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sábado, 1 de janeiro de 2022

ANO NOVO, VIDA NOVA


(Foto: Vatican News)
 

Louvado sejas, meu Senhor

Este ano de 2022 que está iniciando hoje será um ano de muitos debates políticos: partidários, eleitorais, ideológicos, muitas falas acaloradas. Um ano em que, muito especialmente, nós brasileiros, estaremos sendo convocados a uma maior politização, para que possamos redefinir os rumos do nosso país, compreender melhor as nuances da política e as implicações tanto do nosso voto e dos nossos posicionamentos quanto de nossa apatia ou neutralidade. Futebol, exceto para os grandes craques, técnicos e cartolas, não muda a vida de ninguém e, sinceramente, não sei se vale à pena discutir. Agora, política e religião necessitam ser debatidos intensamente e sabiamente, sem fundamentalismos e, de preferência, sem trazer a esdrúxula lógica da torcida futebolística para esse campo.

Com a pretensão de iniciarmos o ano com um pensamento que vá um pouco além da preocupação com nossos próprios umbigos, o episódio # 28 UNIDOS POR UMA PREOCUPAÇÃO COMUM, do podcast Política com Fé, destaca algumas palavras do papa Francisco, da  sua encíclica Laudato Si, sobre o cuidado da nossa casa comum: a terra, o planeta. 

Para acessar todos os episódios do podcast clique aqui.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

LEONARDO BOFF COMENTA A NOVA ENCÍCLICA DO PAPA


A falta que faz ao Papa um pouco de marxismo
Leonardo Boff *
Teólogo

"A nova encíclica de Bento XVI Caritas in Veritate de 7 de julho último é uma tomada de posição da Igreja face à crise atual. O complexo das crises, que atingem a humanidade e que comportam ameaças severas sobre o sistema da vida e seu futuro, demandaria um texto profético, carregado de urgência. Mas não é isso que recebemos senão uma longa e detalhada reflexão sobre a maioria dos problemas atuais que vão da crise econômica ao turismo, da biotecnologia à crise ambiental e projeções sobre um Governo mundial da Globalização. O gênero não é profético, o que suporia "uma análise concreta de uma situação concreta". Esta possibilitaria investir contra os problemas em tela na forma de denúncia-anúncio. Mas não é da natureza deste Papa ser profeta. Ele é um doutor e um mestre. Elabora o discurso oficial do Magistério, cuja perspectiva não é de baixo, da vida real e conflitiva, mas de cima, da doutrina ortodoxa que esfuma as contradições e minimaliza os conflitos. A tônica dominante não é a da análise, mas da ética, do dever-ser.
Como não faz análise da realidade atual, extremamente complexa, o discurso magisterial permanece principista, equilibrista e se define por sua indefinição. O subtexto do texto, ou o não-dito no dito, remete a uma inocência teórica que inconscientemente assume a ideologia funcional da sociedade dominante. Já se nota na abordagem do tema central - o desenvolvimento - hoje tão criticado por não tomar em conta os limites ecológicos da Terra. Disso a encíclica não fala nada. A visão é de que o sistema mundial se apresenta fundamentalmente correto. O que existe são disfunções e não contradições. Esse diagnóstico sugere a seguinte terapia, semelhante a do G-20: retificações e não mudanças, melhorias e não troca de paradigma, reformas e não libertações. É o imperativo do mestre: 'correção', não a do profeta: 'conversão'.
Ao lermos o texto, longo e pesado, terminamos por pensar: como faria bem ao atual Papa um pouco de marxismo! Este, a partir dos oprimidos, tem o mérito de desmascarar as oposições presentes no sistema atual, pôr à luz os conflitos de poder e denunciar a voracidade incontida da sociedade de mercado, competitiva, consumista, nada cooperativa e injusta. Ela representa um pecado social e estrutural que sacrifica milhões no altar da produção para o consumo ilimitado. Isso caberia ao Papa profeticamente denunciar. Mas não o faz.
O texto do Magistério, olimpicamente fora e acima da situação conflitiva atual, não é ideologicamente 'neutro' como pretende. É um discurso reprodutor do sistema imperante que faz sofrer a todos especialmente os pobres. Isso não é questão de Bento XVI querer ou não querer mas da lógica estrutural de seu tipo de discurso magisterial. Por renunciar a uma análise critica séria, paga um preço alto em ineficácia teórica e prática. Não inova, repete.
E ai perde uma enorme oportunidade de se dirigir à humanidade num momento dramático da história, a partir do capital simbólico de transformação e de esperança, contido na mensagem cristã. Esse Papa não valoriza o novo céu e a nova Terra, que podem ser antecipados pelas práticas humanas, apenas conhece essa vida decadente e, por si mesma insustentável (seu pessimismo cultural) e a vida eterna e o céu que ainda virão. Afasta-se assim da grande mensagem bíblica que possui consequências políticas revolucionárias ao afirmar que a utopia terminal do Reino da justiça, do amor e da liberdade só será real na medida em que se construírem e anteciparem, nos limites do espaço e do tempo histórico, tais bens entre nós.
Curiosamente, abstraindo de laivos fideístas recorrentes ('só através da caridade cristã é possível o desenvolvimento integral'), quando se 'esquece' do tom magisterial, na parte final da encíclica, introduz coisas sensatas como a reforma da ONU, a nova arquitetura econômico-financeira internacional, o conceito do Bem Comum do Globo e a inclusão relacional da família humana.
Parafraseando Nietzsche: 'quanto de análise crítica o Magistério da Igreja é capaz de incorporar'?"
* Leonardo Boff, também é filósofo e escritor, autor de Igreja: carisma e poder, Record 2005. (Fonte: site Adital)