Pois o choro é metáfora do medo
Ou desculpa da dor
Mas se rio
Não é porque choras
O mar é grande
E mesmo que o pranto molhe meus lábios
Não me afogarei em soluços

(Do livro Minas em Mim, 2005, pág. 35)

terça-feira, 18 de outubro de 2016

SOBRE O TEMPO E AS ESTAÇÕES



Outono
 Eugênio Magno

No tempo da colheita,
o arbusto se desnuda
para trocar de roupas.

As folhas que caem,
alimentam o chão.
E a terra dá a luz.

Para se engravidar,
novamente.

De mudas e brotos,
que farão os frutos e as flores
de uma outra estação.

(Do Livro Minas em Mim, 2005, pág. 34)

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

MEDO DE AMAR



Timidez

Eugênio Magno



                            seu medo de amar
                            inibe meu canto

                            aborta tantos versos
                            quantos quis falar

(Do Livro Minas em Mim, 2005, pág.: 33)

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

O PEIXE MORRE É PELA BOCA




                            Em tempos de crise

 Eugênio Magno


                            sua tagarelice guarda


                            silêncios do indizível


(Do livro Minas em mim, 2005: 32)

domingo, 15 de maio de 2016

NO MEIO DA NOITE




                     Trilhas de Minas

Eugênio Magno
                  
                   faróis de lua
                   estrada de estrelas
                   caminhos do céu

                   picada do tempo
                   luz de lamparina
                   e moinhos de vento

                   sinais de mato
                   poeira de terra
                   motor de explosão

                   vagalumes perdidos
                   noite
                   escuridão
(Do livro Minas em mim, 2005: 29)

quinta-feira, 14 de abril de 2016

NUNCA SE SABE...


Incerto amanhecer


Eugênio Magno


A estrela, na vidraça, estava, ao alcance, da mão. Mais, um, dedo, de prosa, e pegaria, também, a lua, cheia, de fumaça, do cigarro, que alimentava, o cinzeiro, sobre, a janela, de muitas, noites. Não encostei em nada. Tive medo que o amanhecer queimasse o meu toque e recolhi apenas impressões.

(Do Livro Minas em mim, 2005: 28)

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

FRÍVOLOS E INVASIVOS


Nem tudo é Verdade


Eugênio Magno

O voyeur será artista? Olha pelo buraco da fechadura o que deveria estar fora de quadro. Fotografa velhos evacuando e crianças se masturbando. Exibe párias em vitrines de cristal líquido. Liquida. Liquidifica todos. Assenta em confessionários e ouve os pecados do mundo. Pensa a vida como frame e brinca de deus na ilha de edição. Sua loucura é (apenas) disfarce.

(Do livro IN GÊ NU(A) IDA DE - versos e prosa, 2005)

domingo, 17 de janeiro de 2016

ERA UMA VEZ UMA PRIMAVERA ...


Jaculatória

Eugênio Magno 


Deixei de ouvir as cigarras. 
Um pássaro pousou no galho mais alto do fícus e entoou um canto. 
Antes do silêncio, as cigarras já haviam retomado o seu mantra.

(Do livro IN GÊ NU(A) IDA DE - Versos e prosa, 2005)

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

PELOS CABARÉS DO SERTÃO...



 Randez-vous brejeiro


Eugênio Magno


Eu as olhei, de perto, rijo, quase a tocá-las. Estavam à mesa, como capim seco, dobradas.
Mesmo melancólicas, insinuavam que ainda eram bom pasto.
Entre um chiado e outro, do bolero, na radiola, ouvi vozes. Uma dizia que elas velavam alimentadas por aguardente. A outra, que foram incendiadas pelo rubor da luz.
Desmaiei de fome.

(Do livro IN GÊ NU(A) IDA DE - Versos e prosa, 2005)

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

INSPIRADO EM UM VELHO AMIGO QUE NÃO VEJO HÁ MUITO ANOS


 Confissões de um diletante


Eugênio Magno


Certa vez no cinema ouvi de um personagem: “Há homens que nunca deveriam ler”. Talvez eu seja um deles, pensei. Aos poucos fui deixando o hábito. Tive medo das más influências.
Não leio mais... 
Agora, só escrevo.

(Do livro IN GÊ NU(A) IDA DE - Versos e prosa, 2005)


quinta-feira, 15 de outubro de 2015

HOMENAGEM À FILHA DE UM GRANDE AMIGO


Destinatário não encontrado

Eugênio Magno


Cássia não mora mais aqui. Mudou de endereço. Deve habitar o céu, sei lá... Não ouviremos mais a sua voz que agora fala aos serafins.
Fui me despedir dela, mas Cássia não me reconheceu. Não acenou para mim.
Cássia, irmã que não conheci, filha que não ninei, desculpe se tardei a chegar perto de você. Embora você estivesse linda e altiva no dia da despedida, prefiro sua imagem no retrato que um dia, risonho, seu pai me mostrou.
Por falar em foto, mande-nos um postal do céu. Diga ao Todo Poderoso, aos anjos e santos que temos muitas curiosidades, mas continuamos a viajar no velho veleiro. Que só você foi à frente de jato.
Deus te abençoe menina.

E a nós também, que sentimos sua falta.

(Do livro IN GÊ NU(A) IDA DE - Versos e prosa, 2005)