Nem tudo o que você vê, ouve e lê é verdade
Eugênio Magno
O voyeur será artista? Olha pelo buraco da fechadura o que deveria estar fora de quadro. Fotografa velhos evacuando. Exibe párias em vitrines de cristal líquido. Liquida. Liquidifica todos. Assenta em confessionários e ouve os pecados do mundo. Pensa a vida como frame (ou pixel) e brinca de deus na ilha de edição. Sua loucura é (apenas) disfarce.
Isso que você leu parece verdade? - talvez até seja, mas é só um poema (MAGNO, Eugênio. Minas em mim. Belo Horizonte: BDMG Cultural, 2005). Já sobre o cinema,
advertiu certa vez, o cineasta francês, Jean-Luc Godard: “Isto é apenas um
filme”, se referindo a uma de suas obras. É de Godard também, uma outra frase,
ainda mais contundente: “Cinema é a fraude mais bonita do mundo”.
Portanto, cuidado! Nem
tudo é verdade. Na maioria das vezes, a verdade nem parece mais verdade. Assim
como o real, não é necessariamente a verdade ou a realidade. Mas no mundo das
imagens, do cinema, da TV, do vídeo e, atualmente, na era do digital e da
inteligência artificial, tudo virou verdade, realidade (só que... virtual).
E,
no virtual-digital, além de desinformação, disseminação do ódio e notícias falsas,
propagandas enganosas, danosas e muitos golpes. Há alguns anos atrás uma pesquisa
da Universidade Federal do Rio de Janeiro, revelou a estratégia de criminosos
que pagam por anúncios falsos nas redes sociais, com a intenção de aplicar
golpes. E isso aumentou exponencialmente. Os anúncios direcionam os internautas
para sites onde acontecem os golpes por meio de pagamentos com PIX, Cartões de Crédito e ainda o
roubo dos dados das vítimas para mais extorsões.
Sempre que procuradas e pressionadas para
resolver situações dessa natureza, a maioria das plataformas digitais fazem
pronunciamentos evasivos ou dão respostas prontas, do tipo: trabalhamos diariamente para
enfrentar essas questões; não permitimos atividades fraudulentas em
nossas redes e, por aí afora...
Preocupadas com as encenações imagéticas e os verdadeiros circos midiáticos, autoridades do mundo inteiro se mobilizam para regulamentar as plataformas de internet, as chamadas Big Techs. Redes de relacionamento e sites de pesquisa, indexação e indicação de fontes, se tornaram grandes agências de propaganda e também de informação e, de oráculo, vão se transformando em “deuses”, neste universo paralelo.
Muito antes do VAR –
Árbitro Assistente de Vídeo –, no futebol, no início deste milênio, em minha pesquisa
de mestrado, eu problematizei essa questão. Analisei os prós e os contras dessa
utilização ilimitada e desregulamentada das imagens, como documento, como
verdade. Discuti no trabalho a utilização do audiovisual como tradução do real e seu uso constante
por vários setores da sociedade. As reportagens, especialmente as investigativas,
cada vez mais fazendo uso da câmera (escondida). As polícias, os sistemas de
segurança e de vigilância e a justiça de um modo geral sempre recorrendo a esse
instrumento. No esporte, especialmente no futebol, o audiovisual já vinha sendo
utilizado, principalmente, para as confirmações e tira-teimas da arbitragem
esportiva, pelas emissoras de televisão. Os cientistas há muito tempo que não se fazem
de rogados e utilizam os recursos audiovisuais em satélites de monitoramento a
serviço da física, da cosmologia, da botânica e de outros ramos da ciência,
como testemunhas de eventos da natureza. A medicina também utiliza, cada vez com
maior frequência, o audiovisual em seus diagnósticos e como mecanismo auxiliar de
visualização nas intervenções cirúrgicas, em exames e em outros procedimentos
clínicos. Os organismos estatais de inteligência, na espionagem e os exércitos,
nas guerras que são cada vez mais tecnológicas.
Já eram grandes, à época dessa minha pesquisa, e hoje são muito maiores, a utilização sistemática do audiovisual como instrumento de abordagem do real. Mas não cabe aqui a enumeração de todas elas.
O tema da dissertação foi “Uma possível abordagem do real através da realização do documentário”. Atente, portanto para o cuidado que tive na construção do enunciado: “uma”, “possível”, “abordagem” do real, através do documentário.
Pois é... Uma pesquisa acadêmica é
algo denso e eu não vou trazer outros elementos de análise sobre a questão,
para não complicar o entendimento, nem ter que aprofundar a reflexão para
justificar essa sequência de afirmações. Para simplificar, e tomando por base o
filme cinematográfico, diria que embora o cinema produza aspectos do real, esta
representação não é a realidade tal qual foi encontrada no momento em que as
imagens foram captadas. Entretanto, o que o espectador vê é algo captado do real,
no momento em que ele se dava a acontecer. Portanto, trata-se de uma abordagem do real,
ao mesmo tempo em que é uma representação
do real, mediada pela linguagem
cinematográfica, e também uma construção
do real, já que essa mediação alterou e, de certa forma, passou a fazer
parte daquela realidade, incorporando-a e sendo a ela incorporada.
O reino das imagens é
infinito de possibilidades. Na internet e em tempos de Inteligência Artificial,
eleve isso a enésima potência e, se atente para o seguinte:
Nos primórdios do cinema,
no final do século dezenove, enquanto os irmãos Lumiére “documentavam” (entre
aspas) cenas do real (e o documentavam é entre aspas porque a maioria das cenas
eram encenadas), o mágico Géorge Meliés já fazia acrobacias com a imagem em
movimento. Suas trucagens se sofisticaram e muita gente tem confundido as
pretensões do cinema direto, cinema-verité
ou do cinema verdade, com a verdade do cinema, das imagens, não importa se, na
telona do cinema, na TV, no computador, no tablet ou na telinha do celular.
E, se um dos maiores cineastas de todos os tempos, Godard, já disse que “o cinema é a fraude mais bonita do mundo”, como mencionei no início, porque você e eu temos que acreditar em tudo que passa na TV, no próprio cinema ou que lemos, vemos e ouvimos no jornal, no rádio e na internet? Se liga! NEM TUDO É VERDADE.


Nenhum comentário:
Postar um comentário