Mostrando postagens com marcador conto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador conto. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

ROGÉRIO SALGADO COMEMORA 40 ANOS DO LANÇAMENTO DE SEU PRIMEIRO LIVRO

 

O poeta Rogério Salgado estará comemorando, a partir de janeiro de 2022, 40 anos do lançamento de seu primeiro livro, Tontinho, que dá título ao conto dessa publicação de estreia, em 1982.
"Com esse livro comecei minha carreira de vender meu próprio trabalho. Saía de porta em porta no bairro Planalto, em Belo Horizonte\MG, onde na época eu residia, e em alguns lugares no centro da capital mineira, vendendo os livros. Vendi a tiragem de 500 exemplares em mais ou menos quatro meses", conta Salgado.
A ideia é comemorar o aniversário de Tontinho com uma nova edição do livro Para esta publicação, Rogério Salgado conta com a ajuda dos amigos, que podem adquirir antecipadamente os  exemplares: um a R$ 30,00, dois a R$ 50,00, ou quantos exemplares o colaborador desejar. O autor informa que os livros serão entregues na noite de autógrafos e os compradores que residem fora da capital mineira, receberão a publicação pelos correios. Para contribuir com o autor, estas são as formas de contato: WhatsApp (31) 98421.6827 ou através do e-mail: poetarogeriosalgado@yahoo.com.br.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

HOMENAGEM À FILHA DE UM GRANDE AMIGO


Destinatário não encontrado

Eugênio Magno


Cássia não mora mais aqui. Mudou de endereço. Deve habitar o céu, sei lá... Não ouviremos mais a sua voz que agora fala aos serafins.
Fui me despedir dela, mas Cássia não me reconheceu. Não acenou para mim.
Cássia, irmã que não conheci, filha que não ninei, desculpe se tardei a chegar perto de você. Embora você estivesse linda e altiva no dia da despedida, prefiro sua imagem no retrato que um dia, risonho, seu pai me mostrou.
Por falar em foto, mande-nos um postal do céu. Diga ao Todo Poderoso, aos anjos e santos que temos muitas curiosidades, mas continuamos a viajar no velho veleiro. Que só você foi à frente de jato.
Deus te abençoe menina.

E a nós também, que sentimos sua falta.

(Do livro IN GÊ NU(A) IDA DE - Versos e prosa, 2005)

terça-feira, 15 de setembro de 2015

NOTÍVAGO


Apatia de uma noite de outono


Eugênio Magno 


Depois da falta de sono, veio a vontade de não dormir e vaguear pelas ruas desoladas. A lua se escondia atrás da névoa. O vento que às vezes soprava e o chão úmido (coberto pelas folhagens) faziam-me um convite a penetrar os labirintos daquela noite, mista de horripilante e sedutora. As tortuosas ruelas, o chão, o céu e toda aquela arquitetura barroca faziam coro me convidando a integrar tal atmosfera.
Agasalhado e frio, deixei de ser espectador para protagonizar o nada, a apatia da noite de outono.
- Onde estavam os fantasmas e todos aqueles personagens das lendas, do folclore e da ficção?
Já não haviam mais dráculas, mulas-sem-cabeça, sacís, lobisomens ou mulheres-de-sete-metro. Apenas o ronco coletivo, o sono e o sonho... enquanto eu, buscava incessantemente uma cena digna daquela noite sombria.
Ao avistar a silhueta de duas pessoas cheguei a pensar em visão fantasmagórica, até me certificar que se tratava de uma senhora e um jovem. Resolví segui-los à distância e... quem sabe vivenciar um acontecimento inesperado!? Os dois andavam em atitude suspeita e pareciam fugir ou esconder algo que eu não conseguia identificar.
Num dado momento eles pararam, olharam para trás e viraram uma esquina. Certa hora cheguei a pensar que os havia perdido de vista. Depois os ví em frente ao casarão dos Freire.
Pensei: o que estariam fazendo em um casarão abandonado?
A medida que me aproximava ouví grunhidos, pancadas fortes e risadas. Passei a ter a nítida impressão de que estava completando o quebra-cabeças.
Quis surpreendê-los, então.
Ao entrar no casarão, na enorme sala iluminada à luz de velas, encontrei os dois, debruçados sobre a mesa. Perguntei o que estava havendo, e o jovem me respondeu:
- Somos apenas dois diabéticos, querendo comer nossa rapadura, sossegados.
A senhora completou:
- Acabamos de quebrá-la. Aceita!?

(Do livro IN GÊ NU(A) IDA DE - Versos e prosa, 2005)

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

UM POUCO DE PROSA

O irmão de Erpídio
Eugênio Magno
– Cadê o homem das pedras?
– Ele é meio bilolado. O povo anda caçoando dele, por conta das coisas que ele fala.
– Eu não acho que ele é doido não.
– O juízo dele é fraco mesmo. Eu sou mais novo que ele e desde quando eu me entendo por gente que escuto o pessoal dizer que ele não bate muito bem.
– Tem muito tempo que eu não encontro com ele.
– Ah, ele levanta cedo, monta na égua e sai por aí. Vai p’a manga do Rodrigo. Tem dia que ele sai de bicicleta e vai fazer algum biscate. Outra hora some por essas grotas aí, que ninguém acha ele.
– Será que ele está por aí hoje? Vamos lá na casa dele ver se ele está por lá?
– Ele hoje saiu foi cedo. Quando eu estava indo p’a roça, de manhãzinha, eu cruzei com ele, montado na égua. O sol não tinha nem saído ainda e ele lá ia campear.
– Fala com ele que eu quero conversar com ele.
– O senhor não deve se iludir com as histórias dele não.
– Eu gosto muito dele.
– Ele não regula bem, não. E aquelas pedras não valem nada. É tudo cascalho.
– Mas a prosa é boa. Avisa a ele que domingo eu venho cá pra nós prosear.
(Inédito)

quarta-feira, 1 de julho de 2009

UM BREVE CONTO

MAL ESTAR
Eugênio Magno
Assim que acordei, vi que ela estava meio acabrunhada. Durante quase toda a manhã, ficou pelos cantos. Em alguns momentos eu a vi dormindo. Ou estaria apenas deitada? Não ousei perguntar. Ela não iria, nem poderia responder. Saí e não mais me preocupei com sua apatia. Aquela manhã reclamava muitos afazeres, compromissos e reuniões. Quando cheguei em casa para o almoço, já passava das 13:00 horas. Não a vi ao entrar. Contaram-me que ela ainda não havia almoçado. Enquanto aguardava a mesa ser servida alguém disse que ela não estava passando bem. Teria feito vômito, uma substância amarelada, pastosa, contendo alguns caroços que, olhando de perto, via-se que eram de arroz. Perdi o apetite e ela também. Nossa comida permaneceu intacta. (inédito)

domingo, 31 de maio de 2009

UM CONTO BREVE


NOITE À DENTRO

Eugênio Magno
Uma nuvem impedia o amanhecer enquanto ele velava inosone. A laranja em cima da mesa, o gato no canto da sala lambia o seu pelo e a torneira que, insistia em vazar, renitente, pingava na pia. A sua morte não era surpresa, mas assim mesmo a vida lhe anunciava novas aventuras. A imagem de Nossa Senhora no móvel da sala, de braços abertos e mãos espalmadas, num gesto de acolhimento o entristecia. Sua mãe jazia há muito. Muito antes que ele pudesse retribuir ao menos uma mísera parcela do seu cuidar. E sempre aquela dor, como uma nota em sustenido, latejando, enquanto a recorrente murmuração praguejante era intercalada apenas por um surdo evocar de preces. Então o relógio tocou na tentativa de acordar aquele que não dormira, mas que, enredado em pesadelos, tampouco desperto estava.
(da coletânea "POETAS EN/CENA 2 : Reunião de poemas de poetas brasileiros no IV Belô Poético", Rogério Salgado & Virgilene Araújo, org., 2008)