terça-feira, 15 de setembro de 2015

NOTÍVAGO


Apatia de uma noite de outono


Eugênio Magno 


Depois da falta de sono, veio a vontade de não dormir e vaguear pelas ruas desoladas. A lua se escondia atrás da névoa. O vento que às vezes soprava e o chão úmido (coberto pelas folhagens) faziam-me um convite a penetrar os labirintos daquela noite, mista de horripilante e sedutora. As tortuosas ruelas, o chão, o céu e toda aquela arquitetura barroca faziam coro me convidando a integrar tal atmosfera.
Agasalhado e frio, deixei de ser espectador para protagonizar o nada, a apatia da noite de outono.
- Onde estavam os fantasmas e todos aqueles personagens das lendas, do folclore e da ficção?
Já não haviam mais dráculas, mulas-sem-cabeça, sacís, lobisomens ou mulheres-de-sete-metro. Apenas o ronco coletivo, o sono e o sonho... enquanto eu, buscava incessantemente uma cena digna daquela noite sombria.
Ao avistar a silhueta de duas pessoas cheguei a pensar em visão fantasmagórica, até me certificar que se tratava de uma senhora e um jovem. Resolví segui-los à distância e... quem sabe vivenciar um acontecimento inesperado!? Os dois andavam em atitude suspeita e pareciam fugir ou esconder algo que eu não conseguia identificar.
Num dado momento eles pararam, olharam para trás e viraram uma esquina. Certa hora cheguei a pensar que os havia perdido de vista. Depois os ví em frente ao casarão dos Freire.
Pensei: o que estariam fazendo em um casarão abandonado?
A medida que me aproximava ouví grunhidos, pancadas fortes e risadas. Passei a ter a nítida impressão de que estava completando o quebra-cabeças.
Quis surpreendê-los, então.
Ao entrar no casarão, na enorme sala iluminada à luz de velas, encontrei os dois, debruçados sobre a mesa. Perguntei o que estava havendo, e o jovem me respondeu:
- Somos apenas dois diabéticos, querendo comer nossa rapadura, sossegados.
A senhora completou:
- Acabamos de quebrá-la. Aceita!?

(Do livro IN GÊ NU(A) IDA DE - Versos e prosa, 2005)

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