domingo, 20 de setembro de 2015

SOCIEDADE DE MASSAS OU SOCIEDADE DOS ABASTADOS


Presidente do Ipea diz que 
Brasil está em uma encruzilhada histórica

Desde o início de 2015, o professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) Jessé Souza é o responsável pelo comando do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Subordinado ao Ministérios dos Assuntos Estratégicos, o instituto teve participação essencial nos últimos anos para entender a ascenção dos milhões de brasileiros ao mercado de consumo.
Em vista do novo cenário econômico, político e social brasileiro, Souza aponta que o país corre o risco de perder as conquistas sociais dos últimos anos e vê a realidade de 2015 muito parecida com a do pré-golpe em 1964. “Antes do golpe o país tinha que escolher dois caminhos: se ele seria uma sociedade de massas mais inclusiva, ou uma sociedade pra 20% - e a escolha feita com o golpe foi a escolha por essa minoria. A sociedade deve perceber o que ela tem a perder e o preço que isso envolve”, explicou.
Jessé participou na última quarta-feira (16) de uma palestra na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) na qual criticou a linha de pensamento de nomes da sociologia brasileira como Gilberto Freyre, Sergio Buarque de Holanda e Fernando Henrique Cardoso.
“A concepção dominante do Brasil moderno é pobre, superficial e conservadora. Isso começa com uma releitura de Sergio Buarque do mito nacional de Gilbeto Freyre, isso é extremamente problemático porque vem do fato de pensar que o Brasil vem de Portugal. Hoje, essas obras servem a um liberalismo extremamente mesquinho que virou prática institucional e nos torna inferiores, por definição, aos europeus, já que o brasileiro passou a se ver como 'emoção' e não 'razão'”, criticou Souza que lançará o livro “A tolice da inteligência brasileira”, que visa analisar esses pensadores.
Nessa entrevista ao Brasil de Fato, Jessé critica a corrente que acredita que há uma nova classe média no Brasil. Para ele, os milhões que ascenderam à classe c devem ser considerados uma “classe trabalhadora precarizada”. “Ela ascende ao mercado competitivo de trabalho, mas sob condições precárias. De classe média ela não tem nada”, disse.
Confira a entrevista na íntegra:
 Brasil de Fato - No último período houve a discussão sobre a distinção teórica entre nova classe trabalhadora e a nova classe média. O que as difere?
Jessé Souza - Isso não é só uma questão de terminologia, mas tem a ver com a narrativa de um processo e é extremamente importante porque implica a construção de um horizonte e a percepção do seu lugar na sociedade. Essa foi a transformação mais importante do Brasil nos últimos 50 anos e teve muito a ver com os programas sociais dos governos petistas e políticas como o aumento do salário mínimo, o Bolsa Família o crédito mais fácil e uma série de outras. O que houve efetivamente e o que nós vemos na nossa pesquisa foi uma ascenção do que poderíamos chamar de subproletariado, e que nós chamamos provocativamente de ralé.
Essa classe ascendente não pode ser considerada classe média, porque a classe média é uma classe de privilégios desde o nascimento, porque ela “compra” o tempo livre dos filhos para o estudo e os habilita para que eles possam acumular um capital cultural extremamente sofisticado, sejam nas áreas técnicas como economia, direito e engenharia; como também nas literárias como o jornalismo e a publicidade. Todas as funções importantes do mercado exigem conhecimento, tanto quanto exigem dinheiro, só o capital econômico não movimenta nada, tem que ter o conhecimento nisso tudo. 
Por conta disso essa nova classe é muito mais uma classe trabalhadora precarizada, que ascende ao mercado competitivo de trabalho, mas sob condições precárias. De classe média ela não tem nada.
Como é a inserção dessa classe trabalhadora nas organizações de classes tradicionais? Ela se vê dentro dessas delas?
Tendo a achar que não, mas no Brasil a gente estuda muito pouco e quer apontar tudo no achismo, ou então a partir de dados quantitativos como renda e que no fundo não explica coisa nenhuma. Já estamos preparando uma pesquisa onde isso vai aparecer, mas o que a gente pôde ver com relação a essa questão é que essa classe não tem essa filiação das organizações da classe trabalhadora tradicional. Tem muito mais relação com a igreja e com a internet, nas cidades maiores, do que com as organizações tradicionais.
Você critica o discurso da corrupção como o principal mal do país. O que de mais profundo o país precisa debater? A quem serve esse discurso demonizador?
O que precisa ser posto como claro desde o começo é que a transparência dos negócios públicos é uma virtude republicana fundamental e é extremamente importante que haja a investigação sobre isso. Dito isso, a gente tem que ver a que a corrupção é muitas vezes usada como manipulação política de forma seletiva e quase sempre transforma interesses extremamente privados em aparentemente públicos. A corrupção se presta a isso porque ela dá e implica uma possibilidade de angariar apoio contra algo que é visto como um bem comum e que interessa a todos. Todos tem interesse no controle do estado. Mas o tema da corrupção é extremamente mal posto. No fundo isso tem uma ideologia liberal que vê tudo o que acontece no mercado como virtude e o que acontece no estado como corrupção e ineficiência. Isso também tem a ver com com a luta entre as classes e como ela é sempre inviabilizada, tem existir uma semântica onde ela se expressa de um modo distorcido. Tanto no Brasil como em vários países isso adquire a forma de demonização do estado e a divinização do mercado. Por que isso acontece? Porque para as classes populares que não só não compreendem os mecanismos de mercado, como também não tem força pra se opor a eles, o estado é o única entidade com força suficiente pra eventualmente se contrapor a esses mecanismos, enfraquecer o estado é enfraquecer o único meio de proteção das classes populares. Pra 70% da população brasileira o estado é a única ajuda, essa luta de classes é mantida e é feita sobre essa forma, ou seja, esse linguajar da corrupção simplifica toda a complexa situação da política e da economia da sociedade em um vetor só e usa esse discurso manipulando as suas próprias vítimas.
Hoje, nós vemos inúmeros valores burgueses como a meritocracia tomando conta do setor mais pobre da sociedade. Como fazer esse embate de ideias?
O Brasil hoje está em uma encruzilhada histórica extremamente importante, assim como ele esteve em 1964. Antes do golpe o país tinha que escolher dois caminhos: se ele seria uma sociedade de massas mais inclusiva, ou uma sociedade pra 20% e a escolha feita com o golpe foi a escolha por essa minoria. A sociedade deve perceber o que ela tem a perder e o preço que isso envolve. Os governos petistas conseguiram de algum modo estimular uma ascenção social histórica no Brasil coisa que não havia acontecido antes, obviamente teve um contexto favorável a isso, mas essas condições já haviam acontecido e nada foi feito porque não havia vontade política. A nossa encruzilhada histórica é: ou a gente volta pra uma sociedade de 20%, e o risco disso acontecer existe, ou aprofunda essa inclusão. Falta uma narrativa pra isso que mostre que esses avanços são graduais e gerar uma maior conscientização disso. Eu acho que ainda espaço há pra que se crie essa alternativa, há uma luta ainda em aberto e que não está decidida e há modos de produção de uma narrativa que ofereça novas alternativas de convencimento.
(Fonte: Site Brasil de Fato)

terça-feira, 15 de setembro de 2015

NOTÍVAGO


Apatia de uma noite de outono


Eugênio Magno 


Depois da falta de sono, veio a vontade de não dormir e vaguear pelas ruas desoladas. A lua se escondia atrás da névoa. O vento que às vezes soprava e o chão úmido (coberto pelas folhagens) faziam-me um convite a penetrar os labirintos daquela noite, mista de horripilante e sedutora. As tortuosas ruelas, o chão, o céu e toda aquela arquitetura barroca faziam coro me convidando a integrar tal atmosfera.
Agasalhado e frio, deixei de ser espectador para protagonizar o nada, a apatia da noite de outono.
- Onde estavam os fantasmas e todos aqueles personagens das lendas, do folclore e da ficção?
Já não haviam mais dráculas, mulas-sem-cabeça, sacís, lobisomens ou mulheres-de-sete-metro. Apenas o ronco coletivo, o sono e o sonho... enquanto eu, buscava incessantemente uma cena digna daquela noite sombria.
Ao avistar a silhueta de duas pessoas cheguei a pensar em visão fantasmagórica, até me certificar que se tratava de uma senhora e um jovem. Resolví segui-los à distância e... quem sabe vivenciar um acontecimento inesperado!? Os dois andavam em atitude suspeita e pareciam fugir ou esconder algo que eu não conseguia identificar.
Num dado momento eles pararam, olharam para trás e viraram uma esquina. Certa hora cheguei a pensar que os havia perdido de vista. Depois os ví em frente ao casarão dos Freire.
Pensei: o que estariam fazendo em um casarão abandonado?
A medida que me aproximava ouví grunhidos, pancadas fortes e risadas. Passei a ter a nítida impressão de que estava completando o quebra-cabeças.
Quis surpreendê-los, então.
Ao entrar no casarão, na enorme sala iluminada à luz de velas, encontrei os dois, debruçados sobre a mesa. Perguntei o que estava havendo, e o jovem me respondeu:
- Somos apenas dois diabéticos, querendo comer nossa rapadura, sossegados.
A senhora completou:
- Acabamos de quebrá-la. Aceita!?

(Do livro IN GÊ NU(A) IDA DE - Versos e prosa, 2005)

sábado, 12 de setembro de 2015

POVOS INDÍGENAS QUEREM JUSTIÇA E PAZ


Assassinato de Simeão Kaiowá: punição já!

"Os piquizeiros e as cagaitas ostentam suas lindas flores, forrando o chão, a aridez foi um pouco amenizada neste planalto central, com mais de cem dias sem chuva. Estamos em véspera da Assembléia Geral do Cimi, que após 43 anos de presença solidária junto aos povos indígenas, continua sendo alvo ira dos inimigos dos povos indígenas e todo os que lutam por justiça e paz, principalmente no campo. Renovamos o compromisso com a causa desses povos, da vida e do meio ambiente", escreve Egon Heck, do secretariado nacional do Conselho Indigenista Missionário - CIMI, ao enviar o artigo que foi publicado no site do IHU. Para ler o texto, clique aqui.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

NÃO HÁ MAL QUE NÃO TENHA CURA


Uma frente urgente contra a crise




Tarso Genro

Dezenas de iniciativas políticas “por fora” das instâncias partidárias formais, mas com participação de quadros políticos sem partido e de quase todos os partidos de esquerda - registrados ou não na Justiça Eleitoral - tem promovido Fóruns de debates político-programáticos, fórum de instâncias horizontais sobre a  economia do país, seminários de avaliação da conjuntura, bem como debates na academia, insatisfeitos, de um lado, com os rumos econômicos e políticos do Governo Dilma e, de outro,  com a incapacidade dos partidos, no Parlamento, formarem uma base política articulada para resistir ao golpismo “paraguaio” , que quer esvaziar de legitimidade o mandato da Presidenta.  Promover uma mudança nos rumos do “ajuste”, de molde a não permitir que, novamente, os “de baixo” paguem a crise e não permitir que a agenda do Governo seja capturada, integralmente, pela agenda da oposição, tem sido uma constante nestes diálogos extrapartidários.
Sem desdenhar da importância, inclusive estratégica, de todos os demais palcos de debate, ressalto, aqui, a iniciativa de diálogo sobre uma nova Frente política de esquerda, que se faz no Rio de Janeiro, inspirada nos movimentos começados pelo ex-Presidente do PSB, Roberto Amaral; o Fórum Brasil 21, promovido pela Carta Maior, que se dissemina no país; e, especialmente, a organização dos movimentos sociais, em torno do projeto da Frente Brasil Popular, como frente de luta dos movimentos sociais e movimentos sindicais do campo e da cidade, com apoio, também, de dirigentes políticos das mais diversas extrações partidárias e ideológicas.
Recentemente, por iniciativa de parlamentares do PSB, PT, PC do B, Psol, PDT e quadros parlamentares de vários partidos construiu-se, também no Congresso, uma Agenda alternativa à chamada “agenda Levy”, que é, na verdade,  a agenda do Governo Federal. A proposta foi elaborada  com o propósito de buscar uma saída para a crise ”por fora” das medidas ortodoxas, que só tem reflexos orçamentários imediatos, mas não removem os fundamentos da crise. Esta se origina, principalmente, do estrangulamento do mercado interno paralisado pelas profundas desigualdades sociais do país e se completa na política monetária, que alimenta  os custos da intermediação financeira, não somente através das taxas de juros exorbitantes, mas também a partir do hiper-rendimento oferecido aos serviços de intermediação do dinheiro,  em cadeia, como mostrou em trabalho brilhante, recentemente, o economista Ladislau Dowbor. (“O pão nosso de cada dia”, Fundação Perseu Abramo, 2015, 138 pgs.)
A ideia da Frente Brasil Popular tem uma importância especial, neste quadro, pois congrega vários movimentos de base na sociedade, que passam a mover-se em cima de uma agenda de mudanças de fundo, mas imediatas,  e não de apoio “automático” ao governo. E também se organiza em torno da defesa da legitimidade do mandado da Presidenta, contra o golpismo e pela soberania nacional. Esta Frente não coloca, na sua agenda, a questão eleitoral imediata, ou seja, vem “de baixo” para cima, sem pretensões de governo e acumula forças para incidir, no futuro, na composição de uma Frente orgânica - com base popular organizada e  independente -  que refletirá necessariamente no comportamento eleitoral dos partidos políticos democráticos e progressistas, sejam eles socialistas ou não. 
A Frente Brasil Popular é a primeira reação política de massas à imposição dos programas de “austeridade” que o Governo Federal adotou, quando este se rendeu à agenda centro-direitista do grupo FHC-Instituto Millenium-Aécio, que tem ramificações em todos os partidos políticos, inclusive no próprio Partido dos Trabalhadores.
Não de trata de atribuir a  este conglomerado liberal a vocação de que eles pretendem o "mal” do Brasil e querem expandir a fome e a miséria, porque desdenham das necessidades dos pobres. Estas avaliações subjetivistas só servem para tornar mais impreciso o centro da disputa, que é, em termo bem concretos,  o seguinte: dentro do sistema capitalista reinante nos países endividados, como se sai de mais uma crise de acumulação do “rentismo”? Com maior concentração de renda e poder, nas mãos do capital financeiro e das classes e frações de classes, associadas ao “rentismo” e ao alto consumismo? Ou se sai da crise, no mínimo, “socializando” as perdas com os setores mais privilegiados do capitalismo, forjados no modelo de endividamento até agora reinante?
A publicação, no dia 27 de agosto de 2015, no jornal “Valor”, de um estudo sobre a evolução patrimonial dos que estão fora da economia real, mostrou que as fortunas financeiras -no primeiro semestre deste ano-  cresceram 7.7%. Neste mesmo período, o poder aquisitivo dos trabalhadores reduziu, aumentou o desemprego, a indústria estagnou ou decaiu e o Estado viu crescer a dívida pública. As consequências deste processo, na disputa política e na reorganização conservadora do projeto democrático da Constituição de 88, são extremamente graves. De uma parte, faz as classes populares perderem a “fé” na democracia, para defender os seus direitos históricos e, de outra parte, gera um consórcio político conservador para sustentar as medidas “duras” de ajuste, contra os mais pobres, que só são sustentáveis com autoritarismo e repressão.
Quaisquer medidas de “ajuste”, quaisquer que sejam as suas causas, seja num regime capitalista, seja numa economia planejada de caráter “socialista” ou “social-democrata”, instituem uma repartição de perdas e de ganhos, para economia voltar a funcionar, segundo a previsão dos estrategistas econômicos do poder. Assim foi quando na URSS o Estado se preparou para enfrentar a Segunda Guerra, quando Roosevelt combateu a crise de 29, quando as sociais-democracias europeias se reorganizaram na devastação do pós-guerra, quando a China reestruturou a economia depois das destruições nada criativas da Revolução Cultural. Atualmente, estamos no longo curso da roubalheira legalizada do “sub-prime”, cujas perdas do capital financeiro estão sendo transferidas para as contas dos países endividados, através da extorsão dos juros manipulados, cujos níveis inclusive somos impedidos de sequer avaliar, pois isso é tarefa da tecnocracia do Banco Central.
Penso que estes amplos movimentos de discussão programática e de avaliação da crise, que hoje estão sendo organizados no país, deveriam se unir para, numa ampla mesa política,  concertar e oferecer aos partidos do campo democrático uma agenda mínima, para tirar  o país da ameaça recessiva e do desemprego. A recessão e o desemprego, mais do que corroer a estabilidade do Governo Dilma, que já está comprometida, pode promover a omissão destes setores populares na luta pela preservação dos valores da democracia política, já abalados pela campanha de intolerância e sectarismo, promovida pela pela grande mídia, que já estimula  minorias fascistas a desafiarem os direitos democráticos do povo, duramente conquistados nos últimos vinte anos. 
O duplo movimento, de criminalização da política e de politização da criminalidade - onde marginalidade e fascismo realizam articulações de  aproximação e repulsa - pode comprometer, não só a construção de uma ética republicana, mas também a manutenção dos valores necessários ao convívio entre os diversos. Quando as decisões políticas de Estado começarem a passar, predominantemente, pelas expectativas em torno das ações do Ministério Público e  do Poder Judiciário, o poder político se realizará não pelas mãos de um  Juiz bem intencionado (ou mal intencionado), mas por eleitos da direita midiática, que serão apresentados como salvadores da pátria. Assim foi com Berlusconi.
O ataque direto aos custos da intermediação financeira que retiram de circulação dezenas de bilhões de reais em cada ano fiscal, um imposto ou contribuição de transição tirado dos lucros financeiros para dar sustentação ao próximo Orçamento, um CPMF datado pelo menos para o próximo OGU, a redução das alíquotas do Imposto de Renda das camadas médias e dos assalariados em geral para aumentar imediatamente o seu nível de consumo e, no plano político, um acordo para aprovar, na Câmara, o projeto do Senado que proibiu o financiamento empresarial das campanhas, são algumas das medidas que podem servir de referência para colocar a esquerda plural no centro de uma saída  emergencial para a crise. Já que o Governo parece estar amarrado num acordo de governabilidade, que é extremamente precário, e não pretende se mover  fora da chamada agenda Levy, que as propostas venham de fora, em defesa - pelos menos - se não forem aplicadas agora, de uma  agenda futura, de unidade mínima de quem não se conforma que o caminho é único.
O conjunto de iniciativas no campo da esquerda e dos setores progressistas da sociedade, em busca de saídas para a crise, pode gerar um amplo movimento frentista para reestruturar o conceito de “coalizão”, até agora reinante. Neste modelo, os Governos formam sua base de governabilidade no Parlamento, adaptando o seu programa aos níveis de cooptação possíveis para formar maiorias. É um vício do sistema político atual, que tende a desmoralizar a República. Num novo modelo - para o país avançar distribuindo renda e com mais  democracia e soberania - o Programa deve compor a governabilidade de forma antecipada, comprometendo uma maioria parlamentar e social com um determinado conteúdo e não com uma “forma” fragmentária  de repartição do poder para organizar o Governo. 
(Fonte: Site Carta Maior)

sábado, 5 de setembro de 2015

INDEPENDÊNCIA OU MORTE!


A UFMG e o 7 de setembro das universidades brasileiras!

 

Na próxima segunda feira, dia 7 de setembro, a UFMG completa 88 anos. Resultado do investimento e da mobilização de professores, intelectuais, políticos e jovens estudantes mineiros que reuniram numa mesma instituição a Escola de Engenharia e as Faculdades de Farmácia e Odontologia, de Direito e de Medicina então existentes na capital. A criação da UFMG foi parte das discussões e  de projetos políticos, culturais e econômicos para Minas Gerais e para o Brasil naqueles densos e tensos anos  de 1920 e 1930.
Ao se aproximar de suas nove décadas de existência, a UFMG se afirma como uma das mais importantes universidades do país, estando na fronteira da produção científica mundial em várias áreas do conhecimento. Paradoxalmente, a Universidade vive, também, uma grave crise financeira que, somada à greve dos funcionários técnico-administrativos em educação que se arrasta por três meses, torna impossível o seu funcionamento normal por ocasião de seu aniversário. Para continuar lendo o artigo, clique aqui.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

O BOM SENSO AINDA PREVALECE EM UMA MINORIA ESCLARECIDA


"Pela primeira vez no Brasil, temos gente rica assustada"



Sócio majoritário do conglomerado Semco Partners e ex-professor de Harvard e do Massachusetts Institute of Technology (MIT), Ricardo Semler tornou-se um dos empresários brasileiros mais conhecidos no exterior nos anos 90 por aplicar em sua empresa princípios gerenciais que ficaram conhecidos como 'democracia corporativa'.
Na Semco, os trabalhadores escolhem seus salários, horário e local de trabalho, além dos seus gerentes. A hierarquia rígida foi substituída por um regime em que todos podem opinar no planejamento da empresa.
Recentemente, Semler voltou a ganhar notoriedade no Brasil e no exterior por dois motivos. Primeiro, porque o desempenho extraordinário de algumas empresas criadas por jovens empreendedores (como Facebook e Google) aumentou o interesse por práticas gerenciais inovadoras.
Segundo, em função de um artigo polêmico publicado pelo jornal Folha de S. Paulo, em que, ao comentar o caso de corrupção na Petrobras, Semler defendeu que "nunca se roubou tão pouco" no Brasil.
"Nossa empresa deixou de vender equipamentos para a Petrobras nos anos 70. Era impossível vender diretamente sem propina. Tentamos de novo nos anos 80 e 90, até recentemente", escreveu ele.
Semler é filiado ao PSDB, mas o artigo acabou sendo usado por quem defende o ponto de vista do governo e do PT no escândalo.
Ao comentar o episódio em entrevista à BBC Brasil, o empresário defendeu que a politização do debate sobre corrupção é contraproducente e que o escândalo da Petrobras e as repercussões do caso envolvendo a divulgação dos nomes de brasileiros com conta no HSBC da Suíça são sinais de que o país está mudando. "Pela primeira vez no Brasil temos gente rica assustada", afirmou.
O empresário também defendeu um aumento do imposto sobre transmissão (herança) para os donos de grandes fortunas e disse que aceitaria pagar até 50%. "Isso não afetaria em nada a disposição do empresário em investir", opinou. Confira abaixo a entrevista clicando aqui.


INFORMAÇÃO DE QUALIDADE PARA FORMAR OPINIÃO


"Boa parte da mídia abdicou 
de fazer jornalismo para fazer oposição política"




Pesquisador há décadas sobre o papel social da mídia, o professor aposentado da Universidade de Brasília Venício Lima é autor de vários livros sobre o assunto e segue refletindo sobre o comportamento dos veículos de comunicação, a necessidade de regulação do setor e o papel da comunicação alternativa e pública.

Brasil de Fato -  Temos visto uma cobertura cada vez mais parecida, especialmente da política, nos veículos da mídia hegemônica. Apesar de pequenas diferenças de linha editorial, parece haver uma homogeneização no tratamento de alguns temas, como na questão da crise e da operação Lava Jato. Como você avalia esse comportamento? 
Venício Lima - Na verdade, não acho que constitui uma novidade. Há muitos anos, em livro que publiquei com o Kucinski [“Diálogos da perplexidade: reflexões críticas sobre a mídia”], comentamos essa questão da posição homogênea da grande mídia. É a ideia de que a grande mídia funciona como se tivesse um supraeditor, como se as principais notícias, a pauta, a narrativa, fossem cotidianamente editados por um super editor, que dá a elas o mesmo enquadramento. Isso é tão verdadeiro que às vezes as mesmas palavras aparecem reiteradamente, para os mesmos assuntos, para a mesma pauta, em diferentes veículos. Isso não é uma novidade, e expressa apenas o fato sabido e conhecido de que os oligopólios privados de mídia no Brasil têm interesses comuns e defendem basicamente as mesmas propostas e são contra as mesmas propostas, projetos e políticas. 
A que você atribui essa recente inflexão em alguns veículos, como a Folha e o Globo, na questão do golpe ou impecheament contra a presidenta?
É uma questão delicada. Os grandes oligopólios no Brasil têm, sobretudo o grupo Globo, historicamente conseguido se adaptar às conjunturas e preservar seu interesse. E, correspondente a isso, o Estado brasileiro também historicamente não tem sido capaz de fazer prevalecer a natureza de serviço público, sobretudo na radiodifusão. Um observador como eu, sem acesso a fontes privilegiadas, sem vínculos com partidos ou nada do tipo, me valho da minha experiência e dos dados públicos. O que se sabe agora é que houve uma reunião do secretário de comunicação da presidência com os controladores do grupo Globo e, por ocasião de uma homenagem à Globo no Senado, uma reunião com executivos do grupo e nove senadores do PT. Depois desses encontros, de fato observa-se uma inflexão na cobertura política e um posicionamento diferente com relação ao impeachment da presidente. O que não se sabe é se houve – e muito provavelmente houve – algum tipo de entendimento, de acordo. Como foi feito no passado, com outros governos, em outras situações. O Estado brasileiro e qualquer grupo que temporariamente controlam sua máquina têm sido incapazes de fazer prevalecer políticas de interesse público e negociam com esses meios, que se tornam cada vez mais poderosos e mais capazes de fazer valer seus interesses. Depois saberemos melhor do que se trata. Vi especulações em relação à atribuição das frequências, utilização do chamado 4G, questões tecnológicas que o Estado tem poder, disputa entre os velhos grupos e operadoras... teremos que ver se se confirma a inflexão e saberemos o que foi negociado. Mas certamente alguma coisa foi negociada.
Na sua avaliação, por que os governos do PT não avançaram na questão da regulação do mercado de comunicação?
Essa pergunta tem que ser feita aos governos do PT. Eu não consigo compreender. Houve momentos em que se acreditava que os governos petistas iam pelo menos propor uma atualização da legislação, a regulação dos artigos que estão na Constituição, que fossem encaminhar projetos ao Congresso. Isso ocorreu em diversos países da América Latina em que projetos democráticos chegaram ao poder, mas nada disso aconteceu no Brasil. Tenho dito que esses governos caíram numa armadilha de acreditar que seria possível que os oligopólios de mídia apoiassem um projeto político, com repercussão na economia, que beneficiasse as classes populares, que promovesse a inclusão. Há informações seguras que durante muito tempo figuras importantes nos governos petistas acreditavam que era possível trazer o apoio desses oligopólios para a execução dessas políticas. Assim, a negociação com eles, as verbas publicitárias, empréstimos etc, deveriam ser a prioridade da política de comunicação do governo. Em detrimento da construção de um sistema público de comunicação, como, aliás, manda a Constituição. Ao cair nessa armadilha, perderam-se as oportunidades históricas de se fazer o que era necessário fazer e que não foi feito.
A partir da pressão da sociedade e também dada a virulência desses meios hegemônicos contra o governo do PT, você acredita que há possibilidade de avanço na regulação neste segundo mandato da Dilma?
De novo, quem tem que responder são os agentes públicos do governo, ou a própria presidente. Posso dar uma reposta de observador que tem décadas que acompanha essas questões. Sou pessimista. Não vejo no momento atual de crise política e de diluição completa da sustentação parlamentar do governo possibilidades de avanço. As condições são adversas para que se implemente algo nessa área. É interessante observar que o discurso de regulação econômica da mídia, que fez parte da campanha eleitoral, que foi vocalizado diversas vezes pelo ministro das comunicações, desapareceu. Não se fala mais nisso. Além disso, até mesmo medidas que poderiam e podem ser tomadas por diferentes setores do governo, que independem de aprovação parlamentar, não têm sido tomadas. Como, por exemplo, a revisão de critérios das verbas oficias de publicidade e a fiscalização de arrendamento de emissoras. Coisas que fazem parte do papel do Ministério das Comunicações, em alguns casos, ou podem ser de decisão política da presidência, medidas que poderiam ser tomadas independentes de aprovação do parlamento, que é sabida e declaradamente de oposição ao governo.
Você escreveu que não temos no país uma "narrativa pública alternativa". Na sua avaliação, como os veículos comunitários, sindicais e populares poderiam avançar para pautar a pluralidade de vozes e visões de mundo? 
Tem uma questão histórica, na mídia alternativa brasileira, incluindo as TVs e rádios comunitárias, a mídia sindical, o sistema público de um modo geral, que é a dificuldade de unificar sua narrativa. Há avanços, mas são ainda muito tímidos em relação ao que seria necessário. Eu considero absolutamente crítica a necessidade de apoio do governo ao sistema público de comunicação. A Empresa Brasil de Comunicação, EBC, tem, a duras penas, tentado produzir uma alternativa de qualidade à mídia comercial. Mas é muito difícil, porque a forma como a EBC está regulamentada depende de recursos não só do governo, mas de contribuição à radiodifusão pública, que inclusive vem sendo questionado na Justiça. É uma situação financeira difícil. E mesmo a empresa conseguindo, em seus diferentes veículos, produzir programas de boa qualidade, é difícil quebrar a inércia da audiência, que há décadas é dominada pela mídia comercial. A mídia pública não consegue ser divulgada fora dela própria e fica reduzida à sua pequena audiência. Acho que esta é das possibilidades que devem ser apoiadas. Inclusive uma coisa que esquecemos é que as pessoas que acreditam na necessidade de uma mídia alternativa à comercial devem apoiar a TV pública assistindo sua televisão e ouvindo suas emissoras de rádio.
Ao mesmo tempo em que assistimos ao fortalecimento da mídia comercial, aumenta o número de demissões e se discute o futuro do jornalismo. O que se desenha para o cenário da comunicação hoje?
Essa não é uma peculiaridade brasileira. É algo que está acontecendo na sociedade contemporânea e decorre de uma transição tecnológica, cujos resultados não sabemos ainda. Há uma nova geração surgindo que não terá os mesmos hábitos de consumo de mídia e isso já está claro, sobretudo no Brasil. E isso tem implicação para modelos de negócio. Mas sou daqueles que não compartilho o entusiasmo, muitas vezes acrítico, com relação ao acesso à informação que as novas tecnologias possibilitam. Os dados que temos no Brasil e no mundo confirmam que, apesar da transição e das mudanças de plataforma tecnológica, os grandes produtores de conteúdo continuam os velhos grupos da mídia tradicional. Pesquisas confirmam e isso é visto junto a segmentos que acessam a internet, blogs e sites: os mais citados são da velha mídia. Esse quadro se repete nas redes sociais, às quais 90% das pessoas que acessam a internet estão vinculadas. Importante destacar que essas redes não são produtoras de conteúdo, elas distribuem conteúdo e facilitam a interação. E o conteúdo distribuído vem em grande medida dessa velha mídia.
Do ponto de vista da força de trabalho, tenho defendido há anos que as novas tecnologias não implicam na desqualificação da mão de obra. Ao contrário, ela tem ter que ser mais qualificada para sobreviver no mercado de distribuição de conteúdo. Essa geração, embora embevecida com as redes, vai precisar de informação de qualidade. Eu não posso ser exemplo, já tenho meus 70 anos, mas sou seletivo no dinheiro que gasto para receber informação. Boa parte da mídia brasileira não me interessa porque abdicou de fazer jornalismo para fazer oposição política. Quero informação para compreender o mundo e me ajudar a tomar posições. Não quero generalizar minha posição, mas me parece que será preciso uma qualificação da força de trabalho para produzir informação de qualidade. Isso já está ficando claro em alguns países do mundo. Mas ninguém tem bola de cristal. Estamos claramente vivendo um momento de transição, que não é só no Brasil.
Como você vê iniciativas como o jornal Brasil de Fato, que chega aos dois anos em Minas Gerais?
Absolutamente fundamentais. Eu como indivíduo estou numa tentativa de lançamento de um jornal popular aqui em Brasília, como forma de furar o bloqueio da mídia comercial. É muito importante não esperar que a grande mídia venha a ser aliada para projetos que beneficiem classes subalternas, nem aqui, nem em lugar nenhum. O Brasil é exceção na América Latina porque não conseguiu ter, nem na mídia impressa, nem eletrônica, uma alternativa à mídia comercial. Outros países têm essa construção, como Argentina, México, Bolívia. Acho fundamental, apoio como posso e cumprimento grupos que conseguem, com todas as dificuldades, produzir de alguma forma uma imprensa alternativa. 


(Fonte: Site Carta Maior)

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

NOTAS DA CNBB SOBRE CORRUPÇÃO E DROGAS


Nota da CNBB a favor do Brasil

Os que querem enriquecer caem em muitas tentações e laços, em desejos insensatos e nocivos, que mergulham as pessoas na ruína e perdição. Na verdade, a raiz de todos os males é o amor ao dinheiro (1Tm 6,9-10).

A população brasileira acompanha, apreensiva, a grave crise que atinge o país, procurando conhecer suas origens, resistir às suas consequências e, sobretudo, vislumbrar as soluções. A realidade é dura e traz de volta situações que, por algum tempo, haviam diminuído significativamente como o desemprego, a inflação e a pobreza.
Pagamos um alto preço pela falta de vontade política de fazer as reformas urgentes e necessárias, capazes de colocar o Brasil na rota do desenvolvimento com justiça social quais sejam as reformas política, tributária, agrária, urbana, previdenciária e do judiciário. O gasto com a dívida pública, o ajuste fiscal e outras medidas para retomada do crescimento colocam a saúde pública na UTI, comprometem a qualidade da educação, inviabilizam a segurança pública e inibem importantes conquistas sociais. 
A corrupção, metástase que atinge de morte não só os poderes constituídos, mas também o mundo
empresarial e o tecido social, desafia a política a seguir o caminho da ética e do bem comum. Combatê-la de forma intransigente supõe assegurar uma justa investigação de todas as denúncias que vêm à tona com a consequente punição de corruptos e corruptores. A corrupção, gerada pela falta de ética e incentivada pela impunidade, não pode ser tolerada.
É urgente resgatar a credibilidade da atividade política em que seja fortalecida a cultura inclusiva e 
democrática, pois um “método que não dá liberdade às pessoas para assumir responsavelmente sua tarefa de construção da sociedade é uma chantagem”, e “nenhum político pode cumprir o seu papel, seu trabalho, se se encontra chantageado por atitudes de corrupção” (Papa Francisco aos representantes da sociedade civil, no Paraguai, 11 de julho de 2015). A chantagem “é sempre corrupção”. Lamentavelmente, o cenário político brasileiro não está isento desta condenável prática.
É inaceitável que os interesses públicos e coletivos se submetam aos interesses individuais, corporativos e partidários. As disputas políticas exacerbadas podem comprometer a ordem democrática e a estabilidade das instituições. Garantir o estado de direito democrático é imperativo ético e político dos brasileiros, mormente dos que não viveram nem testemunharam as arbitrariedades dos tempos de exceção. O bem do Brasil exige uma radical mudança da prática política.
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB, através do Conselho Episcopal Pastoral-Consep, reunido em Brasília, nos dias 25 e 26 de agosto, reafirma o diálogo e a luta contra a corrupção como meios para preservar e promover a democracia. Nesse diálogo, devem tomar parte os poderes constituídos e a sociedade civil organizada. Com o Papa Francisco, lembramos que “o futuro da humanidade não está unicamente nas mãos dos grandes dirigentes, das grandes potências e das elites. Está fundamentalmente nas mãos dos povos; na sua capacidade de se organizarem e também nas suas mãos que regem, com humildade e convicção, este processo de mudança” (Discurso aos participantes do II Encontro Mundial dos Movimentos Populares, Bolívia, 9 de julho de 2015).

O Espírito Santo nos ajude a dar a razão de nossa esperança e nos anime no compromisso de agir juntos pelo bem comum do povo brasileiro.


Nota da CNBB sobre a descriminalização do uso de drogas

Escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e teus descendentes (Dt 30,19).

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, através do Conselho Episcopal de Pastoral, reunido nos dias 25 e 26 de agosto, declara-se contrária à descriminalização do uso de drogas. É importante a sociedade inteirar-se desta temática, pois a dependência química representa um dos grandes problemas de saúde pública e de segurança no Brasil.
O uso indevido de drogas interfere gravemente na estrutura familiar e social. Está entre as causas de 
inúmeras doenças, de invalidez física e mental, de afastamento da vida social. A dependência que atinge, especialmente, os adolescentes e os jovens, é fator gerador da violência social, provoca no usuário alteração de consciência e de comportamento. O consumo e o tráfico de drogas são apontados como causa da maioria dos atentados contra a vida. 
A não punibilidade do porte de drogas, tendo como argumento a preservação da liberdade da pessoa, poderá agravar o problema da dependência química, escravidão que hoje alcança números alarmantes. 
A liberação do consumo de drogas facilitará a circulação dos entorpecentes. Haverá mais produtos à disposição, legalizando uma cadeia de tráfico e de comércio, sem estrutura jurídica para controlá-la. O artigo 28 da Lei 11.343, ao tratar do tema, não prevê reclusão, mas a penalização com adoção de medidas de reinserção social. Constata-se que o encarceramento em massa não tem sido eficaz. É preciso desenvolver a prática da justiça restaurativa. Isso não significa menor rigor para aqueles que lucram com as drogas.
O caminho mais exigente e eficaz, a longo prazo, é a intensificação de campanhas de prevenção e combate ao uso das drogas, acompanhado de políticas públicas nos campos da educação, do emprego, da cultura, do esporte e do lazer para a juventude e a família. O Estado seja mais eficaz nas ações de combate ao tráfico de drogas.
Com a descriminalização das drogas, a crescente demanda de tratamento da parte de incontáveis dependentes aumentaria muito. A Igreja Católica, outras instituições religiosas e particulares, por meio de casas terapêuticas, demonstram o compromisso com a superação da dependência química e recuperação dos vínculos familiares e sociais ao acolher, cuidar e dar oportunidade de vida nova a milhares de adolescentes, jovens e adultos através da espiritualidade, do trabalho e da vida de comunidade. 
Confiantes na graça misericordiosa de Deus e na materna proteção da Virgem de Aparecida,conclamamos o Estado e o povo brasileiro à necessária lucidez no trato deste tema tão grave para a sociedade.

Brasília, 26 de agosto de 2015. 

Dom Sergio da Rocha
Arcebispo de Brasília-DF
Presidente da CNBB

Dom Leonardo Ulrich Steiner
Bispo Auxiliar de Brasília-DF
Secretário - Geral da CNBB

 Dom Murilo S. R. Krieger
Arcebispo de São Salvador da Bahia- BA
Vice-presidente da CNBB

(Documentos da Presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil)

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

A MORTE ESTÁ EM NOSSO PRATO DE COMIDA



Estudos epidemológicos apontam 
relação entre consumo de agrotóxicos e cancer


"Dependendo do tipo de intoxicação que ocorre, o tratamento é apenas sintomático, e dificilmente se reverte uma intoxicação, porque são poucos os agrotóxicos que têm um 'antídoto'. Muitas vezes esses danos podem continuar se manifestando de forma silenciosa até o fim da vida, tendo como resultado, por exemplo, o aparecimento de um câncer", destaca a toxicologista Karen Friedrich, em entrevista para IHU on-line. Para ler a entrevista na íntegra, clique aqui.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

OS HERBICIDAS MENTAIS DE NOSSO TEMPO


Para ler em 2050
Boaventura de Sousa Santos*
Quando um dia se puder caracterizar a época em que vivemos, o espanto maior será que se viveu tudo sem antes nem depois, substituindo a causalidade pela simultaneidade, a história pela notícia, a memória pelo silêncio, o futuro pelo passado, o problema pela solução. Assim, as atrocidades puderam ser atribuídas às vítimas, os agressores foram condecorados pela sua coragem na luta contra as agressões, os ladrões foram juízes, os grandes decisores políticos puderam ter uma qualidade moral minúscula quando comparada com a enormidade das consequências das suas decisões.
Foi uma época de excessos vividos como carências; a velocidade foi sempre menor do que devia ser; a destruição foi sempre justificada pela urgência em construir. O ouro foi o fundamento de tudo, mas estava fundado numa nuvem. Todos foram empreendedores até prova em contrário, mas a prova em contrário foi proibida pelas provas a favor. Houve inadaptados, mas a inadaptação mal se distinguia da adaptação, tantos foram os campos de concentração da heterodoxia dispersos pela cidade, pelos bares, pelas discotecas, pelo facebook. A opinião pública passou a ser igual à privada de quem tinha poder para a publicitar. O insulto tornou-se o meio mais eficaz de um ignorante ser intelectualmente igual a um sábio. Desenvolveu-se o modo de as embalagens inventarem os seus próprios produtos e de não haver produtos para além delas. Por isso, as paisagens converteram-se em pacotes turísticos e as fontes e nascentes tomaram a forma de garrafa. Mudaram os nomes às coisas para as coisas se esquecerem do que eram. Assim, desigualdade passou a chamar-se mérito; miséria, austeridade; hipocrisia, direitos humanos; guerra civil descontrolada, intervenção humanitária; guerra civil mitigada, democracia. A própria guerra passou a chamar-se paz para poder ser infinita. Também a Guernika passou a ser apenas um quadro de Picasso para não estorvar o futuro do eterno presente. Foi uma época que começou com uma catástrofe mas que em breve conseguiu transformar catástrofes em entretenimento. Quando uma catástrofe a sério sobreveio, parecia apenas uma nova série.
Todas as épocas vivem com tensões, mas esta época passou a funcionar em permanente desequilíbrio, quer ao nível colectivo, quer ao nível individual. As virtudes foram cultivadas como vícios e os vícios como virtudes. O enaltecimento das virtudes ou da qualidade moral de alguém deixou de residir em qualquer critério de mérito próprio para passar a ser o simples reflexo do aviltamento, da degradação ou da negação das qualidades ou virtudes de outrem. Acreditava-se que a escuridão iluminava a luz, e não o contrário. Operavam três poderes em simultâneo, nenhum deles democrático: capitalismo, colonialismo e patriarcado; servidos por vários sub-poderes, religiosos, mediáticos, geracionais, étnico-culturais, regionais. Curiosamente, não sendo nenhum democrático, eram o sustentáculo da democracia-realmente-existente. Eram tão fortes que era difícil falar de qualquer deles sem incorrer na ira da censura, na diabolização da heterodoxia, na estigmatização da diferença. O capitalismo, que assentava nas trocas desiguais entre seres humanos supostamente iguais, disfarçava-se tão bem de realidade que o próprio nome caiu em desuso. Os direitos dos trabalhadores eram considerados pouco mais que pretextos para não trabalhar. O colonialismo, que assentava na discriminação contra seres humanos que apenas eram iguais de modo diferente, tinha de ser aceite como algo tão natural como a preferência estética. As supostas vítimas de racismo e de xenofobia eram sempre provocadores antes de serem vítimas. Por sua vez, o patriarcado, que assentava na dominação das mulheres e na estigmatização das orientações não heterossexuais, tinha de ser aceite como algo tão natural como uma preferência moral sufragada por quase todos. Às mulheres, homossexuais e transsexuais, haveria que impor limites se elas e eles não soubessem manter-se nos seus limites. Nunca as leis gerais e universais foram tão impunemente violadas e selectivamente aplicadas, com tanto respeito aparente pela legalidade. O primado do direito vivia em ameno convívio com o primado da ilegalidade. Era normal desconstituir as Constituições em nome delas.
O extremismo mais radical foi o imobilismo e a estagnação. A voracidade das imagens e dos sons criava turbilhões estáticos. Viveram obcecados pelo tempo e pela falta de tempo. Foi uma época que conheceu a esperança mas a certa altura achou-a muito exigente e cansativa. Preferiu, em geral, a resignação. Os inconformados com tal desistência tiveram de emigrar. Foram três os destinos que tomaram: iam para fora, onde a remuneração económica da resignação era melhor e por isso se confundia com a esperança; iam para dentro, onde a esperança vivia nas ruas da indignação ou morria na violência doméstica, na raiva silenciada das casas, das salas de espera das urgências, das prisões, e dos ansiolíticos e anti-depressivos; o terceiro grupo ficava entre dentro e fora, em espera, onde a esperança e a falta dela alternavam como as luzes nos semáforos. Pareceu estar tudo à beira da explosão, mas nunca explodiu porque foi explodindo, e quem sofria com a explosões ou estava morto, ou era pobre, subdesenvolvido, velho, atrasado, ignorante, preguiçoso, inútil, louco — em qualquer caso, descartável. Era a grande maioria, mas uma insidiosa ilusão de óptica tornava-a invisível. Foi tão grande o medo da esperança que a esperança acabou por ter medo de si própria e entregou os seus adeptos à confusão. Com o tempo, o povo transformou-se no maior problema, pelo simples facto de haver gente a mais. A grande questão passou a ser o que fazer de tanta gente que em nada contribuía para o bem estar dos que o mereciam. A racionalidade foi tão levada a sério que se preparou meticulosamente uma solução final para os que menos produziam, ou seja, os velhos. Para não violar os códigos ambientais, sempre que não foi possível eliminá-los, foram biodegradados. O êxito desta solução fez com que depois fosse aplicada a outras populações descartáveis, tais como os imigrantes.
A simultaneidade dos deuses com os humanos foi uma das conquistas mais fáceis da época. Para tal bastou comercializá-los e vendê-los nos três mercados celestiais existentes, o do futuro para além da morte, o da caridade, e o da guerra. Surgiram muitas religiões, cada uma delas parecida com os defeitos atribuídos às religiões rivais, mas todas coincidiam em serem o que mais diziam não ser: mercado de emoções. As religiões eram mercados e os mercados eram religiões.
É estranho que uma época que começou como só tendo futuro (todas as catástrofes e atrocidades anteriores eram a prova da possibilidade de um novo futuro sem catástrofes nem atrocidades) tenha terminado como só tendo passado. Quando começou a ser excessivamente doloroso pensar o futuro, o único tempo disponível era tempo passado. Como nunca nenhum grande acontecimento histórico foi previsto, também esta época terminou de modo que colheu todos de surpresa. Apesar de ser geralmente aceite que o bem comum não podia deixar de assentar no luxuoso bem estar de poucos e no miserável mal-estar das grandes maiorias, havia quem não estivesse de acordo com tal normalidade e se rebelasse. Os inconformados dividiam-se em três estratégias: tentar melhorar o que havia, tentar romper com o que havia, tentar não depender do que havia. Visto hoje, a tanta distância, era óbvio que as três estratégias deviam ser utilizadas articuladamente, ao modo da divisão de tarefas em qualquer trabalho complexo, uma espécie de divisão do trabalho do inconformismo. Mas, na época, tal não foi possível, porque os rebeldes não viam que, sendo produto da sociedade contra a qual lutavam, teriam de começar por se rebelar contra si próprios, transformando-se eles próprios antes de quererem transformar a sociedade. A sua cegueira fazia-os dividir-se a respeito do que os deveria unir e unir-se a respeito do que os devia dividir. Por isso, aconteceu o que aconteceu. O quão terrível foi está bem inscrito no modo como vamos tentando curar as feridas da carne e do espirito ao mesmo tempo que reinventamos uma e outro. Porque teimamos, depois de tudo? Porque estamos a reaprender a alimentar-nos da erva daninha que a época passada mais radicalmente tentou erradicar, recorrendo para isso aos mais potentes e destrutivos herbicidas mentais  a utopia.
* Director do Centro de Estudos Sociais, Laboratório Associado, da Universidade de Coimbra

sábado, 15 de agosto de 2015

RITO DE PASSAGEM


Ficção sertaneja


Eugênio Magno


O sol inda tava era quente quando eu plantei ali de junto do morão da cancela. De vez em quando vinha um ventinho e balançava as fôia do pasto de bengo misturado com colonhão que ficava do outro lado, de frente da estrada.
Eu alembro bem, era num sábado, véspera de domingo; o segundo dia de aragem depois das águas de março. E eu lá, plantado, amuado, qui nem burro brabo quando impaca.
Coitada de Sá Rufina, passô, deu bastarde, e eu lá, igual estaca, nem banei o rabo. Também, o sol já tava bachano e era d’oje qui eu tava alí...
Num há de sê nada, quem espera sempre alcança, e óia qu’eu esperei... viu essa menina! Suóro? Hum... escorria por tudo enquanto era lado.
Daí a pouco, começo a ouvir um trac-a-troac... trac-a-troac... trac-a-troac, de galope compassado vindo do lado da Mutuca. Êta coração que bateu ligeiro! Lá vinha ele, deichano p’a trás a puêra, o bafo da pinga da venda de Sô Candim e os trocado que tinha levado no bolso, no comérço de Dona Calú.
Apeou, tirô o bornal de riba da cela e mandô qu’eu fosse banhá o corpo.
Quando voltei, já sem suadeira, só cum batimento forte no coração, tava lá a danada, toda vincada in riba da mesa.
Fiquei muito besta... viu essa menina; igual jacú do mato quando vê gente. Também, já tava era passando de hora, viu!? Eu tinha somado naquele dia quinze ano e era a primeira calça cumprida (dessas de loja), qui eu ia vistir...

( Do livro IN GÊ NU(A) IDA DE - Versos e prosa, 2005)

INVESTIGAÇÕES NÃO DEVEM ATINGIR E MANCHAR AS INSTITUIÇÕES QUE SÃO ESSENCIAIS PARA O PAÍS


A quem interessa a desmoralização do BNDES?



Em 1996, a Embraer participou de sua primeira grande concorrência internacional.
Tratava-se do fornecimento de 150 aeronaves para as empresas americanas de aviação regional ASA e Comer. A Embraer entrou na concorrência com o seu ERJ-145, um jato regional moderno e eficiente. Era o melhor avião e ainda tinha a grande vantagem de ser o mais barato.
Contudo, a Embraer perdeu. Perdeu para a Bombardier, que oferecia melhores condições de financiamento para os compradores, pois contava com forte apoio governamental para a comercialização de suas exportações.
Pouco tempo depois, a gigante American Airlines lançou concorrência de US$ 1 bilhão para a compra de jatos regionais. Era a grande oportunidade que a Embraer tinha de pagar o custoso desenvolvimento do ERJ-145 e de se lançar no promissor mercado internacional de aviação regional, que crescia exponencialmente.
Mas a Embraer sabia que não tinha a menor condição de ganhar a concorrência, mesmo tendo o melhor avião, se não contasse com condições de financiamento semelhantes às que dispunham as suas concorrentes.
Resolveu, então, bater na porta do BNDES. A Embraer tinha de oferecer um financiamento à American Airlines que contemplasse não apenas taxas de juros baixas e amortização de longo prazo, mas também a garantia da devolução das aeronaves, caso houvesse algum problema com os equipamentos.
Para o BNDES, era uma aposta de risco considerável. A Embraer era novata nesse mercado e, caso ocorresse algum problema com as suas aeronaves, o banco ficaria em maus lençóis. Nenhum banco privado, nacional ou internacional, queria assumir esse risco.
O BNDES, entretanto, resolveu confiar na Embraer e ofereceu o financiamento com todas as garantias exigidas pela American Airlines.
Resultado: a Embraer ganhou a concorrência e, com isso, iniciou uma carreira vitoriosa no mercado internacional de aviação regional e executiva.
Hoje, a Embraer oscila entre a terceira e a quarta maior empresa mundial do setor. Apenas em 2013, entregou 90 aeronaves comerciais e 119 de aviação executiva, obtendo uma receita líquida de R$ 13, 64 bilhões. É, de longe, a empresa brasileira que mais exporta produtos de alto valor agregado, gerando altos rendimentos e empregos muito qualificados no Brasil.
Assim, a Embraer e o Brasil aprenderam a lição. Não se faz exportações volumosas de bens e serviços, no concorridíssimo mercado internacional, sem apoio financeiro governamental e bancos públicos de investimento.
A Embraer da qual tanto nos orgulhamos simplesmente não existiria, caso não tivesse contado com o apoio do BNDES.
(Fonte: Site Carta Maior)

terça-feira, 11 de agosto de 2015

DEMOCRATIZAÇÃO DAS COMUNICAÇÕES


"Governos tiveram pouco ou nenhum êxito 
em democratizar comunicação", 
diz relator da OEA em evento da ONU

Em evento promovido pela ONU, Coletivo Intervozes e IESP/UERJ, o relator especial para a Liberdade de Expressão da OEA, Edson Lanza, ao participar de mesa-redonda no Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro, falou de experiências globais que buscam regular a mídia e, ao mesmo tempo, ampliar a liberdade de expressão. Tomando como exemplo as tentativas recentes de regulação das comunicações na Argentina e no Uruguai, onde vários movimentos sociais se mobilizaram para abordar a questão, o relator apontou a necessidade de a sociedade civil se organizar para impulsionar a democratização das comunicações no continente. Para maiores detalhes sobre essa discussão, clique aqui.

sábado, 8 de agosto de 2015

PENSAR A EDUCAÇÃO, PENSAR O BRASIL


ENEM: os números da Educação 
Foram divulgadas nesta quarta feira, dia 05 de agosto, as notas das escolas cujos alunos participaram da última edição do ENEM. São mais de 15.500 escolas de todo o país. Chamou a atenção, na apresentação dos resultados, a exposição mais detalhada e fundamentada dos dados pelo Ministro da Educação e pelo Presidente do INEP. Ultrapassando a mera apresentação das notas, eles contribuíram para o maior e melhor entendimento do significado dos resultados alcançados pelas escolas.
 
Nas ondas da Educação
O programa Pensar a Educação, Pensar o Brasil está de volta! Começamos o segundo semestre conversando com a historiadora Gabriela Galvão sobre sua dissertação de mestrado "A Ditadura Militar Brasileira e a Telenovela: abordagem política, influências e censura nas obras Irmãos Coragem e Fogo sobre Terra". Segunda também tem Reportagem Especial, Educação em Pauta com o Professor Marcus Taborda, Agenda da Educação e Cinema Falado com o Professor Eugênio Magno, às 21:30 horas, com dica de filmes, música tema de filme e entrevista com uma cine-educadora.

Todas as segundas-feiras, das 20h00 às 22h00, o programa Pensar a Educação Pensar o Brasil vai ao ar pela rádio UFMG Educativa 104,5FM.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

ALERTA AOS CHEFES DE ESTADO PARA CÚPULA DA ONU QUE VAI DISCUTIR MUDANÇAS CLIMÁTICAS


Uma economia de baixo carbono pode promover a justiça social

Seis meses antes da reunião de cúpula sobre mudanças climáticas que a ONU organiza para Paris, deve estar claro para os chefes de estado que a transição para uma economia de baixo carbono pode criar um modelo melhor, mais sustentável e que pode reavivar o crescimento global e desenvolver um futuro mais justo e mais limpo. Esta transição pode, também, evitar os custos associados ao atual modelo baseado em combustíveis fósseis como os da poluição do ar, dos congestionamentos, da degradação de terras agrícolas produtivas e da deterioração da infraestrutura, custos que, no mais das vezes, afetam principalmente os mais pobres. 
Para se inteirar da proposta, clique aqui.