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sábado, 5 de dezembro de 2020

O BUG DO CALENDÁRIO

 

Bricolagem de Calendários 2020
(Eugênio Magno)

2020 o ano que não acaba em dezembro*

Eugênio Magno

            “Nada como um dia após o outro”, reza o dito popular. Nos idos da infância acordava sempre no primeiro dia do ano com a expectativa de que o Ano Novo fosse verdadeiramente novo. De tanto crer e querer, lampejos melodiosos desse desejo bafejavam aquela doce e saudosa inocência com reluzentes novidades.

            Os anos foram passando e os vislumbres daquele novo tão brilhante e vivo foram escasseando e as novidades se acomodando na sequencialidade linear do tempo Kronos que, apesar de trivial por ser sequencial avançava, ainda que sem rumo. Mas eis que chegamos em 2020 e em uma manobra rápida passamos a ter um misto de impressões difusas sobre a realidade: o tempo passou a avançar circularmente engolindo sua própria cauda? Caminhamos em slow, estamos no modo stand by, o tempo parou... ou retrocedemos (?). Às vezes a sensação é de que vivemos tudo isso e mais alguma coisa não dita, não explicada e quiçá nem mesmo explicável. Este ano, cujo calendário dá por encerrado em 31 de dezembro, definitivamente, não findará agora. Necessitaremos de outros tantos anos para podermos viver novamente um novo ano.

            Não vou recorrer a nenhum expediente complexo nem a textos de outros autores para justificar essa minha tese. Apenas os temas abordados por mim nos artigos que publiquei no jornal Pensar a Educação em Pauta (do Projeto Pensar a Educação, Pensar o Brasil, da Faculdade de Educação, da UFMG) e também neste blog. Apenas esses em que tratei de alguns dos acontecimentos mais impactantes de 2020 serão suficientes; afinal, eles falam por si. No primeiro artigo do ano, Escassez e má gestão: A água é uma dádiva da natureza ou apenas um $? (de março), falava sobre falta de saneamento, estupidez na destinação do lixo e do esgoto, descuido com as águas – das chuvas, das nascentes, dos rios – e sobre os prejuízos causados pelas enchentes. Denunciava as empresas que trabalham com recursos hídricos por não disporem de nenhuma tecnologia avançada para coletar melhor e em maior quantidade a água da chuva e chamava a atenção para a inoperância e a falta de investimentos em pesquisa e desenvolvimento tecnológico sustentável do (e no) setor, que continua coletando água do mesmo modo que coletava séculos atrás.  Às vésperas das eleições municipais (em novembro), no texto “Vota no João e elege o Tião”, discorria sobre contradições e armadilhas de nosso sistema eleitoral e do pouco entendimento que a população tem da política e dos pleitos.

            Mas isso, não obstante a gravidade do que reverbera, ainda é pouco para validar o suposto que defendo no presente artigo. Por isso, sugiro ao leitor que (re)visite as demais reflexões que deixei aqui e também no jornal Pensar a Educação em Pauta – em outros textos –,  entre abril e outubro deste ano. Em primeiro lugar, a sequência de três artigos sobre a pandemia da Covid-19: Oportunistas, apocalípticos e proféticos em tempos de contaminação global” (abril); O Vírus interroga as instituições” (maio) e Pandemônio na República Federativa do Brasil” (de junho). Nesses textos busquei realçar o que a pandemia colocou a descoberto, sobre o despreparo de nossas instituições, inclusive algumas que são louváveis em se tratando críticas e diagnósticos, mas pouco afeitas à autocrítica e a prognósticos.

Depois, a fortuna ou a desventura de me saber brasileiro, essa raça alegre e otimista, me fez acreditar que o que estava entre ruim e péssimo não poderia piorar e, com todas as reservas e críticas contundentes ao poder central, escrevi Democracia fala mais alto e governo baixa a bola” (em julho). Doce ilusão. Foi somente uma mínima desacelerada obscurantista, de poucos dias, por conta de fatos da hora. Em tempos sombrios como esses sonhei também que pudesse haver um acolhimento caloroso para a boa nova anunciada pelo papa Francisco, o Pacto Educativo Global. O texto (de agosto), Pacto pela Educação no Planeta” e, mais grave, o próprio Pacto proposto pelo papa, obteve pouquíssima repercussão no meio educacional.

Os artigos, A impostura do digital” (setembro), “Como o povo oprimido, Paulo Freire é alvo e escudo a um só tempo” (outubro) e Nova Constituinte, um projeto a ser construído” (de novembro), vieram em seguida dando conta de mais algumas práticas e omissões que, infelizmente, não podem ser atribuídas apenas aos governantes de plantão.

Toda essa argumentação feita aqui e nos artigos que citei está longe de ser uma retrospectiva de 2020, um panorama dos fatos por nós vividos e assim tematizados. Falei apenas de dez textos que publiquei, mensalmente, de março a novembro. Quando os publiquei, talvez até tivesse a ilusão de que hoje já pudesse considerá-los coisas do passado, dificuldades vencidas. Infelizmente não o são, uma vez que os fatos persistem. Nos primeiros dias de dezembro já são contabilizadas quase 180 mil mortes por coronavírus no Brasil e aqui estamos, empobrecidos, sem trabalho e renda, isolados e paralisados, à mercê da indústria farmacêutica e dos ditames da tecnologia e do capital.

É difícil precisar quando essa nave louca parou ou, desafortunadamente, potencializou sua aceleração a ponto de nem darmos conta da velocidade em que viajamos, no piloto automático digital, com o controle remoto estilhaçado em mãos de alguns poucos milhares de acionistas que não se entendem.

* O presente artigo também pode ser lido no jornal Pensar a Educação em Pauta.

domingo, 1 de março de 2020

A ECONOMIA É IMPORTANTE DEMAIS PARA SER DEIXADA SOMENTE PARA OS ECONOMISTAS


Refundar o capitalismo (outra vez)

(Ilustração de Pep Boatella)

Uma longa década depois de os políticos terem antecipado a ideia, economistas, filósofos e sociólogos buscam suprimir os excessos e abusos do mercado para que ele sobreviva.
Poucos dias depois da falência do Lehman Brothers, o gigantesco banco de investimentos dos EUA, em setembro de 2008, um acovardado presidente francês, o conservador Nicolas Sarkozy, fez célebres declarações que ressoaram em todo o mundo: “A autorregulação para resolver todos os problemas acabou: le laissez-faire c'est fini. Precisamos refundar o capitalismo (...) porque passamos a dois dedos da catástrofe”.
Aquele momento crítico em que tudo parecia possível, incluindo a falência do sistema, foi superado. O setor financeiro, aos trancos e barrancos, emergiu da crise dando braçadas e braçadas na ajuda pública (na forma de dinheiro, endossos, garantias, compras de ativos ruins, liquidez quase infinita a preços muito baixos, etc.), e aqueles verbos conjugados com boa vontade de vez em quando —refundar o capitalismo, reformar o capitalismo, regular o capitalismo, refrear o capitalismo etc— foram esquecidos. Da Grande Recessão se passou a uma época de "estagnação secular" (Larry Summers), que é o que estamos vivendo.
Da primeira, os cidadãos, na maioria, saíram mais pobres, mais desiguais, muito mais precários, menos protegidos e com duas características políticas que explicam em boa parte o que está acontecendo diante de nossos olhos: mais desconfiados (dos Governos, dos partidos, dos Parlamentos, das empresas, dos bancos, das agências de classificação de risco ...) e menos democratas. O resultado foi a explosão de populismos de extrema direita e a decomposição do sistema binário de partidos políticos que saiu da Segunda Guerra Mundial, e uma concepção instrumental (não de princípios) da democracia: apoiarei a democracia enquanto resolver meus problemas; se não, sou indiferente.
Depois desse parêntesis de quase uma década, e quando já começa a existir uma distância temporal suficiente para se analisar os efeitos da Grande Recessão como uma sequência de eventos que levaram a uma gigantesca redistribuição negativa da renda e da riqueza no sentido inverso nos âmbito dos países (o chamado efeito Matthew: “Ao que mais tem, mais será dado, e do que menos tem será tirado para ser dado ao que mais tem”), são os acadêmicos e não os políticos que multiplicam as teorias sobre as características do capitalismo do primeiro quarto do século XXI. E eles protagonizam um grande debate extremo entre si: se o capitalismo está ferido de morte porque não funciona; ou, pelo contrário, se, mais uma vez na história está passando por uma mutação em sua natureza, e essa transformação o levará a ser de novo o sistema político-econômico mais forte e único. Há duas coincidências na maioria dos livros publicados: o capitalismo se espalhou por todos os espaços geográficos do planeta e direções (não há alternativa) e se aninha em qualquer atividade e mercado, incluindo a política.
O capitalismo é agora o único sistema socioeconômico do planeta (antes isso era chamado de imperialismo) e quase não existem vestígios do comunismo como uma possibilidade substitutiva, como ocorria na primeira metade do século XX. A esta característica central se soma o reequilíbrio do poder econômico entre os EUA e a Europa, por um lado, e a Ásia, por outro, por causa do boom experimentado pelos principais países desta última região. O domínio planetário exercido pelo capitalismo foi alcançado por meio de suas diferentes variantes. Alguns autores distinguem entre o capitalismo meritocrático liberal, que vem se desenrolando gradualmente no Ocidente nos últimos 200 anos, e o capitalismo político ou autoritário exemplificado pela China, mas que também existe em outros países asiáticos (Cingapura, Vietnã ...) e alguns da Europa e África (Rússia e os caucasianos, Ásia Central, Etiópia, Argélia, Ruanda ...).
Para continuar lendo a matéria de Joaquín Estefanía para o El País, clique aqui.