As pedras de tropeço de Lula
Eugênio Magno*
A boa notícia para a
máquina eleitoral petista é que Luiz Inácio Lula da Silva, muito
provavelmente, será reeleito para o seu quarto mandato como Presidente da República
Federativa do Brasil. E a má notícia é que se o atual governo não tem sido
bom, por não atender as promessas de campanha e não ter dado as respostas pelas
quais a população clama há décadas, um próximo mandato será ainda pior. Contudo,
desastre maior seria a volta da extrema direita ao poder, principalmente se
capitaneada pela família Bolsonaro.
Embora ganhe as
eleições, o novo mandato de Lula não será para ele um prêmio e sim um
sacrifício. Já o seu séquito e suas alianças espúrias festejarão a farra das emendas,
cargos e privilégios.
Companheiros das
primeiras horas, conselheiros de confiança e analistas políticos sérios já
disseram que Lula deveria ter saído das disputas eleitorais em momentos que lhe
eram mais favoráveis, sem sucesso. Ele adorou o mel, não quis largar a cumbuca
e pode vir a pagar um alto preço pela teimosia.
Para a democracia, a
manutenção das instituições republicanas, o humanismo e a civilidade, qualquer
comparação que se faça entre Lula e todos os demais candidatos é vantajosa para
o atual presidente. Dadas as circunstâncias, nessas eleições de 2026 é Lula ou
Lula. Do contrário é o caos, a barbárie. E como ninguém decente e de espírito
democrático quer a barbárie com a volta da extrema, muito menos representada
pelos Bolsonaro, petistas e milhares de eleitores, mesmo sem convicção, votarão
em Lula, por falta de opções. Se bem que as abstenções e o voto nulo também
tendem a aumentar neste pleito.
Tem muita gente de
esquerda perguntando: até quando o PT vai surfar na onda do voto útil? A
estratégia vem dando certo e dará certo mais uma vez com o aumento da massa de
coristas hipnotizados rendendo loas ao pragmatismo eleitoreiro. Os desafios,
entretanto, ultrapassam a simples lógica eleitoral com a qual os partidos, a mídia
e o próprio Estado brasileiro têm operado.
Lula e o PT, há mais
de uma década, não convertem militantes pelo enfrentamento dos problemas
de base e pela transformação estrutural do país. Ao contrário, desde a Carta ao
Povo Brasileiro, a conversão tem se dado muito mais pela negação de toda e
qualquer ruptura com o sistema, propagada no passado. O resultado tem sido a
adesão de direitões e neoliberais – lulistas de última hora –, oportunistas
empedernidos que vêm engrossando as fileiras de uma nova militância sem
formação política de esquerda e desprovida de qualquer apreço por reformas e transformações
radicais.
Esse lulismo tardio é
a mais autêntica imagem do neoliberalismo de “esquerda” e escancara o salto
tríplice dado pelo PT para ocupar o vácuo deixado pela direita que come de
garfo e faca. Passou da hora do partido apresentar um programa de governo
coerente com seus discursos e cumpri-lo.
Ao longo dos anos o Partido dos Trabalhadores vem trocando ideal
programático por pragmatismo eleitoral e qualidade dos seus quadros pela
ampliação do número de militantes – a proporção deve chegar a um por mil ou
mais. Uma aritmética, aparentemente muito vantajosa, mas de custo futuro
altíssimo. São muitas as pedras de tropeço deixadas pelo caminho. Elas representam
a soma das estratégias equivocadas adotadas pelo grupo majoritário da
agremiação.
Mas, engana-se quem acredita num possível definhamento do partido nos
próximos anos. O PT ainda terá vida longa. Continuará sendo um grande partido e
uma potente máquina eleitoral. Todavia, destituído de todos aqueles ideais que
um dia alimentaram o imaginário de milhares de brasileiros e de importantes e
combativos segmentos da sociedade organizada que se juntaram para criar o
Partido dos Trabalhadores.


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