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sábado, 28 de setembro de 2019

SETEMBRO: ANIVERSÁRIO DO PATRONO DA EDUCAÇÃO BRASILEIRA



Mural da Escola Municipal Paulo Freire, do bairro Cidade Nova, Caxias do Sul 
(Foto: Claudia Velho/reprodução)

Quem tem medo de Paulo Freire?

por Eugênio Magno

Nem mesmo as universidades brasileiras que nunca deram muita bola para Paulo Freire têm medo dele. Ao contrário, gritam a seu favor, especialmente nesses tempos em que a educação é medida pela régua dos desescolarizados que vão dos influenciadores aos aboletados no poder em nosso país e os que gravitam em seu entorno. Tampouco meninas e meninos temem Freire. Afinal, ele não era comunista, não comia criancinhas.
              É certo que jamais temeram ou temeriam Paulo Freire os envolvidos no Movimento de Cultura Popular (MCP) em que Freire tomou parte como um dos seus fundadores juntamente com outros intelectuais e estudantes. O projeto do MCP foi um sucesso absoluto e os números de suas realizações surpreendentes: 19.646 alunos, 452 professores e 174 monitores em 626 turmas, com 201 escolas participantes; uma rede de escolas radiofônicas, centros de artes plásticas e artesanato, entre outras atividades e formas lúdicas de promover a cultura, o aprendizado e a alfabetização de crianças, jovens e adultos, somente na cidade de Recife (PE), no período de 1960 a 1962. Também não se amedrontam com Freire os 300 trabalhadores alfabetizados em 45 dias na localidade de Angicos (RN), projeto que conquistou a simpatia do então presidente da república João Goulart que, através de portaria do Ministério da Educação e Cultura (MEC), determinou a criação da Comissão de Cultura Popular, tendo Freire como presidente. Muito menos teriam medo do Patrono da Educação Brasileira os intelectuais Herbert José de Souza (Betinho), Júlio Furquim Sambaquy, Luiz Alberto Gomes de Souza e Roberto Saturnino Braga, membros dessa comissão presidida por Freire, responsável pelo nascimento do Programa Nacional de Alfabetização (PNA), que através do “Método Paulo Freire”, tinha como objetivo alfabetizar politizando 5 milhões de adultos. Somente no ano de 1964, 2 milhões de alunos seriam formados pelos 20 mil Círculos de Cultura a serem instalados no ano do golpe.
Desde Angicos, os militares aquartelados na caserna – em especial o general Castelo Branco – estavam desconfiados do caráter “subversivo” do método adotado por Paulo Freire. Os movimentos de educação popular constituíam uma grande ameaça para o sustento da antiga situação do país e a direita nunca ocultou sua hostilidade em relação a essas iniciativas. Eles não compreendiam porque, Paulo Freire, um educador católico, teria se tornado um representante dos oprimidos. Nesse período era muito forte o ódio ao comunismo e a campanha contra esse regime ou a qualquer ideia ou movimento que fosse libertador, mesmo que de caráter exclusivamente humanista e, ainda que não tivesse qualquer relação ideológico-partidária direta. Assim, os setores conservadores passaram a atacar o movimento de democratização da cultura, ao perceberem que ali – numa pedagogia da liberdade – estaria o germe da rebelião e passaram a acusar Freire de “comunista”, “subversivo internacional” e “traidor de Cristo e do povo brasileiro”. Neste cenário, o golpe de Estado de 1964 não só interrompeu os esforços envidados no campo da educação popular de adultos, assim como levou Paulo Freire à prisão e depois ao exílio por mais de 15 anos.
Paulo Reglus Neves Freire nasceu às 9 horas da manhã, do dia 19 setembro de 1921, em Recife, no Estado de Pernambuco. Na semana passada, muitas das homenagens dirigidas a Freire ressaltavam que se vivo estivesse estaria completando 98 anos de idade. Todavia, deve-se advertir que Paulo Freire não morreu. Ele está mais vivo do que nunca. A maior prova disso é o medo de Freire que paira sobre seus detratores e perseguidores – do passado e do presente. Estes são, na verdade, quem mais o homenageiam. Estaria, essa gente, assombrada com o seu fantasma (?); ou seria do seu legado de um projeto educacional humanista reconhecido em todo o mundo que os seus antagonistas têm tanto pavor? 
Eles continuarão a se borrar de medo. Pois, Freire não está mais entre nós, corporeamente, para ser preso, exilado ou coisa que o valha. E, no Brasil desse bolsonarismo torpe, a “Pedagogia do oprimido” é uma arma letal para interromper esta ópera-bufa encenada no centro do poder nacional. Para usar mais uma expressão típica desse tempo de truculência sociocultural e linguagem policialesca, para matar Freire seria necessário eliminar seu lugar – definitivamente – já assegurado na história: títulos de Doutor Honoris Causa e outras honrarias acadêmicas em centenas de universidades pelo mundo afora; títulos de cidadão honorário de várias cidades brasileiras; prêmios e homenagens diversas: estátuas, monumentos, pinturas, letra de música e até enredo de escola de samba. Presidente honorário de várias instituições nacionais e internacionais. Auditórios, teatros, salas, bibliotecas, diretórios e centros acadêmicos e ainda, praças, avenidas, ruas, conjuntos habitacionais e estabelecimentos de ensino no Brasil e no exterior, batizados com seu nome. Bolsas de pesquisa de pós-graduação, medalhas, condecorações e diversos prêmios receberam o nome de Paulo Freire, fora os centros de pesquisa, documentação, informação, divulgação e estudos sobre ele em várias nações.
              Nada do que Freire representa pode ser apagado. Muito menos suas ideias que – ultrapassaram continentes, atravessaram décadas, fronteiras e gerações –, continuam presentes e, na atualidade, ganham cada vez mais corpo, diante dessa urgente necessidade de escolarização de um grande contingente de brasileiros, inclusive de parte da classe dominante chamada, equivocadamente, de elite (só se for do atraso). Mas pode-se supor, pela sua vida e sua obra, que tudo isso para Freire era insignificante frente a seu radical e permanente compromisso com os explorados e oprimidos do mundo, onde e quando estivessem.

Este texto foi publicado no jornal  Pensar a Educação em Pauta e no Facebook.

REFERÊNCIA:
OLIVEIRA, Eugênio Magno Martins de. Fernando Birri e Paulo Freire: educação e cinema em diálogo como práticas da liberdade / Eugênio Magno Martins de Oliveira. Tese de doutorado. Belo Horizonte: Faculdade de Educação – FaE / UFMG, 2017.

Imagem de destaque: XXI Fórum de Estudos sobre Paulo Freire UCS-Sinpro Caxias do Sul – 2019. Disponível em: <https://www.sinprocaxias.com.br/noticias/sinpro/sinprocaxias-apoia-xxi-forum-de-estudos-sobre-paulo-freire-na-ucs.html>. Acesso em: 21.09.2019. 

sábado, 28 de abril de 2018

50 ANOS DA PEDAGOGIA DO OPRIMIDO



II Congresso Internacional Paulo Freire: o legado global




Tem início hoje, dia 28 de abril de 2018, a partir das 13:00 horas, com credenciamento dos participantes, o II Congresso Internacional Paulo Freire: o legado global. O evento acontece de hoje, sábado (28.04.2018) a terça-feira, 1º de maio no Centro de Atividades Acadêmicas I (CAD 1), da Universidade Federal de Minas Gerais.
O Congresso é promovido pela Faculdade de Educação (FaE) da UFMG e conta com um comitê internacional, do qual figuram importantes nomes da educação mundial. Esta segunda edição do Congresso, em Belo Horizonte está sob a responsabilidade do professor da FaE, Júlio Emílio Diniz-Pereira.
Segundo o professor Júlio Emílio, "O I Congresso Internacional Paulo Freire: O Legado Global (International Conference Paulo Freire: The Global Legacy) foi realizado em Kirikiriroa (ou Hamilton, nome dado pelos colonizadores europeus), na Nova Zelândia, em 2012. E a intenção de realização deste II Congresso Internacional Paulo Freire: O Legado Global (2nd International Conference Paulo Freire: The Global Legacy) é dar continuidade a essa brilhante iniciativa das/dos colegas neozelandesas/es para que o evento volte a ser realizado nos próximos anos e em diferentes partes do mundo".
A conferência de abertura Paulo Freire: um outro paradigma para o pensamento pedagógico, será proferida por Miguel González Arroyo, professor emérito da UFMG.
Este é um evento de abrangência mundial sobre o Patrono da Educação Brasileira, Paulo Freire, sua obra e o legado que ela deixou para o mundo e dentre os seus objetivos destacam-se:
- Propiciar a apresentação e a discussão de trabalhos acadêmicos que analisem a obra de Paulo Freire ou que usem conceitos freireanos como principal referencial de análise de pesquisas empíricas e/ou de ensaios teóricos;
- Oportunizar a apresentação e a discussão de relatos de experiências baseadas, inspiradas e/ou influenciadas pelo pensamento freireano;
- Fomentar trocas de experiências entre educadoras/es críticas/os de todo o mundo, buscando alternativas progressistas para problemas das práticas pedagógicas.
O II Congresso Internacional Paulo Freire: o legado global conta com uma vasta programação: apresentações artísticas, Teatro, Cinema, Feira de economia solidária, Diálogos, Oficinas e Mini-cursos, Rodas de Conversa e Mesas Redondas com vários temas. Inclusive, em uma dessas mesas redondas, mais especificamente na mesa coordenada pela professora Débora Miranda, cujo tema é "Percursos investigativos na pesquisa em educação", este blogueiro estará participando com o trabalho Narrativa de percurso de um doutorando: da ideia inicial à defesa da tese – Eugênio Magno Martins de Oliveira (Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil).
No encerramento do Congresso haverá o lançamento do  documentário de média-metragem Ocupa FaE e a conferência de encerramento à cargo da professora titular da UFMG, Nilma Lino Lopes que tem como título Por uma pedagogia da indignação e da resistência.
Para acessar a programa completa clique aqui.

sábado, 10 de setembro de 2016

POLÍTICA E EDUCAÇÃO


Sobre a política: o que pode, afinal, a educação?

Marcus Aurélio Taborda de Oliveira
Professor da Faculdade de Educação (FaE/UFMG)

Apesar de propostas horrendas e claramente retrógradas, como a tal Escola sem Partido que, afinal, queiramos ou não, representa o pensamento de parte da população brasileira, as iniciativas de intervenção do governo golpista são avassaladoras. Seja quando tenta afetar a discussão da Base Nacional Comum Curricular ou interferir “via decreto” na constituição da Comissão Nacional da Verdade, o que se observa é uma sanha autoritária que não se esconde por detrás de nenhuma aura tecnocrática. É pura e simplesmente, intervencionismo! Isso faz pensar que, mais do que as “reformas” econômicas que afetarão a vida da grande maioria da população brasileira, inclusive a parte ensandecida da classe média – sim, porque o 1% mais rico dessa população venceu o jogo! – o atual governo espera afetar, via tacape e golpes legislativos, também os corações e as mentes dos brasileiros. Se assistimos nas últimas décadas alguns avanços – tímidos – em relação ao descalabro que é a desigualdade brasileira, em todas as suas formas, os atuais mandatários não deixam dúvidas que apostam nas trevas, na dissimulação, na disseminação da dúvida e do erro para atingir os seus objetivos. Trata-se de uma guerra sutil contra todas as formas de esclarecimento em nome do obscurantismo que só favorece a poucos.
Para continuar lendo o artigo do professor Marcus Taborda para o boletim Pensar a Educação, clique aqui.