quinta-feira, 15 de junho de 2017

AS CONTRADIÇÕES DO JUDICIÁRIO


A lógica dual do Gilmar e as razões para o seu impeachment


Jeferson Miola

Foto: Evaristo SA/APF/JC 

O grande responsável pela estupefação e anarquia jurídica reinante atende pelo nome de Gilmar Mendes, o tucano do PSDB do Mato Grosso [Estado onde, segundo seu ex-colega Joaquim Barbosa, ele tem capangas] que atua como juiz no TSE e no STF.
A questão, em si, não é o julgamento atual, mas a abertura da AIME [Ação de Impugnação de Mandato Eletivo] no imediato pós-eleitoral de 2014 e os acidentes processuais derivados da interveniência dolosa de Gilmar Mendes.
A posição dele, consagrada vitoriosa no TSE, é contraditória com a posição inicial que ele defendeu no Tribunal em agosto de 2015 em conflito com a Constituição, que determina que “o mandato eletivo poderá ser impugnado ante a Justiça Eleitoral no prazo de quinze dias contados da diplomação” [CF, art. 14, §10].
Com a maioria conquistada no Tribunal, a continuidade inconstitucional da AIME passou a ser uma arma de reserva nas mãos do Gilmar e do PSDB para golpearem Dilma no caso de fracasso da estratégia do impeachment fraudulento.
Dilma exercia a Presidência e então, para agravar a instabilidade política já em nível crítico, ele recorreu do arquivamento da AIME recomendado pela relatora Maria Thereza de Assis Moura. Defendeu, na ocasião, a continuidade do julgamento apresentando provas, testemunhos e diligências que extrapolam a petição original e que, agora, em junho de 2017, ele decidiu invalidar – não só porque inadmissíveis à luz da processualística, mas sobretudo para manter Temer na presidência.
É certo que se Dilma ainda estivesse na presidência, a posição do Gilmar teria sido diametralmente oposta, e ele então militaria e votaria pela condenação da petista no TSE.
Durante as longas sessões do julgamento, Gilmar tergiversou que nunca pretendeu “cassar o mandato de Dilma, mas, sim, achava fundamental conhecer as entranhas do sistema” [sic]. Esta hipocrisia tem equivalência de peso e valor com a delinquência de Aécio Neves, que promoveu a AIME “apenas” para “encher o saco do PT!”.
Durante o julgamento, Gilmar agrediu o MP, constrangeu o relator Herman Benjamim e fez uma enorme ginástica hermenêutica para justificar seu posicionamento político-partidário. Com o olho na conjuntura, Gilmar fez declarações que seriam aceitáveis na boca de políticos e atores partidários; nunca, porém, na de juízes isentos e imparciais: “Não cabe ao TSE resolver a crise política do país”; “Não é algum fricote processualista que se quer proteger, mas o equilíbrio do mandato”; “Não se substitui um presidente a toda a hora, mesmo que se queira”.
Gilmar se tornou um personagem central da dinâmica política, o que seria uma realidade gravíssima não estivesse o Brasil sob a vigência de um regime de exceção. Numa democracia e na plenitude do Estado de Direito, nenhum juiz jamais poderia ter tal ascendência política sobre a política, sobre os políticos e os poderes executivo e legislativo – seja um Sérgio Moro da primeira instância; seja um juiz da máxima instância do judiciário.
Gilmar Mendes não reúne as condições para continuar atuando no judiciário brasileiro, menos ainda como juiz do TSE e do STF, porque sua trajetória de partidarismo com exibicionismo midiático é incompatível com a Lei e o Código de Ética da Magistratura, com os Códigos de Processo Penal e Civil e com a Constituição Brasileira.
Gilmar não atua com a isenção e a imparcialidade requeridas a um juiz, mas sim como um agente político-partidário com interesses ideológicos identificados. A parcialidade é a única variável constante da atuação dele com toga. Para predizer o destino do golpe, basta mirar os passos dele.
Em março de 2016 Gilmar não só validou como usou, com espantoso cinismo, a interceptação e divulgação criminosa que o juiz Moro fez dos telefonemas da Presidente Dilma, para justificar o impedimento da posse de Lula na Casa Civil. Ele agora, com idêntico cinismo, atua como advogado de defesa do Temer e do Aécio e desqualifica as conversas mafiosas que ambos mantiveram com o empresário corruptor Joesley Batista para coordenarem as práticas criminosas.
Os motivos para o impedimento do Gilmar Mendes são abundantes – menos pela posição que defendeu no julgamento do TSE, e mais pela trajetória nefasta de militante partidário.
Gilmar atua como um agente político-partidário e com o desembaraço político que seria admissível para os operadores da política escolhidos pelo voto popular, mas jamais para juízes. É passada a hora do julgamento do impeachment de Gilmar Mendes no Senado, onde vários pedidos foram protocolados, conforme prevê o artigo 52 da Constituição brasileira.
(Fonte: Site Carta Maior)

MIRAGEM NA FLORESTA


Cabelos de Ouro


Eugênio Magno


A minha maior lembrança era a do sol
se misturando àqueles cabelos de ouro

Nunca mais a vi
Não consigo me lembrar do seu rosto
Nem sei se o vi

Só sei que o seu caminhar era
de uma formosura sem par

Dos seus olhos não sei a cor
Na sua boca não vi sorriso

Só tive olhos para a sua pele alva
vestida de um branco translúcido

Para aqueles cabelos de ouro penetrados pelo sol

E eu, de longe, era só olhar e encantamento

(Poema inédito)

segunda-feira, 12 de junho de 2017

O INSUSTENTÁVEL (DES)GOVERNO DE TEMER


Michel Temer apela a Alckmin e Doria para manter PSDB

O presidente Michel Temer apelou ao governador do Estado de São Paulo, Geraldo Alckmin, e ao prefeito, João Doria, para que eles trabalhem no sentido de esvaziar o caráter deliberativo da reunião da Executiva ampliada do PSDB marcada para hoje e que pode definir a saída dos tucanos da base aliada ao Palácio do Planalto.
Após a vitória de Temer no julgamento no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) na sexta-feira, 9, o presidente, por meio de aliados e ministros do PSDB, pediu a Doria e a Alckmin que deem mais tempo a ele para reorganizar sua base e mostrar que o governo ainda tem força para aprovar as reformas defendidas pelo prefeito e pelo governador, principalmente a da Previdência. Dentro do próprio PSDB é dado como certo que Temer não conseguirá fazer as reformas sem o apoio dos tucanos.
O medo de Temer é de que a saída do PSDB do governo crie um "efeito manada", na expressão de um senador do PMDB próximo a Temer, às vésperas de a Câmara dos Deputados analisar uma eventual denúncia do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, contra o presidente. Ou seja, a saída dos tucanos pode motivar outros partidos a seguir o mesmo caminho.
Na avaliação do Planalto, se os dois tucanos paulistas trabalharem para esvaziar a reunião de hoje ou para cabalar votos pela permanência do PSDB na base, a vitória de Temer estará garantida na Executiva, que tem 17 membros, caso haja uma votação deliberativa. 
Para continuar lendo a matéria, publicada hoje pelo Jornal O Tempo, clique aqui.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

OS MEDROSOS AMEDRONTAM A POPULAÇÃO COM AMEAÇAS FASCISTAS


Marcos Coimbra: Fugir das diretas por medo de Lula é negar a democracia


Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula
As elites brasileiras estão como baratas tontas por uma razão que tem nome: Luiz Inácio Lula da Silva. Não fosse o medo que têm dele, haveria uma saída natural para a enrascada em que meteram o País e que as deixa baratinadas.
Elas mantinham-se coesas desde o segundo semestre de 2015, quando decidiram pôr de lado suas diferenças e ir juntas derrubar Dilma Rousseff. Sempre concordaram no fundamental, pois nunca esqueceram seus interesses de longo prazo. Mas a unificação de táticas do cotidiano foi cimentada somente quando entraram em acordo para tirar o PT do governo e reassumi-lo na plenitude.
Hoje, aquela coalizão desmoronou e um setor nem imagina o que outro pretende, como estamos vendo no comportamento dos conglomerados de mídia. Depois de um enfadonho período, em que todos diziam as mesmas coisas, até com idênticas palavras, agora é cada um por si.
Não era certo que estouraria um escândalo do tamanho desse das delações da JBS, mas era previsível. Ter na cadeira presidencial um personagem como Michel Temer é um risco permanente.
Ninguém tem o direito de se fingir surpreso com ele. O Temer de maio de 2017 é igual ao de toda a vida. Dar expediente no Palácio do Planalto não lhe mudou a natureza.
Sua turma rapidamente expôs-se, provocando mudanças no primeiro escalão em ritmo quase mensal. Faltava a “bomba do Riocentro”, aquela que explodiu no colo de um sargento do Exército em 1981, deixando óbvio de onde vinham os terroristas que praticavam atentados para perpetuar a ditadura de 1964. As delações da JBS são a bomba no colo de Temer. 
Para ler na íntegra o artigo, Medo de Lula, de Marcos Coimbra, clique aqui.

TERRORISMO MIDIÁTICO


MPF reconhece falta de provas contra Lula, mas pede condenação


Ministério Público Federal (MPF) pediu ao juiz Sérgio Moro, na sexta-feira (3), que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e outros seis réus sejam condenados pelos crimes de corrupção passiva, ativa e lavagem de dinheiro e que cumpram as respectivas penas em regime fechado.
O pedido consta nas alegações finais do processo que apura um suposto pagamento de propina por parte da OAS, por meio da entrega de um apartamento triplex no Guarujá, litoral paulista.
Todavia, a manchete divulgada pelo portal G1 deu a entender que havia sido pedida a prisão IMEDIATA do ex-presidente.
(Fonte: Blog da Cidadania)

quinta-feira, 1 de junho de 2017

OCUPAÇÃO DO "PREDINHO" ANTIGA SEDE DO JORNAL HOJE EM DIA


Jornalistas ocupam prédio da JBS em Belo Horizonte, 

ex-sede do jornal Hoje em Dia

Foto: Isis Medeiros

Da redação do Brasil de Fato em Belo Horizonte (Edição de Larissa Costa)

Cerca de 150 trabalhadores da comunicação, entre jornalistas e gráficos, ocuparam o antigo prédio do jornal Hoje em Dia, de propriedade da empresa JBS, nesta manhã de quinta (1). Parte desses profissionais foi demitida há mais de um ano do jornal e até hoje não recebeu o acerto. A ocupação conta com o apoio de diversos movimentos populares e sindicatos de Minas Gerais.
“Decidimos ocupar o prédio que foi sede do jornal durante décadas para denunciar a toda sociedade o calote. Fomos vítimas de uma negociata política, que envolve figurões da República, e pagamos a conta por projetos de poder, falta de ética e escrúpulos”, denunciam os jornalistas em manifesto divulgado.
O “predinho”
De acordo com o manifesto, o senador afastado Aécio Neves (PSDB) pediu para que o empresário Joesley Batista, da JBS, comprasse o prédio sede do Hoje em Dia. Segundo delação gravada de Joesley, o prédio foi comprado por um valor muito superior ao de mercado. O empresário teria pagado R$ 17 milhões que seriam destinados à Aécio como pagamento de propina. Na ocasião, o senador afastado chamou o imóvel de "predinho", como passou a ser conhecido. 
A história
No início de 2016, 38 jornalistas foram demitidos de uma vez do jornal Hoje em Dia, após este ter sido comprado por Ruy Muniz, empresário e ex-prefeito de Montes Claros que já chegou a ser preso por corrupção. 
Mais informações aqui.
Posição do Hoje em dia
Em nota, o jornal Hoje em Dia afirma que vai colaborar com a Justiça nas investigações e reitera o compromisso com a transparência das informações e a ética profissional. Confira na íntegra:
A atual gestão da Ediminas S/A assumiu o jornal Hoje em Dia quando a venda do prédio já havia sido concluída e vai colaborar com a Justiça prestando todos os esclarecimentos que forem por ela solicitados. O jornal não funciona mais no prédio da rua Padre Rolim. A Ediminas vem cumprindo rigorosamente a legislação trabalhista. Sobre as rescisões de contrato, trata caso a caso as demandas, nas esferas competentes: Ministério Público do Trabalho, Justiça do Trabalho e sindicatos das categorias profissionais relacionadas ao jornal. O Hoje em Dia  reitera o compromisso com a transparência das informações e a ética profissional e informa que mantém seu funcionamento regular, o que permite a preservação de dezenas de empregos. 
Ediminas S/A
Manifesto dos jornalistas 
Ocupa Predinho. Por que estamos aqui?
Somos um grupo de 150 trabalhadores (jornalistas, gráficos e funcionários da administração) demitidos do jornal Hoje em Dia há mais de um ano. Não recebemos nenhum direito trabalhista. Nem mesmo o salário do último mês que trabalhamos. Decidimos ocupar o prédio que foi sede do jornal durante décadas para denunciar a toda sociedade o calote. Fomos vítimas de uma negociata política, que envolve figurões da República, e pagamos a conta por projetos de poder, falta de ética e escrúpulos. A ocupação tem o apoio de diversos movimentos sociais, que trazem solidariedade a nossa causa e lutam por um país mais justo.
Na delação do empresário Joesley Batista, da JBS, ele revela que pagou R$ 17 milhões, um valor que ele mesmo considerou superfaturado, por um prédio e um terreno na Rua Padre Rolim, no bairro Santo Efigênia, em Belo Horizonte. Os imóveis citados pelo empresário eram a sede do jornal Hoje em Dia e foram comprados pela JBS a pedido do senador afastado Aécio Neves (PSDBMG). Mas existem vários detalhes que vão além da delação a que merecem atenção:
1 - Em 2013, quando a candidatura de Aécio Neves se afirmava no ninho tucano e os apoios para o projeto político do neto de Tancredo Neves eram estabelecidos, o governo de Minas Gerais, então comandado pelo tucano Antonio Anastasia, desapropriou um imóvel da Rádio Del Rey, que pertence à família proprietária do Grupo Bel. 2 - A desapropriação custou R$ 1,09 milhão aos cofres públicos e o pagamento foi realizado em junho de 2013.
3 - Cinco meses depois o Grupo Bel (também proprietário das rádios 98 FM, CDL e outras empresas) comprou o jornal Hoje em Dia das mãos da TV Record.
4 – Durante a campanha presidencial de 2013 o jornal Hoje em Dia se posicionou acintosamente favorável à candidatura de Aécio Neves.
5 – Um exemplo: O jornal chegou a publicar uma pesquisa nonsense, que ia à contramão de todas as outras pesquisas de opinião e dava favoritismo a Aécio. A notícia manchetou o portal do jornal no dia 14 de outubro e, velozmente, a imagem da tela do portal do Hoje em Dia estampava a propaganda de televisão de Aécio Neves no dia seguinte.
6 – Outro exemplo: A demissão do jornalista Aloísio Morais do Hoje em Dia, no dia 31 de outubro de 2014. O jornal tentou demiti-lo por justa causa por comentários que ele compartilhou em uma rede social. O comentário criticava o instituto que teve a pesquisa abalizada pela publicação do Hoje em Dia e favorecia Aécio Neves. O jornal perdeu em todas as instâncias e Aloísio foi reintegrado ao trabalho, por determinação judicial, depois de 22 meses.
7 – Após derrota do PSDB, tanto na presidência quanto no governo estadual, o Grupo Bel decidiu vender o jornal Hoje em Dia.
8 – Antes de se efetivar a venda do jornal, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) pediu que o empresário Joesley Batista, da JBS, comprasse o prédio do jornal. Segundo delação gravada de Joesley, o prédio foi comprado por um valor superfaturado. Ele chamou o local de: "predinho", como passou a ser conhecido.
9 – Com os ativos da empresa liquidados, o grupo Bel fechou o parque gráfico, demitiu todos os funcionários da gráfica e não pagou os direitos trabalhistas.
10 – O jornal foi vendido para o ex-prefeito de Montes Claros, Ruy Muniz, que é empresário da educação e conhecido por ter como prática dar calote em funcionários.
11 – Ruy Muniz, que chegou a ser preso acusado de fraude na saúde da administração da prefeitura de Montes Claros, assumiu o jornal e demitiu mais da metade da redação: 38 jornalistas. 
12 – Os jornalistas não receberam nenhum direito trabalhista. Nem o salário do último mês que trabalharam. 
13 – Ação judicial do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais pede que a responsabilidade pelo pagamento dos demitidos seja do atual proprietário, Ruy Muniz, e dos antigos donos do jornal, do Grupo Bel, que são capitaneados por Flávio Carneiro.
14 – Flávio Carneiro também foi citado na delação de Joesley e tratado como um "garoto de recados" para Aécio Neves. O empresário da JBS mandou Flávio falar com o senador para que ele parasse de pedir propina, pois eles estavam sendo investigados. 
15 – Diante de uma armação articulada por políticos e empresários resta aos trabalhadores somente uma alternativa: a luta. Por isso, estamos aqui ocupando o prédio. Queremos apenas o nosso direito, que é o pagamento pelo que trabalhamos. 
(Fonte: Brasil de Fato, 1º de junho de 2017)

quarta-feira, 24 de maio de 2017

O ESCÂNDALO BRASIL


O cárcere chega à antessala de Temer 


Carlos Fernandes


(Foto: Cana)

A Polícia Federal cumpriu na manhã de terça-feira (23) mais uma leva de mandados de prisões preventivas desta vez sob o âmbito da Operação Panatenaico da Justiça do Distrito Federal.
Entre os ilustres agraciados está o ex-vice-governador do DF e agora também ex-assessor especial do presidente da República, Nelson Tadeu Filippelli.
Ex-assessor porque minutos após a sua prisão, numa tentativa tanto patética quanto inútil de se desvincular da canalha que ainda lhe dá suporte, Michel Temer o exonerou do cargo.
Ao lado do advogado José Yunes e do deputado federal Rodrigo Rocha Loures, Filippelli já é o terceiro assessor diretamente ligado a Temer que é acusado de envolvimento em casos de corrupção.
E olha que estamos falando apenas de assessores especiais da presidência da República.
Desses, já seria o segundo preso se o ministro do STF, Edson Fachin, não tivesse rejeitado o pedido da Procuradoria-Geral da República que solicitou a prisão de Rocha Loures e Aécio Neves.
Ambos, Filippelli e Loures, dividiam uma sala a poucos metros do gabinete presidencial no Palácio do Planalto.
Dali mesmo, o homem de confiança para a articulação política de Temer e o cidadão da mala de dinheiro da JBS, respectivamente, cuidavam dos aspectos, digamos, mais “subterrâneos” do governo golpista.
O decreto da prisão preventiva de Tadeu Filippelli não só evidencia o nível da quadrilha que tomou de assalto a República brasileira, como vem somar-se ao já volumoso acervo de crimes e escândalos acumulados por sua turma.
Para mais além do que isso, demarca o início das prisões que começam a ocorrer dentro do mais restrito círculo de vassalos que ora habitam o Palácio do Planalto.
O cárcere chega a antessala de Michel Temer. Daqui a pouco baterá à sua porta.
(Fonte: Site do DCM)

sexta-feira, 19 de maio de 2017

RIGOROSA APURAÇÃO DOS FATOS


Reitores da PUC Minas e UFMG divulgam comunicado conjunto em que defendem rigorosa e rápida apuração de todas as denúncias


Em carta aberta assinada juntamente com o reitor da Universidade Federal de Minas Gerais, professor Jaime Arturo Ramirez, o reitor da PUC Minas, professor Dom Joaquim Giovani Mol Guimarães, se manifestou, na última quinta-feira, 18 de maio, sobre o atual momento político do país, em que graves denúncias envolvem o atual presidente da República, Michel Temer, e o ex-governador de Minas Gerais, senador Aécio Neves.
Demonstrando preocupação com os desdobramentos dos fatos divulgados na última quarta-feira, 17, os reitores defenderam “uma rigorosa e rápida apuração de todas as denúncias, independentemente de nomes e cargos nela citados” e expressaram o desejo de que prevaleça no país o respeito à democracia, o pleno funcionamento das instituições, o estado de direito e a busca do bem comum como princípios da vida pública.
Carta aberta dos Reitores da UFMG e PUC Minas
A vida política e social no Brasil vem sofrendo, nos anos mais recentes, seguidos e cada vez mais preocupantes abalos. Tal cenário leva à sensação de que a corrupção se tornou sistêmica e profundamente enraizada na sociedade brasileira, gerando instabilidade e desesperança com relação ao futuro do país.
Nem o reconhecimento das exceções, infelizmente tão poucas, dissipa a impressão de que a corrupção se estabeleceu como modo operativo prevalente, sobre o qual se tem a expectativa de obtenção não apenas de poderes político e econômico, mas também da impunidade. 
Pouco mais de um ano depois do impedimento da ex-presidente da República – cujas razões e modo de processamento ainda dividem a sociedade -, o País se vê sobressaltado com novas e
graves denúncias que envolvem diretamente o presidente da República e outros ocupantes de cargos políticos estratégicos no cenário nacional. Como inevitável decorrência, surgem incertezas de toda ordem sobre os rumos e cenários futuros da República, em termos dos desdobramentos que podem
trazer os fatos que vieram à tona nesta quarta-feira, 17 de maio de 2017.
É nesse cenário, conturbado e dramático da vida nacional que manifestamos de público a defesa de uma rigorosa e rápida apuração de todas as denúncias, independentemente de nomes e cargos nelas citados, e que os Poderes constituídos, em sua missão de resguardar a democracia e a defesa intransigente do Estado de direito, garantam o pleno funcionamento das instituições democráticas, a liberdade dos movimentos sociais e de todas as instâncias de representação social.
A crença na democracia tem essencial significado: o de que, pela ética, correção e sentimento republicano, a sociedade buscará permanentemente a garantia do direito à justiça, liberdade e paz para todos. Se, por um lado, a dissonância e divergências de posicionamentos e perspectivas políticas são naturais na vida democrática, por outro, o respeito às leis e à defesa do estado de direito e a busca do bem comum e da justiça social devem colocar-se como princípios inarredáveis da vida pública.
 
Prof. Jaime Arturo Ramírez
Reitor da Universidade Federal de Minas Gerais
Prof. Dom Joaquim Giovani Mol Guimarães
Reitor da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais

(Fonte: Portal PUC Minas)

segunda-feira, 15 de maio de 2017

ERA UMA VEZ UMA NOITE... ASSIM MESMO, COM CRASE (E COM TODAS AS VÍRGULAS)


Noite à dentro

Eugênio Magno

Uma nuvem impedia o amanhecer, enquanto ele velava insone. A laranja em cima da mesa, o gato no canto da sala, lambendo seu pelo e a torneira, que insistia em vazar, renitente, pingava na pia. A sua morte não era surpresa, mas assim mesmo a vida lhe anunciava novas aventuras. A imagem de Nossa Senhora, no móvel da sala, de braços abertos e mãos espalmadas, num gesto de acolhimento, o entristecia. Sua mãe jazia há muito. Muito antes que ele pudesse retribuir ao menos uma mísera parcela do seu cuidar. E sempre aquela dor, como uma nota, em sustenido, latejando, enquanto a recorrente murmuração praguejante era intercalada apenas por um surdo evocar de preces. Então o relógio tocou, na tentativa de acordar aquele que não dormira, mas que, enredado em pesadelos, tampouco desperto estava.

(Do livro Poetas En/Cena-2, 2008, pág. 66)


PARA ONDE ESTÁ INDO O ESTADO DE BEM-ESTAR SOCIAL ?



O Estado e suas formas contemporâneas de intervenção pública: 
anotações acerca do filme “Eu, Daniel Blake”

Roberto Rafael Dias

Dimensionarmos analiticamente as formas contemporâneas de intervenção pública mobilizadas pelo Estado tornou-se uma tarefa bastante difícil. Colocando em ação estratégias que mesclam neoliberalismo e neoconservadorismo, em suas vertentes variadas, as políticas públicas responsabilizam os próprios cidadãos pelos seus êxitos e pelos seus fracassos. A literatura contemporânea, importa destacar, é fértil em diagnósticos acerca deste cenário; todavia, entendemos ainda ser necessário (sobretudo no contexto brasileiro) avançarmos na composição de análises que tomam como ponto de partida a experiência dos atores sociais frente a este deslocamento nas possibilidades de proteção social. Neste breve texto, minha intenção passa por problematizar essa questão, valendo-me de alguns comentários produzidos nas margens do filme “Eu, Daniel Blake”. 
O referido filme é uma produção britânica do diretor Ken Loach, premiada no Festival de Cannes com a Palma de Ouro, no ano passado. Nesta narrativa, de acordo com os críticos de cinema que acompanham seu trabalho, Loach volta a tratar de uma temática que tem sido central em seus trabalhos, qual seja: uma defesa das minorias frente aos abusos cometidos pelo Estado. São evidenciados, de forma central no longa-metragem, os procedimentos burocráticos existentes para que o cidadão possa obter os benefícios sociais concedidos pelo governo. 
Mesmo que o filme seja ambientado em outro país, não parece difícil sentir-se representado pelas angústias vividas pelo personagem principal do enredo, Daniel Blake, interpretado pelo ator Dave Johns. O personagem, após sofrer um ataque cardíaco, ficou impossibilitado de seguir trabalhando como marceneiro, situação confirmada mediante o recebimento de um laudo médico. Ampliando as dificuldades para conseguir o benefício que era seu direito, Blake possui limitações para circular nos ambientes digitais, o que aumenta o abismo que o separa da inserção no sistema para solicitar tais recursos de proteção social. A narrativa torna-se comovente ao mostrar, de forma sensível, certa arrogância (ou cinismo?) na postura do Estado, que oferece os serviços aos cidadãos; todavia, reforça as barreiras que os impossibilitam de acessá-los.  
Após uma série de percalços enfrentados por Blake, de forma bastante politizada, o personagem recebe a oportunidade de ser ouvido por uma junta interdisciplinar que irá julgar o seu recurso, depois de várias negativas referentes ao seu pedido de benefício. Para tal momento, o personagem havia escrito algumas palavras como forma de desabafo sobre as dificuldades enfrentadas no período em que esteve lutando para obter os benefícios. Daniel Blake não chega a ler tais palavras, pois um mal-súbito, minutos antes de entrar na audiência, havia lhe tirado a vida. Em seu funeral, a personagem Katie, após afirmar que “o Estado o levou a uma morte precoce”, lê o pequeno texto de desabafo:  

Não sou um cliente, consumidor ou usuário dos serviços. Eu não sou um desistente, um fujão, um mendigo ou um ladrão. Não tenho meu número de serviço social marcado na tela. Pago minhas obrigações, faço meus centavos e tenho orgulho disto. Não me curvo a ninguém, olho meus vizinhos nos olhos e ajudo-os, se puder. Eu não aceito ou procuro caridade. Meu nome é Daniel Blake. Eu sou um homem, não um cão. Portanto, exijo meus direitos. Exijo que me tratem com respeito. Eu, Daniel Blake, sou um cidadão, nem mais e nem menos. 

A narrativa deste filme levou-me a considerar dois aspectos referentes às formas de intervenção pública mobilizadas pelo Estado na Contemporaneidade. O primeiro aspecto diz respeito à incapacidade do Estado para atender as demandas coletivas de nossa sociedade, na medida em que poder e política tornam-se cada vez mais distanciados. Em tais condições, marcadas pelo contexto de crise, os atores sociais não mais encontram campos para depositar sua esperança. Advertia-nos o sociólogo Zygmunt Bauman, recentemente falecido, que “a crise é um momento de decidir que procedimento adotar, mas o arsenal de experiências humanas parece não ter nenhuma estratégia confiável para se escolher” (2016, p. 20). Mais que isso, novamente recorrendo a Bauman, as responsabilidades públicas agora são depositadas “sobre os ombros de indivíduos humanos” (p. 19). 
Para além da individualização das responsabilidades coletivas, o segundo aspecto que escolhi comentar direciona-se para as relações entre desigualdades e proteção social, ou ainda das possibilidades de colocar em ação uma “política do respeito”. Na obra “Respeito: a formação do caráter em um mundo desigual”, o sociólogo Richard Sennett (2004) problematiza a noção de proteção social, tal como foi desenvolvida no final do século passado. Seu ponto de partida, em linhas gerais, situa-se na perspectiva de que “a sociedade moderna carece de expressões positivas de respeito e reconhecimento pelos outros” (SENNETT, 2004, p. 13). Considerando as relações entre desigualdade e o Estado de Bem-Estar Social, também valorizando suas experiências pessoais, Sennett nos auxilia a pensar sobre a aquisição do respeito próprio, das possibilidades de ser ouvido e reconhecido e de distanciar-se da dependência. Sennett defenderá, nesta obra, a promoção de uma “política do respeito”, centrada na autonomia e nas possibilidades de ampliação de nossas capacidades de valorização dos outros (e de nós mesmos). 
Em termos diagnósticos, com o advento das políticas neoliberais e com a redefinição das estratégias interventivas do Estado, encontramos em curso uma intensa individualização das responsabilidades coletivas. O Estado, ao promover novas formas de ação coletiva, distancia-se das demandas subjetivas e das possibilidades de proteção social, conforme nos evidencia a narrativa cinematográfica analisada. Porém, esse diagnóstico não deveria nos paralisar! Uma aposta na política do respeito - centrada na autonomia, no reconhecimento das desigualdades e em novas formas de garantias coletivas – pode se constituir como um importante foco para reflexões acadêmicas, assim como uma permanente pauta de lutas políticas. 

Referências:  
BAUMAN, Zygmunt; BORDONI, Carlo. Estado de crise. Rio de Janeiro: Zahar, 2016. 
SENNETT, Richard. Respeito: a formação do caráter em um mundo desigual. Rio de Janeiro: Record, 2004. 
SILVA, Roberto Rafael Dias da. Sennett & a Educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2015. 

(Fonte: Pensar a Educação em Pauta, de 12.05.2017)