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Governo e Oposição:
Comunicação ou Lacração?
Eugênio Magno*
O governo federal e o
mandato “Lula Três” ou “PT Cinco” tem sido alvo de inúmeras críticas. À
direita, por razões óbvias e à esquerda, por razões não tão óbvias assim mas,
para o cidadão progressista politizado que escapou do messianismo delirante de
torcida organizada, não ficam impunes a um mínimo escrutínio acerca de como o
governo tem operado nesses seus dois anos de mandato. Desde o primeiro ano
vozes aliadas apontavam inúmeras fragilidades, mas não foram levadas em
consideração. Passaram-se dois anos e nada foi feito para corrigir rumos. Ao
contrário, os erros se multiplicaram e só agora, com a aprovação do governo em queda
vertiginosa resolveram anunciar mudanças.
Análises simplistas dos
que circunscrevem a política apenas à governabilidade e a interesses
eleitoreiros, ao negar a necessidade de políticas de estado e de um projeto que
enfrente as principais questões estruturais do país, debitam quase tudo nas barreiras
interpostas pelo congresso e na incapacidade comunicacional do governo. Existem
inúmeros equívocos nessas análises, em sua maioria tendenciosas – pró e contra
o governo. As relações do executivo com o legislativo, o judiciário e com o
mercado, por exemplo, apesar de porosas, são vendidas como independentes e até
como se fossem conflituosas. São necessários exames abrangentes, objetivos,
profundos e desapaixonados para compreender esse imbróglio.
Como a tônica deste
artigo é a comunicação governamental, de saída é preciso que fique claro o
seguinte: embora importantíssima, a comunicação, no sentido em que muitos
apontam, não resolve absolutamente nada. Para se comunicar, especialmente no
campo político, de forma ativa e não apenas reativa – e com delay, como o governo se comunica – é imprescindível
que hajam informações e notícias originadas de fatos reais e ações concretas
que impactem fortemente, e de maneira positiva, a vida do povo. O que se comunica
é, ou deveria ser, o resultado de uma ação, para que haja Comunicação. Esta é uma equação que se estrutura
com dez por cento de comunicação e noventa por cento de ação. Quando a ação, a
política desenvolvida é forte o suficiente, ela própria já é a mensagem e até
mesmo o meio. Numa circunstância tal, o papel da publicização, da divulgação, é
apenas fazer com que a ação ganhe ainda mais relevância, capilaridade e
repercussão. Mas esse não é o caso. A direita radical dominou o ambiente
virtual com fake news e lacração e um monte de ineptos da esquerda adotou essa
prática e se acha no direito de incentivar o governo a agir da mesma forma.
Governistas e oposicionistas estão confundindo marketing digital, cancelamentos
e lacração com comunicação.
A falta de audácia por
parte do governo para enfrentar os temas mais difíceis, compatíveis com suas origens
e sua base – a classe trabalhadora –, tem impedido que ele consiga pautar a
imprensa com temas de grande impacto junto à população. Com tudo isso e mais as
críticas, ilegítimas e legítimas, as poucas ações concretas e positivas do
governo, principalmente as de pouca magnitude, ficam totalmente sem espaço na
mídia e, consequentemente, desconhecidas da população, enquanto todas as
maldades que, diga-se de passagem não têm sido poucas, ganham difusão.
No final do ano de
2024, alguns fatos geraram notícias favoráveis e desfavoráveis ao governo.
Todavia, mesmo aquelas supostamente favoráveis, não se sustentaram com esse
status se analisados com um pouco mais de rigor os fatos que as geraram. Sem
entrar nos méritos do ocorrido, tomemos a infeliz fala de Rosângela Lula da
Silva (Janja), numa palestra sobre combate à desinformação no Cria G-20 que,
quando interrompida por uma buzina de navio mandou um sonoro: “fuk you, Elon
Musk”. Por pura sorte a fala da primeira-dama foi subsumida pelas
notícias-bomba sobre a tentativa de golpe, numa lambança em que apareceram
nomes de militares de alta patente das Forças Armadas brasileiras e do
ex-presidente, Jair Messias Bolsonaro. Fatos que despertaram grande atenção da
mídia nacional e internacional, abafando a repercussão da fala da esposa do
presidente.
Na
sequência, surfando na mesma onda da avalanche de notícias sobre a arquitetura
da tentativa de golpe e da divulgação dos nomes e cargos das autoridades
envolvidas, esse mesmo governo acusado de não se comunicar bem ensaia o que
poderia ter sido uma jogada de mestre. Usando cadeia nacional de rádio e TV, o
ministro da Fazenda, Fernando Haddad, anunciou para todo o país as novidades do
seu arcabouço fiscal. Para o anúncio das novas medidas – nada populares –, usou
de uma prerrogativa de comunicação governamental que, inclusive, tem sido
pouquíssimo usada até mesmo pelo presidente da república. A estratégia, mais
marqueteira do que comunicacional, não se sustentou. Festejado pelo governo e
por alguns poucos setores da sociedade, o que foi votado do arcabouço fiscal no
final de 2024 conseguiu desagradar tanto a Faria Lima quanto os intelectuais e
os mais pobres. A primeira, em razão do anúncio de possíveis atitudes futuras
que os “prejudica”, e os últimos pelo massacre à classe trabalhadora e aos
pobres, fato corriqueiro no país e que se agrava a cada dia. O salário mínimo
foi atingido em cheio e muitos dos demais cortes como os do Benefício de
Prestação Continuada (BPC), por mais paradoxal que possa parecer, só não
aconteceram porque o congresso, incluindo alguns deputados de parte da esquerda não permitiram. E isso basta. As práticas desse governo
de frente ampla tem sido dizentes. Não é necessário nem mesmo desenhar para que
a situação seja melhor compreendida. Até o presente momento não foi possível
articular nenhuma medida concreta de grande alcance popular. Infelizmente, é
preciso dizer que o populismo e a demagogia têm sido a prática corrente. Enquanto
os messiânicos e o povo em geral se entretinham com as notícias da tentativa de
golpe e o anúncio dos nomes e patentes dos golpistas, a boiada passou. Lembram
de uma frase parecida com essa? Pois é, foi dita e praticada de forma
sistemática à direita, por seis anos e agora se repete em ato à esquerda.
É
difícil entender porque certos setores da mídia que faz “assessoria de imprensa”
para o governo insiste tanto em esbravejar que o congresso é contra o governo
se o governo aprova tudo que manda para câmara e senado. Também, alimentando a
boca grande do parlamento com as famigeradas emendas parlamentares, não poderia
ser diferente. Dizem que a Faria Lima é contra o arcabouço fiscal e que o congresso
é aliado da Faria Lima (?). Então, por que o congresso aprovou em regime de
urgência a parte do pacote que mais prejudica a população de baixa renda e numa
jogada de equilibrista ainda conseguiu desidratar o impacto do arrocho
econômico? Resumindo, o governo criou uma estratégia de dar com a mão pequena e tirar com a mão grande. Tem gente que ainda não
entendeu que os ataques às regras de reajuste do salário mínimo vão destruir o
ganho de trabalhadores e aposentados. Isso representa um grande retrocesso em
relação aos próprios avanços dos Governos Lula I e II e Dilma I que garantiam
ganhos reais, acima da inflação aos assalariados, acompanhando o crescimento da
economia que na lógica atual só faz engordar a porca dos mais ricos, condenando
os pobres a se tornarem ainda mais pobres. E não cabe desculpas para tanto
descalabro. Esse projeto tem digitais: é de autoria do governo e as maldades já
foram feitas, aprovadas e estão em vigor. A tal isenção de Imposto Renda para
os que ganham até cinco mil reais e a taxação dos mais ricos, quando votados e,
se aprovados, o que é pouco provável, só terá validade a partir de 2026.
Em
meio às festas de fim de ano, logo após o pacorte(s)
do Haddad, Lula assina o termo de posse de Gabriel Galípolo, como
presidente do Banco Central e anuncia Galípolo e Arcabouço Fiscal como “Presentes
de Natal” para os brasileiros. Não é por nada não, mas com esses “presentes”,
dá pra rir e pra chorar. Teríamos que ser masoquistas para comemorar mais esse
revés. E, na contramão de um posicionamento que seja digno de uma esquerda que
honre tal posição, a todo instante um bando de incautos interpelam os críticos
indagando se o cavalo de Tróia de Bolsonaro, Campos Neto, seria a melhor opção.
Aí é preciso dizer que não é questão de preferência, mas de coerência. Quando o
governo nomeia um banqueiro, representante do mercado, defensor dos juros altos
e simpático à Faria Lima, cabe muita reflexão e os debates não podem ser
invalidados de forma irresponsavelmente sumária como tem acontecido. O resultado
está aí: a primeira ação de Galípolo à frente do Banco Central foi aumentar a
taxa Selic em 1%. Enquanto a galera que deveria torcer pelo Brasil fica na
torcida de China versus Estados Unidos a equipe econômica do governo faz gol
contra.
Lulistas,
governistas acríticos e mídia comprometida com o governo insistem em fazer
comparações por baixo e usam o mesmo expediente carcomido da extrema direita.
Bolsonaro e seus asseclas passaram quatro anos destruindo a república e
detratando Lula e o PT. Lá se vão dois anos do mandato de Lula e Bolsonaro e os
bolsonaristas não foram deixados de lado, à cargo da jusutiça. A todo instante
a torcida Lulista recorre às confrontações, Lula X Bolsonaro, para justificar suas
recorrentes passadas de pano. Há que se elevar o nível do debate, qualifica-lo.
Criticar Jair Bolsonaro, Paulo Guedes, Roberto Campos Neto e companhia limitada
é a coisa mais fácil que existe. A esquerda não é mais oposição e sim situação.
Nessa condição, estabelecer comparativos com o período de Bolsonaro é perda de
tempo e energia. Sendo o PT e ao menos parte da base governista de esquerda, é
incoerente negar o direito e o dever dos cidadãos e dos seus eleitores cobrarem
do governo sua posição progressista e as promessas de campanha, ao invés de repetir
o comportamento teleguiado dos bolsonaristas que aceitam tudo do seu “mito”, de
boca fechada. Afinal, sugerir, fiscalizar e criticar a quem se elegeu e deu
poder é um direito legítimo. Entretanto, a miopia é grande. Essa esquerda,
mesmo no poder, vilaniza o passado e culpa o futuro por nunca chegar – com
inação –, enquanto a direita ferra o povo e a nação no presente, estando ou não
no poder.
Se
o governo ao menos admitisse que a sua missão consistia apenas em impedir a
permanência do desastre Bolsonaro no poder e com a frente ampla garantir a
democracia e colocar ordem na casa, o Brasil humanista e democrático já estaria agradecido.
Mas não, fez uma série de promessas de campanha que não cumpre e ilude o povo
anunciando falsas bondades. Falha que poderia ser minimizada se resolvesse usar
de honestidade com a população. Mas o salto alto não permite dar nenhum sinal
de fraqueza e revelar os verdadeiros entraves para a realização do que prometeu.
Coisa que não acontece nem mesmo para reconquistar o apoio popular. Para 2026
já se fala até em mais uma guinada do centro para a direita. A impressão que fica
é que só o poder interessa. Com isso, a popularidade e a credibilidade só cai
junto ao próprio eleitorado.
Questionados,
os fiéis escudeiros do governo se defendem dizendo que a economia voltou a
crescer, o PIB aumentou, o ano de 2024 foi superavitário, o dólar baixou, os
empregos voltaram e tal. São incapazes de reconhecer o grande déficit de
empregos formais, a carestia dos alimentos e demais produtos no supermercado,
na bomba de combustível, no armazém, no sacolão, na farmácia, na padaria, no
comércio, nos transportes e nos serviços em geral. Uma total falta de sintonia
com a realidade do Brasil profundo e da economia real. Falas de papagaios repetindo
jargões neoliberais dos economistas do governo e do mercado. Alguns minimizam a
gravidade da questão econômica que também é social, trazendo o tema das
constantes ameaças à democracia. Argumentam que o fogo amigo pode dar munição ao
nazi-fascismo extremado dos radicais da direita que está vivíssimo buscando a
quem devorar e que novas tentativas de golpe podem ser armadas. Essa é uma
ameaça real que nunca esteve ausente da política brasileira. Mas, que fique
claro: nenhum dos que criticam o governo, por dentro, desconhecem-na ou a negam.
O que não se pode esquecer é que existem muitos outros enfrentamentos a serem
encarados no país, especialmente no campo econômico. A segurança pública merece
atenção especial. O país reclama urgência na regulação do setor cibernético e
de telefonia onde a criminalidade e os abusos proliferam denodadamente. E ainda
tem as promessas de campanha, como a revogação de várias decisões do governo
anterior, dentre muitas outras propostas, até então intocadas. Para tudo que
não é realizado ou é encaminhado de forma errática, busca-se uma justificativa.
Já
faz um tempo que a comunicação virou bode expiatório, a grande responsável por
todos os equívocos do governo. Os que se metem a porta-vozes palacianos,
lotados em diversas mídias, vivem dizendo que tem muita coisa boa acontecendo,
mas que o governo não consegue comunicá-las. O irônico, é que nem mesmo esses ufanistas
nos dão a conhecer tais bondades, enquanto as maldades vão todas passando: as
da oposição, do centrão, do mercado e as do próprio governo. Mas quem as
identifica, independentemente do campo político em que esteja, deve se calar ou
correr o risco de falar e ser patrulhado. Só os mais aguerridos, a contrapelo
dos haters, se mantêm firmes em suas posições de sujeitos históricos
responsáveis.
No
outro espectro, a turma da extrema direita que passou a adotar as redes sociais
como fontes de (des)informação, agem como alucinados. Dão a impressão de
pessoas que quando precisam de médicos vão à sapataria. É estarrecedor
constatar o grau de confiança que eles atribuem a tantas informações
desqualificadas e apócrifas. Mas, de certa forma, a chamada mídia alternativa
ou independente tem sua parcela de culpa nisso também. Alardearam ser os
bastiões da moral, da ética e do jornalismo sério e desancaram a mídia
tradicional que todos conheciam e por onde grande parte da população se
informava, apesar de seus vícios e comprometimentos e isso contribuiu para que
o jornalismo como um todo e o profissional de comunicação fosse totalmente descredibilizado
com o refrão diário na cabeça do internauta de que “a mídia é tendenciosa e a
imprensa não é confiável”. Nessa onda, a extrema direita se aproveitou disso de
maneira perversamente “inteligente”. Passou a usar o próprio
argumento desses progressistas que se acham acima do bem e do mal e toda a
mídia, seja ela corporativa, alternativa, independente ou progressista, vem
sendo demonizada pela sociedade.
Os
arautos do caos midiático se esquecem de que eles estão incluídos nisso, pois também
são mídia e como tal vítimas dos próprios ataques. Além dessas declarações representarem
um contrassenso pois que, a própria mídia independente, alternativa ou
progressista (difícil nominar), ademais, não tem tido um comportamento justo ao
processar as informações. Não dá espaço para o contraditório, condena veementemente
o que não está alinhado com seu campo ideológico e certos comentaristas que
operam nesses portais entraram de sola na wibe do cancelamento e da lacração. Só
têm elogios para toda e qualquer atitude do governo e nas questões controversas
adotam o silêncio como estratégia.
A
hegemonia dos veículos de comunicação corporativos está em seus estertores. Já
são muitos os blogs, sites, portais, canais e plataformas de jornalistas
independentes e de novas empresas de comunicação digital que disputam audiência
com a mídia tradicional em pé de igualdade. Mas, audiência, progressismo, engajamento
e faturamento nem sempre é compatível com informação de qualidade e compromisso
com a verdade dos fatos. As estruturas de processamento da informação:
acompanhamento dos fatos, busca de fontes variadas, triagem, apuração,
reportagem e checagem ainda não estão totalmente aprimoradas nesses novos
veículos midiáticos. A maioria, apenas comenta notícias e emite opinião, em
grande medida, se valendo das notícias apuradas pela imprensa corporativa
tradicional que tanto criticam. O discurso depreciativo adotado pelos que se
julgam ungidos não atingiu somente a mídia corporativa. Foi nefasto para todo o
sistema de comunicação e sobre isso ninguém se manifesta.
Quem
quer se manter bem informado precisa quintuplicar as buscas por fontes de
informação confiável de forma ampla e variada, e ainda assim corre o risco de
ficar desinformado. O momento exige uma cruzada no sentido de resgatar a
credibilidade da mídia, da informação, do jornalismo e da comunicação de um
modo geral. O setor, em sua nova configuração, ampliada pelo digital e pela
hegemonia das big techs carece, urgentemente, de regulamentação. Ainda assim, os
responsáveis por legislar sobre o tema estão deitados em berço esplêndido a
esperar não se sabe o quê.
Por
essas e outras é que o refrão: “o governo comunica mal” é discutível. Tem uma
turma de jornalistas e analistas insistindo tanto nisso que tal vaticínio só
não vai virar verdade porque a realidade concreta não permite. Já trocaram o
secretário de comunicação, de um político, por um marqueteiro. Saímos da
retórica política institucionalizada para uma estratégia de marketing digital com
pitadas panfletárias de campanha eleitoral, adaptadas ao estilo TikTok. Assim,
do ponto de vista do formato e da agilidade, já se percebe uma mudança
significativa. Entretanto, cabe indagar: onde fica a comunicação social no que
ela deve ter de mais consistente, ética e comprometida com a verdade dos fatos
e com seu público, no caso não um mero consumidor de conteúdos com imagens e
manchetes atrativas, mas o cidadão brasileiro. Quem é do ramo – e é estudioso –
sabe muito bem que comunicação é muito mais do que a simples retórica sofista.
No entanto, é o que a maioria dos críticos da comunicação governamental defende
e não se cansa de empurrar o governo para a adoção sistemática e oficial dessa prática
epidérmica como estratégia prioritária.
É
evidente que a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República
(SECOM) vinha tendo dificuldades em operar estrategicamente forma e conteúdo da
comunicação do governo federal. E é inaceitável para quem é profissional da
área que uma das mais completas estruturas de comunicação que se pode ter, o
sonho de consumo de qualquer comunicador, não consiga comunicar bem. Essa
secretaria conta com o conglomerado de mídia da Empresa Brasil de Notícias
(EBC), as melhores agências de Propaganda e Relações Públicas do país a seu
serviço e um supercomunicador que é o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O
governo já teve também o Flávio Dino que, descontadas as fanfarronices, além de
ser um bom comunicador era um quadro com grandes chances para 2026, mas que a
egolatria o tirou da linha sucessória presidencial com o irrecusável empregão
no Supremo Tribunal Federal (STF). Janja foi outra que tem feito investidas na
área de comunicação, mas depois das últimas imprudências calou-se ou foi silenciada.
Fernando Haddad, de vez em quando arrisca um pronunciamento, mas apesar da fala
educada e do seu bom-mocismo, não tem carisma. Sua comunicação se adequa mais
ao petit comité de banqueiros, rentistas e comentaristas de economia neoliberais. Além de
tudo, o ministro da fazenda só tem dado informações impopulares, o que não
ajuda a ele e muito menos ao governo. As tiradas comunicacionais criativas do
Lula também não se adequam mais ao time digital.
Elas surtiam grande efeito no período analógico em que as possíveis respostas,
quando surgiam, vinham com atraso. Os tempos mudaram e os improvisos do
presidente carecem de upgrade para não serem transformados em memes da
oposição, como tem ocorrido com frequência.
A despeito dessas e de outras considerações que possam ser feitas no âmbito da comunicação
oficial do governo, desconfio que o tal problema comunicacional não se localizava
totalmente na Secretaria de Comunicação. Provavelmente existe alguma eminência
parda – inapta ou mal intencionada – atuando nos bastidores como orquestrador/a
da militância digital de esquerda, incitando-a a agir tal e qual a extrema direita,
no limite das narrativas espetaculares. Mídia alternativa e jornalistas
influenciadores digitais foram capturados por essa orientação e têm atuado como
multiplicadores da desventurada tendência juntamente com a torcida partidária
nas redes sociais. A expectativa é de que o novo ministro da Comunicação,
Sidônio Palmeira, acione seus radares para localizar e retirar a batuta do
maestro impostor e fazer a regência da comunicação de maneira satisfatória para
que o fator comunicacional não seja mais a desculpa governista.
Porém, na política, apesar da profusão de milagreiros, milagres não existem. Algumas
das últimas ações governamentais que poderiam gerar repercussão positiva na
mídia e nas redes foram malfadadas. O evento do dia 8 de janeiro de 2025,
convocado pelo governo para celebrar a democracia, com um abraço na Praça dos
Três Poderes, não conseguiu reunir nem duas mil pessoas. A fala de Lula, que
aproveitou bem o sucesso do filme, Ainda
estou aqui, para condenar os atos golpistas e o pronunciamento do ministro,
Alexandre de Moraes que mandou recado para Mark Zuckerberg, dono do Facebook, dizendo
que o Brasil tem leis, salvaram a pátria. Logo depois surgiu o caso do Pix com
a boataria da taxação. Nessa, o governo tomou uma decisão e, ao voltar atrás,
passou recibo para a oposição. Ato contínuo, a extrema direita acusou o
produtor e diretor do filme, Ainda estou
aqui, Walter Salles, de usar dinheiro público para fazer cinema. Pessoas
que se dizem de esquerda usaram os argumentos mais bizarros para defender o
cineasta: “ele é muito rico, dono de banco (..)”. E é mesmo, mas o Waltinho tem
uma filmografia substantiva e inúmeros méritos que poderiam ser usados em sua
defesa, além do mais essa coisa de banqueiro não deveria ser festejada, muito
menos pela esquerda. Não pegou bem. A direita ressentida fez uma provocação
tosca e a esquerda respondeu de forma estúpida. Para completar o quadro, a base
do governo votou com a maioria para eleger os presidentes da Câmara e do Senado
e especula-se que Arthur Lira é cotado para assumir um ministério. As sandices
não têm fim. Na posse de Donald Trump foram as piadinhas sobre o traje preto e
o chapéu da primeira-dama, Melania Trump, e logo em seguida veio a onda do
boné. Uma bobagem, onde a esquerda já saiu perdendo, por se ver obrigada a
utilizar a cor azul, em razão da extrema direita Bolsonaro-trumpista ter
capturado o vermelho, tradicionalmente caracterizado como a cor das esquerdas
no mundo inteiro. É difícil entender o porquê da insistência em disputar
narrativas de lacração ao invés de disputar projeto político, fazer
showrnalismo de internet e deixar de formar e informar a população.
A
quantidade de erros cometidos pelo governo em sequência e a insistência de
alguns fanáticos em desqualificar a comunicação governamental, por ignorância
ou estrategicamente, têm nos convencido de que o buraco é bem mais embaixo. É
muito clara a tentativa de transferir responsabilidades para esconder o
comportamento neoliberal do governo e a falta de projetos e de boas notícias. Por isso,
questões outras e de várias ordens foram usadas como ingredientes para temperar
o tema da comunicação e deixar claro que não há comunicação que dê conta de
escamotear ou dar verniz a tantos disparates. Para além dos aqui citados, muitos
outros acontecimentos comprovam nossos argumentos e os de vários analistas,
cientistas políticos e jornalistas que, desde o primeiro ano desse governo,
alertam para a falta de ações concretas que repercutam na vida, no trabalho, na
mesa e no bolso do povo. Fatos que poderiam ser matéria-prima comunicacional para
despertar o interesse da mídia e agradar a nação.
Os
dias correm, a descrença é notória, o pessimismo aumenta e a falta de
alternativas ou de uma bala de prata causam perplexidade. Contudo, é o que se
tem para o momento e, apesar de todos os pesares, é muito melhor que assim seja. E para que nenhum atrevido queira fazer ilações, mau juízo ou uso indevido do que
aqui foi posto e exposto, que fique claro o seguinte: a outra alternativa se quer deve ser lembrada, pois,
sempre esteve fora de qualquer cogitação e assim deve permanecer.
*O autor é
comunicólogo e jornalista. Doutor em Educação e mestre em Artes Visuais.
Trabalha com
Educação comunicacional e midiática.
Faz tempo que os sinais de alerta vêm sendo dados. Para formar melhor juízo sobre a situação em que o governo se encontra leia também: