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sexta-feira, 20 de maio de 2016

ATÉ GENTE QUE FOI DA TURMA DE FHC SE INDIGNA COM O "GOVERNO PROVISÓRIO"


"Torço para que as manifestações contra o governo não parem", 
afirma ex-ministro de FHC


Não reconheço um governo ilegítimo originário de um golpe de Estado comandado por um delinquente. A crítica contundente parte do cientista político e professor da USP, Paulo Pinheiro, que esteve à frente da pasta de Direitos Humanos no governo FHC.
Ele não poupa adjetivos à gestão do presidente interino, Michel Temer. “É um governo irresponsável e o principal deles é o interino. É um governo reacionário, retrógrado e gagá. Não tem mulheres, não tem negros. Com uma canetada acabou com a Cultura, com os Direitos Humanos, colocou criacionistas nos ministérios da Saúde e Indústria e Comércio. Isso é uma agressão”, alfineta.
Paulo Sérgio, que está em Genebra, na Suíça, liderando uma missão da ONU sobre a crise na Síria, conversou com a reportagem de Caros Amigos por telefone. O comissário das Nações Unidas demonstrou bastante preocupação com a imagem que Temer está passando do país no exterior.
“Até o governo Dilma, o Brasil era levado a sério, mas com Temer estamos caminhando para nos tornarmos uma República de Bananas. Temo pela ruptura da política externa brasileira.”
Retrocesso
A logomarca do governo baseada na frase “Ordem e Progresso” também é duramente criticada pelo professor da USP. “Um governo que escolhe Ordem e Progresso como sua logomarca revela ilegitimidade e irresponsabilidade. Faz o Brasil retroagir ao positivsimo de 1889… É um escândalo.”
Paulo Sérgio afirma que o golpe o deixa deprimido. “Substituiram um governo legítimo por um de extrema-direita baseado na bancada BBB (Boi, Bíblia e Bala). É muito depressivo. Não acredito que esteja passando por isso. É um acinte.  É vexaminoso.”
“Estou envergonhado do Brasil. Torço para que as manifestações contra o governo não parem. Adorei o protesto contra o ministro da Educação (Mendonça Filho)”, enfatiza.
(Fonte: Caros Amigos / DCM)

sábado, 4 de maio de 2013

PSDB-2014

Um Plano Collor requentado em forno mineiro 

O economista Edmar Bacha, um dos formuladores do PSDB, apontado como interlocutor credenciado do presidenciável Aécio Neves, resumiu em debate promovido esta semana pelo jornal Valor, algumas prioridades tucanas na eventual volta ao poder. São elas: a) retomar a Alca; b) supressão robusta das tarifas que protegem a indústria local; c) redução do tamanho do Estado, com desmonte da Previdência, por exemplo; d) fim das políticas indutoras de industrialização, a exemplo do conteúdo nacional imposto às encomendas da Petrobrás. O suposto é que isso, associado a forte desvalorização cambial, injetará eficiência à indústria brasileira, hoje cambaleante. Faltou dizer quantas unidades fabris e de emprego sobreviverão a esse Plano Collor de bico longo, agora requentado em forno mineiro. O importante a reter é a coerência do PSDB. O partido quer voltar ao poder para terminar o que começou nos anos 90: o desmonte completo do papel do Estado na agenda do desenvolvimento.  Para fortalecer seus alicerces, trouxe ao Brasil, Vito Tanzi, ex-FMI, 'amigo' do país desde a crise da dívida, nos anos 80. Tanzi veio demonstrar, em carne e osso, como a ideologia não muda. Independente dos vexames de sua prática. E por uma razão muito forte: por trás das ideias, melhor dizendo, à frente delas, caminham os interesses. Felizmente há quem discorde deles. E com decibéis intelectuais suficientes para evidenciar que, subjacente à gororoba do contracionismo-expansionista,  defendida pelos Rogoffs, Tanzis e similares locais  existe um déficit. Não propriamente fiscal. Mas de coordenação estatal da economia. Quem explica é o professor Luiz Gonzaga Belluzzo, o interlocutor de Bacha, no  debate promovido pelo Valor.  Para ler a matéria completa do postada no site cartamaior.com.br, clique aqui.

sábado, 1 de agosto de 2009

SERÁ QUE A ESQUERDA É BURRA MESMO?

O sociólogo português, Boaventura de Souza, que estará em Belo Horizonte nesta semana, partipando de vários eventos, analisou em artigo para o site Carta Maior, de 29.07.09, a frase "a esquerda é burra", do ex-presidente brasileiro, Fernando Henrique Cardoso. Leia abaixo o artigo na íntegra:

A esquerda é burra?

Boaventura de Souza

Sociólogo


"A frase “a esquerda é burra” é de autoria de Fernando Henrique Cardoso (FHC), sociólogo de renome internacional e Presidente do Brasil entre 1995 e 2003. Ficou famosa pelo simplismo com que desqualificava os adversários das políticas neoliberais do seu governo. Curiosamente tais políticas desqualificavam tudo o que ele antes tinha escrito enquanto sociólogo, o que o levou a pronunciar outra frase que ficou igualmente famosa: “esqueçam tudo o que eu escrevi”.
Tive ocasião de discutir com ele o significado da frase sobre a esquerda. Discordava do seu sentido mais óbvio e intrigava-me a sua arrogância. Para FHC a frase tinha vários significados: a esquerda ainda não entendera que o neoliberalismo era a única solução para a economia mundial e a melhor garantia contra as propaladas crises do capitalismo; o principal líder da esquerda, Inácio Lula da Silva, era um operário ignorante e sem preparação para governar o país; a esquerda estava minada pelo fraccionismo e nunca se uniria (ao contrário da direita) para assumir o poder. Tragicamente para FHC e seus aliados a frase mostrou-se errada em todos os seus significados desde a eleição de Lula até à crise do agora defunto (ressuscitará?) neoliberalismo.
Mas, apesar disso, a frase ficou como um fantasma da esquerda brasileira, como se a esquerda tivesse de demonstrar a cada momento que não era burra e como se o mesmo ônus não impendesse, por outras razões mas com a mesma justificação, sobre a direita, ela sim, afinal perdedora. É sabido que os fantasmas, tal como os espíritos, atravessam tempos e fronteiras. Tal como discordei da caracterização simplista da esquerda brasileira, discordaria dela se aplicada à esquerda portuguesa. Apesar disso, ante os atos eleitorais que se aproximam, pergunto-me se, a título preventivo e como dúvida metódica, não fará sentido pôr a questão: será a esquerda portuguesa burra? Ou melhor: nos próximos atos eleitorais quem se revelará menos burra, a esquerda ou a direita?
Ao contrário dos confusionistas do costume, dou de barato que há esquerda e direita. Tanto uma como outra são plurais, estão divididas em vários partidos e em várias tendências dentro de cada partido. Se tomarmos como referência as últimas eleições para o parlamento europeu e talvez a maioria dos actos eleitorais desde o 25 de Abril de 1974, os portugueses votam majoritariamente à esquerda. De algum modo, a ideia de solidariedade social tem-se sobreposto à de darwinismo social, a ideia de um Estado protetor à ideia de um Estado predador, a ideia do bem público à ideia do interesse privado. E se é verdade que a esquerda governante tem frustrado consistentemente as expectativas que decorrem destas ideias, não é menos verdade que os portugueses têm teimado em crer que tal não é uma fatalidade e que a direita não oferece uma alternativa exceto em desespero de causa.
Daí que as frustrações com a esquerda governante se tenham traduzido, menos no crescimento da direita, do que no crescimento de opções pela esquerda até agora não governante, um fenômeno inédito na Europa de hoje. Em face disto, e a menos que os portugueses se sintam numa situação de desespero de causa, podemos concluir que, se nos próximos atos eleitorais a direita ganhar, a esquerda é mais burra que a direita.
Nas condições portuguesas, a esquerda corre o risco de ser mais burra que a direita por duas razões principais: confundir-se com a direita; dividir-se ao ponto de não poder unir-se no principal: impedir a eleição de um governo de direita. Pelo que disse acima, quando a direita tenta se confundir com a esquerda (o que tem acontecido frequentemente) corre sempre menos riscos que a esquerda quando esta se confunde com a direita. Por outro lado, a direita tem uma história unitária muito mais consistente que a esquerda. Para que estes riscos se não concretizem, as esquerdas têm de mostrar aos portugueses que o coração da esperança continua a bater mais fortemente que o coração do desespero. Não é tarefa fácil mas não é impossível. E isto que é válido para as eleições legislativas é igualmente válido para as eleições autárquicas. No que respeita a estas últimas, o caso de Lisboa será paradigmático. Parece óbvio que só por desespero se pode votar no candidato da direita. Por sua vez, o candidato principal da esquerda é um dos mais brilhantes políticos da nova geração de líderes de esquerda, só comparável ao líder da esquerda mais inovadora da última década. Se ele sair derrotado nas próximas eleições, obviamente a esquerda é burra. Espero vivamente que tal não seja o caso." (Fonte: IHU - Instituto Humanitas Unisinos)