Biden promove um complicado giro na política dos Estados Unidos em relação à América Latina
Blog de Eugênio Magno
Biden promove um complicado giro na política dos Estados Unidos em relação à América Latina
A importância do diálogo fraterno
Eugênio Magno
Fraternidade,
Amor, Paz, Unidade (ainda que na diversidade) são pressupostos básicos do
cristianismo. Num país como o nosso em que, algo em torno de 80% da população
se declara cristã, porque é necessário que as verdadeiras Igrejas Cristãs
tenham que fazer campanha para estimular e promover, justamente a fraternidade?
Queria
poder responder de outra forma, mas, meio a contragosto, digo que é simplesmente
porque não sabemos o que é ser cristão e é fundamental que sejamos lembrados
permanentemente. Existe todo um ensinamento dado pelo próprio Cristo é claro e,
pelos verdadeiros cristãos ao longo da história do cristianismo pelos Evangelhos,
segundo vários apóstolos. Cada um dos batizados que se dizem cristãos, também
já deveriam estar cientes do que é ser cristão. Sendo simplista, diria que ser
cristão é seguir o Cristo, é ter a intenção e o desejo de, ao menos, aprender a
segui-lo. E para segui-lo é fundamental que tenhamos, ainda que somente como
horizonte, o seu principal mandamento: “Amar a Deus sobre todas as coisas e
amar ao próximo como a si mesmo”.
Então
qual é o problema? Porque algumas seitas exploradoras da credulidade popular
faz tanto escarcéu contra a Campanha da Fraternidade de 2021. E, mais grave
ainda, porque setores conservadores da Igreja Católica e de outras Igrejas
pertencentes ao Conselho Nacional das Igrejas Cristãs insistem em dividir ainda
mais o que deveria estar unido e incentivam boicotes e fazem críticas à
campanha?
Na abertura do tempo da Quaresma, do Missal Dominical, tem um texto “O Jejum que salva”, que nos ajuda a argumentar sobre a importância da campanha da fraternidade.
Na quaresma se pede ao fiel que renuncie das refeições importantes do dia em sinal de disponibilidade e solidariedade. Disponibilidade à escuta de Deus, demonstrando dar mais valor à sua palavra que ao bem-estar imediato, sinal de conversão do coração; isto é que significa o jejum dos cristãos, como o do Mestre no início de sua missão. Um jejum mais sensível por todo o tempo da Quaresma, com outras iniciativas pessoais de desapego, renúncia às comodidades e satisfações mesmo legítimas, para maior liberdade interior. Assim o jejum ritual, feito com interioridade e não por mero formalismo, se torna sinal de fé e caminho de salvação para todo o nosso ser. Por outro lado, sofrendo um pouco de privação, saibamos unir-nos de algum modo aos homens para os quais é habitual a privação de alimento, de meios econômicos, de bens culturais e de possibilidades concretas de desenvolvimento: o jejum se torna um gesto simbólico, denúncia profética da injustiça que nasce do egoísmo, solidariedade com os mais pobres. Assim, a preparação para a Páscoa se torna ‘Campanha da Fraternidade’, e a ceia do Senhor um gesto de pobreza, contrição, esperança, anúncio. Quem participa seriamente da paixão do Senhor, ainda hoje viva, nos pobres da terra, sabe que a volta ao pai (tanto a sua como a da comunidade) já começou, e que na mortificação da carne pode florescer o Espírito da ressurreição e da vida. (Missal Cotidiano, Paulus, pág. 140)
Na quarta-feira de cinzas, 17 de
fevereiro, foi lançada a Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2021 com o tema
“Fraternidade e Diálogo: compromisso de amor” e o lema: “Cristo é a nossa paz:
do que era dividido, fez uma unidade”. Neste ano, a campanha é ecumênica e,
portanto organizada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e pelo
Conselho Nacional das Igrejas Cristãs (CONIC).
Para quem não sabe, a Campanha da
Fraternidade acontece no Brasil desde 1964 e, a partir do ano 2000 ela assumiu
o compromisso de ser ecumênica a cada cinco anos.
Os principais objetivos da Igreja
Católica, representada em nosso país pela CNBB, em criar, manter e promover
anualmente as Campanhas da Fraternidade são os seguintes:
Educar para a vida em
fraternidade, com base na justiça e no amor, exigências centrais do Evangelho e Renovar a consciência da responsabilidade de
todos pela ação da Igreja Católica na evangelização e na promoção humana, tendo
em vista uma sociedade justa e solidária.
A campanha deste ano está voltada para a
superação das polarizações e das violências que marcam o mundo atual, em
especial no contexto da política e da pandemia da covid-19. A CNBB chama a
atenção para o fato do vírus que já é letal em si mesmo, ter encontrado aliados
na indiferença, no negacionismo, no obscurantismo e no desprezo pela vida e na
ocasião do lançamento virtual da campanha, conclamou os cristãos a serem
aliados na responsabilidade, na lucidez e na fraternidade. A proposta da CNBB
que encontrou plena ressonância no Conselho Nacional das Igrejas Cristãs foi
dar continuidade à campanha do ano passado, sobre a necessidade do cuidado
mútuo entre as pessoas, independentemente de sua cor, raça, etnia, gênero,
cultura e condição social e econômica. Os organizadores da campanha ressaltam
que essa proposta ecumênica não é de imposição, no sentido de que todos pensem e
ajam da mesma maneira e sim de sensibilização sobre a importância do diálogo,
especialmente frente às diferenças. CNBB e CONIC identificaram nesse tema a
mensagem pela qual o nosso tempo clama. É voz corrente entre os cristãos que,
verdadeiramente, abraçam o Evangelho de Jesus Cristo, saberem-se conscientes de
como é triste ver o que vem acontecendo em nossa sociedade, marcada pela
radicalização, polarizações e desrespeito às pessoas, especialmente as mais
simples e as vulnerabilizadas, sem fazer nada a respeito.
As campanhas da fraternidade são formas
concretas de expressarmos a dimensão social e porque não dizer política da nossa fé. E isso
não tem nada a ver com simpatias ou antipatias partidárias. Muito embora hajam
muitos partidos políticos e partidários de determinados partidos negacionistas que, mais preocupados em
dividir ou se afirmarem, equivocadamente, negam o amor e a fraternidade entre
os humanos.
A proposta aqui é incentivar e apelar às pessoas de bem, independentemente do credo que professem, no sentido de
contribuir como puder para o sucesso da Campanha da Fraternidade Ecumênica de
2021: “Fraternidade e Diálogo: compromisso de amor” – “Cristo é a nossa paz: do
que era dividido, fez uma unidade”.
Número de mortos do COVID-19 no Brasil passa de
um quarto de milhão
Google passa a pagar por notícias na Austrália, em novo round da regulamentação no país, que recebeu apoio da Microsoft
O ócio compulsório
Eugênio
Magno
Não vou fazer nenhum
trocadilho infame com o título do livro O
Ócio Criativo, do especialista em sociologia do trabalho, o italiano
Domenico De Masi. Mas vou falar um pouco sobre o ócio compulsório em que fomos
submetidos. Trata-se de uma constatação do estado das coisas no mundo do
trabalho e os desdobramentos disso em todo o globo e, especialmente, em nosso
país.
Até por volta dos anos 1980 quando
sociólogos, pensadores e futurólogos anunciavam o porvir, nos acenavam para uma
era em que os trabalhos repetitivos e maçantes seriam desempenhados pela
máquina. Líamos e ouvíamos, com entusiasmo, que os trabalhadores teriam mais
tempo para dedicar à família, aos esportes, à arte a um hobby, ao lazer. Enfim
a cultivar o ócio, tão caro aos gregos na antiguidade. Só não profetizaram que
todas essas “bençãos” da era tecnológica, viriam acompanhadas de desemprego e,
consequentemente, falta de dinheiro, renda e de uma diminuição substancial do poder
de compra. Com o aumento das horas ociosas e da oferta de lazer inacessível, o
que era antes chamada classe trabalhadora, são agora os novos pacientes de
psicólogos e psiquiatras e a clientela cativa da indústria farmacêutica.
Vítimas da depressão, da psicose, do pânico, do alcoolismo, da obesidade, do
sedentarismo e de várias compulsões, têm no cloridrato de fluoxetina, no Rivotril,
nos ansiolíticos, em uma gama enorme de tarjas pretas e no álcool (para falar
apenas de algumas das drogas legalizadas), o seu consolo. Isso para os que ainda
dispõem de algum recurso e encontram o apoio da família e a solidariedade dos
amigos. Outros – a grande maioria – têm pior sorte. Entram no crack e no tiner,
quando não se precipitam dos edifícios ou utilizam de outros expedientes
letais, para dar cabo ao pesadelo que veio na garupa dos novos tempos.
O que era trombeteado como futuro se tornou presente
rapidamente e habita entre nós. A máquina do tempo foi turbinada e o
futuro chegou como aquelas visitas que, embora anunciadas, chegam adiantadas. Sem
que haja tempo para reabastecer a despensa, arrumar a casa, encomendar os
quitutes, preparar o quarto de hóspedes... Hóspedes não, porque o
futuro-presente não é turista, é um novo morador. Ele veio para ficar e, por
incrível que pareça é bem vindo. Seus arautos é que nos enganaram com promessas
fakes. Parte da bagagem e da entourage
desse novo morador é que constituem obstáculos e incômodos, são personas non gratas.
Centros do poder político mundial, teleguiados por uma
extrema-direita pouco lustrada, formada por neoliberais, adeptos do rentismo, deram
vazão a uma onda negacionista, autoritária, inflada de ódio, ressentimento e
intolerância desarrazoada, contra a qual temos que bradar e resistir – à força,
se necessário for –, para que o desmanche civilizacional não seja completo.
Muito mais do que triste é revoltante e repugnante testemunhar, ainda que em
combate, a perda de princípios iluministas e de outras tantas e importantes
conquistas científicas, tecnológicas, sociais e de um humanismo ético e
cidadão, ancorado em valores democráticos e republicanos ainda tão tenros e
carentes de aperfeiçoamentos. Nosso presente e o futuro próximo estão muito
comprometidos por essas forças retrógradas que acabaram encontrando eco onde
não se esperava.
As elites atrasadas, apoiadas por uma classe média
ascendente iletrada, mal informada e deformada por uma educação de baixíssima
qualidade e uma licenciosidade artístico-cultural aviltante, resultado de populismos
de todos os matizes, dos excessos identitaristas e dos modismos da hegemonia
digital, impôs uma agenda tresloucada, de ponta-cabeça. Os capitães do mato
contemporâneos são os workaholics que
ocupam todos os turnos de todos os postos de trabalho. Têm ao alcance de suas
mãos, telas e comandos poderozíssimos, mas atuam como robôs. Não possuem nenhum
conhecimento das humanidades, não pensam, foram e são pensados, mentorados por coaches e influencers e, com o mesmo automatismo que acionam botões que movimentam
a máquina contra seus pares, são acionados pelos detentores dos meios de
produção cibernéticos e do capital.
Não nos enganemos, a humanidade está dividida entre
uma faixa mínima (não chega a cinco por cento) da população mundial que
controla a vida e a riqueza no planeta, uns poucos que trabalham muito e ganham
altos salários para fazer a roda girar, um grupo de trabalhadores precarizados
que fazem os serviços subalternos essenciais, uma fração populacional dividida
entre trabalhadores especializados e intelectuais que estão sendo descartados, contraditoriamente,
em razão de suas competências e qualificações e mais outro tanto de invisibilizados
que, apesar de ser maioria, não aparecem mais nem como números, estão sendo
substituídos pelos que estão vendendo até suas horas de sono e não mais se
solidarizam com os seus iguais, pois já perderam até mesmo o amor próprio.
Aqui estamos, diante do futuro, esse
presente que ganhamos desembrulhado, como um contêiner de suprimentos lançado
do alto e que se abriu. Não houve o ritual de entrega: a leitura do cartão, o
desatar dos laços da fita, o desenrolar do embrulho e a cerimoniosa abertura da
caixa. Ele, esse futuro, também não veio com manual de instruções. A
expectativa era muito grande e a surpresa foi além da conta. A entrega foi muito
rápida e maior do que a encomenda.
O que fazer... (?).
Haja criatividade para tanto ócio. Certamente
não vamos sucumbir diante dessa situação-limite. Afinal, podemos e devemos usar
o ócio para aprofundar o conhecimento de nós mesmos – forças e fraquezas –, nos
aprimorarmos. Fazer um diagnóstico preciso do presente e uma análise
conjuntural objetiva da realidade, nos organizar mais e melhor para, dentre
outras ações vitais, recuperar nossas posições usurpadas pela impostura dos que
sempre estiveram ocupados demais para pensar e agir de forma inteligente e
consciente.
Por trás da falta de vacinas, as três leis trágicas da Big Pharma. Não pesquisar doenças de pobres. Patentes, para elitizar os tratamentos. Desencorajar países de produzir remédios e vacinas. Há alternativas — nenhuma sob lógicas capitalistas
A covid expõe o apartheid sanitário global
Biden anuncia retorno dos EUA a acordo global do clima e restrições a petróleo
A Teologia no cotidiano
Eugênio Magno
O saudoso teólogo e padre jesuíta João Batista Libânio, em uma ocasião em uma aula fez a seguinte provocação, invertendo a lógica habitual: “o que a política pode oferecer a um cristão que tem fé?” E com as interações do grupo respondeu que, “a política oferece mediações para o exercício da fé e permite à fé se concretizar materialmente”. Disse ainda que “a política pode ser uma instância que denuncia os aspectos idólatras da fé e da religião em suas práticas não-éticas. Que a política faz uma crítica ideológica da fé”. A proposta aqui é fazer um breve exercício dialético onde a política interroga a fé e a fé interroga a política.
É sabido que exegetas, teólogos e biblistas se dedicam ao estudo bíblico, à pesquisa dos textos sagrados e a história da salvação. Seus estudos trazem reflexões e ensinamentos sobre o Cristo histórico e os costumes da época, entre outras tantas revelações importantes que alicerçam a fé.
Mas o vivente comum tem pressa, quer fazer a teologia do (e no) cotidiano. Quer compreender o que Deus está a dizer. Afinal, são tantos fatos, tantos acontecimentos, tantos “sinais”, ou será que o que vemos não está sendo mostrado por Deus, não são revelações...
Nunca é demais lembrar o que a Bíblia ensina: o cristão é Rei, Sacerdote e Profeta. Daí então, pergunto: onde está esse grande contingente de cristãos, a maior corrente religiosa do mundo, com suas várias denominações, para exercerem com dignidade e altivez seus mandatos, ministérios e a vida cidadã? E aqui não me restrinjo aos religiosos, pertencentes às hierarquias das várias Igrejas e seitas que se autointitulam cristãs. A cada esquina encontramos uma Igreja, com e sem aspas. A todo instante ouvimos alguém pronunciar o nome de Deus: chefes de nações, empresários, trabalhadores, apresentadores de rádio e TV, cantores... E a quantidade de carros com adesivos: “Foi Deus que me deu”, “Mais um presente de Deus”, “Deus é fiel”, "Com Deus tudo é possível", “Dirigido por mim, guiado por Deus” e por aí vai... Mas, a despeito dessas declarações, tome tiranos chefiando nações, empresários exploradores, fake news, desinformação, trânsito caótico e direção criminosa. Será que tudo isso que estamos vivendo no mundo é apenas uma “pegadinha” de mau gosto dos deuses, ou um baile à fantasia, onde os donos da festa são meninos malvados brincando, com máscaras de seus heróis do tipo Hitler, Stalin, Mussolini, Franco e mais um enorme elenco de prestidigitadores e outros bichos e bestas do Apocalipse, ou seriam reencarnações dos algozes de Deus?
Os reis enlouqueceram todos e, como Nero, atearam fogo nas cidades e as coroas destinadas aos rebeldes da hora não são mais de espinhos. São caríssimas ogivas midiáticas de milhões de dólares, jogadas na rede sobre as cabeças de plebeus famintos de inutilidades que pagam com seu tempo e atenção por essas bagatelas manipuladas por mãos e polegares de tecnocratas, desprovidos de qualquer centelha de humanismo? Os verdadeiros reis a exemplo do Cristo Jesus, de Nazaré, não têm trono e seus castelos são feitos de papelão e da sobra – pobre, podre e rota – dos avarentos.
O anúncio da morte de Deus, feito por Nietzsche há dois séculos e, que escandaliza tantos que não compreenderam Nietzsche é infinitas vezes menos grave do que o uso do nome de Deus em vão e o assassinato cotidiano do filho de Deus por aqueles que se dizem seus seguidores. Ainda que não seja maioria, graças a Deus, não se pode ignorar o crescimento espantoso do número de religiosos radicais, que estão de costas para o Cristo dos Evangelhos. São militantes da teologia da prosperidade. Não sabem fazer a multiplicação dos pães, exceto, quando em benefício próprio. Criticam a pajelança e vários outros cultos, enquanto seus fieis, de tanta fidelidade e resignação morrem com a mão estendida, na sarjeta, nos corredores dos hospitais, quando lá chegam, atingidos por balas perdidas e achadas (em inocentes), de inanição, ou dormindo como anjos bêbados, enquanto seus barracos desabam com as águas que caem do céu.
O cristão também deve ser profeta. E profeta é aquele que anuncia e denuncia: na família, nas Igrejas, nos bairros, nas empresas, nos sindicatos, nas escolas, nas ruas, nas ciências, na imprensa, nas artes, na política e na vida cotidiana. Mas os falsos profetas se multiplicaram oferecendo consolações falsas e corrompidas pelo “farisaísmo” e pelos artifícios da retórica e do legalismo de uma justiça injusta que insiste em não tirar a venda dos seus olhos.
Diante da escassez de vocações para profetas, sabedor de que a messe é grande e poucos são os operários e arautos da “boa nova” e menor ainda é a plêiade dos que denunciam, faço aqui uma breve encenação deste papel na tentativa de amplificar a voz dos que não têm voz, mesmo que apenas por uns poucos instantes, neste breve tempo e espaço. Tenho consciência de que é um grito surdo e rouco, mas é legítimo. Vem das ruas, das vilas, das favelas, dos ribeirinhos, dos povos indígenas, dos camponeses, dos quilombolas, dos discriminados. É o grito das crianças famintas e daqueles que um dia construíram o futuro e foram esquecidos no passado com seus cabelos esbranquiçados e o corpo alquebrado pela desesperança. E até mesmo dos antigos abastados, da mesma faixa etária dos miseráveis, que não mais são chamados de velhos ou idosos. Virou moda dizer que estão na “melhor idade”, para alimentar sonhos de vida eterna e na contra partida surrupiarem suas economias...
É isso mesmo que acontece. Até a classe média, da terceira idade que, até pouco tempo atrás era um mercado em plena ascensão, está em queda vertiginosa e, agora, se vendo na bica de um rebaixamento econômico e social, começa a dar sinais de insatisfação e ensaia as primeiras articulações para a luta contra esse curto, mas medonho, tempo de obscurantismo que vem destruindo décadas de avanços civilizatórios.
Antes tarde do que nunca.
Mas se faz necessário indagar: quantas quarentenas... sofrimentos e mortes teremos que viver? Quantas pandemias sobreviver ou padecer? Quanto nos resta aprender...
Entrevista especial com Carlos Affonso de Souza
$$$, Dinheiro, $$$, Dinheiro, $$$
(Revista Capital Econômico)
Os reveillons já não são os mesmos. Para além dos fogos de artifício e da bebedeira de costume, acompanhar o sorteio da Mega da Virada já foi incorporado ao ritual das celebrações das passagens de ano de grande parte do povo brasileiro. As chances são mínimas, mas a expectativa é sempre grande.
O dinheiro e o sucesso ocupam os primeiros lugares entre os maiores desejos da população e as simpatias para alcançar tais bendições são de todos os tipos, das cores da ornamentação dos ambientes festivos e roupas à comida. Não falta mandinga.
Mas a realidade, os fatos, logo se revelam e a vida se apresenta para ser vivida e encarada de frente. Apenas dois ganhadores vão dividir o grande prêmio da Mega-Sena da Virada 2020/2021, concurso nº 2330. Cada um dos vitoriosos terá direito a R$162.625.108,62.
Estas foram as dezenas sorteadas: 17, 20, 22, 35, 41, 42.
A quina vai pagar R$48.978,81 para cada uma das 1384 apostas vencedoras e a quadra que teve 105.342 apostas ganhadoras tem como prêmio R$919,27 para cada acertador.
E, vida que segue...
Os trilhões emitidos pelos bancos centrais na pandemia irrigaram as elites e os cassinos financeiros. Este “resgate” produzirá desigualdade obscena. Há alternativa: como no pós-guerra, criar dinheiro para o Comum e taxar pesadamente as fortunas.
2020 o ano que não acaba em dezembro*
Eugênio Magno
“Nada como um dia após o outro”, reza o dito popular. Nos idos da infância acordava sempre no primeiro dia do ano com a expectativa de que o Ano Novo fosse verdadeiramente novo. De tanto crer e querer, lampejos melodiosos desse desejo bafejavam aquela doce e saudosa inocência com reluzentes novidades.
Os anos foram passando e os vislumbres daquele novo tão brilhante e vivo foram escasseando e as novidades se acomodando na sequencialidade linear do tempo Kronos que, apesar de trivial por ser sequencial avançava, ainda que sem rumo. Mas eis que chegamos em 2020 e em uma manobra rápida passamos a ter um misto de impressões difusas sobre a realidade: o tempo passou a avançar circularmente engolindo sua própria cauda? Caminhamos em slow, estamos no modo stand by, o tempo parou... ou retrocedemos (?). Às vezes a sensação é de que vivemos tudo isso e mais alguma coisa não dita, não explicada e quiçá nem mesmo explicável. Este ano, cujo calendário dá por encerrado em 31 de dezembro, definitivamente, não findará agora. Necessitaremos de outros tantos anos para podermos viver novamente um novo ano.
Não vou recorrer a nenhum expediente complexo nem a textos de outros autores para justificar essa minha tese. Apenas os temas abordados por mim nos artigos que publiquei no jornal Pensar a Educação em Pauta (do Projeto Pensar a Educação, Pensar o Brasil, da Faculdade de Educação, da UFMG) e também neste blog. Apenas esses em que tratei de alguns dos acontecimentos mais impactantes de 2020 serão suficientes; afinal, eles falam por si. No primeiro artigo do ano, “Escassez e má gestão: A água é uma dádiva da natureza ou apenas um $?” (de março), falava sobre falta de saneamento, estupidez na destinação do lixo e do esgoto, descuido com as águas – das chuvas, das nascentes, dos rios – e sobre os prejuízos causados pelas enchentes. Denunciava as empresas que trabalham com recursos hídricos por não disporem de nenhuma tecnologia avançada para coletar melhor e em maior quantidade a água da chuva e chamava a atenção para a inoperância e a falta de investimentos em pesquisa e desenvolvimento tecnológico sustentável do (e no) setor, que continua coletando água do mesmo modo que coletava séculos atrás. Às vésperas das eleições municipais (em novembro), no texto “Vota no João e elege o Tião”, discorria sobre contradições e armadilhas de nosso sistema eleitoral e do pouco entendimento que a população tem da política e dos pleitos.
Mas isso, não obstante a gravidade do que reverbera, ainda é pouco para validar o suposto que defendo no presente artigo. Por isso, sugiro ao leitor que (re)visite as demais reflexões que deixei aqui e também no jornal Pensar a Educação em Pauta – em outros textos –, entre abril e outubro deste ano. Em primeiro lugar, a sequência de três artigos sobre a pandemia da Covid-19: “Oportunistas, apocalípticos e proféticos em tempos de contaminação global” (abril); “O Vírus interroga as instituições” (maio) e “Pandemônio na República Federativa do Brasil” (de junho). Nesses textos busquei realçar o que a pandemia colocou a descoberto, sobre o despreparo de nossas instituições, inclusive algumas que são louváveis em se tratando críticas e diagnósticos, mas pouco afeitas à autocrítica e a prognósticos.
Depois, a fortuna ou a desventura de me saber brasileiro, essa raça alegre e otimista, me fez acreditar que o que estava entre ruim e péssimo não poderia piorar e, com todas as reservas e críticas contundentes ao poder central, escrevi “Democracia fala mais alto e governo baixa a bola” (em julho). Doce ilusão. Foi somente uma mínima desacelerada obscurantista, de poucos dias, por conta de fatos da hora. Em tempos sombrios como esses sonhei também que pudesse haver um acolhimento caloroso para a boa nova anunciada pelo papa Francisco, o Pacto Educativo Global. O texto (de agosto), “Pacto pela Educação no Planeta” e, mais grave, o próprio Pacto proposto pelo papa, obteve pouquíssima repercussão no meio educacional.
Os artigos, “A impostura do digital” (setembro), “Como o povo oprimido, Paulo Freire é alvo e escudo a um só tempo” (outubro) e “Nova Constituinte, um projeto a ser construído” (de novembro), vieram em seguida dando conta de mais algumas práticas e omissões que, infelizmente, não podem ser atribuídas apenas aos governantes de plantão.
Toda essa argumentação feita aqui e nos artigos que citei está longe de ser uma retrospectiva de 2020, um panorama dos fatos por nós vividos e assim tematizados. Falei apenas de dez textos que publiquei, mensalmente, de março a novembro. Quando os publiquei, talvez até tivesse a ilusão de que hoje já pudesse considerá-los coisas do passado, dificuldades vencidas. Infelizmente não o são, uma vez que os fatos persistem. Nos primeiros dias de dezembro já são contabilizadas quase 180 mil mortes por coronavírus no Brasil e aqui estamos, empobrecidos, sem trabalho e renda, isolados e paralisados, à mercê da indústria farmacêutica e dos ditames da tecnologia e do capital.
É difícil precisar quando essa nave louca parou ou, desafortunadamente, potencializou sua aceleração a ponto de nem darmos conta da velocidade em que viajamos, no piloto automático digital, com o controle remoto estilhaçado em mãos de alguns poucos milhares de acionistas que não se entendem.
* O presente artigo também pode ser lido no jornal Pensar a Educação em Pauta.
(Imagem reproduzida pelo Site Outras Palavras)