Mostrando postagens com marcador Filosofia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Filosofia. Mostrar todas as postagens

domingo, 11 de agosto de 2019

DESMONTE DA (E NA) EDUCAÇÃO


Ciências Humanas e Sociais e a Política: a oferta da palavra

Uma das formas de ataque do governo Bolsonaro à universidade tem sido sua particular aversão às ciências humanas e sociais. Se a virulência e a violência deste ataque são específicas desse governo, não se pode dizer, no entanto, que ele tenha inaugurado um menosprezo por essas áreas do conhecimento e por seus profissionais.
Nunca é demais lembrar que, há poucos anos, o governo petista excluiu as Ciências Humanas e Sociais de importantes iniciativas no campo da ciência e tecnologia e educação superior, como o Ciências Sem Fronteiras, por exemplo, e que há muito tempo no interior da comunidade acadêmica e científica – o que vale dizer, no interior das universidades – as ciências humanas e sociais não são de grande prestígio ou, mesmo, de suficiente respeito dos pesquisadores das demais áreas.
Há muitas razões para que tal situação tenha sido produzida e reproduzida no país e, num certo sentido, em boa parte do mundo. Como sabemos,as múltiplas metodologias científicas das ciências e humanas e sociais jamais se adequaram ao figurino, por demais limitado, das concepções de ciências cultivadas nas ciências exatas, da saúde ou da terra, por exemplo.
Mas, é também importante dizer que os profissionais formados nos cursos das áreas de ciências humanas – ou que com elas dialogam mais fortemente, como os cursos de licenciaturas os mais diversos – são aqueles que trabalham com as populações mais pobres, notadamente como profissionais das políticas públicas estabelecidas e levadas a cabo pelos órgãos de Estado. Assim, o desprestígio do púbico atendido acaba, por sua vez, fazendo com que os cursos recrutem seus alunos justamente nas parcelas mais pobres da população.
No que se refere, especificamente, ao governo Bolsonaro e aos grupos que o apoiam, não se pode esquecer que eles são explicitamente contra as ciências humanas e sociais porque, segundo eles, estas estariam mais voltadas para a doutrinação das crianças e jovens do que para o ensino de conhecimentos úteis para o trabalho e para a vida familiar.
Retirada a obtusa ideia de doutrinação que os grupos bolsonaristas cultivam quando se referem aos outros – pois a doutrinação religiosa e política que fazem, essa sim, é legítima – pode-se dizer que o campo das ciências humanas e sociais é muito mais afeito às discussões, aos debates e às disputas pelos sentidos das coisas do que as demais áreas. E é aqui, talvez, que reside o perigo dessas áreas para os governos autoritários como este que hoje comanda a República brasileira.
Os regimes e grupos autoritários não gostam da disputa pelos sentidos múltiplos que presidem a organização de nossas sociedades. Querem impor seu entendimento de que há sempre um único sentido correto das coisas – seja essa “coisa” uma família, um livro, um filme, um mapa…. ou seja, qualquer coisa. Do mesmo modo, incomoda aos regimes e aos grupos autoritários que em lugar da violência com que querem impor suas doutrinas, as ciências humanas e sociais ofereçam a palavra e as linguagens, condições fundamentais da política, único antídoto à violência contra os adversários.
É porque é contra a política e a favor da violência como modo de solução dos inevitáveis conflitos sociais, que o governo Bolsonaro e seus apoiadores são contra as ciências humanas e sociais. É porque não têm apreço pela disputa pelos sentidos das coisas por meio da linguagem e é, também, porque desprezam as palavras que estes sujeitos odeiam aqueles que as cultivam.
É por ofertar a palavra e as linguagens à política (e às ciências!), que as ciências humanas e sociais são fundamentais para a democracia. Jamais teremos uma democracia forte, participativa e legitimada politicamente pela maioria da população sem o cultivo das ciências humanas e sociais; jamais teremos políticas púbicas que diminuam as desigualdades e que reforcem a justiça social sem os profissionais e as pesquisas das ciências humanas e sociais. Resta saber se queremos caminhar nessa direção ou continuar no sentido imposto pelo governo do ignóbil Bolsonaro.
(Fonte: Pensar a Educação em Pauta)

sexta-feira, 24 de maio de 2019

ALGOZES DA EDUCAÇÃO EMANCIPADA


A filosofia e seus coveiros 

Claudio Andrade

O absurdo está se reinventando e procura monstros para justificar sua imbecilidade. Autoridades desautorizadas pelo justo conhecimento enxergaram as Ciências Humanas e, com miopia, acreditam ver a filosofia. O retorno ao primitivismo parece ser a tônica do grupo que acredita dirigir o Ministério da Educação com conselhos de um quase pseudo instrutor de Filosofia que confunde ‘Universidade’ com ‘Perversidade’, a saber, Olavo de Carvalho, que se quer teve condições de ler e compreender o metafísico Étienne Gilson que sentenciou a maior experiência filosófica de todos os tempos: “a filosofia sempre enterra seus coveiros”. Complementaria a máxima, sobretudo quando seus coveiros são leitores de um único autor ou de um único livro. Desde os tempos mais antigos a filosofia sempre preservou a liberdade e a autonomia para construir novas formas de vida e novos olhares sobre os problemas que nos impõe a ordem dominante, gastando energia em novos estilos de vida que sempre considerou um outro mundo em comum. Quem teve o ócio para ler e compreender Platão e Xenofonte sobre a trajetória de Sócrates, o mestre, vai se lembrar da perversa acusação a ele imputada de corromper a juventude que, na verdade, não era outra coisa senão a reflexão sobre a possibilidade de recusar a submissão cega às opiniões estabelecidas. A subversão da filosofia sempre foi a defesa da livre interpretação, afinal apenas a liberdade é a chave para a verdade. 
O que tentam defender os atuais algozes da educação emancipada e propositiva é absurdamente indefensável, pois desconsideram a premissa que antes de sermos técnicos ou profissionais somos seres humanos. Faz tempo que a filosofia e, posteriormente as ciências humanas, tentam qualificar a máxima de que melhorar a si mesmo tem potencialidade para melhorar a sociedade através da arte, da ciência ou da própria política, em declínio neste tempo de obscuridade instrumental e mediocridade. 
Mal sabem “eles” que o atual eclipse político tem sido a alavanca para a vitalidade filosófica, sempre renovada com novos fundamentos. 
A filosofia, incapturável, é sempre um choque diante do triste empobrecimento da sensibilidade humana neste momento de esclerose múltipla de um governo instituído por um ato de raiva e irracionalidade provisória. 
A desintegração está em processo e as pessoas [insensíveis] não percebem os danos irrecuperáveis em curso. Sem a experiência de sentir e estranhar, próprios da filosofia, vive-se o automático e o novo, abrindo espaço para uma legião de desmemoriados que banalizam o mal com justificativas injustificáveis. A filosofia sempre construiu a tensão do ‘como não’, ou seja, nunca fazer do mundo um objeto de propriedade, mas sim de uso e, preferencialmente, de um novo uso que vem ao encontro da essência dos seres humanos. 
Ora, em sua essência, a filosofia é uma arte de viver, um estilo de vida que compromete toda a existência tornando-nos uma versão melhor de nós mesmos. Assim, mais que uma disciplina com instrumentos metodológicos, a filosofia é terapêutica porque permite-nos a compreensão do sentido e da superação do próprio eu, sempre com novas experiências. No tempo em que escrevo, o filósofo Agamben, tem nos provocado com um lampejo a pensar novas formas de vida, em reconhecer o sujeito não mais como substância, mas sim como forma, sendo esta passível de transformação, qualificação e requalificação. Faz tempo que Agamben tem defendido a distinção de vida qualificada em relação à vida nua ou vida comum, assujeitada aos inúmeros dispositivos de dominação. Mais que viver simplesmente, precisamos viver bem. Só a filosofia como um novo suspiro tem potencialidade de nos libertar de prisões invisíveis que o sistema impõe. A filosofia e seu jeito de se colocar no mundo nos emancipa e isto, por si só, atrapalha os muitos dispositivos de dominação em curso. Ora, apenas a filosofia advoga em favor da vida e o que está em jogo [hoje] é a vida. 
É possível uma felicidade diferente, ligada não à realização tão somente profissional ou instrumental, podendo dar corpo a uma novidade no mundo e isto tem incomodado muito. A ideia de que a filosofia veio para deslocar a concepção espontânea tem deixado muitos sem dormir, pois quando mais batem, mais apanham. 

* Doutor em História e Sociedade pela UNESP, Professor Associado do Departamento de Filosofia da UNICENTRO. Assessor do CEFEP/CNBB e Presidente da Academia de Letras, Artes e Ciência de Guarapuava.